A Jia Oculta

Digitalizado por Vtor Chaves
Revisto por Ftima Chaves



V. C. ANDREWS

A Jia Oculta

Traduo de MARIA LUISA SANTOS

Crculo Leitores


Titulo original HIDDEN JEWEL

Capa JOS NEVES

Foto da capa IMAGE BANiC

Copyright 1995 by Virgnia C Andrews Trust

Impresso e encadernado para Crculo de Leitores

por Printer Portuguesa Casais de Mem Martins Rio de Mouro

no ms de Setembro de 2000

Nmero de edio 4903

Depsito legal nmero 15428700

ISBN 972-42-2333-7


PRLOGO

O pesadelo comea sempre da mesma maneira. Primeiro, ouo-o entoar a cano de embalar. Traz-me ao seu colo e percorremos solo pantanoso, onde a erva  to alta
que nem ele nem eu conseguimos ver os seus ps, apenas a ponta das botas altas. Ele leva um chapu de palha cuja aba lhe faz sombra sobre os olhos e o nariz, eu 
tenho o meu bon rosa e branco posto.

Atrs de ns, os monstros de metal prosseguem o seu matraquear montono. Fazem lembrar abelhas gigantescas a sugar o nctar negro da terra. Quando me volto para 
as olhar, erguem a cabea e cumprimentam-me, voltando-se de novo para o alto. Sinto-me assustada e sei que ele tem essa noo, pois aperta-me com mais fora e canta 
mais alto.

 ento que deparamos com um bando de pssaros devoradores de arroz. Erguem-se do meio da erva alta com leveza e graciosidade; no entanto, movem-se com tanta rapidez 
e aproximam-se de tal maneira que sinto a aragem provocada pelo adejar das suas asas. Ele ri-se.  um riso que, de to suave e tranquilo, desliza sobre mim como 
gua fresca.  nossa frente, o casaro recorta-se contra o horizonte.  to grande que parece ter engolido o cu e ser capaz de tapar o Sol. Vejo a minha me descer 
as escadas, vinda do seu estdio de pintura. Ao avistar-nos, diz-nos adeus, o que o faz rir novamente. A minha me comea a dirigir-se para ns, primeiro em passo 
rpido, depois a correr. Vai-se tornando cada vez mais nova, at... se transformar em mim!

Estou diante de um espelho, a mirar-me. Fico to admirada com o azul dos meus olhos, o louro-claro dos meus cabelos e o tom de prola acetinado da minha pele que 
sorrio e estendo a mo para tocar no meu reflexo no espelho, mas, mal o fao, caio para trs. A queda parece eternizar-se at eu ouvir o som de gua esparramada, 
o que me faz abrir os olhos e deparar com um cardume de peixes-voadores. Ao debandarem, deixam


 vista as razes retorcidas de um cipreste tombado. Fazem lembrar os dedos rugosos de um gigante adormecido. Assusto-me e volto-me, dando ento de caras com ele

Tem os olhos esbugalhados e a boca aberta de to surpreendido por se encontrar ali. Eu tento gritar mas, ao faz-lo, a gua entra-me na boca e engasgo-me

 nessa altura que acordo

Quando era pequena, sempre que isto me acontecia, o meu pai ou a minha me, ou os dois, apareciam imediatamente ao p da minha cama, no entanto, h anos que conseguia 
recuperar o controlo da respirao e ganhar coragem para deitar a cabea na almofada, no meio da escurido, tentando voltar a dormir

Nessa noite, a minha me deve ter-se antecipado ao pesadelo porque, instantes depois da minha agitao, aparecia  entrada do meu quarto

Ests bem, Pearl? perguntou

Estou, me

Foi o mesmo pesadelo de sempre?

Foi, mas j passou, me assegurei-lhe

Tens a certeza, querida?

Por que razo estaria to preocupada?, perguntei a mim mesma. Seria por eu continuar a ter o mesmo pesadelo?

Quando  que isto acabar, me? Continuarei sempre a ter este pesadelo?

No sei, querida Espero que no. Olhou na direco do umbral da porta. Se quiseres trago outra vela sussurrou

No  preciso, me, obrigada.

Em tempos, o meu pesadelo desesperara-a de tal maneira que experimentara um dos velhos remdios vudu que aprendera com Nina Jackson, a cozinheira do meu av Dumas, 
despertando a ira do meu pai.

Ficarei bem, est descansada respondi

A minha me afasta-me umas farripas de cabelos da testa e beija-me

Que se passa aqui? perguntou o meu pai da entrada do quarto, em voz pretensamente severa

Apenas conversa de mulheres, Beau

s trs da madrugada troou ele

 um direito feminino

Fazem  com que um homem se desespere, isso sim murmurou, voltando para a cama

Rimo-nos. Em certos aspectos parecemos mais duas irms do que me e filha. A minha me, que acabou de fazer trinta e


seis anos, tem um ar muito jovem, apesar de todos afianarem que dois gmeos desgastam uma mulher muito mais depressa

Dorme bem, querida. Sonha com o dia que te espera amanh, com a tua festa maravilhosa. Sonha com a ida para a faculdade e a oportunidade que vais ter de concretizar 
todos os teus desejos

Podes ficar descansada, me respondo

Logo a seguir pego-lhe nas mos quando vai a levantar-se e digo

Me

O que , Pearl querida'

Contar-me-s mais coisas?  possvel que, se eu souber de mais aspectos, este pesadelo deixe de me atormentar, no?

A minha me acena, relutantemente, com a cabea. Continuei

Sei que achas que me ser muito penoso saber e no queres que nada me faa sofrer, mas tenho de saber tudo, no achas, me?        

Sim, acho, admite Realmente  verdade Suspira to profundamente que receio que o seu corao rebente

J sou suficientemente crescida para compreender, me. Podes ter a certeza assegurei-lhe

Sei que s, querida. Um dia falaremos, prometo. D-me uma palmada na mo

Vejo-a afastar-se, agora com os ombros ligeiramente descados. Detesto entristec-la nem que seja por um instante, no entanto, sinto-me atrada para o passado obscuro 
como uma falena para a chama de uma vela

Espero melhor dizendo, rezo para que, ao contrrio da falena, eu no acabe por arder e ser destruda


O FUTURO ADIVINHA-SE RADIOSO

Acordo ao som de gritos que soam mesmo em frente da minha janela. Os trabalhadores que o meu pai contratara para preparar a nossa casa e os jardins para a minha 
festa de finalista de liceu tinham chegado e estavam a tomar conhecimento das tarefas que competiam a cada um. Nessa noite chovera e eu sentia no ar o cheiro hmido 
e adocicado do bambu verde, das gardnias e das camlias em flor. Esfreguei os olhos para espantar o sono, sentei-me na cama e reparei que o sol comeara a afastar 
as poucas nuvens que restavam e fazia incidir raios dourados sobre a piscina e o campo de tnis. Era como se algum houvesse estendido um manto de jias preciosas. 
Os nossos jardins tremeluziam e os ladrilhos espanhis cor de malva brilhavam. Poderia haver comeo mais bonito para um dos dias mais importantes da minha vida? 
Em segundos, todo o emaranhado de confuso, sombras tenebrosas e receios de infncia se desvaneceram totalmente.

Tinha dezassete anos e estava prestes a receber o meu diploma de liceu. Alm disso, era a oradora oficial do evento! Suspirei fundo e depois passeei o olhar pelo 
meu quarto. H muito que a minha me voltara a decor-lo tal como ele era nos tempos em que chegara a Nova Orlees. Eu dormia na enorme cama de casal em pinho escuro, 
cujo dossel era de uma magnfica seda cor de marfim debruada por um bordado. As minhas almofadas eram to volumosas e fofas que eu tinha a impresso de me afundar 
sempre que pousava a cabea nelas. A coberta da cama, assim como as fronhas das almofadas e o lenol de cima, eram feitos da mais branca e macia musselina. Na parede, 
 cabeceira da cama, pendia um quadro retratando uma bela jovem num jardim, a alimentar um papagaio, enquanto um engraado cachorrinho preto e branco lhe puxava 
pela barra da saia comprida.

Ladeando a minha cama estavam duas mesinhas-de-cabeceira


sobre cujo tampo se viam candeeiros em forma de sino e, para alm da cmoda e do guarda-fatos a condizer, o meu quarto tinha ainda um toucador com um enorme espelho 
oval, cuja moldura, em marfim, exibia rosas vermelhas e amarelas pintadas  mo. A minha me e eu tnhamos o costume de nos sentar, ao lado uma da outra, em frente 
dele enquanto arranjvamos o cabelo, nos maquilhvamos ou durante as nossas conversas de raparigas, como gostava de lhes chamar. Dali em diante, dissera, passariam 
a ser conversas de mulheres. No tardaria, no entanto, que elas se fossem tornando cada vez mais raras, visto eu estar de partida para a faculdade. Sentira-me sempre 
ansiosa por crescer e chegar quele dia; porm, agora que tal acontecera, no conseguia controlar uma certa nostalgia.

" a despedida dos meus dias de Huckleberry Finn", pensei. O adeus a levantar-me tarde aos fins-de-semana, a no ter de me preocupar com o dia seguinte, a desperdiar 
o tempo e a estudar a correr na vspera de algum teste, a ficar sentada no jardim durante horas, sonhando pela tarde fora. O relgio, com um girar dos seus ponteiros, 
lanar-me-ia, a mim e aos meus colegas, para o mundo real, o mundo do trabalho e do estudo aprofundado que uma universidade exigia, onde s teramos a vigiar-nos 
a nossa prpria conscincia.

Ao afastar os olhos do espelho, passei-os de relance pela porta e reparei que se encontrava entreaberta. Uma investigao mais cuidada mostrou-me o meu irmo Jean, 
apoiado sobre as mos e os joelhos, a espreitar, tendo mesmo atrs de si Pierre, o meu outro irmo, a fazer o mesmo. Os dois rostos idnticos, com os olhos azul-celeste 
sob os caracis louros, mostravam-se curiosos e expectantes. No sei o que contavam que eu fizesse ao levantar-me no dia da minha despedida do liceu, mas o certo 
 que estavam  espera que eu dissesse ou fizesse alguma coisa com que pudessem implicar comigo mais tarde.

Jean! Pierre! O que  que vocs esto a a fazer? exclamei.

Os dois levantaram-se atabalhoadamente e correram de volta ao seu quarto, soltando risadinhas e guinchos. Ocupavam o quarto que, em tempos, pertencera ao nosso tio-av 
Jean, irmo do pai da minha me. Ouvi-os bater com a porta e, por instantes, o silncio reinou.

Durante a maior parte do tempo, os dois gmeos faziam lembrar dois cachorros a bisbilhotar e a meter-se onde no eram chamados, o que, normalmente, lhes trazia algumas 
complicaes, e o meu pai, apesar da ntida relutncia, era obrigado a disciplin-los. Adorava aqueles seus dois filhos, orgulhava-se deles e antevia um futuro brilhante 
para ambos.

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Os dois rapazes dividiam entre si as parecenas com o nosso pai. Jean possua a sua destreza atltica, o seu amor pelos desportos, assim como pela caa e pela pesca. 
Pierre herdara o seu esprito curioso, a sua sensibilidade e o amor pelas artes, porm, nenhum ficava a dever o que quer que fosse ao outro. Pelo contrrio, os meus 
irmos gmeos eram como as duas metades da mesma laranja, formando um hbrido chamado Jean-Pierre

O que um no podia fazer, o outro fazia por ele, e o que um no pensava, o outro pensava por ele. J eram os Dois Mosqueteiros e no precisavam de um terceiro

O que mais espantava todos, at os mais cpticos, era o facto de ambos terem tido as mesmas doenas infantis em simultneo. Se um se constipava, era sabido que o 
outro o seguiria minutos depois, e eu posso jurar que, sempre que Jean batia com a cabea ou se magoava nos joelhos, Pierre fazia uma careta de dor, e vice-versa

Gostavam de comer as mesmas coisas e quase sempre na mesma quantidade, embora Jean, que estava a crescer a um ritmo mais acelerado, comeasse a alimentar-se com 
maior fartura

Que se passa aqui? ouvi a minha me perguntar. Ficou  escuta por momentos e depois apareceu  porta do meu quarto

Bom dia, minha querida Pearl! Conseguiste voltar a adormecer?

Consegui, sim, me

Os teus irmos acordaram-te? perguntou, de cenho franzido

No queria denunci-los, porm, a minha me no precisava do meu testemunho

Podes crer que agora fizeram-me lembrar dois ratos-almiscarados a meter-se debaixo dos ps de toda a gente. No sei que fazer com eles Juram a inocncia um do outro 
com o ar mais doce e cndido deste mundo

Abanou a cabea com ar reprovador, mas eu sabia como gostava que os dois fossem to chegados. A situao fora muito diferente entre ela e a sua irm gmea. Sempre 
que falava de Gisselle, no deixava de soltar um profundo suspiro de mgoa, incapaz de se conformar por no ter feito com que a gmea se tornasse na irm que devia 
ter sido

Seja como for eu j estava a levantar-me, me h imenso que fazer e quero dar uma ajuda

Eu sei disse a minha me, com lgrimas a ensombrar-lhe os olhos

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Para ns duas, talvez mais para a minha me, aquele era mais um dia simultaneamente alegre e triste. Se ela pudesse ter-me conservado menina para sempre, no teria 
hesitado, afirmara.

A vida passa a correr alertara-me. Para qu aceler-la ainda mais?

A minha me sempre dissera que no queria que eu perdesse um dia que fosse da minha infncia. Afirmava que, no que lhe dizia respeito, a dela fora passada completamente 
em branco. Atribura a culpa do seu crescimento acelerado  vida dura que levara.

Quero ter a certeza de que no lutas nem sofres como eu dizia-me muitas vezes. Se isso representa ficares cheia de mimo, pois que seja!

Eu, porm, sabia que ela no poderia manter-me eternamente na meninice, no que eu tivesse razes de queixa. Apesar de ter adorado crescer naquele lugar, j ansiava 
por sair dali e ir conhecer mundo.

Tenho a impresso de que hoje estou mais entusiasmada que tu observou, com os olhos brilhantes.

Apresentava um aspecto radioso, apesar da hora matutina. A minha me nunca fora pessoa para usar muita maquilhagem nem andar toda aperaltada como as mes de algumas 
das minhas amigas. Era raro ir ao cabeleireiro e no saltava de estilo para estilo, embora tivesse sempre uma aparncia requintada e elegante. Isso talvez pelo facto 
de ser uma dessas pessoas especiais que determinam o estilo. As outras mulheres mostravam-se sempre interessadas no que ela escolhia para usar, em que cores e segundo 
que moda. Era uma artista altamente conceituada em Nova Orlees e a sua comparncia nas galerias de arte ou nas exposies nunca deixava de ser notada, fotografada 
e referida nas colunas sociais.

A minha me raramente cortava o abundante cabelo ruivo, de onde lhe vinha o nome. Usava-o comprido e, quando o deixava solto, fazia-lhe caracis ou enrolava-o num 
coque. Dizia-me que  na simplicidade que est o segredo da elegncia.

Sabes, Pearl, as mulheres que se cobrem de jias caras e colocam quilos de maquilhagem talvez chamem a ateno, mas raramente so elegantes alertava-me. Um par de 
brincos, um colar, so acessrios que devem ser usados para realar, no para oprimir, o mesmo se passando em relao  maquilhagem. Sei que as raparigas da tua 
idade adoram servir-se do eye liner com abundncia, mas olha que o truque est em realar o que  positivo, no tapar.

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No fao ideia do que em mim  positivo respondera-lhe eu, fazendo-a rir

Em seguida fixara os olhos verde-esmeralda em mim e abanara a cabea

Se Deus tivesse vindo ter comigo quando fiquei grvida e me dissesse para pintar o rosto que desejava que a minha filha tivesse, dificilmente poderia ter feito melhor 
ou pensado em algum mais bonito do que tu, Pearl

"Alem disso, tens uma bela figura, o tipo de corpo que far a maioria das mulheres morrer de inveja. No quero que a tua beleza te suba  cabea, prefiro que sejas 
modesta e te sintas grata, mas tambm que no te tornes insegura como eu j fui. Quando isso acontece, as pessoas tendem a aproveitar-se advertiu-me, compondo uma 
expresso sombria, sinal de que se recordara de um dos acontecimentos mais tristes ou feios da sua vida

Claro que eu e os meus irmos no ignorvamos que a nossa me nascera e fora criada no Hayou. S quando ela completara dezasseis anos  que seu pai, cujo nome passara 
para o meu irmo Pierre, soubera da sua existncia, pois imaginara que a irm gmea, Gisselle, fosse a nica criana nascida do seu romance com Gabriel Landry. Nessa 
altura encontrava-se casado, mas Daphne, a mulher, aceitara Gisselle e fizera-a passar por sua prpria filha. quando o meu bisav Dumas a comprara  famlia Landry 
e a levara para Nova Orlees mal nascera. O aparecimento inesperado da minha me  sua porta, depois de completar os dezasseis anos, por pouco no desmascarara o 
enorme logro, porm, a famlia congeminara a desculpa de que a menina fora roubada logo depois de nascer, sendo devolvida graas a um rebate de conscincia do casal 
cajun que a levara

De tempos a tempos, a minha me descrevia as dificuldades que tivera de enfrentar ao viver na companhia de uma irm gmea e de uma madrasta que a hostilizavam, no 
entanto, no lhe agradava nada falar mal dos mortos. Fora criada pela av Catherinne, uma mulher cajun que exercia os seus dotes de traiteur combinando mtodos religiosos, 
mdicos e supersticiosos para tratar dos enfermos e dos feridos. Acreditava nos espritos. Contou-me que a sua av Catherinne e Nina Jackson, a velha cozinheira, 
praticante de vudu, da famlia Dumas, a haviam avisado de que, se ela perturbasse os mortos com aquelas histrias, eles poderiam assombrar-nos a todos

A minha me no fez fora para que eu acreditasse naquelas teorias, desejava apenas que respeitasse as pessoas que tinham essa crena e no me metesse por tais caminhos

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s vezes o meu pai repreendia-a.

A Pearl  uma mulher de cincia dizia-lhe ele. Quer ser mdica, no  verdade? Ento no a enchas com essas tretas.

Todavia, quando se tratava de manter os meus irmos gmeos na linha, o meu pai no se coibia de tentar assust-los com as histrias da minha me.

Olhem que, se no acabam com essas correrias escada acima e escada abaixo, acordam o fantasma da vossa tia m, que vir assombrar-vos quando estiverem a dormir ameaava-os 
ele.

A minha me dirigia-lhe um olhar disfarado de reprimenda e ele contornava a questo queixando-se de que um homem j no podia ter sossego na sua prpria casa.

Preferia que a me e o pai no tivessem resolvido oferecer-me uma festa to grandiosa disse eu, saindo da cama para me ir lavar e arranjar para o trabalho que me 
esperava.

O meu pai contratara uma das mais famosas orquestras de jazz de Nova Orlees para tocar no ptio. Encomendara os doces ao chefe de cozinha de um dos restaurantes 
mais conceituados e contratara criados de ambos os sexos. Chegara mesmo a encomendar a filmagem do acontecimento a uma empresa especializada. Por ali se via o que 
ele no faria quando se tratasse da minha festa de casamento.

No entanto, tambm no me imaginava a casar. No me via a ter a minha prpria casa e a criar os meus prprios filhos. As responsabilidades eram enormes, mas aquilo 
que, de facto, no me passava pela cabea era apaixonar-me de tal maneira por algum com quem desejasse passar o resto da vida, v-lo todas as manhs  mesa do pequeno-almoo 
e  noite  do jantar, ir para todo o lado na sua companhia e ser sempre bonita e desejvel para que ele s quisesse estar comigo. J tivera namorados, evidentemente. 
Naquele momento andava com Claude Avery; porm, no conseguia encarar o resto da minha vida ao seu lado, mesmo sendo um dos rapazes mais bonitos da escola, alto, 
com cabelos escuros e olhos azul-prateados. Claude afirmara-me muitas vezes que me amava, ficando  espera que lhe dissesse o mesmo, mas eu no conseguia murmurar 
algo mais do que: "Eu tambm gosto muito de ti, Claude."

Eu achava que o amor devia ser, certamente, algo diferente, qualquer coisa muito especial. Devia haver muitos mistrios no mundo, numerosos problemas por resolver, 
mas nenhum parecia to difcil como a resposta  pergunta: "O que  o amor?" As minhas amigas detestavam que eu as desafiasse a esmiuar e

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descrever as suas relaes de afecto pelos rapazes por quem se apaixonavam, estando sempre a acusar-me de ser demasiado curiosa e analisar as coisas com olhar microscpico

"Porque fazes sempre tantas perguntas?", queixavam-se elas, sobretudo a minha amiga Catherime Didion, ramos as duas to diferentes uma da outra que custava a acreditar 
que fssemos to chegadas, no entanto, se calhar eram mesmo essas diferenas que nos atraam. Poderia dizer-se que o que nos mantinha interessadas uma na outra tinha 
a ver com a curiosidade. Nenhuma de ns compreendia inteiramente a maneira de ser da outra

A festa no  assim to grande retorquiu a minha me. Alem disso estamos muito orgulhosos contigo e queremos que toda a gente o saiba

Posso ver o meu retrato agora de manh, me? perguntei

A minha me pintara o meu retrato com o vestido que eu iria usar na entrega do diploma do liceu. Era sua inteno exibi-lo, pela primeira vez, naquela noite, na 
festa, mas eu ainda no vira o trabalho terminado

No, ters de esperar. Mostrar um retrato antes de estar pronto d azar. Ainda tenho uns retoques a fazer hoje respondeu-me, sem que eu protestasse, pois a minha 
me acreditava em espritos bons e maus, a que ela chamava gins-gins, e nunca queria desafiar o destino. Nunca se separara da moedinha-talism que Nina Jackson lhe 
oferecera anos antes. Usava-a presa a um fio, em redor do tornozelo direito

Agora  melhor ir falar com aqueles teus irmos para me certificar de que no fazem disparates c em casa

Depois ajudas-me a escolher os adereos e a arranjar o cabelo, me?

Claro, minha querida respondeu-me ela no preciso momento em que o meu telefone comeava a tocar. No passes a manh na m-lingua com a Catherine advertiu-me ainda, 
antes de sair para ir ter com os gmeos

Podes ficar descansada prometi

Ao atender, verifiquei que no era Catherine, mas sim Claude

Acordei-te?

No respondi

Bem, o nosso dia chegou. anunciou Claude Tambm ele era finalista e iria receber o seu diploma na festa, no entanto, eu sabia que no era a isso que se referia. 
Claude e eu j namorvamos h cerca de um ano. Tinhamo-nos beijado e acariciado e, em certa ocasio, chegramos mesmo a

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estar quase nus ao lado um do outro na casa de Ormand Lelock, onde os pais o haviam deixado sozinho durante dois dias. J por duas vezes framos quase at ao fim, 
mas eu resistira sempre. Disse a Claude que, para mim, teria de ser uma ocasio muito especial e ele lembrara-se de deixarmos o evento para a noite da entrega do 
diploma. Eu no concordara, mas tambm no dissera que no, e sabia que Claude tomara a resposta como um "sim".

Na primeira vez em que acontecera, eu detivera-o dizendo que me encontrava numa altura do ms em que poderia engravidar. Ficou furibundo e ouviu-me, contrariado, 
explicar-lhe o ciclo de ovulao da mulher.

Comea quando um dos vulos se liberta principiei.

Eu saio contigo refilou, e dou comigo numa aula de Cincias Naturais, a receber uma lio sobre reproduo humana. Tu pensas demasiado. Alis, no fazes outra coisa!

Teria ele razo, perguntei a mim mesma. Quando me tocava com as mos em certas zonas mais ntimas, eu estremecia, mas no conseguia deixar de analisar e pensar no 
porqu de o meu corao palpitar. Pensava na adrenalina e na razo da minha pele ficar quente. As ilustraes dos livros de estudo passavam-me diante dos olhos e 
Claude queixava-se que me sentia demasiado distante e desinteressada.

Na vez seguinte em que ficmos a ss, mostrou-me, orgulhoso, os mtodos preventivos de que se munira. Eu no quisera ferir os seus sentimentos, mas dissera-lhe que 
no estava preparada.

Preparada! exclamara Claude. Como  que sabes se ests preparada? E no me venhas com explicaes cientficas.

Qual era a minha explicao? Divertamo-nos muito um com o outro e todos os nossos amigos presumiam que havia amor entre ns. Os restantes estudantes do liceu consideravam-nos 
o par ideal, mas ns, no entanto, sabamos que no ramos perfeitos. Eu achava que devia haver algo mais, algo mais a acontecer entre um homem e uma mulher.

Observava os meus pais juntos nas festas ou nos jantares e via o modo como se sintonizavam um com o outro, liam o rosto um do outro, cientes do que sentiam, mesmo 
numa sala cheia de gente. Entre os seus olhos circulava uma electricidade, uma necessidade e um amor um pelo outro que me fazia sentir segura. Se calhar eu  que 
pretendia demasiado da vida, mas o certo  que desejava um amor como o deles e isso eu sabia que no teria com Claude.

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No sabia como dizer ao meu namorado que no o considerava o eleito do meu corao e por pouco no chegara a aceitar as suas investidas, quanto mais no fosse para 
lhe fazer a vontade e satisfazer a curiosidade cientfica que eu tinha em relao ao sexo. No entanto, resistira at aquela noite, a noite que Claude planeava como 
sendo aquela em que faramos amor

Est tudo combinado disse. Os pais do Leste Anderson partem para Natchez logo a seguir  entrega dos diplomas, portanto ficamos com a casa toda para ns.

No posso abandonar a minha prpria festa, Claude

No logo de seguida, mas sim mais tarde Tenho a certeza de que os teus pais compreendero. Tambm j foram novos interps Claude

Tinha uma maneira estranha de olhar para as raparigas, mirando-as dos ps  cabea, o que as deixava profundamente inibidas. Quando Claude o fazia, a maioria delas 
ria-se e sentia-se lisonjeada. No decorrer das ultimas semanas, desconfiara que Claude andava a encontrar-se com outra pessoa, talvez Diane Ratner, cujo olhar no 
nos largava um momento no corredor, ao ponto de me fazer arrepiar os plos da nuca

A minha me nunca teve uma festa como esta quando era da minha idade retorqui com brandura

Ainda assim, compreender, tenho a certeza Tu queres ir, no queres? apressou-se a perguntar Ao ver que eu no respondia imediatamente, insistiu na pergunta, com 
um tom de desespero na voz Queres, no ?

Quero respondi

Ento, est combinado. at logo. Ainda tenho muito que fazer antes da cerimnia, mas irei buscar-te

Est bem concordei

Amo-te acrescentou ele, desligando antes de me dar tempo a responder

Fiquei sentada no mesmo stio durante algum tempo, sentindo o corao a pulsar. Iria finalmente entregar-me naquela noite? Deveria faz-lo? Talvez andasse a arranjar 
desculpas apenas por medo

A minha me e eu j tnhamos tido as nossas conversas, porm, ela jamais respondera com clareza s perguntas que lhe apresentara Em vez disso, dissera-me que ningum 
o podia fazer

Somente tu  que poders encontrar a resposta para essas dvidas, Pearl. s a nica pessoa que saber quando e com quem. vivers esse momento Se fizeres dele algo 
de especial, assim ser. As mulheres que encaram o sexo com vulgaridade, normalmente recebem o mesmo tratamento Percebeste?

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Eu percebia mais ou menos. Sabia o fundamental, o lado cientfico da questo, mas no a magia pois era assim que eu achava que o amor devia ser, algo mgico

Ao descer, deparei com a casa virada de pernas para o ar. Pessoas corriam de um lado para o outro seguindo as instrues da minha me para mudar isto e dar um jeito 
naquilo. Vasos com flores estavam a ser colocados em todos os cantos. As criadas limpavam todo e qualquer indcio de p. Cada uma das janelas era lavada e no havia 
mvel que no fosse polido. O zunido dos aspiradores enchia o ar. A minha me ia orientando a decorao da nossa sala de baile, de cujo tecto pendia j um cartaz 
resplandecente onde se lia PARABNS, assim como bales multicolores, serpentinas e fitas douradas. A orquestra de jazz chegara para verificar a acstica e montar 
os seus instrumentos

Bom dia, Pearl cumprimentou o meu pai, vindo do ptio. Como est a minha jovem mdica interna?

Beijou-me na testa e deu-me um abrao rpido. Nunca nenhuma das minhas decises o satisfizera mais do que a de ir para Medicina. Era algo que, em tempos, ele tambm 
desejara para si mesmo

No cheguei a acabar o curso confessara-me um dia

Porque no foi at ao fim, pai? perguntara-lhe eu Por instantes dera a impresso de no tencionar responder-me, apertando os lbios e ficando com uma expresso sombria

As circunstncias impeliram-me para caminhos diferentes, acabara por responder com ar enigmtico. No era esse o meu destino Mas acrescentara apressadamente isso 
talvez porque era o que te estava reservado a ti

Que circunstncias teriam sido essas, perguntei a mim mesma Como poderia algo que se desejava to intensamente no se concretizar por influncias externas? O meu 
pai era to bem sucedido nos negcios que custava imagin-lo incapaz de concretizar um desejo muito grande. No entanto, ao tentar obter mais algumas respostas, reparei 
que se fechava e mostrava incomodado

Simplesmente no estava escrito acrescentara ele, dando o assunto por encerrado

Como vi que a questo era demasiado penosa para que ele se lhe referisse, resolvi no insistir, o que, no entanto, no significava que eu desistira de a esclarecer. 
Questes do passado continuavam a pairar invisivelmente na casa e prendiam-se aos retratos da famlia, onde se podiam detectar as voltas estranhas

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e misteriosas que a vida dos meus pais dera antes e logo depois de eu nascer. Era como se tivssemos segredos enterrados nalgum ba velho e empoeirado do sto, 
que um dia talvez no muito distante eu abriria, tal como Pandora, libertando conhecimentos dos quais depressa me arrependeria.

Lamento, mas esta manh s tens os teus irmos por companhia ao pequeno-almoo informou-me o meu pai. Eu j comi e a tua me tambm, pois temos imenso que fazer.

Teria preferido que o pai e a me no me tivessem organizado uma festa to grande.

Por que razo? Nem outra coisa me passaria pela cabea. Se queres saber, at nem  suficientemente grande. Estou sempre a lembrar-me de pessoas que devia ter convidado.

A lista de convidados j tem um quilmetro de extenso! O meu pai riu-se.

Pois olha que juntando as pessoas ligadas aos meus negcios com as que a tua me tem no campo da arte, j para no falar dos teus professores e amigos,  uma sorte 
que s tenha um quilmetro.

Ainda por cima o meu retrato ser mostrado a todas essas pessoas... Vou ficar embaraadssima.

No penses nele como o teu retrato, Pearl, mas sim como uma obra de arte da tua me aconselhou-me.

Concordei com um aceno de cabea. O meu pai tinha sempre razo. Teria dado, sem dvida, um mdico esplndido.

Vou comer rapidamente e depois irei dar-vos uma ajuda, pai.

Que disparate. Descontraia-se, jovem senhora. Tens uma longa noite pela frente. S quando comear  que dars por ela. Alm disso, tens o teu discurso para te preocupar.

Depois ajudas-me a praticar?

Claro, princesa. Seremos o teu primeiro pblico. Mas agora tenho de ir ver o que se passa com o nosso estacionamento. Contratei um arrumador.

A srio?

No queres que os nossos convidados andem por a s voltas em busca de um stio para estacionar, pois no? Certifica-te de que os teus irmos tomam o pequeno-almoo 
e no incomodam ningum, est bem? pediu, beijando-me antes de se dirigir, apressadamente, para a entrada da casa.

Jean e Pierre estavam sentados  mesa, ambos com um ar to composto e inocente que desconfiei logo de alguma maroteira. As madeixas louras de Jean caam-lhe para 
a testa e para os olhos, e tinha, como de costume, a camisa mal abotoada.

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A aparncia de Pierre era impecvel, mas exibia um trejeito quase imperceptvel nos lbios, e Jean fitava-me com os olhos azuis a brilhar. Inspeccionei o assento 
da minha cadeira em busca de mel que l pudessem ter posto.

Bom dia, Pearl cumprimentou Pierre. Que tal te sentes por ires receber o teu diploma?

Muito nervosa respondi, sentando-me e reparando que os dois ficaram a olhar fixamente para mim. Vocs fizeram algum disparate?

Sacudiram as cabeas ao mesmo tempo, mas eu no acreditei. Examinei a mesa, o cho  volta da minha cadeira, assim como o saleiro e o pimenteiro. Uma vez tinham 
trocado o contedo de um pelo de outro e, numa outra ocasio, haviam deitado acar dentro do saleiro.

Enfiaram as respectivas colheres dentro da papa de cereais e comearam a comer, sempre de olhos fixos em mim. Olhei para o tecto, no fosse haver alguma aranha de 
plstico pendurada por cima da minha cabea.

Que foi que vocs os dois armaram? perguntei.

Nada respondeu Jean, demasiado depressa.

Juro que se hoje pregarem alguma partida, mando-vos fechar na cave.

Eu sei como sair de uma sala fechada  chave gabou-se Jean. Consigo abrir qualquer fechadura. No  verdade, Pierre?

No  difcil, sobretudo com as nossas fechaduras antigas declarou Pierre com ar pedante.

Tinha o hbito de franzir os olhos e premir o lbio inferior sobre o superior sempre que dava uma opinio sria.

Eu tambm consigo arrancar as dobradias das portas afianou Jean.

Est bem, acabem com isso. Estava a brincar disse. Jean mostrou-se desiludido.

Bom dia, menina cumprimentou Aubrey, o nosso mordomo, trazendo-me um copo de sumo de laranja acabado de fazer.

Aubrey j trabalhava para a famlia h muitos anos. Era sempre um ingls correctssimo. Careca, restava-lhe apenas uma pequena faixa de cabelos grisalhos por cima 
de cada orelha. Os culos, de lentes grossas, escorregavam-lhe constantemente pela cana do nariz ossudo e franzia os olhos castanhos sempre que olhava para ns.

Bom dia, Aubrey. Esta manh quero apenas caf e um croissant com geleia. Parece que tenho borboletas a esvoaar dentro do estmago.

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Hum murmurou Jean. Antes eram lagartas.

Ela s est a querer dizer que se sente nervosa.

 porque tens de fazer um discurso?

Sim, principalmente por isso retorqui eu.

 sobre o qu? quis saber Pierre.

 sobre a gratido que devemos sentir por tudo aquilo que temos, pelo que os nossos pais e os nossos professores fizeram por ns e como essa gratido se deve traduzir 
em trabalho rduo para que no se desperdicem oportunidades nem talentos expliquei.

Coisa chata comentou Jean.

No, no  nada chato corrigiu-o Pierre.

No gosto de ficar sentado a ouvir discursos. Aposto como algum ainda te atira uma cuspidela ameaou Jean.

Espero bem que no sejas tu, Jean Andreas. H muito que fazer aqui o dia todo. No atrapalhes nem aborreas a me e o pai.

Hoje  noite podemos ficar a p at todos se irem embora declarou Pierre.

E a me deixa-nos convidar alguns dos nossos amigos acrescentou Jean. Vamos lanar foguetes para celebrar.

Nem te atrevas ameacei eu. Pierre?

Ele no os tem.

O Charlie Littlefield tem! Jean!

Eu no deixo prometeu Pierre.

Dito isto, lanou um olhar de reprovao a Jean, que encolheu os ombros. Durante aquele ltimo ano, os ombros deste tinham-se tornado mais largos e salientes. Era 
rijo e forte, tendo-se j metido em meia dzia de brigas na escola; no entanto, eu viera a saber que trs delas tinham sido para defender Pierre de colegas que troaram 
dele por causa da sua poesia. Todos os seus amigos sabiam que quando algum se metia com Pierre era o mesmo que estar a faz-lo com Jean, e que quem troava de Pierre 
tinha de aguentar com as consequncias da parte de Jean.

Os nossos pais tinham sido chamados ao reitor por causa das brigas de Jean; no entanto, eu via bem como o pai se orgulhava com o facto de os dois irmos serem to 
protectores em relao um ao outro. A minha me barafustava com ele por no os repreender com severidade suficiente.

O mundo  um lugar duro e difcil respondia o meu Pai, portanto eles tambm precisam de se defender.

Os crocodilos e os aligatores tambm so duros e 

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difceis, mas nem por isso as pessoas deixam de fazer malas e carteiras da pele deles retorquia a minha me.

Fosse qual fosse o tema da discusso, a minha me arranjava sempre maneira de recorrer s suas raizes cajuns para reforar os seus pontos de vista com analogias.

Terminado o pequeno-almoo, voltei para o meu quarto a fim de dar uns ltimos retoques no meu discurso, e Catherine telefonou-me.

J tomaste alguma deciso relativamente  noite de hoje? perguntou.

Vai-me ser muito difcil sair da festa, pois os meus pais esto a esforar-se imenso por mim respondi com ar contristado.

Passado um bocado nem sequer daro pela tua falta garantiu Catherine. Sabes como os adultos reagem quando do festas para os filhos. Na verdade, o que querem  divertir-se 
com os seus amigos.

Isso no se aplica aos meus pais contrapus eu.

Tens de ir  casa do Lester insistiu a minha amiga. Andamos a planear isto h meses, Pearl! O Claude est a contar com isso. Sei como se sente ansioso por esse momento. 
Disse ao Lester, que me contou para eu to transmitir.

Irei  festa, mas no sei se ficarei durante o resto da noite disse-lhe.

Os teus pais contam que passes a noite fora.  como se fosse Carnaval. No sejas desmancha-prazeres, sobretudo esta noite advertiu. Sei o que te preocupa acrescentou.

Catherine era a nica pessoa no mundo que se encontrava a par da verdadeira situao entre mim e Claude.

No consigo sussurrei.

No percebo essa tua angstia. Sabes quantas vezes eu j o fiz, e nem por isso morri, no ? disse Catherine, rindo.

Catherine...

Chegou a tua grande noite. Bem a mereces insistiu a minha amiga. Vamos divertir-nos imenso. Prometi ao Lester certificar-me de que no faltas.

Veremos respondi, sem querer ainda comprometer-me.

Pearl Andreas, juro que hs-de tornar-te mulher nem que sejas arrastada aos gritos e a espernear declarou Catherine. rindo.

Seria verdadeiramente aquilo que nos tornava mulheres? Sabia que era essa a opinio de muitas das minhas amigas na escola. Algumas faziam alarde das suas faanhas 
sexuais.

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pavoneavam-se com ar de superioridade, era como se tivessem ido  Lua e voltado, sabendo muito mais acerca da vida do que ns. A promiscuidade dera-lhes uma aura 
de sofisticao, tornando-as grandes conhecedoras da vida, sobretudo dos homens. Catherine tambm assumia essa atitude e era frequente mostrar_se condescendente

s um crebro dizia-me muitas vezes, mas da vida no percebes nada Por enquanto

Teria razo?

Aquela noite viria a oferecer-me algo mais para alem do meu diploma de finalista?

Foi difcil voltar ao meu discurso depois da conversa com Catherine, mas acabei por conseguir Depois do almoo, os meus pais e os gmeos instalaram-se no gabinete 
do meu pai a ouvirem-me ler o discurso. Jean e Pierre sentaram-se no cho, em frente do sof. Jean no parava quieto, mas Pierre no desviava os olhos de mim e escutava 
atentamente

Quando cheguei ao fim, todos bateram palmas. Os meus pais pareciam to felizes que, por pouco, no comecei a chorar. A cerimnia de entrega de diplomas estava marcada 
para as trs da tarde, de modo que subi ao piso de cima para acabar de arranjar o cabelo. A minha me veio atrs de mim

Estou to nervosa, me confessei-lhe, sentindo o corao a bater j fortemente

Hs-de sair-te bem, querida

Uma coisa  dizer o meu discurso  vossa frente, outra  faz-lo diante de centenas de pessoas. Acho que no me sar nem uma palavra

Antes de comeares, olha para mim, sugeriu-me. As palavras comearo a sair-te. Lano-te o olhar da av Catherine prometeu

Quem me dera t-la conhecido observei, com um suspiro

Eu tambm gostaria que tal tivesse acontecido disse a minha me. Reparei ento no olhar distante que o seu reflexo no espelho mostrava

Me, prometeste que hoje me farias umas revelaes sobre o passado

Vi-a anuir e endireitar os ombros, como se se preparasse para enfrentar uma grande provao

Que desejas saber, Pearl?

Nunca chegaste a explicar-me por que motivo casaste com o Paul, o teu meio-irmo apressei-me a dizer, baixando os olhos Poucas pessoas sabiam que Paul Tate era meio-irmo 
da minha me

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Sim, de facto, casei. Contei-te que ns as duas estvamos sozinhas, vivamos no Hayou e o Paul quis proteger-nos e cuidar de ns. Construiu Cypress Woods s por 
minha causa.

As recordaes que eu tinha de Cypress Woods eram muito vagas.

Depois da morte de Paul e da desagradvel aco judicial que se seguira pela minha tutela, nunca mais l voltramos.

O amor que ele tinha por ti era maior do que o de um irmo pela irm? perguntei timidamente. V-los juntos j parecia pecaminoso.

Era, e isso foi uma tragdia  qual no conseguimos escapar.

Mas por que razo casaste com ele se estavas apaixonada pelo meu pai e eu j tinha nascido?

Todos pensavam que eras filha do Paul respondeu a minha me. Sorriu. Para dizer a verdade, alguns dos amigos da av Catherine estavam zangados por ele ainda no 
ter casado comigo. Acho que deixei que alimentassem essa ideia s para no me julgarem com demasiada severidade.

Por teres engravidado do pap e voltares para o Hayou"!

Sim.

Porque no ficaste simplesmente em Nova Orlees?

O meu pai morrera e a minha vida na companhia da Daphne e da Gisselle era um martrio. Assim que o Beau foi mandado para a Europa, fugi. Se queres mesmo saber, a 
Daphne queria que eu abortasse.

A srio?

 verdade. No estarias agora aqui.

A simples ideia fez-me suster a respirao.

Portanto, regressei ao Hayou, onde o Paul tomou conta de ns. Chegou mesmo a ajudar-me a trazer-te a este mundo. Quando eu soube que o teu pai ficara noivo de algum 
na Europa, concordei em casar com o Paul.

Mas o pai estava ou no estava noivo?

Foi um desses contratos por convenincia que se fazem, mas ele rompeu com a rapariga e regressou a Nova Orlees. A minha irm andara a encontrar-se com ele. Arranjava 
sempre maneira de ter o que queria, e o teu pai foi apenas mais um trofu desejado por ela respondeu a minha me, no sem um laivo de amargura na voz.

O pai casou com a Gisselle por ela se parecer imenso contigo, no foi?

Tratava-se de algo que conseguira arrancar ao meu pai quando ele resolvera responder  avalancha de perguntas que eu lhe apresentara.

Foi respondeu a minha me.

Mas ningum era feliz, pois no?

No, embora o Paul se esforasse para que nada nos faltasse. Eu dedicava todo o meu tempo  minha arte e a ti. Mas, enfim, quando a minha irm Gisselle adoeceu e 
entrou em coma...

Tu tomaste o lugar dela. Eu conhecia aquela histria. Que aconteceu depois!

Ela morreu e houve um julgamento terrvel depois do falecimento do Paul no pntano. A Gladys Tate clamava por vingana. Mas isso j tu sabes praticamente, Pearl.

Sim, mas, me...

O que , querida?

Ergui o olhar e pousei-o sobre o seu rosto carinhoso.

Porque foi que engravidaste do pai se no eras casada com ele? perguntei.

A minha me era to ponderada que me admirava no ter tido cuidado com o que poderia acontecer na altura. Precisava de lhe fazer aquela pergunta, apesar de saber 
que era muito ntima. Sabia que a maioria das minhas amigas, entre elas Catherine, nunca tinha aquele tipo de conversas com a me.

Estvamos to apaixonados que no pensmos. O que no serve de desculpa acrescentou rapidamente.

E o que acontece quando algumas mulheres ficam grvidas antes de se casarem? Esto demasiado apaixonadas para tomarem precaues?

No. Algumas simplesmente enveredam pelo caminho do sexo e perdem o controlo. Podes ser a rapariga mais inteligente da escola, ler muito, ter as notas mais altas, 
mas quando as tuas hormonas entram em funcionamento... Bem, s te peo que tenhas cuidado recomendou-me.

No me parece justo observei.

O qu?

Que os homens no enfrentem os mesmos riscos. A minha me riu-se.

Ora a est mais uma razo para que no permitas que algum jovem te leve a fazer aquilo que no desejas. Se eles soubessem o que  dar  luz, talvez no fossem to 
levianos em relao a esse assunto.

Deviam sentir as mesmas dores de parto declarei.

E enjoarem de manh e andarem agoniados e com dores de costas acrescentou a minha me.

E sentirem vontade de comer picles e sanduches de manteiga de amendoim.

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E depois terem as contraces. Desatmos a rir e depois abramo-nos.

O meu pai, que vinha a subir as escadas, ouviu o barulho que fazamos e bateu  porta.

Que ser que faz rir assim estas duas mulheres? perguntou.

Homens grvidos respondeu a minha me.

O qu? Voltmos a rir.

As mulheres no so apenas do sexo oposto declarou o meu pai. Pertencem a uma espcie completamente diferente.

Aquilo ainda nos fez rir mais.

Depois de ter o meu cabelo como queria, peguei no vestido que usaria aps a entrega dos diplomas. Em seguida, abri a caixa que continha o meu chapu e a capa e soltei 
um grito.

Que foi, Pearl? perguntou a minha me, sobressaltada.

O meu chapu de formatura desapareceu, me.

O qu? No pode ser exclamou a minha me, olhando ela mesma para dentro da caixa, antes de me fitar. Foram os teus irmos declarou, levantando-se e saindo do quarto.

Fui atrs dela, vestida com o fato que usaria na cerimnia, e descemos as escadas. Chamou pelos meus irmos, que se aproximaram a correr, vindo pelo corredor, Pierre 
atrs de Jean.

Foram vocs que tiraram o chapu  vossa irm? perguntou, de mos nas ancas.

Pierre olhou para Jean com ar culpado, e este sacudiu a cabea.

Jean, no estars a mentir?

O que est a acontecer? quis saber o meu pai, que viera rapidamente atrs de ns.

O chapu da Pearl desapareceu e desconfio que estes dois malandrins sabem do seu paradeiro respondeu a minha me, sem desviar os olhos dos gmeos. Pierre apressou-se 
a desviar o olhar.

Rapazes! admoestou o meu pai severamente.

Ainda agora vi um chapu na esttua do Adnis do jardim confessou Jean.

O qu?

Os meus pais entreolharam-se e depois corremos todos para o jardim.

L estava o meu chapu sobre a esttua. As pessoas tinham passado constantemente por ali o dia todo, mas ningum reparara nele ou fizera o menor comentrio. O meu 
pai ainda esboou um pequeno sorriso, que logo se transformou numa expresso severa ao reparar no rosto da minha me. Foi buscar o chapu, que me restituiu, e a 
seguir voltou-se para os gmeos, os quais pareciam aterrorizados.

Como  possvel que tenham pregado uma partida destas  vossa irm! indignou-se. Sabem muito bem como ela est nervosa.

A ideia foi s minha acusou-se Pierre.

No, foi minha, minha insistiu Jean.

O meu pai olhou para a esttua e em seguida para os dois.

C por mim, o Jean ajudou o Pierre a subir para colocar o chapu na cabea da esttua. Estou certo ou estou errado, rapazes?

Pierre disse que sim com a cabea.

Acho que hoje  noite vocs vo direitinhos para a cama e no pem os ps na festa.

Oh, no! exclamou Jean. S queramos arreliar a Pearl. Tencionvamos dizer-lhe onde estava.

Ainda 'assim...

Deixe estar, pai pedi. Daqui em diante iro portar-se impecavelmente, no  verdade, maninhos! perguntei.

Os dois acenaram vigorosamente que sim com as cabeas, gratos pelo meu perdo.

Bem, se a vossa irm  capaz de vos perdoar, esto com sorte. Tm a obrigao de se esforar para que esta noite seja a mais feliz da sua vida intimou-os o meu pai.

Prometemos garantiu Pierre.

Isso, prometemos reforou Jean.

Vo-se vestir e no se sujem ordenou o meu pai. Os gmeos viraram-se e voltaram apressadamente para dentro de casa.

Os meus pais olharam um para o outro e em seguida para a esttua, e comemos os trs a rir.

O sucedido pareceu quebrar o gelo que se formara  minha volta e eu j no tinha tanto medo do que estava para vir.

No entanto, talvez devesse ter tido. Provavelmente era melhor recear sempre um pouco o futuro, para estar prevenida, quem sabe se no era por isso que a minha me 
se tornara to supersticiosa.

Algo me dizia que teria a certeza mais cedo do que alguma vez imaginara.

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TEM APENAS PENSAMENTOS POSITIVOS

Antes de partir para a escola a fim de me preparar para a cerimnia de formatura, a minha me veio ao meu quarto ajudar-me a escolher o vestido que usaria na minha 
festa. Enquanto arranjvamos o meu cabelo, falou-me um pouco dos seus tempos de escola no Hayou e da sua prpria festa de fim de liceu. No ltimo ano, a minha me 
e Gisselle tinham andado num colgio particular em Baton Rouge. No entanto, a experincia fora negativa, segundo a minha me. De bom s recordava as suas aulas de 
pintura e o facto de ter conhecido Louis Clairborne, um msico famoso que de vez em quando dava recitais em Nova Orlees e ia sempre jantar a nossa casa quando estava 
na cidade. Cada vez que esse amigo da minha me aparecia l em casa, trazia sempre uma lembrana das suas andanas pela Europa para mim e para os gmeos. Eu tinha 
bonecas e caixas de msica de Frana e da Holanda.

Bem, me disse eu, depois de Aubrey me vir avisar de que Claude chegara para me levar para os preparativos da cerimnia, l vou eu.

No consegui terminar a frase sem um pequeno gemido.

No estejas assim to preocupada aconselhou-me a minha me, abraando-me.

Quando eu ia a afastar-me, chamou-me.

Espera.

Ao virar-me, vi-a sentada na cadeira do seu toucador, inclinando-se depois para desprender a moedinha da sorte em ouro que usava em volta do tornozelo.

Tencionava dar-te isto antes de partires para a faculdade no final do Vero, mas quero que fiques com ela desde j. Pearl.

Oh, no, me,  o teu amuleto da sorte. No posso aceitar.

Claro que podes. Passo-a para ti.

Mas assim ficars sem ela adverti-a.

Chegou a altura de ficares com ela. Pearl, faz-me a vontade implorou.  muito importante para mim.

Sei o que este talism especial significa para ti, me insisti eu, sacudindo a cabea mas aproximando-me para o aceitar.

Senta-te para eu ta apertar  volta do tornozelo disse-me.

Assim fiz.

Pronto declarou a minha me, dando-me uma palmadinha no joelho. Sei que consideras isto um disparate mas olha que, seja qual for a magia que tem exercido sobre mim, 
tambm o far sobre ti.

No me parece nenhum disparate, me. O problema est em ti. Deixars de o usar.

J desfrutei de muito mais magia do que qualquer um merece. Repara na famlia maravilhosa que criei e no sucesso que a minha arte tem tido. Agora s quero assistir 
 concretizao dos teus anseios e dos dos teus irmos.

Obrigada, me.

Peo-te que, por enquanto, no fales disto ao teu pai alertou-me, olhando de relance para o umbral da porta. Ele acha que dou demasiada importncia a crenas antigas 
e ralhar comigo por querer impor-tas.

Nem a minha me nem eu tnhamos guardado segredos importantes do meu pai; no entanto, ocultvamos-lhe uma srie de questes.

Depois contar-lhe-emos acrescentou.

Como queiras, me.

Voltmos a abraar-nos e a seguir fui-me embora. Claude estava  minha espera em frente da casa, junto do seu carro, passeando impacientemente de um lado para o 
outro.

Viva cumprimentei-o, descendo as escadas a correr. Claude aproximou-se de mim e beijou-me. Nos ltimos tempos andava sempre a enfiar a lngua na minha boca. Dessa 
vez no  fez mas, em contrapartida, apertou-me contra si com tanta fora e durante tanto tempo que fui obrigada a empurr-lo para me afastar.

Por favor, Claude. Estamos mesmo em frente da minha casa!

. Encolheu os ombros, no ligando a menor importncia  rePrimenda.

Bem, chegou o dia. A nossa sada da priso declarou. Foi esse o significado que o liceu teve para ti, Claude?

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Ei, de agora em diante j no teremos os adultos a vigiar-nos constantemente. Para mim, isso representa uma libertao, e esta noite... Sorriu. Esta noite chegar 
a nossa vez. no ?

Tentou beijar-me de novo.

Acho que sim respondi, aproximando-me do carro e afastando-me assim dele.

A exuberncia de Claude amedrontava-me ligeiramente. Parecia um jovem disposto a no permitir portas fechadas no seu caminho.

No estejas to triste disse. Abriu-me a porta do carro e eu apressei-me a entrar. S estaro uns quantos na festa do Lester observou, depois de se instalar ao meu 
lado. Os chatos no foram convidados. Alm disso, poderemos beber algo mais do que cerveja acrescentou, piscando-me o olho

Mais do que cerveja? Que queres dizer com isso?

Sabes perfeitamente respondeu, repetindo a piscadela de olho.

Eu sei o que no quero ver-te fazer... e tu sabes o que eu no farei acrescentei com firmeza.

J no era a primeira vez que tnhamos aquela discusso.

Tem calma. S se acaba o liceu uma vez declarou.

Premi os lbios e engoli as palavras que, sem dvida, provocariam uma discusso. De momento tinha assuntos mais importantes a preocuparem-me, nomeadamente o meu 
discurso

Quando chegmos, reinava a maior excitao no liceu. Fui para o balnerio, onde Catherine e mais algumas amigas nossas se encontravam, para uma ltima troca de impresses. 
As raparigas emprestavam a laca umas s outras, perfumavam-se com gua-de-colnia, maquilhavam-se e muitas fumavam. Diane ofereceu-me um cigarro e eu, como de costume, 
recusei.

 verdade, a nossa futura mdica no quer poluir os pulmes troou, fazendo rir as outras jovens.

 isso mesmo, Diane. A verdade  que o simples facto de estar aqui a engolir o fumo dos vossos cigarros j  perigoso. Foi provado.

As raparigas que me rodeavam ficaram acabrunhadas por momentos.

Que estupidez. O que  que achas, ests convencida de que vivers eternamente? retorquiu Diane.

As suas amigas sorriram.

No, mas sei o que  ter cancro do pulmo. No  nada agradvel respondi asperamente.

Escutem-me s a Menina Ajuizada. Que grande chata

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Espero que o teu discurso no seja to deprimente.  suposto tratar-se de uma ocasio alegre

Estavam todas a olhar para mim.

De deprimente no tem nada declarei, na defensiva. Com licena Preciso de ir aos lavabos.

Entrei na cabina seguida pelas suas risadas. De sbito ouvi-as calarem-se e comearem a ir porta fora. Quando sa, vi que no ficara ningum. Confusa mas contente 
por no ter de me envolver de novo numa discusso, tambm sa. S depois de enfiar a minha tnica de formatura e colocar o chapu  que me dei conta de que devia 
ter deixado o meu discurso nos lavabos. Em pnico, voltei para trs a correr; porm, nem sinais dele.

Completamente louca, corri pelo corredor, interrogando todas as raparigas que estavam na bicha, porm nenhuma delas me soube esclarecer.

Que se passa? perguntou-me Claude.

O meu discurso desapareceu. Algum o levou enquanto estive nos lavabos contei-lhe

No me digas! Que tencionas fazer?

No sei.

Voltei-me para Catherine. Parecia estar com vontade de me dizer algo, mas tinha demasiado receio. Desesperada, dei meia volta. O Dr Stegman, o professor responsvel 
pelo desfile, estava a mandar-me para o meu lugar.

No consigo encontrar o meu discurso! disse-lhe. Tinha-o comigo quando fui aos lavabos, mas desapareceu.

Santo Deus exclamou ele, indo chamar o Dr. Foster, o reitor.

Procuraste bem, Pearl? Vai l dar mais uma vista de olhos sugeriu. Atrasarei o desfile por mais alguns minutos.

Olhei fixamente para Catherine

Tem de estar l insistiu ela

Veio-me  ideia um pensamento horrvel. Voltei aos lavabos e abri a porta do cubculo ao lado daquele onde eu estivera. L estava o meu discurso, a flutuar na gua 
da sanita

Oh, no! gritei, metendo a mo na gua para o tirar. Muitas das palavras j estavam apagadas. Limpei o papel o melhor possvel com uma toalha e a seguir fui colocar-me 
 cabea da fila

Encontraste-o? perguntou o Dr. Foster. Mostrei-lhe as folhas encharcadas.

Como foi que isso aconteceu?

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Boa pergunta retorqui em voz bem audvel, para que todas as minhas colegas ouvissem. Como foi que isto aconteceu?

O meu corao batia com tanta fora que achei que iria fazer figura de parva diante de todas as famlias e convidados presentes. Nem sei como  que as minhas pernas 
conseguiram levar-me pelo corredor e pela porta, mas o certo  que aconteceu.

Na verdade nem tive tempo para me preocupar comigo mesma. Marchmos at ao palco que fora montado no exterior para a cerimnia e instalmo-nos nos nossos lugares. 
Tentei no olhar para o pblico. Havia muito barulho, risos, conversas, choro de bebs, ralhetes a crianas pequenas para que se aquietassem a maior confuso. De 
qualquer maneira, ningum iria escutar o meu discurso, pensei. Para qu preocupar-me?

A nossa cerimnia decorria num belo dia de sol, em que a brisa suave que soprava fazia adejar a bandeira e as madeixas de cabelo nos nossos ombros. O cu, azul-turquesa, 
exibia faixas de nuvens enfunadas.

 distncia, ouvia-se o apito dos barcos a vapor que se preparavam para levar turistas pelo Mississipi acima.

Depois de o nosso reitor proceder s apresentaes e fazer uma pequena introduo, fui chamada ao palanque. Levantei-me, sentindo as pernas a tremer. Fechei os olhos, 
respirei fundo, voltei a abri-los e obedeci. As minhas colegas estavam completamente mudas, curiosas sobre o que eu iria fazer. Percorri a multido com o olhar, 
at encontrar a minha me, que me fitava confiantemente. e nesse momento as palavras comearam a sair. No precisei de olhar para o papel, pois tinha o discurso 
imprimido na memria.

Para minha surpresa, fizera-se o maior silncio. Ergui a cabea, respirei profundamente e comecei. Agradeci ao reitor e, a seguir, dirigindo-me ao corpo docente, 
aos pais, familiares e amigos, comecei a fazer, com uma voz que se foi progressivamente fortalecendo, o discurso que andara a preparar nos ltimos dias. O espantoso 
 que, depois de comear, as palavras fluram. De vez em quando fixava o olhar nos rostos entre a multido e reparava que as pessoas estavam realmente a ouvir. Muitas 
exibiam sorrisos simpticos e apreciativos. Os gmeos no desviavam o olhar de mim, ambos com a boca ligeiramente aberta, sem sequer se mexerem.

Quando cheguei ao fim, os aplausos ressoaram nos meus ouvidos e, ao olhar para os meus pais, vi-lhes a felicidade estampada no rosto. At Jean e Pierre se mostravam 
impressionados.

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Pararam de bater palmas exactamente no mesmo instante e, ao desviar o olhar para Claude, reparei que sorria orgulhosamente e acotovelava os colegas para que sentissem 
inveja. Diane Ratner e as amigas pareciam arrasadas, no entanto, Catherrine apressou-se a vir dar-me um abrao

- Foi formidvel Tinha a certeza de que eras capaz, com ou sem papeis E cheguei mesmo a ouvir tudo do principio ao fim, embora no percebesse algumas partes

Obrigada agradeci-lhe secamente

No queria que pensasse que me conformara com a sua dbil demonstrao de amizade. Desiludira-me

Sentei-me, enquanto o reitor e o director do conselho pedaggico subiam ao palanque para proceder  entrega dos diplomas a cada um de ns. Quando me levantei para 
ir receber o meu, o pblico saudou-me com nova revoada de aplausos. O meu pai tirava fotografias e os gmeos acenavam e gritavam de contentamento

Bom trabalho, minha jovem saudou-me o reitor Felicidades

Agradeci-lhe e sorri, mais uma vez, para a maquina fotogrfica do meu pai

Terminada a cerimnia, muitos vieram cumprimentar-me pelo meu discurso. Todos os meus professores se aproximaram, tal como algumas colegas e respectivos pais, para 
me desejar boa sorte. Fiquei contente por a minha tia Jeanne irm de Paul, o meio-irmo da minha me estar presente e tambm desejar saudar-me

A tia Jeanne era o nico membro da famlia Tate que mantinha alguma ligao connosco. Era ligeiramente mais alta do que a minha me e tinha cabelo castanho-escuro 
e olhos amendoados. A minha me dizia que a tia Jeanne parecia-se mais com a me, Gladys, do que com o pai, Octavious, pois fora desta que herdara a pele morena, 
assim como o queixo espetado e o nariz quase perfeito. Eu gostava dela porque nos tratava sempre muito bem, mostrando um carinho especial por mim

Adorei o teu discurso, Pearl querida declarou a tia Jeanne, abraando-me

Foi formidvel acrescentou o tio James, acenando com a cabea Apertou a mo ao meu pai Tens muito de que te orgulhar, Beau

Os meus pais irradiavam tamanha felicidade que senti arrepios percorrerem-me a espinha

Que tal vai a famlia. Jeanne' perguntou a minha me, com expresso momentaneamente sombria

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A me, alm de artrite, tambm est com gota. O pai, esse mantm-se sempre na mesma S pensa no trabalho. A tia Jeanne sorriu. Sabes, o filho mais novo da minha 
irm Toby fez dezasseis anos. Em breve iremos ter mais um finalista de liceu na famlia

A tia Jeanne e o tio James nunca tinham tido filhos, eu no sabia muito bem porqu Se a minha me conhecia a razo, nunca ma revelara.

Vens at nossa casa, no , Jeanne? perguntou-lhe a minha me.

Claro No perderamos a festa por nada deste mundo respondeu Sabias que eu viria c sussurrou-lhe, suficientemente alto para que eu ouvisse.

Reparei na maneira como mergulhavam o olhar uma na outra e senti que palavras no proferidas passavam entre si, palavras que eu sabia dizerem respeito a Paul, o 
meio-irmo da minha me, o homem que povoava o estranho pesadelo que me atormentava constantemente.

O Paul teria ficado muito orgulhoso com ela acrescentou Jeanne

Os olhos da minha me encheram-se de lgrimas e vi-a acenar afirmativamente com a cabea. Voltaram a abraar-se.

A minha me virou-se e procurou os gmeos, que se divertiam a serpentear pelo meio da multido, arreliando algumas das minhas amigas Dessa vez fiquei satisfeita 
com o seu comportamento. A minha me chamou-os, pois chegara a altura de voltarem para casa e finalizarem os preparativos para a festa; rodeou-me com um brao e 
dirigimo-nos todos para a limosina.

Estou muito orgulhosa de ti disse-me.

Preferi no lhe falar da partida que as minhas falsas amigas me tinham pregado nos lavabos.

Estava to nervosa No se notou?

Nem um pouco J te tinha dito que, uma vez comeando, as palavras iriam sair-te espontaneamente da boca.

Na limosina, os gmeos troaram de mim pelo modo como revirara os olhos ao dizer certas frases, mas a minha me ralhou-lhes e eles acalmaram um pouco. Eu j no 
sentia o estmago s voltas. Naquele momento o que estava era completamente esfomeada. Passara o dia todo demasiado nervosa para me alimentar convenientemente

Quando chegmos, alguns dos convidados j l se encontravam e a orquestra comeara a tocar. O ambiente era festivo. Corri ao piso de cima para envergar o meu vestido 
de noite e arranjar o cabelo. Quando desci as escadas, os restantes convidados

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tinham comeado a chegar, trazendo presentes pela ocasio. Um dos cantos da sala de estar fora destinado para os reunir e os gmeos no tiravam os olhos da pilha, 
ansiosos por rasgar os embrulhos e satisfazer a sua curiosidade. A minha me advertiu-os de que ficassem longe, de modo que resolveram sair dali para ir brincar 
com os amigos.

Um exrcito de empregados comeou a servir aperitivos quentes e frios, acompanhados por taas de champanhe. Os scios do meu pai reuniram-se na sala de baile e a 
minha me recebeu alguns dos nomes mais ilustres da comunidade artstica, assim como outros pintores e donos de galerias. A multido, inclua o jet set das colunas 
sociais.

O meu retrato permaneceu tapado em cima de um cavalete, perto do enorme bolo de andares onde se liam as palavras "Felicidades, Pearl", escritas a vermelho. Tanto 
o bolo como o retrato estavam sob o foco de um holofote. O meu pai queria, depois de todos os convidados chegarem, tornar a primeira exibio do retrato um momento 
especial. Claude chegou um pouco mais tarde, acompanhado por Lester Anderson e alguns outros amigos e eu percebi imediatamente qual fora a razo da demora. Pela 
maneira como cambaleavam e riam, vi que j tinham tomado algumas bebidas alcolicas e, quando Claude veio beijar-me, senti o cheiro a conhaque no seu hlito.

O ponche est puxado? perguntou-me.

Claro que no respondi.

Claude piscou o olho a Lester, um rapaz alto e magro que andava sempre com ar de quem acabara de cometer alguma maldade. Lester idolatrava Claude e far-lhe-ia qualquer 
vontade.

Queres que trate disso? perguntou-me Lester, entreabrindo o casaco e mostrando-me a pequena garrafa de rum que trazia num dos bolsos interiores.

Lester Anderson, no te atrevas! adverti-o.

Os rapazes riram. Claude rodeou-me a cintura com os braos e tentou beijar-me.

Claude, pra. Os amigos do meu pai esto a olhar para ns.

Vamos um bocado para dentro do gabinete segredou-me. Ainda no te cumprimentei como deve ser.

No. Peo-te que tenhas pacincia respondi-lhe. Apesar de contrariado, afastou-se e portou-se bem. Pouco depois, o meu pai pediu  orquestra que parasse de tocar 
por momentos e subiu para o centro da plataforma para anunciar que iria mostrar o meu retrato.

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Esta noite temos um presente especial para a Pearl principiou. Na verdade, trata-se de um trabalho feito pela minha mulher, mas uma das razes que me levaram a casar 
com ela foi saber que era talentosa e poderia fazer coisas deste gnero.

Todos riram. Olhei de relance para a tia Jeanne, que parecia trocar olhares cmplices com a minha me. O meu pai pegou numa das pontas do pano que cobria o meu retrato 
e o meu corao comeou a bater fortemente. Era um momento de ansiedade quase to grande como quando me levantara para fazer o discurso de finalistas.

Pearl chamou o meu pai.

Eu subi para junto dele no meio dos aplausos dos convidados. A minha me colocou-se ao lado do meu pai e este inclinou-se para o retrato e, ao som de um pequeno 
acorde de pompa e circunstncia da orquestra, puxou lentamente o pano e revelou um quadro que me fez suster a respirao. A minha me no pintara apenas um retrato 
meu com a fatiota da finalista. Por trs da minha figura estava uma outra, essa mostrando-me vestida de mdica, de estetoscpio ao pescoo.

Um murmrio de admirao percorreu a multido antes de esta comear a aplaudir entusiasticamente, ao mesmo tempo que alguns dos presentes se aproximavam da minha 
me para lhe apertar a mo e dar os parabns.

Parecem gmeas exclamou Pierre.

Assim como ns somos dois, tu tambm tens outra igual guinchou Jean.

Todos riram.

 lindo, me comentei eu, abraando-a. Espero estar  altura dele.

Acho bem que o consigas disse-me;u pai, beijando-me tambm.

A partir dali, a festa decorreu com grande animao. Os msicos passearam pela casa, como se fosse de facto, Carnaval. A comida foi trazida e disposta sobre as mesas. 
Havia travessas com peru e carne assada, camares recheados em molho de ostra, camares  Mornay, caranguejos recheados e tambm lagosta estufada. Todos se mostravam 
impressiionados com os pratos requintadamente apresentados e, quando trouxeram os doces em carrinhos de mesa, soltaram exclamaes de deleite diante da tarte de 
pssego, do bolo de nozes e banana, dos crepes, da tarte de noz-pec, do creme de laranja caramelizado e da mousse de chocolate com rum. O meu bolo de festa tambm 
foi cortado em fatias, que depois se distribuiriam.

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A ementa rica e variada contribuiu para acentuar, ainda mais, o ambiente festivo. Havia pessoas a danar em todo o lado, at no corredor. Eu circulava o mais que 
podia, falando com alguns dos amigos dos meus pais. De repente, ao deter-me no salo de baile para recuperar um pouco de flego, senti algum atrs de mim

 uma boa altura para nos pormos a andar daqui para fora. segredou-me Claude, pousando as mos nas minhas ancas

Ainda no posso, Claude disse-lhe, afastando-me

Porque no? Estiveste aqui para o grande acontecimento, a exibio do teu retrato. J comemos o suficiente. Fez uma pausa, fixando os olhos azuis no meu rosto com 
ar desconfiado. No disseste aos teus pais que ias a outra festa? Aguardou um instante e depois acrescentou rapidamente. No disseste, pois no?

Tencionava faz-lo mas eles andavam to entusiasmados com a minha festa que no tive coragem. D-me um pouco mais de tempo implorei

Claude fez m cara e, relutante, voltou para junto dos amigos que, cumprindo a ameaa, tinham "baptizado" o ponche de que se serviram. Naquele momento partilhavam-no 
com Catherine, Mane Rose e Diane Ratner. Esta andara sempre atrs de Claude. Reparei que se aproveitava do facto de eu ter de fazer sala com os amigos dos meus pais. 
Enfiara o brao no de Claude e segredava-lhe constantemente ao ouvido. Dissesse o que dissesse, saltava  vista que o divertia, apesar de ele estar sempre a olhar 
para mim No me foi difcil perceber que,  medida que o tempo passava, ia ficando cada vez mais furioso, o que lhe fazia luzir os olhos azul-prateados como seixos 
em gua fria

Ia a falar novamente com ele quando a tia Jeanne me bateu no ombro

Ento, que tencionas fazer este Vero? perguntou-me

Irei para o hospital trabalhar como enfermeira. O pai achou que seria uma ptima experincia para mim.

Portanto, essa tua inteno de seres mdica  mesmo sria, no? inquiriu com um sorriso

- Sim, muito sria

A tia Jeanne acenou com a cabea

Talvez estivesse escrito observou, levando-me a recordar a bisav Catherine

"Conheceu a minha bisav Catherine, tia Jeanne?

Ouvi falar nela. Era uma traiteur muito famosa. Quem

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me dera que ainda fosse viva, para ajudar a minha me. Ela tem andado a tratar-se com uma outra, mas esta mulher no parece ter os poderes curativos da tua bisav. 
No te mete impresso estar ao p de pessoas doentes, ver enfermidades e sangue?

No respondi. Sempre que ajudo algum que est doente, sinto-me bem.

A tia Jeanne sorriu.

Nesse caso, talvez o dom da Catherine tenha passado para ti. Fitou-me com um olhar maravilhado e acenou com a cabea. Boa sorte, minha querida. Um dia destes vai 
visitar-nos ao Hayou.

Assim farei respondi, engolindo em seco.

Os meus pais nunca me tinham proibido de o fazer; no entanto, a relutncia que eles mesmos mostravam em l voltar, como que fazia daquele lugar um tabu.

Estou quase a ter de me ir embora, mas antes disso gostava que ficasses com isto.

Entregou-me uma caixinha que no estava embrulhada como se fosse um presente.

Obrigada agradeci, um tanto surpreendida por a minha tia no a ter embrulhado e colocado junto dos outros presentes.

V, abre incitou-me.

Olhei para o outro lado da sala e vi a minha me a olhar para ns com expresso receosa, o que me fez tremer os dedos. Por fim, abri a caixinha e deparei com um 
medalho de prata.

Tem uma fotografia dentro explicou a tia Jeanne.

Carreguei no fecho e abri o medalho. Continha uma fotografia de Paul comigo ao colo, em criana, com o mesmo chapu de palhinha na cabea. Fiquei sem conseguir 
falar durante um momento. Era exactamente a maneira como sempre o visualizara no incio do pesadelo que tinha constantemente.

Achei que gostarias de ficar com ele disse-me a minha tia.

Claro, obrigada.

Tens alguma lembrana dele? perguntou-me.

Muito vaga respondi.

Ele gostava muito de ti e tu dele disse-me a tia Jeanne melancolicamente. Em seguida soltou um suspiro fundo e cobriu as minhas mos com as suas, fechando assim 
o medalho entre elas. Mas no  altura para tristezas. Guarda-o num lugar seguro e olha para ele de vez em quando pediu

Voltei a agradecer-lhe, vendo-a depois afastar-se para se despedir dos meus pais.

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A minha me aproximou-se imediatamente.

Vi a tua tia dar-te qualquer coisa disse. Mostrei-lhe o medalho, o que lhe provocou um sobressalto.

Eu sabia que estava relacionado com o Paul.

 verdade que os restantes membros da famlia Tate nos odeiam? perguntei.

Digamos que no constamos na sua lista de preferncias replicou a minha me. Olhou de novo, fixamente, para a fotografia. Era um homem muito bonito, no era?

 verdade. Devolveu-me o medalho.

Foi simptico da parte dela ter-te oferecido isso, assim como  compreensvel que no queira ver o Paul esquecido. Guarda esse medalho entre os teus objectos mais 
queridos.

Assim farei, me.

Depois de me sorrir brandamente, voltou para junto dos seus convidados.

Pouco depois, Catherine acercou-se, conversava eu com Dominique, a dona de uma galeria de arte que andava a tentar convencer a minha me a deix-la expor o meu retrato 
na sua montra.

O Claude est muito aborrecido. Queremos todos ir embora, Pearl. O Lester e os outros j seguiram para casa dele. Vens ou no?

Mordi o lbio inferior. Uma parte de mim desejava ir, outra, no. Vi o meu pai rir noutro lado da sala. Os gmeos estavam a encher-se, juntamente com os amigos, 
de bolo de morango. Achei que j poderia retirar-me discretamente.

Vou falar com a minha me disse.

ptimo. Direi ao Claude declarou Catherine.

A minha me raramente perdia o que se passava  sua volta. Ia conversando com as suas amigas do mundo das artes e, ao mesmo tempo, estava de olho em mim. Ao ver 
dirigir-me na sua direco, veio ter comigo.

Que foi, querida? perguntou-me. Queres ir a algum lado com os teus amigos?

Acho que sim respondi.

Olhou para Claude, Catherine e os outros, antes de se voltar de novo para mim.

, Se no ests com muita vontade de ir, por alguma razo , Pearl declarou com a segurana de uma mdium. Que se passa, querida? Vai ser uma festa desregrada?

"  possvel confessei.

A minha me esboou um sinal de entendimento.

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Sabes o que  crescer observou, abanando a cabea como algum que chega finalmente a uma concluso.  ter a noo de quando se deve dizer "no". Nada mais que isso, 
creio acrescentou. Quem decide s tu. Tens todo o direito de sair, se quiseres. A noite pertence-te, Pearl. O teu pai compreender.

Abramo-nos e eu fui para junto dos meus amigos. Claude ergueu as sobrancelhas e sorriu. Eu ia a fazer um sinal de assentimento, mas parei. Ocorreu-me que, assim 
que sasse dali e fosse com Claude at  casa de Lester, dizer "no" seria mais difcil do que chegar ao fim do curso de Medicina.

J podes vir? perguntou Claude ansiosamente.

Que tal ns os dois ficarmos por aqui, Claude? sugeri. Poderemos ter muita privacidade.

Aqui? Ests a falar a srio? H criados por todos os cantos... Ano ser que nos esgueiremos at ao teu quarto props, com olhos lascivos.

Claude, no gosto de ser pressionada observei.

Pressionada? Namoramos h quase um ano, o que, hoje em dia,  quase como estarmos casados protestou.

Comecei a rir mas ele continuou, cada vez mais furioso.

No sabes o que representa para mim ter de mentir a todos os meus amigos, fazendo de conta que somos realmente amantes. Todos eles tm namoradas que no receiam 
fazer amor.

Queres dizer que tens inventado histrias a nosso respeito? perguntei.

Evidentemente. Queres que faa figura de idiota?

 nisso que te transformars se no dormirmos juntos, um idiota? O que  feito da considerao por mim e pelos meus sentimentos?

O que mais desejo disse Claude, aproximando-se mais de mim  cuidar dos teus sentimentos. Anda, vamos ter com os outros.

Prefiro ficar aqui, Claude declarei, depois de suspirar fundo.

Claude sacudiu a cabea.

Tu nunca hs-de fazer amor comigo, pois no?

No tenciono enveredar por esse caminho s para impedir que uns midos do liceu me considerem uma idiota. Ter de ser por algo mais importante.

Claude anuiu. Reparei que tinha os olhos ligeiramente raiados de vermelho.

Acho melhor devolveres-me o meu anel disse-me. Andares com ele pendurado ao pescoo  um desperdcio.

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Senti o corao a bater fortemente pelo facto de aquele episdio to infeliz e desagradvel estar a passar-se logo naquela noite.

Ento? insistiu ele. Como  que vai ser? Desprendi a corrente que usava ao pescoo com o anel de

Claude enfiado e entreguei-lho.

Admirado, agarrou rudemente nele.

O que eu devia era ter dado ouvidos aos meus amigos, que bem me diziam que tu s tens crebro, mais nada. Se calhar depois de cada um dos nossos encontros foste 
para casa e escreveste um relatrio, no?

Claro que no retorqui.

Sinto pena de ti continuou Claude, abanando a cabea. Ests sempre a dissecar as pessoas. O que te aconteceu? Tiraste a temperatura e concluste que esta noite era 
a tua ovulao? perguntou ainda, contorcendo os lbios num esgar sarcstico.

As suas palavras eram como dardos dirigidos ao meu corao. As lgrimas teimavam em sair; porm, jamais me permitiria chorar  frente dele.

Vens, Claude? perguntou Diane Ratner, arqueando os ombros sugestivamente.

Podes crer que sim respondeu-lhe Claude, sorrindo. A seguir rodeou-lhe a cintura com um brao e apertou-a fortemente contra si. A rapariga soltou uma risadinha de 
prazer e lanou-me um olhar de satisfao. Quase podia ouvi-la a dizer com jactncia: "Podes muito bem ser a melhor da classe e at podes ser dona desta casa enorme 
e desta festa sumptuosa, mas quem fica com o teu namorado sou eu."

Satisfeita? perguntou-me Claude.

Sim. Se isso  o que consideras o mais importante, nesse caso estou satisfeita. Tomei a deciso certa respondi.

O sorriso dele desvaneceu-se rapidamente.

Volta para o meio dos teus livros disse-me com risPidez.

E que sejam bem inspidos acrescentou Diane.

As risadas ficaram a pairar no ar enquanto se juntavam aos outros e depois se dirigiam para a porta da frente. Catherine veio ter apressadamente comigo.

Que ests a fazer?

- O mais sensato respondi. Ao ver que sacudia a cabea e olhava para os colegas, acrescentei: Vai com eles, no te preocupes comigo. Estou bem.

- Era suposto esta ser a noite da tua libertao lamentou Catherine.

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Todos ns temos maneiras diferentes de nos libertarmos, acho. Porque permitiste que elas destrussem o meu discurso? Pensava que ramos amigas.

Foi s uma brincadeira. Eu tinha a certeza de que no te faria falta respondeu Catherine, evitando o meu olhar.

Os amigos protegem-se uns aos outros, mas se calhar para isso  preciso ter uma certa maturidade acrescentei secamente.

Dessa vez olhou para mim, furibunda.

J no sei o que pensar de ti, Pearl. Talvez sejas demasiado convencida para conviveres connosco. Estou desiludida acrescentou, virando-se e correndo atrs dos outros.

Vi-os sair de casa e, por um momento, toda a msica, todas as conversas e risos se desvaneceram. S ouvia as palavras furiosas de Claude e as de desiluso de Catherine.

Mordi o lbio inferior e reprimi os soluos que ameaavam escapar-me. Apesar de ter comido, sentia um vazio no estmago. Seria eu demasiado presunosa, excessivamente 
intelectual. Olhei de novo para a minha festa. Todos estavam a divertir-se e o meu pai parecia extremamente feliz e satisfeito. A minha me conversava com umas amigas 
da galeria. Todos os meus colegas j se tinham retirado. Porque estaria eu, numa noite que imaginara to maravilhosa, a sentir-me to deprimida? Sa apressadamente 
por uma porta lateral e percorri, em passos lentos, o ptio, em direco  piscina e ao jardim, deixando para trs o som alegre das risadas, da msica e das conversas.

Cruzei os braos e, de cabea baixa, caminhei lentamente. De repente, os gmeos e dois amigos seus saltaram do meio das sebes para a minha frente, gritando ao mesmo 
tempo: "Buu!"

Ponham-se a andar daqui para fora! gritei-lhes asperamente.

Pierre ficou de boca aberta, mas Jean continuou a rir-se

Estvamos s a brincar, Pearl justificou-se Pierre.

Agora no estou com pacincia para vos aturar. Deixem-me em paz! gritei-lhes de novo.

Desculpa, Pearl pediu Pierre. Agarrou no brao de Jean. Anda, vamos ver se arranjamos gelado.

O que se passa com ela? perguntou Jean, confuso.

Anda ordenou Pierre.

Embora Jean fosse mais forte, obedeceu ao irmo, e os quatro desandaram rapidamente de volta a casa, deixando-me sozinha com as minhas angstias.

No alto, o cu que estivera praticamente lmpido e cheio 
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de estrelas comeava a enevoar-se progressivamente. Era como se as nuvens estivessem a ser atradas de um horizonte para o outro como duas cortinas escuras gigantescas, 
destinadas a bloquear o cu e tambm a felicidade que eu sentira naquele dia. Instalei-me numa cadeira comprida e fiquei a ouvir os sons da cidade que chegavam at 
s paredes da nossa casa.

H algum problema, Pearl? ouvi algum perguntar pouco depois. Levantei a cabea e vi a minha me ao meu lado, no meio da penumbra.

No, no h.

Colocou-se sob o plido fulgor das luzes que iluminavam o ptio.

Conheo-te bem, querida, e tu sabes que quando ests triste dou logo por isso declarou.

Nada mais verdadeiro. s vezes havia uma ligao to grande entre ns que o meu pai abanava a cabea de incredulidade.

Trouxe-te dentro de mim continuou. Estivemos demasiado unidas para que no nos apercebamos dos sentimentos mais ntimos uma da outra. O que aconteceu?

Encolhi os ombros.

Eu disse que no e foram-se todos embora. Acham que eu sou uma presunosa e no passo de um crebro.

Ah, compreendo. Sentou-se ao meu lado, na escurido crescente, com o rosto oculto na sombra, o que no impediu que os seus olhos captassem um pouco de luz e luzissem 
de ternura e compreenso. Sei que, para ti,  penoso afastar os amigos, mas tens de fazer aquilo que o teu corao manda. Depois de um silncio, prosseguiu: Em tempos, 
j l vo muitos anos, disse que no e acho que foi por isso que salvei a minha vida.

A srio? O que aconteceu?

A minha irm e um namorado apareceram de carro e convidaram-me a acompanh-los. Tinham andado a fumar charros e eu vi que estavam nas nuvens, rindo tresloucadamente. 
Tambm eles acharam que eu era uma desmancha-prazeres e lembro-me de ficar a pensar se no haveria algo de errado em mim, quem sabe se era demasiado adulta para 
a minha idade.

Foi nessa noite que ocorreu o acidente que deixou a Gisselle aleijada?

Sim, e matou o rapaz. No quero com isto dizer que aconteam sempre coisas terrveis, mas tens de seguir o teu instinto e acreditar em ti mesma.

Estar com o Claude tinha, de vez em quando, a sua graa.

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 o rapaz mais popular do liceu, mas os meus sentimentos por ele no so suficientemente profundos. A verdade  que ainda no senti nada de muito intenso por nenhum 
rapaz, me. No  esquisito? Serei demasiado fria e analtica?

Claro que no respondeu a minha me, rindo. Porque hs-de envolver-te seriamente com algum, se ainda s to nova?

Aconteceu contigo declarei de imediato, arrependendo-me logo a seguir.

No meu caso no foi bem assim, Pearl. Tive um tipo de vida completamente diferente. J te falei nisso. A minha infncia foi curta. Quem me dera ter tido mais tempo 
para ser jovem e despreocupada.

Mas apaixonaste-te pelo pai assim que o conheceste, no  verdade?

Acho que sim.

Apesar da escurido, consegui ver o pequeno sorriso que esboou.

Foi alm, naquela cabana do jardim, que demos o nosso primeiro beijo, um beijo que mudou a minha vida. Mas isso no quer dizer que tenha de ser assim com todos, 
sobretudo contigo continuou rapidamente. Vais ter uma carreira e irs dedicar-te a questes mais importantes do que a maioria das tuas amigas.

E isso  bom? perguntei a mim mesma em voz alta. No me escapar assim algo de especial?

No creio, querida. Estou convencida de que ests destinada a coisas superiores e que, quando te apaixonares por algum e esse sentimento for recproco, essa relao 
ser muito mais intensa do que possas imaginar agora.

Quase tenho vontade de ir  Marie Laveau, do French Quarter, pedir-lhe que me d uma poo de amor disse, fazendo rir a minha me.

Quem foi que te falou nisso? No me digas que fui eu acrescentou rapidamente.

No, fui eu que li algures. Nunca fizeste nada do gnero, pois no?

No, mas de vez em quando acendia uma vela ou a Nina Jackson fazia-o por mim, mantendo assim afastados os espritos maus que pensava estarem a assombrar-me. Imagino 
que aches um disparate. Se calhar at .

No fao ideia, me. Quem sabe se eu no me sentiria mais feliz, se fosse menos... cientfica e sria observei. As minhas amigas de certeza que gostariam mais de 
mim.

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Que disparate! No deixes de ser quem s s para agradar aos outros aconselhou-me a minha me

Ei, chamou o meu pai da entrada da porta que deitava para o ptio. Ests a fora, Ruby?

Estou sim, Beau

Alguns amigos esto de sada e querem despedir-se de ti

J vou

h algum problema? perguntou o meu pai ao ver que eu estava junto da minha me

No

Parou por momentos, cptico

Tm a certeza?

Estou bem, pai disse-lhe J entramos. Levantei-me e a minha me ps um brao  minha volta

Ests bem de verdade? assegurou, apertando-me contra ela. Tenho orgulho em ti no s porque foste a melhor da classe e fizeste um discurso maravilhoso, mas tambm 
porque s sensvel e sensata. No sabes como  bom ter uma filha na qual se pode confiar totalmente

Obrigada, me

Beijei-a na face e senti o cheiro do seu cabelo e do perfume que usava, o que me tornou mais leve. Eu era uma pessoa cheia de sorte e decidi no permitir que, fosse 
o que fosse, ensombrasse aquele dia e aquela noite inesquecveis

Depois de os convidados se retirarem, os gmeos choramingaram, implorando-me que abrisse os presentes. A minha me ainda quis mand-los para a cama, porm, o meu 
pai disse que era uma noite especial e podiam ficar a p at um pouco mais tarde. Fomos, portanto, para a sala de estar, onde eu desembru lhei alguns dos presentes

Havia roupas para eu usar na faculdade e alguns livros de especialidade caros. O Dr Poitier e a mulher tinham-me oferecido a ultima edio da Anatomia, de Gray

Os gmeos depressa se fartaram dos meus presentes. Recostaram-se no sof enorme, um de encontro ao outro, Pierre com o brao por cima dos ombros do irmo. Este esforava-se 
para no fechar as plpebras e deixar-se vencer pelo sono. A certa altura, o meu pai abanou-os e mandou-os para a cama. Como no lhes restavam foras para resistir, 
l foram, trpegos. Ele levou-os at ao andar de cima e a minha me foi atrs para se certificar de que ficavam bem

O primeiro a voltar foi o meu pai. Feliz, princesa? perguntou-me.

Claro, pai

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No meu tempo, foi o dia mais feliz da minha vida contou-me

No foi, no, pai

Que dizes?

O dia mais feliz da tua vida foi aquele em que conheceste a me

O meu pai riu-se

Isso foi diferente

Mas foi o teu dia mais feliz, no foi?

Na altura no me dei conta, mas o certo  que foi. Encontrei-a pela primeira vez mesmo em frente desta casa, e pensei que fosse a irm dela mascarada

Quando  que um homem sabe quando est apaixonado pai? Ser que ouve o toque de sinos na sua cabea?

Sinos? Sorriu. No me lembro de sinos, s de todas as manhs, ao acordar, o meu primeiro pensamento ir para a tua me. Fitou-me. Problemas com o Claude?

Acenei que sim com a cabea

A resposta  simples, Pearl, s demasiado madura para ele

Se calhar sou demasiado madura para todos os rapazes da minha idade

 possvel

Isso significa que s serei feliz com um homem muito mais velho?

No, respondeu o meu pai, rindo No, necessariamente E no tragas aqui a casa algum que tenha idade para ser teu pai advertiu-me

Depois de um abrao, subimos ao andar de cima. Ao chegarmos  porta do meu quarto, deu-me um beijo na testa

Boa noite, princesa disse-me

Boa noite, pai

Quando estava a abrir os presentes l em baixo disse-me, pareceu-me ver algo em volta do teu tornozelo.  o que eu penso? Ao ver-me acenar afirmativamente com a 
ca bea, acrescentou. Bem, dizem que, quando se acredita em algo com muita convico, isso no deixar de acontecer. Estarei certo?

Deu-me mais um beijo e eu entrei no meu quarto. A minha me tambm veio dar-me as boas-noites. Contei-lhe que o meu pai vira a moedinha

Agora vai passar a vida a meter-se comigo disse-me Mas no me importo. Vi a minha av fazer coisas que desafiavam a razo e a lgica

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tens?

- Ainda tens muito para me contar sobre o passado, no

Pois tenho admitiu tristemente.

Mas a partir de agora irs faz-lo, no  verdade? O que h de bom e de mau. Prometes?

Esta noite pensa apenas nas coisas boas, querida. Temos muito tempo para falar nas ms.

Beijou-me, ficou a olhar para mim durante um bocado com o seu sorriso anglico nos lbios e depois saiu.

A noite fazia chegar msica at mim: cornetas, saxofones, trombones e baterias. Nova Orlees era uma cidade que detestava dormir. Era como se receasse que, se adormecesse, 
os espritos e os fantasmas que pairavam no outro lado do riso, da msica e das canes pudessem ficar livres para deambular pelas ruas e invadir os nossos sonhos.

Em casa de Lester, era provvel que Claude estivesse a dar a Diane os beijos que era suposto destinarem-se a mim.

Os meus beijos estavam em suspenso,  espera do meu amante misterioso. Mas talvez isso tambm no passasse de um sonho. Se calhar eu nunca viria a saber o que era 
o amor. Talvez uma daquelas maldies deixadas  entrada da nossa porta se destinasse a mim.

Peguei no medalho oferecido pela minha tia Jeanne, que colocara em cima da mesinha-de-cabeceira, e abri-o, ficando a olhar para a fotografia que me mostrava em 
criana, ao colo do tio Paul. O amor tambm podia significar sofrimento, pensei.

Chegara ao fim do liceu como a melhor aluna da classe; no entanto, achava que pouco sabia. Fechei o medalho, apaguei a luz e fechei os olhos.

Finalmente adormeci ao som dos aplausos que recebera ao chegar ao fim do meu discurso, dizendo: "O dia de hoje representa um comeo e o comeo significa o incio."

Seria o princpio da minha felicidade e do xito ou o incio da solido e do erro?

No olhes para baixo dissera-me a minha me um dia. Faz de conta que caminhas sobre uma corda bamba; portanto, no baixes os olhos, mantm-nos fixos em frente. Tens 
de confiar mais em ti mesma, Pearl.

Era o que tentaria fazer.


3

UM MUNDO DE NOVIDADES E EXPECTATIVAS

o primeiro dia oficial de Vero nasceu excepcionalmente quente. A temperatura subiu to alto e a humidade foi to intensa que pareceu-me ver gotinhas a formarem-se 
no ar, mesmo  minha frente. S precisava de percorrer alguns quarteires para apanhar o elctrico que me levaria at ao Hospital Broadmoor General, onde passaria 
a trabalhar, mas, quando entrei na viatura, levava a roupa encharcada e sentia o cabelo colado  testa e  cabea. As pessoas iam todas com um ar prostrado devido 
ao calor e  humidade, sentadas nos seus lugares com olhos mortios e rostos fatigados, ansiosas por chegar aos seus locais de trabalho com ar condicionado. At 
a ramagem frondosa dos carvalhos, habitualmente altaneira e rgia, tinha um ar cado e exangue, com as folhas a pender tristemente. Os pssaros, que habitualmente 
esvoaavam por ali cheios de vivacidade, pareciam embalsamados e presos aos ramos na sua tentativa de poupar energia.

No entanto, apesar do tempo que fazia, eu mal podia conter a minha animao. Embora soubesse que pouco mais deveria esperar alm de ajudar as enfermeiras e executar 
pequenas tarefas a mando destas, ainda assim estava ansiosa por lidar de perto com o pessoal mdico e ver e ouvir falar do tratamento dos doentes. Na verdade, pela 
primeira vez na minha vida, faria parte desse mundo misterioso onde mdicos e enfermeiras determinariam, com sabedoria, conhecimentos e talento, os tratamentos que 
curariam pessoas e salvariam vidas. No me era muito difcil compreender por que razo os parentes cajuns da minha me acreditavam no poder curativo dos traiteurs. 
Embora a medicina fosse uma cincia, na cabea da maioria das pessoas eles eram magos. Escutavam e olhavam para dentro de ns para descobrir onde os nossos corpos 
estavam avariados e que inimigos minsculos nos tinham invadido para nos prejudicar,

o Broadmoor General fora construido sobre um outeiro
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verdejante. Na frente do edifcio erguiam-se dois pltanos altos e frondosos, enquanto baixas de cenouras-brav as se estendiam ladeando o caminho de acesso. Os jardins 
estavam repletos de azleas, rosas amarelas e vermelhas, assim como hibiscos. O jardim-da-wrgima estendia-se ao longo do rs-do-cho e as glicnias cor de prpura 
espreitavam pela cerca de ferro. Ao longe, ` direita, havia um pequeno lago, de guas cor de ch escuro

O edifcio original resumira-se a uma manso confiscada pelo Exrcito Confederado durante a guerra civ il e depois convertida em hospital de urgncias Com o decorrer 
dos anos, as instalaes foram ampliadas e modernizadas, mas no eram as maiores da cidade. Apesar de tudo, o meu pai achara que eu lucraria mais em trabalhar num 
hospital pequeno, pois conseguiria estabelecer uma ligao mais pessoal. O elctrico parou a um quarteiro de distncia e eu dirigi-me rapidamente para a entrada 
da frente. O vestbulo, comparado com o dos hospitais modernos da cidade, podia considerar-se pequeno. Os velhos candelabros tinham sido substitudos por luzes fluorescentes 
compridas e de aspecto anti-sptico, e as paredes, em tom creme, haviam sido pintadas de fresco. O cho de mosaicos acabara de ser esfregado e um pequeno letreiro 
avisava que era escorregadio. Parei no balco da recepo a perguntar onde ficava o gabinete do pessoal. Uma senhora idosa, de uniforme cor-de-rosa, indicou-me o 
pequeno corredor  direita e disse-me que era na primeira porta  esquerda.

Deparei com uma mulher alta e de cabelos escuros, que fechava ruidosamente gavetas de arquivo enquanto mantinha os olhos numa fotocopiadora em funcionamento. Ao 
voltar-se para ver quem entrara no gabinete, reparei que tinha uma pequena mancha de tinta azul no queixo. No mnimo com um metro e oitenta de altura, possua umas 
feies vincadas e ossudas. Notavam-se as clavculas salientes sob a blusa azul-escura. e tinha os braos compridos e as mos esguias

O seu sorriso resumiu-se a um quase imperceptvel esgar dos lbios, que formavam uma linha vermelho-parda a rasgar-lhe o rosto. Franziu o nariz fino e abriu muito 
os olhos castanhos baos, cujas plpebras tinham estado quase completamente descidas. Respirou penosamente, como quem precisa de inalar ar suficiente antes de conseguir 
fazer sair sons vocais

Sim' disse em tom imterrogativo, sem disfarar o aborrecimento que sentia por ser incomodada

Procuro Mistress Morgan declarei

Est a falar com ela

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Bonjour\ Chamo-me Pearl Andreas e venho apresentar-me ao trabalho informei. Mister Marbella, o administrador do hospital, disse para me dirigir aqui mal chegasse.

Tem de preencher esses papis informou a mulher, apontando para uma pequena mesa estreita  minha direita, sobre a qual se viam resmas de impressos.

Isto tudo? perguntei, admirada.

Comece a partir da direita e preencha uma folha de cada um dos trs montes. No se esquea de pr o seu nmero da Segurana Social. S com ele  que poderei enviar 
a sua inscrio para o departamento financeiro para eles poderem emitir o seu salrio. E veja se o escreve correctamente.

Com certeza.

Assim que der isso por terminado, v ao segundo andar ter com Mistress Winthrop.  a enfermeira-chefe deste turno. Pode ir pelas escadas que ficam ao fundo do vestbulo 
e depois voltar  direita. Ela fornecer-lhe- o uniforme e explicar-lhe- o que tem a fazer.

Sim, senhora.

O uniforme no passa a ser propriedade sua elucidou Pertence ao hospital. Pode lev-lo para casa se quiser, mas tem de se responsabilizar por mant-lo limpo e em 
bom estado. Ser retirado um depsito de dez dlares ao salrio da sua primeira semana.

Inclinou-se sobre a secretria e olhou para os meus ps.

Hoje ainda pode andar com esses tnis, mas a partir de amanh ter de usar sapatos brancos com sola de borracha. Esto  venda na Casa de Equipamento Mdico, na 
Canal Street. So por sua conta.

Compreendo retorqui.

A mulher voltou a suspirar fundo. Dessa vez deu a impresso de que o seu corpo simplesmente desfalecia dentro da blusa e da saia, cuja bainha quase rasava o cho 
quando se punha de p.

 o seu primeiro emprego? perguntou.

Bem, de facto...

Explicar-lhe-ei tudo sobre seguros, reteno na fonte, assistncia mdica e medicamentosa... depois de preencher os impressos informou, sacudindo a cabea a seguir. 
Tenho a minha assistente outra vez doente. Normalmente  ela quem trata das entradas de pessoal. Trabalha num hospital e anda constantemente doente acrescentou. 
Eu, h doze anos que no falho um dia, mas hoje em dia as pessoas j no encaram o trabalho da mesma maneira. A gente nova  muito negligente quando se trata de 
responsabilidades.

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- Comigo no  assim - esclareci. - Para dizer a verdade, sinto-me at entusiasmadssima por vir trabalhar aqui este Vero. Vou tirar medicina, sabe.

-A srio? - Mordeu o interior da bochecha e inclinou a cabea. - Pois eu nunca consultei nenhuma mdica e se calhar nunca o farei. - Endireitou a cabea bruscamente 
e indicou a secretria, como se algum lhe tivesse dado um belisco a lembr-la de que estava no trabalho. Apontou para as pilhas de questionrios com o longo indicador 
da mo direita. - Quanto mais depressa os preencher, mais cedo comear a ganhar. Todos os dias tem de vir picar o ponto alm - indicou a parede em frente. - No 
final do dia terei o seu carto de ponto preparado. Quanto ao dia de hoje, tomarei nota da altura em que comear a trabalhar a srio. No espere que lhe contem o 
tempo que vai passar a preencher os papis.

- Claro que no - retorqui, dirigindo-me para os ditos. Assim que acabei de os preencher a todos, entreguei-os  funcionria, que desatou a matraquear informaes 
sobre a forma como eu iria receber o meu salrio, explicando tudo com tamanha rapidez que mal tive tempo para ouvir, muito menos para compreender.

Por fim inclinou-se para mim, franziu os lbios por instantes e declarou:

- Faa o seu trabalho, no meta o nariz no que no lhe diz respeito e tudo correr bem.

- Obrigada - agradeci.

A mulher voltou a recostar-se e indicou a porta. Apressei-me a sair e a subir as escadas at ao segundo andar. o posto das enfermeiras ficava quase no meio do corredor. 
Uma delas, com cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho encaracolado e olhos azuis amistosos, voltou-se para mim quando me aproximei. A seu lado estava uma rapariga 
negra, baixa, magra e com uns olhos pretos enormes.

- Procuro Mistress Winthrop - disse. - Chamo-me Pearl Andreas.

- Ah, sim, minha querida. Sou Mistress Winthrop. Temos estado  sua espera. A Sophie ir consigo  rouparia para lhe arranjar um uniforme - disse, indicando a jovem 
negra esguia, que parecia no ter mais de dezasseis anos, usava o cabelo muito curto e tinha uma minscula cicatriz  esquerda do maxilar inferior.

Deu rapidamente a volta do balco. -Por aqui - disse.

Olhou para mim sem disfarar, percorrendo-me dos ps 
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cabea. Quando nos afastmos o suficiente do balco para que no nos ouvissem, perguntou-me:

Por que razo quer ser auxiliar de enfermagem? Tem todo o ar de ser rica.

Quero trabalhar num hospital durante as frias de Vero porque espero tirar medicina respondi-lhe. Pretendo ganhar o mximo de experincia que puder.

Quer ser mdica? Durante quanto tempo precisa de estudar para se diplomar? inquiriu, com modos mais amigveis do que anteriormente.

So cerca de sete anos na faculdade de medicina e depois faz-se o internato num hospital. Quando puder praticar a minha profisso sozinha j estarei  beira dos 
trinta.

Temos connosco um desses.

Um desses qu?

Um interno.  o doutor Weller. Mas ainda no  mdico a srio. Ainda lhe faltam alguns anos.

Pois , so precisos muitos anos de trabalho rduo. Espero conseguir observei.

A jovem voltou a fitar-me com expresso duvidosa.

Tem a certeza de que quer ser mdica?

Claro que tenho.

Nunca encontrei nenhuma mdica por estas bandas.

Bem, quem sabe se eu no serei a primeira disse, sorrindo.

Sophie fitou-me por instantes com ar pensativo e depois franziu os olhos cepticamente.

J colocou uma arrastadeira em algum?

No.

J limpou vomitado?

Uma vez, quando um dos meus irmos teve uma indisposio de estmago repliquei.

Sophie inclinou-se para mim.

J viu sangue, montes de sangue? perguntou.

J vi sangue assegurei-lhe.

E tripas?

J dissequei animais e conheo o interior do corpo humano expliquei.

Sophie recuou, chocada.

Onde  que isso aconteceu?

No laboratrio do liceu. No passou pelo mesmo?

S estudei at ao nono ano contou-me, e no tnhamos laboratrio. Mas j limpei o de c; portanto, j vi sangue e tripas e j senti o cheiro de tudo isso.  preciso 
ter um

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estmago de ferro. Eu tenho. J nada me faz vomitar acrescentou orgulhosamente

Ainda bem repliquei. Se andasse sempre enjoada, ser-lhe-ia muito difcil vir trabalhar para aqui diariamente

Sophie acenou com a cabea

A outra rapariga, a que veio para c quarta-feira passada, ficou branca que nem cal e esteve meia hora a vomitar na casa de banho, antes de Mistress Wimthrop a mandar 
para casa. Ainda bem que apareceu, pois tenho andado com o dobro do trabalho desde que ela se foi embora

Prometo no vomitar declarei

Sophie mostrou-se satisfeita e conduziu-me  rouparia. Havia grande variedade de uniformes que, no entanto, me ficavam muito grandes ou demasiado pequenos. O que 
assentou melhor foi um que me apertava de tal maneira que no pude abotoar os dois primeiros botes da blusa

O que  isso em volta do seu tornozelo?  uma moedinha, no? perguntou Sophie

, sim  um amuleto de boa sorte. Por instantes, fitou-me com desconfiana

Quem foi que lhe deu isso?

A minha me, que por sua vez a recebeu de algum especial h muito tempo

A minha me diz que as pessoas que usam uma moedinha  volta do tornozelo praticam vudu

A moeda  um talism de boa sorte, um gris-gris, se  isso que quer saber, mas eu no pratico vudu

E a sua me?

Tambm no respondi, embora a rapariga continuasse a fitar-me atentamente

Que idade tem? perguntou Sophie

Dezassete. Farei dezoito daqui a dois meses. E a Sophie?

Quer a verdade ou o que as pessoas aqui dizem?

A verdade

Em Agosto fao catorze, mas eles pensam que vou a caminho dos dezassete. No conte a ningum advertiu

Esteja descansada

Vamos ter com Mistress Wimthrop

 o melhor uniforme que consegue encontrar para ela? perguntou-lhe a enfermeira imediatamente

Os outros so muito mais pequenos ou bem maiores, Mistress Wimthrop, explicou Sophie. Experimentmos todos

Acho que este  o que assenta melhor confirmei

Bem, pedirei a Mister Marbella para mandar vir mais

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uniformes. Agora que j aqui est, Pearl, dividiremos o piso entre si e a Sophie. A Pearl fica com os quartos que vo do duzentos ao duzentos e cinco e a Sophie 
encarregar-se- dos restantes. Consultou o relgio. Est na hora de levar sumo aos doentes e encher os seus recipientes de gua. A Sophie mostra-lhe onde esto as 
coisas.

Sophie conduziu-me at  cozinha, onde encontrmos outra enfermeira, esta muito mais nova, a conversar com um mdico interno. Estava sentado de costas voltadas para 
ns e ela encostara-se ao balco. Quando entrmos, riam.

Com licena disse Sophie, fazendo uma pequena vnia. Temos de comear a preparar os sumos.

A enfermeira esboou um sorriso afectado e afastou-se do balco. Li na sua chapa de identificao que se chamava Mrs. Crandle. Tinha cabelo castanho-claro, cortado 
pela nuca. olhos cor de avel e uma boca firme, cujos cantos estavam descados em sinal de aborrecimento. No era feia, mas tinha um nariz demasiado afilado e comprido. 
O interno deu meia volta na cadeira e sorriu alegremente ao ver-me.

Ora bem, quem temos ns aqui? perguntou.

 a nova auxiliar de enfermagem explicou Sophie. Chama-se Pearl.

Ento, viva saudou o mdico. Eu sou o doutor Weller. A minha me sempre achou que, com um apelido assim, eu no podia deixar de ir para mdico. Percebeu, no? Ponho 
as pessoas bem.

Riu-se. Mrs. Crandle, porm, fez uma careta, como se j no conseguisse ouvir a piada mais uma vez.

Viva retribu o cumprimento.

O mdico ergueu-se a toda a altura do seu metro e oitenta e estendeu-me a mo. Abriu mais o sorriso, mostrando-me duas fiadas de dentes alvos e perfeitos. Ao apertar-lhe 
a mo, os seus olhos brilharam maliciosamente. Rodeou-ma imediatamente com a sua. Possua a pele to branca como a minha e, como o cabelo era muito escuro, parecia 
um pouco plido de mais. O queixo saliente exibia uma covinha no meio e na bochecha da direita tambm se notava mais outra, que aparecia e desaparecia com os movimentos.

J era tempo de enfeitar esta casa observou, sorrindo de orelha a orelha e lanando um olhar a Mrs. Crandle, que ergueu os olhos para o tecto.

Era s o que nos faltava ripostou ela, mais um motivo para o distrair do seu trabalho.

No lhe ligue. Eu nunca me distraio de nada em que
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esteja empenhado asseverou, de olhos fixos em mim. Fez deslizar o olhar por mim e voltou ao ponto de partida, aparentemente satisfeito com o resultado da inspeco. 
E o uniforme?  aenfermeira mais sensual que j vi acrescentou

Foi o que me assentou melhor, mas principiei, sentindo o calor subir-me ao rosto, que ficou profundamente ruborizado

Ei, eu no disse que no lhe assentava bem declarou, rindo-se. Ainda no me largara a mo

Temos de ir levar o sumo aos doentes lembrei eu

Claro

Esboou novo sorriso divertido e largou-me a mo

Ela tambm vai ser mdica, informou Sophie

A srio?

 verdade respondi

Mdica, no enfermeira?

Olhei para Mrs Crandle, que me virara ostensivamente as costas ao ouvir a pergunta

Considero que as enfermeiras so igualmente importantes observei, mas estou interessada em praticar medicina fora do hospital

Ah, sim? Muito ambicioso. Ele franziu o sobrolho, cavando sulcos na testa. Em voz mais profunda, perguntou Que notas teve no liceu?

Fui a melhor da classe. Ergueu as sobrancelhas

Estou impressionado.  melhor termos cuidado com o nosso linguajar, Mistress Crandle gracejou

Eu diria que o doutor tem  de ter cuidado com todo o seu alfabeto observou a enfermeira. Tenho de ir colocar um soro. No tem nada para fazer, doutor?

Claro que tenho respondeu o mdico. Bem, desejo-lhe boa sorte, Pearl. Por favor, no hesite em fazer as perguntas que desejar props, seguindo, relutantemente, Mrs 
Crandle.

Est sempre na brincadeira observou Sophie. Mistress Crandle diz que h doentes dele que um dia ainda morrem de tanto rir. Isso das pessoas poderem morrer a rir 
 verdade? No creio respondi

A jovem no pareceu muito convencida mas anuiu com a cabea e depois mostrou-me onde os materiais se encontravam. Carreguei o meu carrinho e dei incio  minha ronda

No primeiro quarto, encontrei duas idosas, uma delas ligada a um monitor cardaco. No segundo, estava um homem com

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uma perna fracturada e, no terceiro, uma mulher de trinta e tal anos a fazer exames devido a um problema gstrico. Chamava-se Sheila e estava nitidamente muito nervosa 
e preocupada.

Tenho de jejuar durante um dia disse-me. Amanh de manh fao mais um exame.

Qual  o problema que tem no estmago? perguntei-lhe.

Sempre que como, fico com dores terrveis aqui  direita esclareceu, apontando.

Andam a fazer exames  sua vescula?

Andam. Como  que sabe? Aconteceu-lhe o mesmo? inquiriu a mulher, esperanosamente.

No, apenas sei que esse  o rgo que fica nesse stio e ser a que sentir dores se ele no estiver a funcionar devidamente. Mas no  obrigatrio que seja essa 
a razo acrescentei logo de seguida.

Eu sei observou a mulher cheia de pesar. Poder ser outra coisa qualquer, inclusivamente algo muito mais srio.

No fique preocupada, espere pelos resultados dos exames aconselhei-a. Na maioria dos casos,  mais imaginao do que outra coisa.

Fora o que ouvira o nosso mdico dizer  minha me numa ocasio em que Pierre e Jean tinham contrado uma tosse avassaladora. Sheila sorriu e eu arranjei-lhe a cama, 
tornando-a mais confortvel.

Quando ia a dirigir-me ao segundo quarto, vi o Dr. Weller  porta, com um pequeno sorriso nos lbios. Afastou-se para o corredor para que eu passasse, juntamente 
com o carrinho dos sumos.

Escutei o que disse. Inclinou-se para mim. Se Mistress Winthrop a ouve dar orientaes mdicas aos doentes, manda-a imediatamente para casa.

Eu no dei...

Levou-a a crer que o problema pudesse estar na vescula Isso no se faz observou, agitando o indicador. Depois desatou a rir. Na verdade acrescentou, encostando-se 
 parede, de braos cruzados, foi muito inteligente da sua parte passar as frias de Vero a trabalhar aqui no hospital. Bastar-lhe- andar por a a escutar o que 
se diz para aprender bastante

Foi o que pensei admiti.

Sabe, eu prprio ando sempre a estudar e a aprender. Estou a fazer o internato sob a superviso do doutor Bardot, que me pe constantemente  prova. Sorriu. Aposto 
em como pode ajudar-me acrescentou com ar pensativo.

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Eu? Como?

Apoiando-me nos estudos. Est a ver, fazendo-me perguntas, vendo se sei determinadas matrias. Tem uma agenda social muito preenchida?

- Agenda social?

Tambm pica o ponto com o namorado?

Ah No, j no, respondi.

- ptimo. Nesse caso talvez possa dedicar-me algum tempo. Garanto-lhe que tambm aprender muito acrescentou. E no me refiro a questes do foro mdico. Poderei 
ensinar-lhe a compreender o que deve esperar, a preparar as suas candidaturas e entrevistas Neste pas est a tornar-se cada vez mais difcil entrar para uma boa 
escola de medicina. Andam por a muitos alunos brilhantes a competir pelos mesmos lugares advertiu

Reflecti por momentos. Fora para aprender tudo aquilo que me propusera trabalhar ali.

Est bem concordei. Estuda durante os intervalos?

Oh, no. F-lo-emos depois do trabalho. Vivo perto. Aluguei um apartamento pequeno, para os lados da Universidade de Tulane. Foi l que tirei o meu curso. Est a 
pensar ir para essa?

Estou, sim respondi.

ptimo. Irei p-la ao corrente de todos os pormenores ligados ao mundo da medicina. Em que turno trabalha amanh?  o mesmo de hoje?

, sim.

Eu fico livre mais ou menos na mesma altura. Podemos comear imediatamente., isto, se concordar, claro props.

Hesitei. A perspectiva de trabalhar com um mdico interno agradava-me, mas porque me teria ele escolhido com tanta rapidez?

No preferia trabalhar com algum que j andasse em medicina? perguntei

Esses s querem estudar aquilo de que precisam. Voltou a sorrir. Hei, eu no lhe mordo e, mesmo que o fizesse, tratava-lhe da fenda, acrescentou, rindo. Mas se acha 
que no se sentir  vontade ou...

No, est tudo bem

ptimo. E no se preocupe com o regresso a casa, pois eu me encarregarei de a levar Se quiser, at lhe farei o jantar. Nada de sofisticado, claro. Ainda no tenho 
salrio de mdico. A verdade  que, e mais vale que fique desde j a saber, os internos so escravos mdicos Mas todos ns temos de aguentar O que for preciso para 
l chegar. At logo.

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Piscou-me o olho e afastou-se.

Fiquei sem saber se no teria concordado demasiado depressa em ajud-lo. Ele j era interno, eu provavelmente no entenderia metade das perguntas. O mais certo era 
eu desperdiar o tempo dele e o meu, pensei, mas enfim, isso j ele devia saber, o que no o impedira de querer que o ajudasse.

No estamos exactamente no stio mais prprio para sonhar acordada ouvi algum dizer

Voltei-me e vi Mrs Crandle parada  entrada do quarto seguinte, o que me competia.

Oh, desculpe disse, apressando-me

Sophie, quando me falara das dificuldades que podamos enfrentar como auxiliares, no exagerara. No quarto 205, um idoso sujara a cama e eu tive de limpar tudo. 
Devo ter engolido em falso uma centena de vezes e sustido a respirao durante uma hora, at terminar. Mrs Crandle obrigou-me a limpar tambm a base da cama e a 
esfregar o cho em volta da mesma

Sophie e eu tivemos de descer  lavandaria para trazer roupa lavada. Esvaziei meia dzia de arrastadeiras e limpei casas de banho. Achava que o meu primeiro dia 
no hospital passara sem problemas de maior e que j vira o tipo de trabalho que me esperava quando, pouco depois de o meu turno terminar, Mrs Conti, a idosa do quarto 
200, teve um ataque cardaco. Mrs. Crandle declarou o estado de emergncia e o Dr Weller veio a correr da outra ponta do corredor. Trouxeram um carrinho com um desfibrilhador 
Da seco de cardiologia, do terceiro piso veio um outro mdico. Apesar dos seus esforos laboriosos, o corao da velha senhora parara de vez

Mrs. Brennen, a sua companheira de quarto, chorava histericamente e teve de receber um sedativo. Pairava uma sombra de luto no rosto de todos. Eu encontrara Mrs 
Conti a dormitar quando lhe levara o sumo e mal abrira os olhos na altura em que voltara para lhe mudar a gua do copo e ver se precisava de mais alguma coisa Observara 
e escutara o seu monitor cardaco e Mrs. Brennen mformara-me de que Mrs Conti passara dez dias na unidade de cuidados cardacos antes de ser trazida para o segundo 
piso

Porque no continuou ela l em cima? perguntei, baixinho, ao Dr. Weller quando este saiu do quarto, suspensos os esforos de ressuscitao.

Mandaram-na para baixo h dois dias porque ela apresentava uma grande melhoria e precisavam do quarto para outro doente. Encolheu os ombros. Nem sempre  possvel 
prever uma situao destas acrescentou, esboando logo a seguir um sorriso desafiador. Ainda quer ser mdica?

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Olhei para o quarto onde a falecida ainda se encontrava. A famlia ainda no tomara conhecimento mas eu estava certa de que chorariam a sua morte e sentiriam a sua 
falta. Ao imaginar os filhos e os netos entristecidos, senti uma sensao de raiva dar-me volta `s entranhas. Se eu tivesse sido a mdica daquela mulher, no a 
teriam tirado da unidade de cardiologia

Mais que nunca repliquei

O mdico inclinou a cabea para trs e riu.Parece-me que a sua vocao  mesmo a valer. Algo me diz que encontrei a assistente de estudo certa. Olhou para trs, 
na direco do quarto, e suspirou. Tenho de ir tratar da papelada informou.  uma das tarefas do mdico que tambm no tardar a detestar

Provavelmente era ingenuidade minha, mas o certo  que no podia conceber nenhuma actividade relacionada com a prtica da medicina capaz de vir a detestar

No fizera grande coisa mas, quando o meu turno chegou ao fim, senti-me exausta. Dever-se-ia, sobretudo,  tenso do primeiro dia de trabalho e ao facto de ter visto 
algum morrer. Voltei a vestir a minha roupa e sa para o corredor na companhia de Sophie. Entramos no gabinete de Mrs Morgan para picar o ponto

Que tal se saiu? perguntou-me ela, olhando para Sophie

Ela saiu-se bem, muito bem mesmo respondeu a minha colega rapidamente. No chegou a vomitar

Mrs Morgan sorriu

Bom,  uma vitria. Aqui tem o seu carto de ponto. Pique-o  entrada e  sada de cada turno e no se esquea de comprar uns sapatos brancos lembrou-me.

Sin, senhora

Sophie e eu samos do hospital. A humidade mantinha-se mas o Sol descera o suficiente para baixar a temperatura

A minha me diz que eu tenho muita sorte em trabalhar num hospital com ar condicionado observou Sophie, enquanto seguamos pelo passeio

O que  que ela faz?

Trabalha numa lavandaria

E o teu pai?

__ Trabalha no Quarter.  cozinheiro. Ainda tenho duas irms na escola e um irmo que est na tropa. E tu?

Eu tenho dois irmos gmeos, com doze anos. Onde vives, Sophie?

No outro lado do Quarter. Apanho o elctrico na Canal Street.

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Espermos pelo elctrico juntas.

H quanto tempo trabalhas no hospital? perguntei-lhe.

H pouco mais de um ano.

No gostarias de voltar a estudar? Ainda tens muita coisa para aprender disse-lhe.

A jovem baixou rapidamente os olhos.

No posso declarou. Preciso de trabalhar.

Porqu? O teu pai no ganha bem como cozinheiro? Eu sabia que os cozinheiros do Quarter gozavam de muito

prestgio.

Sophie encolheu os ombros.

Se calhar ganha disse, mas no temos a certeza

O qu? Porque no?

Ele no vive connosco confidenciou-me a jovem, na altura em que o elctrico dava a volta  esquina.

Apressou-se a subir, eu sentei-me a seu lado e ficmos as duas a olhar pela janela, enquanto a viatura seguia pela rua fora.

Ele j nem sequer aparece l em casa continuou Sophie. Limita-se a mandar-nos algum dinheiro de tempos a tempos. Se quero v-lo, tenho de ir at ao restaurante, 
mas nem nessas ocasies ele dispe de muito tempo para conversar comigo.

Lamento proferi.

Quando o transporte chegou  minha paragem, levantei-me, e Sophie mostrou-se muito impressionada.

Vives no Garden District?

Vivo.

Eu nunca passei por esse stio, nem sequer a p confidenciou-me.

Talvez um dia possas vir jantar comigo sugeri.

A srio? O sorriso que esboara desvaneceu-se. Normalmente tenho de ir para casa ajudar a minha me.

Se calhar consegues dar um jeito alvitrei. at amanh. Obrigada por me ajudares a comear.

At amanh respondeu.

Quando cheguei a casa, todos quiseram saber como decorrera o meu primeiro dia de trabalho. Quando descrevi algumas das tarefas de limpeza que tivera de fazer, os 
gmeos esboaram uma careta, mas, quando lhes falei da morte de Mrs. Gentios olhos luziram-lhes de interesse.

Vista uma mulher morta? perguntou Pierre.

Vi.

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Tocaste nela? No

Cheirava mal?

- Acho melhor mudarmos de assunto at acabarmos de jantar sugeriu o meu pai. No achas, Pearl!?

Claro que sim, pai

Continuei a conversa, falando-lhes de Sophie, porm, os gmeos s estavam interessados na falecida Mrs Conti. Quando referi o Dr Weller ao meu pai, este endireitou-se 
e olhou para a minha me

Mal acabou de te conhecer e j quer fazer-te o jantar? perguntou, admirado

Acho que deve ser por s irmos estudar depois do trabalho. Porqu?

O meu pai pareceu atrapalhado

Certamente deve ter ficado impressionado com a Pearl e com o facto de ela mostrar tanto interesse pela medicina balbuciou a minha me

O meu pai reflectiu por um momento e depois descontraiu-se

s capaz de ter razo, Ruby Normalmente tens, no que se refere s pessoas. A tua me vai fazer mais uma exposio daqui a quinze dias acrescentou orgulhosamente. 
O teu retrato far parte dela

Que maravilha, me

Conversmos sobre o trabalho artstico da minha me e, depois de uma sobremesa de leite-creme, o meu pai levou-me a comprar uns sapatos brancos de sola macia, enquanto 
a minha me seguia para o seu estdio

Bem principiou o meu pai, dentro do carro, agora que j tomaste contacto com a realidade, que achas?

Acho que desejo ser mdica ainda mais que antes, pai. Ele acenou com a cabea

O que foi que, na verdade, te fez desistir, pai? perguntei-lhe uma vez mais

Sabia que a famlia tinha dinheiro para ele tirar o curso de medicina e que ele obtivera notas para tal

A minha famlia andava preocupada comigo, sobretudo depois de a tua me engravidar E eu no me sentia nada bem por abandonar a Ruby Durante algum tempo, tornei-me 
autodestrutivo. Bebi muito enquanto estive na Europa e desperdicei tempo e talento Depois

Fez uma pausa e eu reparei que se deixava dominar por determinada recordao

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E depois soube que a Ruby casara com o Paul. Enchi-me de pena de mim prprio, faltei s aulas e desperdicei tempo. At que, certa manh, bateram  minha porta. Quando 
a abri, deparei com a tua tia Gisselle. Por instantes pensei que fosse a Ruby, to parecidas eram de rosto. Deixei-me guiar pela imaginao e a tua tia Gisselle 
encorajou as minhas iluses. O resto j tu sabes: a Gisselle e eu casmos, eu regressei e empreguei-me nas empresas Dumas.

" por isso que tenho tanto gosto em que sigas a carreira que eu desperdicei disse ele, voltando-se para mim com os olhos marejados de lgrimas. Tenho a certeza 
de que sers uma mdica esplndida, Pearl.

Farei por isso, pai retorqui com o corao a doer-me e tentando conter as lgrimas. Podes crer que sim.

Quando chegmos a casa, os gmeos imploraram-me que lhes contasse mais pormenores acerca da morte de Mrs. Conti e do que eu sentira diante de um cadver. Por fim, 
fui buscar alguns dos meus livros de anatomia e deixei-os a ver as gravuras. Ficaram fascinados com o que tinham dentro do corpo, mas Jean mostrou-se igualmente 
perturbado.

Ainda bem que temos a pele a cobrir tudo observou. Assim no temos de olhar para o que est por baixo.

Pierre riu, mas eu fechei os livros e dei-lhes uma aula sobre as maravilhas do corpo humano.

O corpo humano  uma das criaes mais perfeitas do Universo expliquei.

Se  assim to perfeito, porque  que adoecemos? quis saber Jean.

 perfeito, mas no invulnervel respondi. O gmeo fez uma careta de incompreenso.

Ela quer dizer que no pode impedir que os micrbios entrem pelo teu nariz e boca dentro explicou Pierre. A no ser que andes por a com uma mola no nariz e uma 
tira de fita adesiva na boca. Mesmo assim podiam entrar-te pelos ouvidos. No , Pearl?

Nesse caso tambm tapamos as orelhas.

Depois no podes ouvir contrariou Jean.

Ento andamos sempre doentes concluiu Pierre tristemente.

 por isso que precisamos de mdicos, no , Pearl? perguntou Pierre.

Sorri.

, sim, Pierre.

Os mdicos no puderam impedir que Mistress Conti morresse? perguntou Jean.

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-Ela era idosa. O seu corpo j estava cansado...                                 Estava gasta, como as nossas bicicletas explicou Pierre. Jean concordou com um aceno 
de cabea e, de repente, sorriu, esfuziante.

Teremos uma mdica a viver connosco e a impedir que adoeamos constantemente. Ser a Pearl.

Ri-me.

Ainda falta muito, Jean.

Alm do mais, no morar connosco. Ficar mais crescida, casar e ter filhos seus. explicou Pierre

O sorriso de Jean desvaneceu-se.

Apesar disso, prometo que cuidarei de vocs os dois declarei, o que devolveu a animao ao rosto de Jean. Agora vo para cima e preparem-se para ir para a cama. 
Todos, sobretudo aqueles que a cada dia que passa crescem mais um bocadinho, precisam de descansar.

Mas...

Caso contrrio, os rgos que tm dentro do corpo engelharo ameaou Pierre

Jean esbugalhou os olhos e voltou-se para mim

No, no  verdade sosseguei-o. Bom, vo andando. Puseram-se de p num pulo.

Boa noite, Pearl disse Pierre.

Boa noite, Pearl repetiu Jean, sorrindo maliciosamente. Espero que no tenhas nenhum pesadelo com Mistress Conti

Pierre empurrou-o para fora da sala e os dois correram escadas acima, rindo

Pouco depois, eu seguia o seu exemplo. Acabara de me meter debaixo dos cobertores quando o telefone tocou. Era Catherrine. J no falvamos desde a noite da entrega 
dos diplomas aos finalistas. Senti frieza na sua voz. J no havia a afabilidade e o entusiasmo que em tempos pautara a nossa amizade.

Comeaste a trabalhar no hospital? perguntou-me

Hoje mesmo

Como  que foi? inquiriu com pouco ou nenhum interesse.

Estou convencida de que aprenderei muito respondi. Um mdico interno pediu-me que o ajudasse nos estudos

Ah, sim? Como  que ele ?

No  o que ests a imaginar. S precisa de algum que o ajude a manter-se a par de todas as inovaes. Na verdade, um interno ainda  um estudante. E para mim tambm 
 uma grande oportunidade

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Ainda bem. Passado um momento, acrescentou: Ainda esto todos furiosos contigo por no teres ido a casa do Lester. Acham que no passas de uma snobe.

No pretendo concorrer a nenhum cargo poltico declarei secamente.

No devias esquecer-te de quem so os teus verdadeiros amigos disse Catherine, apesar de seres a rapariga mais inteligente do liceu.

Nunca me esqueci deles mas, como j te disse, os amigos verdadeiros protegem-se e olham uns pelos outros.

s vezes estamos na berlinda, Pearl. No achaste a tua reaco exagerada?

No.

Catherine ficou calada durante algum tempo e depois decidiu atacar em fora.

O Claude divertiu-se imenso com a Diane. Foram para um dos quartos das visitas e s de l saram de manh. Agora namoram a valer.

Nesse caso talvez tenha sido o destino comentei. Catherine suspirou de frustrao.

Juro que s a pessoa mais difcil de fazer amizades que eu conheo concluiu.

Por instantes, fiquei sem saber o que lhe dizer. Teria ela razo? As questes que interessavam  maioria das raparigas da minha idade pareciam carecer de importncia 
para mim. Seria uma maldio ou uma bno?

Seja como for, vou passar as frias de Vero fora. No te verei durante trs semanas. Imagino que pouco te importes com isso.

Eu disse que fiquei desiludida com o que aconteceu e com o que tu disseste, Catherine, mas espero que compreendas o meu ponto de vista e que continuemos a ser amigas.

E eu espero que o nadador de servio  praia que conheci o ano passado ainda l esteja. Achou que eu era demasiado nova para ele, mas pode ser que este ano mude 
de ideias

Que idade tinha?

Vinte e trs. J sei, consideras que  demasiado velho para mim disse rapidamente.

No, no creio que seja demasiado velho para ti.

A srio? Eu tambm acho que no. Baixou o tom de voz. Mas os meus pais no vo ficar nada satisfeitos. Que pensariam os teus?

No sei respondi, mas creio que, se gostssemos verdadeiramente um do outro, no se aborreceriam.

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A tua me  muito compreensiva. Bem, se calhar mando-te um postal.

Ficarei contente, Catherine.

No te enganes a dar os comprimidos aos doentes recomendou-me.

No estou autorizada a dar medicamentos. Sou uma simples auxiliar.

Bem, ento no te enganes no auxlio que deres insistiu Catherine, rindo-se. Olha, desculpa o que se passou. Se calhar at tiveste razo. Talvez as raparigas tenham 
ido longe de mais e eu devesse ter-te avisado logo, mas no queria que depois tambm ficassem a embirrar comigo.

Tambm?

Sabes do que estou a falar. Seja como for, j disse que lamento.

Est bem. Obrigada. Diverte-te.

Podes crer garantiu Catherine, desligando.

Deixei-me ficar sentada durante algum tempo, a pensar. Algures na minha cabea ouvi a voz de uma menina a tentar confortar-me, a esforar-se para me impedir de ser 
to sria. Era uma voz, no entanto, que comeava a desvanecer-se e j mal se ouvia.

Quer eu gostasse ou no, j estava completamente lanada no caminho da vida adulta. No me restava qualquer alternativa seno encarar a situao com calma e desfrutar 
o mais possvel dela.

Depois da conversa com Catherine no tardei a adormecer, mas cheguei a ter um pesadelo com Mrs. Conti. Vi-a abrir os olhos quando voltei ao seu quarto, uns olhos 
vtreos e leitosos. Depois pensei no Dr. Weller e no seu sorriso malicioso. "Ainda quer ser mdica?", desafiara-me.

"Mais que nunca."

Murmurei, a dormir:

Mais que nunca.


LIES DE VIDA

J que vamos ser colegas de estudo sugeriu o Dr Weller no dia seguinte, ao sairmos do hospital, mais vale que me trate por Jack. Fora daquela casa, doutor Weller 
 demasiado formal

Indicou o hospital com a cabea.

Jack?

Exactamente!  o meu nome. Bom, na verdade chamo-me Jackson Marcus Weller, razo pela qual opto sempre pelo diminutivo. Recebi o mesmo nome do meu bisav materno 
Mas realmente prefiro que me tratem por Jack, sobretudo as pessoas que admiro e espero que venham a admirar-me a mim, esclareceu

Depois, para me fazer voltar para a direita, pousou uma das mos na minha cintura

O meu apartamento fica a poucos quarteires daqui, elucidou-me. No se importa de ir a p, pois no?

Claro que no

Deixou a mo na minha cintura durante mais algum tempo premindo os dedos com autoridade

Eu tenho carro, mas raramente o utilizo. Guiar na cidade  uma grande maada. Prefiro muito mais andar a p ou servir-me dos transportes pblicos

Quando comeamos a andar, retirou a mo

Cresceu em Nova Orlees? perguntei

Cresci? Sorriu e depois desatou a rir. A maioria dos meus parentes e amigos pensa que eu ainda no sou sufi cientemente crescido. Acham que, como vou ser mdico, 
tenho de parecer, agir e sentir como um velho. Quem confia num mdico jovem nos tempos que vo correndo? A juventude  um trunfo em quase todas as outras profisses, 
mas na medicina... Fez uma pausa e voltou-se para mim. Se quer saber, o meu ex-companheiro de quarto chega mesmo a pintar o cabelo de grisalho. J viu semelhante 
disparate?

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Sacudi a cabea

Fitou-me por um instante e comps uma expresso mais suave, ficando com ar de comiserao

. Para dizer a verdade, tenho pena de si. Para uma mulher  duplamente difcil tornar-se mdica. Tem de ser duas vezes mais competente. Mas acrescentou, piscando-me 
o olho, no seu caso parece-me que tem garra para isso. Agora, prosseguiu, erguendo uma das mos com a palma virada para mim, peo-lhe que no me conte nada sobre 
si. Prefiro adivinhar

Continumos em frente, em passada mais lenta. A humidade no era tanta como no dia anterior. O Sol baixara o suficiente para dar ao cu, a leste, um tom de azul 
mais escuro, o que fazia com que as nuvens enfunadas parecessem brancas como o leite

Para sul, um aeroplano arrastava uma faixa publicitando um espectculo especial de jazz, com jantar, No French Quarter. O elctrico passou em frente das palmeiras, 
atrs de ns, tilintando. Os pssaros pipilavam ruidosamente. Calculei que estivessem cheios de novidades sobre, por exemplo, os gros que haviam armazenado durante 
a impressionante vaga de calor e humidade. Agora que se sentiam mais frescos e capazes de tagarelar, no paravam calados um segundo

Os candeeiros da rua comeavam a faiscar, embora ainda no estivesse suficientemente escuro para acenderem em pleno. A descida da humidade parecia ter libertado 
o perfume das camlias, bananeiras e magnlias que cresciam ao longo e por trs das cercas pontiagudas das casas em frente das quais passvamos e que, em Nova Orlees, 
eram conhecidas por banquettes. A maioria tinha cerca de meio metro de altura e destinavam-se, sobretudo, a evitar que a gua entrasse nas casas. Mais  frente vi 
trs estudantes do curso de Vero de Tulane s risadinhas, caminhando a par de um descapotvel onde dois raPazes tentavam chamar-lhes a ateno

A Pearl no  filha nica nem mimada, isso de certeza, principiou Jack Weller

Tenho dois irmos gmeos, com doze anos

Ah, sim?

Mas sou mimada admiti

Claro, Todas as mulheres mimadas concordam em trabalhar por uma ninharia e esto dispostas a limpar a porcaria de Doentes observou ele. Fitou-me de novo, insistentemente. 
No  mimada

Sou mimada mas voluntariosa, repliquei. Jack riu-se

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Gosto disso.  de uma famlia tradicional, no  verdade?

Sou, mas adivinhou mesmo ou andou a informar-se junto da Sophie?

Jack voltou a rir-se.

 uma rapariga esperta. Muito bem, confesso que fiz algumas perguntas  Sophie.  j aqui indicou, agarrando-me na mo para me fazer enveredar por uma transversal, 
em direco a um prdio de apartamentos com um toldo que descaa no meio. As paredes de estuque acinzentado estavam em mau estado e com fendas, e a porta de entrada 
precisava urgentemente de ser pintada ou envernizada.

Acho melhor prepar-la disse Jack quando nos aproximmos da entrada. O meu apartamento s tem uma diviso. Uma pessoa que viva no Garden District no o achar grande 
coisa.

Sou mimada, mas no snobe.

O sorriso de Jack alargou-se e abriu a porta. Passmos por uma pequena entrada que dava para um pequeno vestbulo de paredes claras e mascarradas. O cho de ladrilhos 
castanho-escuros exibia falhas aqui e ali. A nica pea de mobilirio existente resumia-se a uma mesinha que mal se mantinha direita e por cima da qual se via um 
espelho oval numa inspida moldura branca. No ar pairava o cheiro a gumbo de camaro

Vamos mais depressa pelas escadas do que pelo elevador

informou Jack, indicando onde as mesmas ficavam. Subimos trs pisos, ouvindo ranger, a cada passo, a madeira gasta dos degraus. Ao menos desfrutamos de uma pequena 
vista

acrescentou, metendo a chave na fechadura.

Estava preparada para encontrar um apartamento pequeno e um mobilirio modesto, mas no para semelhante desarrumao. A porta dava acesso directo  diviso que servia, 
simultaneamente, de sala de estar e de quarto. O sof,  direita, encontrava-se atravancado de livros e papis, o mesmo acontecendo ao cho. Tambm havia uma chvena 
de caf, ainda com um pouco do lquido, e a seu lado via-se um prato com restos de massa ressequida. O parapeito da janela apresentava uma camada espessa de p e 
o tapete exibia vrias zonas j no fio.

Esta manh deixei-me dormir e j no tive tempo para arrumar o que ficou de ontem  noite, explicou ele. Tirando isso,  um lugar confortvel.

"Confortvel?", pensei. Ali dentro uma pessoa depressa sentiria claustrofobia. Ns, l em casa, tnhamos armrios maiores do que o apartamento inteiro de Jack. A 
rea da sala &

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de estar dispunha s de uma janela, e a diviso, em si, mal tinha espao para conter o sof, a cama, a mesinha e as duas cadeiras. Um umbral aberto deixava ver uma 
cozinha minscula onde os pratos se empilhavam no lava-loua, e o pequeno caixote do lixo, de to cheio, transbordava, vendo-se uma caixa de piza no cimo de tudo, 
meio a escorregar para o lado.

Jack atarefou-se de um lado para o outro, libertando da tralha o sof, as cadeiras e a mesinha.

D-me s um minuto pediu.

Levou a loua para a cozinha e depois voltou apressadamente para dar um jeito  cama.

Solteiros observou com um encolher de ombros indiferente.  assim que vivemos, mas imagino que ainda no conhea nenhum.

Ao ver que eu no respondia, parou e olhou para mim.

Conhece ou no?

Como? Ah, no.

No conseguia desviar a ateno da grande desordem que reinava no apartamento. Eu achava que um mdico no podia deixar de se preocupar com a higiene.

No me ensinaram a ser desleixado, se  nisso que est a pensar comentou Jack, adivinhando-me os pensamentos. Espere at iniciar o seu internato. Ver o pouco tempo 
que lhe sobra para tratar das suas coisas. Ao contrrio de si, venho de um meio modesto. O meu pai trabalhava nos poos de petrleo, em Beaumont, mas, como passava 
a vida a ser dispensado, eu pensava que ele era rico para s precisar de trabalhar alguns meses por ano. No sei se sabe, mas um curso de medicina sai muito caro.

Como  que conseguiu l chegar? perguntei, sentindo-me culpada por ter feito um juzo precipitado sobre ele.

Graas a uma herana que me foi deixada por uma av. Quando ma deixou, tinha algum valor. No entanto, a inflao levou-lhe uma boa parte e o custo do curso subiu, 
o que me obrigou a pedir dinheiro emprestado. Estou com dvidas at aqui disse, erguendo a mo uns centmetros acima da cabea- Andar em medicina sem preocupaes 
financeiras  uma Maravilha, mas claro que no basta ter dinheiro para ser mdico. O problema s est...

Suspendeu as suas limpezas e fitou-me, sacudindo a cabea com lentido.

Aonde? perguntei, preocupada.

No facto de a Pearl ser demasiado atraente.

Como?

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Parece um desperdcio acrescentou. O que devia era ser esposa de um mdico, andar coberta de jias e casacos de peles, e ocupar-se de festas de sociedade e de caridade 
-declarou, rindo logo a seguir. Estou s a brincar. O que no invalida o facto de as mdicas que eu j conheci poderem assustar os prprios micrbios. Ajeitou a 
coberta, de um tecido azul liso, que fazia conjunto com duas almofadas iguais. Deseja tomar alguma coisa? Tenho sumo de laranja, gua tnica e cerveja Disse.

Olhei para a cozinha com repulsa. Parecia contaminada. Jack sorriu.

Prometo que, primeiro, lavo a loua disse.

Pode ser sumo de laranja.

ptimo. Sente-se onde quiser. Na cama, se preferir acrescentou, indo buscar o meu sumo.

Instalei-me no sof e comecei a passar uma vista de olhos pelos livros de medicina.

Ainda  muito cedo, mas j pensou na especialidade que quer seguir? perguntou-me Jack da cozinha.

Estava a pensar em pediatria.

Boa concordou, voltando da cozinha com dois copos de sumo de laranja, um para mim, outro para ele.  o mais indicado para as mulheres. As mes sentem-se mais  vontade 
quando lidam com uma mdica.

No estava a pensar nesse aspecto observei com uma certa secura na voz. As mulheres tambm tm capacidade para se tornar boas cirurgis, cardiologistas...

Est certo, est certo. Desculpe. No sou nenhum machista chauvinista. Apenas tenho esprito prtico disse, entregando-me o copo de sumo. Sentou-se no sof, ao meu 
lado. J tem fome?

J tivera; no entanto, a viso do apartamento dera-me volta ao estmago e fizera-me desaparecer o apetite.

Ainda no respondi.

Pensei em estudar um pouco com ele e depois dar uma desculpa e voltar para casa, onde iria aos restos apetitosos de Mill

Por acaso sou ptimo cozinheiro... Toda aquela combinao qumica... afirmou, sorrindo.

Fitou-me demoradamente e, em seguida, o seu olhar desceu com suavidade por mim, movendo-se como dedos invisveis sobre o meu rosto, pescoo e seios.

Aposto que uma rapariga assim to bonita j teve montes de namorados, no?

No.

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No? Pensei que hoje em dia as raparigas eram mais promscuas, coleccionando trofus masculinos como ns, rapazes, costumvamos fazer quando andvamos no liceu observou.

Sempre tive assuntos mais importantes em que pensar, embora tenha tido um namorado a srio durante algum tempo.

O que aconteceu? No quero ser intrometido, tenho apenas curiosidade sobre os jovens de hoje disse.

Digamos apenas que eu no estava to empenhada na nossa relao como ele imaginava.

Oh... oh... Creio saber ao que ele se referia. Foi o seu primeiro namorado a srio? perguntou com um sorriso malicioso.

Foi, mas, como disse, no durou assim tanto tempo.

Compreendo. Acenou com a cabea, esfregando o queixo com o polegar e o indicador da mo direita.

Fez-me sentir como se fosse um mdico de romance que eu fora consultar sobre problemas amorosos.

Que vamos estudar esta noite? perguntei, vagamente incomodada por um exame to intenso e minucioso.

Humm... Reflectiu por um momento e depois tirou um livro de debaixo do sof. Conheo apenas o tpico. Hoje apareceu na consulta uma mulher jovem que sofria de disparreunia. 
Imagino que no saiba do que se trata disse, tamborilando com os dedos sobre o livro.

Sacudi a cabea em sinal negativo.

Tambm se utiliza o termo vaginismo, afectuosamente conhecido por doena da lua-de-mel esclareceu, sorrindo ainda mais. As pistas chegam?

Senti-me empalidecer.

Ora, ora. Uma pessoa que quer ser mdica tem de estar  vontade com todos os aspectos da anatomia humana. A nossa doente continuou, recostando-se era uma rapariga 
de dezanove anos que casara h pouco tempo. J entende o que o termo dispareunia significa, no  verdade?

Creio que sim respondi.

Sentia o corao a bater rapidamente; no entanto, tinha a impresso de que os meus pulmes tinham parado.

^ Coito doloroso ou difcil recitou. No devia ter relutncia em discutir qualquer aspecto do corpo humano repetiu.       Ou qualquer das suas funes normais. - 
No tenho insisti. Fiquei muito tensa e endireitei-me com brusquido.

ptimo. A dispareunia pode ser tema de piadas de beco

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e de bar, mas para ns, mdicos,  apenas mais um problema para resolver, outra forma de sofrimento que devemos minorar declarou com a convico e a autoridade de 
algum pertencente ao corpo docente da medicina h muitos anos. Compreende essa questo, no  verdade?

Claro que sim.

Teria preferido, no meu ntimo, que o tema escolhido fosse outro; porm, no tencionava dar-lhe a perceber o quanto ele me perturbava. Certamente estaria  espera 
dessa reaco da minha parte, dizendo-me ento que ali estava mais um exemplo da razo pela qual era to difcil uma mulher enveredar pelos caminhos da medicina.

Nesse caso, prossigamos. Inclinou-se para a frente. A paciente, depois de o doutor Bardot a ter examinado fez-me uma confidncia. Disse que se sentia mais  vontade 
com algum mais novo. Contou-me, pois, que fora violada aos doze anos de idade.

Violada! Que horror!

 verdade, e o facto deixou-a profundamente marcada em termos psicolgicos. Passou-me o livro e levantou-se. Comeou a andar de um lado para o outro, como se fosse 
um professor de Medicina a dar uma aula. Foi importante ficar a par deste facto porque a dispareunia pode ser provocada por espasmos psicossomticos. Agradeo que 
abra na pgina oitocentos e dezanove, no canto superior direito.

Apressei-me a obedecer e a seguir levantei os olhos para ele.

Jack fez uma pausa e fechou os olhos, fazendo uma careta de profundo esforo de memria.

Quando a dispareunia no advm de causas locais, quando os sintomas locais so disfarados por reaces nervosas, deduz-se que o doente desenvolveu um mecanismo 
de defesa psicolgico.

Abriu os olhos e fitou-me na expectativa. Li as primeiras linhas.

Est certo disse.

ptimo. Continuemos. Essa defesa pode ser direccionada contra o sexo e as relaes sexuais em geral. So vrias as possibilidades: egosmo excessivo, ignorncia 
da anatomia e da fisiologia dos rgos reprodutores, receio da gravidez, averso ao parceiro, possivelmente a uma relao amorosa anterior ou algo descoberto aps 
o casamento. Se bem me lembro, a diz que a halitose pode constituir a base dessa averso, no 

O qu?

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Mau hlito esclareceu Jack. Sabe como , est-se na cama com uma pessoa, ela volta-se para si e...

Oh! Li e olhei para ele. Sim,  o que diz aqui.

Portanto, se quiser ler entre as linhas, antes de uma pessoa casar com outra, deve familiarizar-se com ela. O futuro casal deve proceder a determinadas experincias 
em conjunto, no acha?

No me parece que essa deva ser, necessariamente, a concluso a tirar observei sem hesitar.

Jack riu-se.

Bem, sirvamo-nos do seu caso como exemplo sugeriu, sentando-se no sof, ao meu lado. Lendo entre as linhas relativamente ao que me contou acerca do seu namorado 
e de si, presumo que os dois nunca fizeram amor. Certo?

No quero discutir a minha vida privada declarei.

Se quer ser uma boa mdica, tem de ser puramente objectiva, mesmo quando se tratar de si prpria.  por isso que eu digo que h pessoas que no esto psicologicamente 
preparadas para seguir medicina. Podem ser inteligentes... os melhores alunos da classe... mas se no conseguem ultrapassar as lacunas psicolgicas...

Eu consigo saltar as lacunas psicolgicas afirmei secamente.

ptimo. Ento no devia sentir inibio em falar de si mesma.  humana, no  verdade? Todas as suas reaces tambm so experimentadas pelas outras pessoas, pessoas 
que queira examinar e tratar. Quando um homem a toca, o seu corpo reagir da mesma maneira que o de outras mulheres em situao igual. Est a perceber?

Estou, mas...

Portanto, continuemos.  muito melhor estudar estes problemas na realidade do que recitando apenas o que vem escrito nos livros.  bem possvel que sofra de frigidez.

O qu?

 o termo mdico que designa a incapacidade que a mulher tem em retirar um prazer normal da relao sexual. Est a nesse mesmo livro, no canto inferior direito. 
Indicou a passagem com a ponta do indicador da mo direita.

Li exactamente o que ele acabara de dizer. Em seguida, sacudi a cabea.

O meu problema no  esse. Alis, nem sequer tenho algum problema. Simplesmente no me senti...

No passemos ao diagnstico antes do tempo alertou Jack, erguendo uma das mos. Est bem?  possvel que tenha de consultar um psiquiatra.

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O que diz?

Ia comear a rir mas Jack abanou a cabea com ar srio

Uma das coisas mais importantes que aprender durante a sua preparao  reconhecer quando  que os problemas de seu paciente no podem ser resolvidos por si, requerendo 
ateno de um especialista.  frequente os mdicos meterem-se, a eles e aos seus doentes, em problemas quando no conseguem discernir esta realidade. Est a compreender 
o que quero dizer? No quero ir demasiado depressa.

Eu acompanho-o. S no vejo como poderei ajud-lo falando de mim e no motivo pelo qual rompi com o meu namorado.

Ah, mas pode, j que se trata de uma situao com a qual eu devo estar familiarizado. Como j disse, acabou de nos aparecer um caso destes hoje e tenho a certeza 
de que a primeira coisa que o doutor Bardot vai fazer amanh de manh  pr  prova os meus conhecimentos nesta matria. Portanto continuou, recostando-se, de braos 
cruzados, nunca dormiu com o seu namorado. Correcto?

Exactamente.

J alguma vez foi para a cama com algum?

Corei ainda mais intensamente, o que me irritou imenso

Fao a pergunta na qualidade de mdico, no de colunista de mexericos acrescentou Jack.

Claro que no.

Pois ento! exclamou Jack, esboando um sorrisinho desagradavelmente arrogante. No tenho dvidas de que oportunidades no lhe devem ter faltado. Ento, o que foi 
que a impediu de o fazer?

No ando por a com uns e outros, e o sexo pelo sexo no me interessa. Para mim tem de fazer parte de algo maior algo...

Algo qu? perguntou ele.

Mgico. Amor. E no se ria adverti-o com severidade.

No me rirei, mas talvez a Pearl esteja a racionalizar, inventar desculpas para esconder os seus receios mais profun dos, a sua frigidez...

Eu no sou frgida insisti, quase saltando do sof na tentativa de me fazer crer.

No lhe acontece ficar tensa quando um homem lhe toca? perguntou Jack.

Fiquei sem resposta, olhando para ele.

Fica, no  verdade?

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-No, Claro que no. declarei firmemente

Vejo-a protestar com demasiada veemncia, observou ele, com um sorriso malicioso

s vezes consegue ser desesperante, exclamei. No foi minha inteno. Olhe, eu sou mdico e a Pearl deseja l chegar. No existe nada na sua fisiologia que eu no 
conhea e, pelo que j sei de si, creio poder afirmar com segurana que a Pearl est muito pouco informada. Apesar disso, ter algum conhecimento pode tornar-se perigoso

O que  que isso quer dizer?

Se calhar, como  muito inteligente, est demasiado consciente de tudo o que se passa, da que afaste a magia que afirma desejar tanto. Quem sabe se no est condenada 
a nunca vir a conhec-la?  possvel que, ao pensar no corao humano, s veja  sua frente aurculas e ventrculos

Senti um aperto na garganta e as lgrimas prestes a rebentar

Estarei a desencadear uma emoo?  que, assim sendo, a minha anlise ao seu problema est a ser correcta

J disse que no tenho nenhum problema insisti, embora com menos firmeza que anteriormente

Jack estendeu a mo para pegar na minha, mas eu fiz meno de recuar

Descontraia-se disse ele. No irei mago-la. Fazia-me sentir como uma menina que vai ao mdico. Permiti que me segurasse na mo. Os seus dedos comearam a afagar 
a parte de cima dos meus

Faamos isto juntos, sugeriu ele, aproximando-se mais de mim no sof. Aposto em como se recorda perfeitamente da primeira vez em que beijou um rapaz, no  verdade?

De facto, Freddy Maimero e eu framos uma vez ao cinema e ele dera-me um beijo de boas-noites. Tinha ento doze anos. No passara de uma ligeira presso sobre os 
meus lbios, no entanto, eu sentira um arrepio de excitao percorrer-me a espinha e subira para o meu quarto a correr, a fim de me ir ver ao espelho. Tinha a cara 
vermelhissima e o corao batia-me com tanta fora que tive a impresso de que me abriria o peito. ao meio. Sempre pensara que o meu primeiro beijo seria prolongado 
e romntico como os que via no cinema mas, depois daquela experincia, no acreditava que conseguisse sobreviver a um desses interminveis beijos lascivos

Fale-me sobre esse acontecimento pediu Jack Weller. Estava a escassos centmetros de mim com os olhos a brilhar de interesse

7
5 


No foi nada de especial, apenas um simples beijo.

Portanto, sentiu-se segura nesse tipo de ambiente, depois de ter passado por essa experincia simples e incua, mas sozinha com um jovem, num stio onde as luzes 
estejam veladas e haja msica a tocar baixinho... quando a mo dele tocar no seu ombro. Pousou a mo no meu ombro, o que me fez enco lher. Descontraia-se, sei exactamente 
o que estou a fazer

A seguir, os seus dedos tocaram no meu pescoo, deslizando depois at  zona das minhas clavculas, cujo contorno acompanhou.

Imagino que saiba o que so zonas ergenas, sussurrou ele.

No estudei a actividade sexual em particular repliquei.

Jack sorriu e assentiu com a cabea.

No deve ter medo do seu prprio corpo e da maneira como ele reage. Estas sensaes so naturais.

Pela ltima vez, eu no tenho medo.

Na verdade, foi uma sorte conhecermo-nos. Espero poder ajud-la a ultrapassar este problema, para que fique com" certeza de que pode ter uma vida sexual normal. 
Quando vocs se casam,  muito importante continuou, desabotoando os botes da minha blusa enquanto falava. Relaxe-se. Feche os olhos e recoste-se um pouco. Tem 
uma pele maravilhosamente sadia.

O meu corao martelava-me no peito. Os dedos dele enfiaram-se pela minha blusa dentro e seguiram o formato do sou tien at ao meio dos meus seios, ao mesmo tempo 
que se incli nava para me beijar o pescoo.

A sua pulsao acelera, trazendo o sangue at  superfi cie.  como uma batida na porta. No deve ter medo de atender, Pearl. V.

Espere pedi; porm as suas mos deslizaram-me p los braos at chegarem s minhas costas onde, com uma mestria de cirurgio, me desapertou o soutien e mo retirou.

Sim murmurou, aproximando os lbios do meu ma milo exposto. Pearl... continuou, projectando pequenos arrepios electrizantes pela minha espinha, enquanto, com uma 
das mos, tentava acariciar-me a coxa. Ir correr tudo bem. Tudo se passar como deve ser. Tente descontrair-se.

Sentia a cabea  roda. Jack movera-se com tal rapidez e delicadeza que, mal acreditando no que estava a acontecer, no tardei a dar comigo meio despida. O meu corao 
batia violen tamente. Para dizer a verdade, sentia-me esquisita, como se 76


estivesse a trair algum. Fiz meno de resistir, de afast-lo para longe de mim. Jack parou de me beijar e fitou-me nos olhos. Estvamos a poucos centmetros um 
do outro.

Com base nos estudos que j fizemos, pode ver como a primeira vez  importante. Fico contente em saber que ainda  virgem. Se a primeira vez  desajeitada e rude, 
pode deixar uma pessoa marcada e provocar-lhe dispareunia, danos psicolgicos que afectaro a sua vida para sempre.

"Comigo, no entanto, tudo se passar com suavidade e perfeio. S quero ajud-la... continuou, voltando a passear com os dedos pela minha roupa sem deixar de falar, 
abrindo-me o fecho de correr e erguendo-me suavemente o corpo para a saia deslizar pelas minhas pernas abaixo. O seu corpo est a preparar-se. Est pronta.

Senti-me submergir por uma onda de debilidade que,  medida que os lbios dele continuavam a deslizar-me pelo pescoo e pelas faces, iam minando a minha resistncia. 
 certa altura meteu a ponta dos dedos sob a tira elstica das minhas cuecas.

Por fim, aquela parte de mim que ficara dominada pela sua abordagem determinada e sabedora recuperou o controlo. Ouvi-me a questionar-me sobre o que estava a acontecer. 
A realidade faiscou como um relmpago atravs das nuvens que tinham ensombrado o meu raciocnio, fazendo-me erguer as pernas e premir os joelhos contra o abdmen 
dele, afastando-o e gritando ao mesmo tempo:

No! Pare!

Jack desequilibrou-se e caiu do sof.

Puxei rapidamente a saia para cima, corri o fecho e abotoei a blusa. Depois passei por cima dele e levantei-me. Ainda no cho, a olhar para mim, Jack parecia to 
ridculo que a minha determinao ganhou novo alento.

O doutor no me pediu para vir aqui ajud-lo a estudar? - declarei, furiosa.

Claro que pedi. Endireitou-se. Apenas pensei que, J que estvamos a falar no assunto...
- Me seduziria terminei.

Ora, deixe-se disso. No seja melodramtica. Limitei-me a reparar que tinha um problema.

No tenho qualquer problema declarei, afastando-me ainda mais dele.

Jack sentou-se de novo no sof, sorrindo-me.

Penso que tem.

Quantas raparigas trouxe at aqui servindo-se da mesma

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desculpa esfarrapada?  perguntei em tom acusador. O doutor  que tem problemas.

Tem a certeza? Tem? Durante instantes desejou o que estava a acontecer, at se deixar dominar pela sua frigidez. Se ao menos me desse uma oportunidade  insistiu, 
estendendo a mo para mim.

Recuei de novo.

No  me  toque!   gritei,  agarrando  na maaneta da porta.

Jack baixou a mo e sorriu.

Est bem, est bem. No precisa de se ir embora. Se no deseja a minha ajuda, no insistirei. Um doente tem de querer que o mdico o ajude.

Eu no sou uma doente e... voc no  um mdico. gritei, abrindo a porta de rompante.

Se mudar de ideias, estarei aqui  disse, atrs de mim. Atirei com a porta e desci as escadas a correr, com as lgrimas a correrem-me pela cara. Atravessei o vestbulo 
e sa in tempestivamente do prdio, quase deitando uma idosa ao cho. Pedi desculpa e afastei-me com toda a rapidez, deitando quase a correr para apanhar o elctrico 
que ia a passar. Ainda sentia i sorriso e as risadas de Jack Weller atrs de mim. S quando es tava quase a chegar a casa  que senti as batidas do meu corao abrandarem. 
Limpei as lgrimas, respirei fundo e apeei-me do elctrico.

Quando entrei em casa, encostei-me  porta de entrada, es perando recuperar toda a compostura; no entanto, algo dentro de mim se quebrara irremediavelmente. Um mdico... 
um mdico bastante jovem tentara enganar-me. Um membro da profisso que eu idolatrava desiludira-me e enojara-me. Como podia algum estudar para ser mdico e depois 
ter um comportamento como o de Jack Weller? Como poderia ele preocupar-se com os outros, com os seus sentimentos, a sua dor, o seu sofrimento?

Nesse momento, a minha me saiu da sala de estar e ficou surpreendida por me ver parada ali  porta.

Pearl? No te ouvi entrar. Onde est o Aubrey?  perguntou, olhando em volta.

Entrei muito depressa  afirmei, esboando um sorriso.

Contava que chegasses a casa muito mais tarde  disse -me, acercando-se.

Pois, mas no resultou.

Queres dizer que acabaram por no jantar?

perguntou-me.

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Os seus olhos, aquelas lanternas cajuns, como o meu pai costumava chamar-lhes, examinaram o meu rosto, retirando concluses. Tive de desviar o olhar.

Ainda no tenho grande fome. Comerei alguma coisa mais tarde  disse, lanando-lhe mais um sorriso breve antes de me dirigir para as escadas.

Pearl?

Sim, me?

Olhou de relance para trs, o que me fez perceber que o meu pai estava na sala de estar, embora no tivesse ouvido a nossa conversa, caso contrrio j teria aparecido.

Houve algum problema. Que foi, querida?

Os lbios tremeram-me. As lgrimas fizeram-me arder as plpebras, antes de deslizarem pela minha cara. Sacudi a cabea e subi as escadas a correr. Entrei no meu 
quarto e atirei-me para cima da cama, reprimindo os soluos.

Momentos depois, a minha me entrou. Fechou a porta silenciosamente e eu voltei-me para ela.

Que aconteceu?  perguntou-me com firmeza.

Ora, me, no foi nada de especial.

Ele no te convidou para o seu apartamento para estudarem, como disse,  adivinhou ela, com um aceno de entendimento.

Pois no. Ainda comemos, mas ele escolhera o tema como parte do seu elaborado plano para...

Para qu? O que foi que ele fez?

Eu no permiti que ele fizesse nada, me.

Mon Dieu  exclamou a minha me, pousando a mo sobre o corao.  Se o teu pai descobre, desfaz aquele homem.

 melhor no lhe dizermos nada, me. Nada se passou. Sou capaz de me proteger. Na verdade, foi o que fiz. Ele no voltar a incomodar-me.

Que fez ele?  quis saber a minha me, vindo sentar-se na beira da minha cama.

Endireitei-me e fiquei a remexer nas pregas da minha saia.

Comeou por me contar que tinha uma jovem doente com dificuldade em fazer amor. Chamou-lhe doena da lua-de-mel e disse que descobrira que o problema dela era psicolgico. 
Depois comeou a fazer-me uma srie de perguntas pessoais, fingindo que s tentava conhecer melhor o problema.

Continua  incitou a minha me.

Afirmou que eu era frgida por ser demasiado inteligente e no conseguir retirar prazer do sexo. Disse que queria ajudar-me.

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a ter a certeza de que eu no padecia da doena da lua-de-mel.

Mon Dieu repetiu a minha me. Esse homem devia comparecer diante de uma comisso de inqurito.

Eu disse que no com a cabea.

No quero ser obrigada a contar esta histria a mais ningum, me. Por favor!

Est bem, querida. No te preocupes. Claro que nunca mais devers falar com ele. Se ele se atrever a dirigir-te a palavra...

No voltar a incomodar-me afiancei.

Lamento que tenhas passado por uma experincia to horrvel, Pearl.

No ser a ltima vez, me declarei, cheia de certeza. A minha me fitou-me por momentos.

No,  bem possvel que no. Fazes muito bem em estar consciente disso, Pearl.

Alguma vez passaste pelo mesmo?

Passei, claro. O meu av tentou vender-me a um homem. Chegou a acorrentar-me a uma cama, para que eu no fugisse antes de o indivduo chegar.

Que horror. Como  que o teu av foi capaz de semelhante acto?

Era um alcolatra. Teria vendido a prpria alma para comprar usque. Agrandmre Catherine no tinha dvidas sobre isso.

O que te aconteceu, me?

Consegui fugir e foi nessa altura que vim para Nova Orlees e conheci o teu pai. Por isso, j vs, cada nuvem escura tem o seu lado luminoso observou, sorrindo.

Eu retribu o sorriso, mas depois apertei os lbios e baixei novamente o olhar.

O que mais te aconteceu, Pearl?

No aconteceu mais nada. Apenas...

O qu, querida?

Foi o que ele disse, me. No sei se no haver alguma verdade nisso. As minhas amigas do liceu pensam o mesmo, assim como os meus ex-namorados. Oh, me, e se  
verdade? E se eu nunca conseguir descontrair-me na companhia de um rapaz? Assim nunca ningum se apaixonar por mim lamentei-me.

No creio que seja verdade. Alm disso, tenho a certeza de que no s obrigada a dormir com o primeiro homem que te fizer essa proposta, s para saberes se s frgida 
ou no.
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possivelmente todas as manobras servem de desculpa para tentar levar uma jovem  certa, mas ele... utilizar a sua autoridade de mdico...  deplorvel. No tens 
nenhum problema, querida assegurou-me, rodeando-me com um brao. Eu tambm no andei por a a dormir com quem queria levar-me para a cama.

Com quantos dormiste, me? perguntei, arrependendo-me logo a seguir. Apesar de nos darmos como irms, era uma pergunta demasiado ntima para lhe fazer.

A minha me fitou-me durante algum tempo e depois sorriu.

S dormi com o teu pai. Nenhum outro homem me interessou redarguiu. Talvez isso parea uma estupidez aos jovens de hoje, mas...

A mim no parece nada estpido, me.

Quando encontrares a pessoa certa, algo de precioso e bom acontecer e tu irs sentir-te em segurana na sua companhia. Nessa altura no hesitars em consumar o 
teu amor. No sou uma dessas especialistas que escrevem sobre o amor nos jornais, mas sei o que aconteceu comigo e tenho a certeza de que contigo se passar o mesmo. 
Tens demasiada considerao por ti prpria e valorizas suficientemente as tuas emoes para te entregares de qualquer maneira. Isso  bom e no faz de ti nenhuma 
menina melindrosa ou frgida. Torna-te prudente.

Sorriu e riu-se para si prpria.

O que foi?

Lembro-me de uma vez, era eu pequena, ver duas cotovias a lutar bravamente entre si, e ter perguntado  minha grandmre Catherine por que razo o faziam. Ela respondeu-me 
que era a dana do acasalamento. A fmea fazia de conta que no estava interessada, o que, explicou a minha av, tornava o macho ainda mais ansioso e garantia  
fmea que no ficaria desiludida. "Ela s quer que ele saiba que ela  difcil de conquistar", explicou-me.

Ambas rimos.

Tiveste imensa sorte em ser criada no Hayou. Quem me dera que me tivesse acontecido o mesmo observei.

Oh, no foi fcil. Trabalhvamos arduamente para satisfazer as nossas necessidades bsicas, mas as manhs e as noites...

Ainda sentes saudades desses tempos, no , me?

Sinto, de vez em quando.

Porque no voltas l? Que tal irmos todos visitar Cypress Woods? perguntei, entusiasmada.

No creio que seja boa ideia, querida. Pelo menos por

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enquanto, respondeu a minha me levantando-se, nitidamente desagradada com a sugesto. Sentes-te melhor?

Sim, me.

Tens fome?

Alguma.

Ento vamos l abaixo. Faremos de conta que acabaste de chegar e arranjaremos qualquer coisa para comeres. O teu pai ir querer inteirar-se de todos os pormenores 
sobre o teu dia no hospital.

Eu sei. Foi uma pena ele no se ter tornado mdico

A vida est cheia de surpresas, umas boas, outras ms. O segredo est em manter a canoa no seu curso replicou ela

Nunca andei de canoa. Porque no havemos de ir ao Hayou, implorei.

Um dia iremos respondeu-me, mas era a mesma resposta que eu j ouvira centenas de vezes. Aquela j no deixava transparecer a mesma sinceridade, tendo, sim, uma 
ressonncia mais sombria, profunda e misteriosa, que me deixava insegura, como que tentando encontrar o caminho no meio da escurido, premindo o rosto contra a noite, 
esperanosamente  espera da primeira estrela.

O passado, o nosso passado, fazia lembrar o labirinto de canais que se entreteciam atravs do Hayou, alguns conduzindo ao exterior, outros seguindo sempre at parte 
incerta. O risco de empreender a viagem requereria coragem, mas eu estava certa de que, um dia, iria faz-la. Um dia eu regressaria e descobriria as respostas que 
tinham ficado por dar s perguntas.

Quando me afastasse da margem e iniciasse a jornada, apenas esperava, e com que ansiedade, levar ao meu lado algum precioso e querido.


CHEGAREI A CONHECER O AMOR?

Embora tivesse assegurado  minha me que no teria dificuldade em trabalhar no hospital perto de Jack Weller, no dia seguinte, ao apear-me do txi e ao entrar no 
edifcio, no pude deixar de sentir o corao pesado e uma sensao opressiva no peito. O cu apresentava-se muito escuro e no tardaria a chover. Para dizer a verdade, 
a humidade suspensa no ar era tanta que tive a impresso de ver goticulas a formar-se mesmo em frente dos meus olhos. Sophie j chegara, viera mais cedo para aproveitar 
uma boleia que a deixara a poucos quarteires de distncia, poupando assim o dinheiro do txi. Felizmente, Jack Weller s entraria de servio a meio do meu turno, 
o que me permitiu passar, pelo menos, as primeiras horas sem o enfrentar

porm, quando Sophie e eu voltmos do almoo, vi-o no corredor, a conversar com uma das enfermeiras. Olhou para as duas e sorriu como se nada se tivesse passado 
entre ns. Eu no dissera uma palavra do sucedido  minha colega, de modo que esta pensou que Jack estava apenas a ser o mesmo brincalho de sempre. Segui directamente 
para o vestirio. Sheila Delacrois, a jovem que eu calculara que sofresse de problemas de vescula, piorara e tivera de ser levada para o andar de cima a fim de 
ser operada. Depois seguiria para a sala de recuperao e j no regressaria ao nosso andar, assim, eu precisava de mudar a cama at ali ocupada por ela, preparando-a 
para um novo doente

Estava toda atarefada a empilhar as almofadas e os lenis quando ouvi a porta fechar-se suavemente nas minhas costas. Virei-me para trs e vi que Jack entrara, 
ficando de costas contra a porta e com as mos apoiadas na maaneta

Abra a porta ordenei

S preciso de falar consigo a ss por um instante, replicou ele

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No temos nada para falar. Faa o favor de abrir a porta insisti.

Olhe, quero pedir-lhe desculpa.  provvel que tenha passado das marcas, que me haja precipitado. Como  muito inteligente, imaginei que fosse mais sofisticada. 
Foi um erro, reconheo. Quero apenas dizer-lhe que no ser vantajoso para nenhum de ns falar do que se passou a terceiros.

No precisa de se preocupar. No direi a ningum. No entanto, contei  minha me acrescentei.

 sua me? admirou-se, erguendo muito as sobrancelhas.

Exactamente. No lhe costumo esconder o que quer que seja. Somos muito chegadas.

O que foi que ela disse?

No quer que o meu pai saiba, pois acha que ele viria aqui dar cabo de si, respondi com secura.

Jack Weller engoliu em seco e acenou afirmativamente com a cabea.

No percebo que tipo de mdico o senhor ir ser acrescentei, com as lgrimas a quererem saltar-me dos olhos.

Ei, uma coisa no tem nada a ver com a outra. Quando estou de servio, sou um verdadeiro profissional.

Se no for sensvel em relao aos sentimentos das pessoas, pouco importa o profissionalismo que exibir retorqui.

Esboou um sorriso forado e sacudiu a cabea.

J no  a primeira vez que encontro raparigas como a Pearl. De facto conheci muitas do seu tipo durante o meu curso.  demasiado racional para o seu prprio bem, 
 uma sabichona que no admite os prprios sentimentos. Se ontem se tivesse despojado do seu pretensiosismo, teria passado um bocado agradvel.

Aguento muito bem as desiluses observei secamente. As lgrimas como que se me evaporaram e o corpo parou de me tremer. Num instante senti-me invadir por uma raixa 
fria, os meus olhos mostraram a fria que sentia, fazendo desaparecer o sorrisinho arrogante de Jack Weller. Encolheu os ombros.

Faa como entender. Abriu a porta.

O meu corao batia furiosamente e cerrara os punhos. Ele deteve-se no umbral, verificando primeiro se no havia ningum suficientemente perto para ouvir o que dizia.

Sinto pena do pobre palerma que fizer amor consigo pela primeira vez. Provavelmente ter a impresso de estar a proceder a um exame mdico acrescentou, antes de 
sair e fechar a porta.

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As lgrimas que tinham estado contidas por trs das minhas plpebras libertaram-se. Quantos homens mais me acusariam do mesmo? Quando encontraria algum com quem 
desejasse mostrar-me verdadeiramente terna e afectuosa? Seria eu demasiado fria, impessoal e analtica para o meu prprio bem? Todos os namorados que tinha afastavam-se 
mais cedo ou mais tarde, e algum que eu imaginava sofisticado e conhecedor acabava de rir e acusar do mesmo crime, se  que se podia considerar como tal.

Pensei que, por mais que a minha me me reconfortasse, por muitos livros que lesse sobre a matria ou mesmo que conversasse com outras raparigas, ficaria sempre 
com aquelas dvidas sobre mim mesma. A magia do amor e o mistrio da paixo estar-me-iam vedados? A viso de raios X que Claude me acusara de ter seria uma bno 
ou uma maldio?

"Porque ser", perguntara-me ele uma vez, depois de tentar que fizssemos amor e eu me retrara, "que ao olhares para mim vs um bao, dois rins e dois pulmes, 
em vez da minha pessoa?"

Claro que lhe respondera que se enganava mas, quando nos beijmos e ele premiu o seu corpo contra o meu, no pude deixar de reparar como a sua respirao se acelerava, 
ele ficava imediatamente erecto e a sua pele se humedecia, verificando como a excitao sexual activava o sistema nervoso. Imaginei-me uma espcie de monstro cerebral.

Os gmeos tentavam assustar-me trazendo-me minhocas e besouros, mas quase sempre ficavam desiludidos perante a minha calma. S para os contentar, chegava a fazer 
de conta que tinha o mesmo choque que a maioria das raparigas da minha idade sofreria se visse bicharocos enormes a rastejarem-lhes pela pele ou um mosquito enorme 
em cima do boio de creme; porm, eu no tinha problema nenhum em pegar neles e p-los de lado.

Pierre e Jean chegaram, um dia, a queixar-se  nossa me sobre a questo.

- A Pearl no tem medo de pegar numa r ou num escaravelho preto gigante!

A minha me sorrira e respondera-lhes que, se calhar, eu herdara o grande amor que a minha av tinha pelos animais. Embora nunca tivesse conhecido a me, contou-nos 
que a sua av, a grandmre Catherine, costumava descrever a filha, Gabriel, como algum que se sentia completamente  vontade com os aligatores e crocodilos e em 
quem todas as criaturas confiavam. As aves pousavam no seu ombro e comiam na palma da sua mo.

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-A Pearl saiu a ela - explicou.

Contudo, seria assim ou era eu que possua uma mente de tal modo analtica que me faltavam qualidades femininas? Poderia eu interessar-me pela cincia e isso no 
me impedir de ser uma pessoa afvel e calorosa?

Limpei as lgrimas e respirei fundo. Em seguida retomei o meu trabalho e concentrei-me nas tarefas de que fora incumbida. Entre mim e Jack Weller ergueu-se uma muralha 
de profissionalismo. Ele nunca mais tentou conversar comigo e, se eu entrava numa sala em que estivesse, limitava-se a olhar para mim de relance e a voltar ao que 
porventura estivesse a fazer,

Havia outros mdicos, mais velhos e com maior experincia profissional, com os quais eu, ocasionalmente, falava. Mal se apercebiam das minhas ambies, ansiavam 
por conversar comigo e dar-me orientaes. Se eu entrava num quarto para substituir a gua do copo de um doente ou para lhe levar sumo ou ch e torradas, e deparava 
com um mdico a falar com um doente da outra cama, deixava-me ficar a ouvir, inteirando-me do diagnstico e do tratamento.

 noite relatava ao meu pai estes factos. Ele escutava-me com os olhos a brilhar de interesse e os seus lbios suavizavam-se num pequeno sorriso. Se a minha me 
tambm estivesse presente, recostar-se-ia a transbordar de orgulho, trocando olhares secretos com o meu pai.

Pierre e Jean s se mostravam interessados nos pormenores sangrentos, perguntando-me constantemente se vira mais alguma pessoa morta, se houvera muito sangue e ossos 
partidos naquele dia, e por a fora. A maioria dos meus dias era passada no meio da maior rotina e sem emergncias verdadeiras, o que, aos olhos deles, era um tdio. 
Claro que desfrutavam o melhor possvel do seu Vero - nadavam na nossa piscina, para onde tambm convidavam os amigos, jogavam basebol e coleccionavam insectos, 
que conservavam em frascos. Eu dizia-lhes que no pensassem que a vida deles seria sempre assim, que o tempo voava e um dia, quando menos esperassem, teriam de deitar 
mos ao trabalho e esforarem-se muito para ser bem sucedidos nalguma coisa. Jean no queria dar ouvidos ao meu conselho, mas Pierre escutava-me com muita ponderao.

A exposio da minha me ficou pronta no princpio de Julho. Decorreria numa das novas galerias do French Quarter, A impressionante lista de convidados para a abertura 
inclua membros do governo, mdicos e advogados, homens de negcios importantes e alguns artistas. Nesse dia, os gmeos detestaram ter de se vestir adequadamente 
e de se manter limpos.
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A minha me fez questo em que vestissem fatos azul-escuros e gravatas de seda iguais. Comprou-lhes uns reluzentes sapatos novos e o nosso pai levou-os ao barbeiro. 
Estavam todos elegantes, ainda que pouco  vontade, dentro das suas roupas novas, ficando proibidos de fazer algo que lhes sujasse as mos e a cara ou manchasse 
os fatos.

Jean no parava de puxar pelo colarinho, queixando-se de que estava quase a morrer sufocado.

 uma estupidez uma pessoa ter de se vestir assim resmungou para Pearl. Vocs tm de se preocupar com o p em cima dos mveis ou em no tocar nalguma coisa que possa 
manchar-vos os vestidos, e os rapazes so obrigados a usar estas gravatas idiotas.

Ests to elegante, Jean! Esto os dois e fazem-no pela nossa me. Sabem como este dia  importante para ela expliquei-lhes.

Jean concordou, relutante; no entanto, minutos mais tarde, provocou Pierre pisando-lhe propositadamente os sapatos e despenteando-o, deitando depois a correr pela 
casa fora. O pai teve de os chamar  parte e dar-lhes um severo sermo, aps o que se mantiveram sentados a um canto, de mos juntas em cima dos joelhos, amuados.

Durante algum tempo, a msica e a animao que reinava na galeria mantiveram-nos entretidos. O nosso pai dera-lhes instrues sobre o modo como deviam comportar-se 
na galeria. No entanto, assim que chegmos, ele e a minha me viram-se completamente rodeados de amigos, convidados e rgos de comunicao social, de modo que os 
gmeos escapuliram-se de junto de mim e iniciaram as suas exploraes. De vez em quando vislumbrava-os a sair e a entrar em aglomerados de pessoas, empanturrando-se 
de aperitivos quentes e chegando mesmo a beberricar um pouco de vinho. Consegui encurral-los vrias vezes, obrigando-os a sentarem-se e a ficarem sossegados, porm, 
momentos depois desapareciam.

A julgar pelos comentrios que me chegavam aos ouvidos, a exposio da minha me estava a ser bem recebida. Durante a sesso de abertura, vrios quadros foram vendidos. 
Seguir-se-ia uma recepo no Antoine, um dos mais antigos e famosos restaurantes franceses do French Quarter. A festa decorreu num salo privado conhecido por "Masmorra" 
e, na realidade, utilizado como tal durante a permanncia espanhola em Nova Orlees. O empregado que me serviu e depois se deixou ficar ao meu lado uns instantes 
tinha muito orgulho no restaurante e no facto de, tambm ele, se chamar Antoine.

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Aqui tem umas ostras  Rockefeller, um dos nossos pratos mais conhecidos declarou, ao pousar-me o acepipe na frente. No sei se sabe mas o nome no se deve ao facto 
de terem sido inventadas para John D. Rockefeller. Receberam-no devido  riqueza do seu molho e como, na altura, Mister Rockefeller era o homem mais rico da Amrica...

Ah, compreendo disse eu, sorrindo.

Reparei que fazia sinal a um criado que, na mesa ao lado. servia vinho caro como se de gua se tratasse.

As nossas adegas vincolas contm mais de vinte e cinco mil garrafas, datando o vinho mais antigo de mil oitocentos e oitenta e quatro. At dispomos de um brande 
de mil oitocentos e onze.

Tentei parecer suficientemente impressionada, o que o incentivou a prosseguir com as suas explicaes e a gabar-se de cada prato que servia.

A princesa Margarida disse que o nosso souffl de caranguejo era um poema.

O restaurante no poupou esforos para impressionar os meus pais e os nossos convidados. Serviram-nos galinha  Rochambeau, lagostins  Cardinale, batatas  moda 
de Brabante e o famoso creme de espinafres de Antoine. Indiferentes a todas estas iguarias, os gmeos passaram directamente para a sobremesa.

Ainda estvamos a jantar quando trouxeram e leram em voz alta a primeira crtica publicada, to favorvel era. Todos aplaudiram a minha me, que se levantou e agradeceu 
aos presentes. A seguir, ela e o pai beijaram-se.

Sempre que se beijavam, eu tinha a impresso de que o faziam pela primeira vez. Os seus rostos deixavam sempre transparecer xtase e os seus olhos brilhavam com 
o fulgor de quem descobria algo. Pensei para comigo que se calhar eu jamais desfrutaria de tanto amor e felicidade. A minha me, como que adivinhando os meus pensamentos, 
fitou-me e sorriu-me, dizendo com o olhar: "No te preocupes, Pearl. Estou certa de que algures tambm tens algum como o pai  tua espera."

Como eu desejava ter a mesma certeza!

Precisamente quando a animao atingia o seu auge e as pessoas vinham  nossa mesa felicitar a minha me, quando a msica ressoava e a magnfica refeio era servida, 
vi-a deixar de sorrir repentinamente e voltar-se para a porta. O seu rosto esvaiu-se, ficando plido de preocupao. Tambm olhei na mesma direco e vi uma mulher 
alta, magra e morena, envergando uma tnica vermelha. O chefe de mesa foi atend-la e eu


vi-a fazer sinal em direco  minha me. No a deixou entrar mas, perante a sua insistncia, trouxe um bilhete seu  minha me. Reparei que o lia e que o seu rosto 
empalidecia ainda mais. Inclinou-se e segredou algo no ouvido do meu pai, que ficou visivelmente perturbado.

Levantei-me de imediato e fui ter com ela.

O que se passa, me?

Oh, Pearl querida, este bilhete  sobre a Nina Jackson, a cozinheira do meu pai.

O que se passa com ela? perguntei, olhando para fora e vendo que a mulher misteriosa, no entanto, j desaparecera.

Est a morrer e pediu para me ver. Preciso de ir ter com ela imediatamente, mas o teu pai acha que no devo abandonar a festa.

 a tua festa, me. Como poders ir? Ser que ela est assim to prxima da morte?

No fao ideia, querida.

No poders ir depois?

 o que o teu pai quer que eu faa. Daqui a meia hora passamos s fotografias. O presidente da Cmara deve c vir.

Nesse caso, tens mesmo de ficar, me. Assim que puderes sair, eu irei contigo.

Obrigada, querida agradeceu-me, apertando as minhas mos entre as suas. Apesar de tudo sinto que devia levantar-me e ir. Santo Deus.

Pareceu-me que a minha me estava suficientemente perturbada para arranjar uma desculpa e retirar-se, mas nessa altura chegou o presidente da Cmara de Nova Orlees. 
Todos bateram palmas e gerou-se uma grande excitao, enquanto ele se aproximava da minha me para a felicitar. Voltei para junto dos gmeos e aguardei, ciente da 
perturbao que ia no seu ntimo.

Por fim, cerca de uma hora depois, a minha me disse ao meu pai que achava que j no podia esperar mais tempo. As pessoas comeavam a retirar-se. Pediu ao meu pai 
que levasse os gmeos para casa. Estes, tal como eu, tinham ficado ali  espera do que resolveriam.

A Pearl vai comigo. Apanharemos um txi disse-lhe a minha me.

O meu pai parecia incomodado.

A ideia de vocs as duas andarem por a  noite no me agrada observou.

Correr tudo bem, Beau. Sairemos do txi para dentro de casa e depois faremos o sentido inverso explicou.

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No sei de que servir a tua ida l murmurou o meu pai.

Ela foi-me muito querida em tempos e ficmos amigas mesmo depois da sua sada da casa dos Dumas, Beau. Houve uma altura em que a Nina Jackson era, praticamente, 
a nica pessoa que cuidava de mim.

O meu pai anuiu e desviou o olhar. Imaginei que a minha me se referia ao tempo em que ele fora para a Europa.

Que hei-de dizer a todas estas pessoas? perguntou ele em voz baixa.

Diz-lhes a verdade, Beau, que uma amiga querida encontra-se  beira da morte e eu fui ter com ela respondeu

Est bem, est bem. Tem cuidado, sim? Beijou-a na face. Cuida da tua me e certifica-te de que ela no faz nenhuma tolice recomendou-me.

Est descansado, pai prometi.

Vamos, querida disse-me a minha me.

Ns tambm queremos ir pediu Jean em tom lamuriento.

Vocs vo  comigo para casa ripostou-lhes o meu pai. De certeza que, depois de comerem tanto chocolate e leite-creme, precisaro de uns sais de frutos. No saiam 
da minha vista.

Os dois olharam para mim cheios de pena por no irem connosco.

Portem-se bem recomendei-lhes, fazendo sinal a Piere, que sabia como controlar Jean. Fez-me uma careta de desconsolo, mas acompanhou Jean at umas cadeiras, onde 
se sentaram obedientemente,  espera do pai.

Entretanto, a minha me pedira que lhe arranjassem um txi.

Vamos depressa, querida disse-me. Samos apressadamente.

Para onde? perguntou o motorista. A minha me deu-lhe a morada.

Tem a certeza de que quer ir a este stio? A esta hora da noite no  a zona mais segura da cidade comentou.

Sabemos muito bem onde vamos. Agradeo que nos leve at l o mais depressa possvel retorquiu a minha me con secura.

A sua ansiedade tornava-a excepcionalmente firme e autoritria. Nenhum dos meus conhecidos falava com os empregados com a mesma delicadeza com que a minha me normalmente 
fazia.

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Durante o percurso pelo Vieux Carr, em direco  zona mais pobre da cidade, a minha me contou-me que, certa vez, Nina Jackson levara-a a consultar uma feiticeira 
vudu, para que esta lhe arranjasse um amuleto ou ensinasse algum ritual que impedisse sua irm, Gisselle, de ser cruel para com ela. Relatou que atirara uma fita, 
pertencente  irm, para dentro de uma caixa que continha uma cobra.

Pouco tempo depois, a Gisselle teve o acidente de carro disse com tristeza. Senti-me sempre culpada.

Oh, me, certamente no acreditas que esse ritual tenha tido alguma coisa a ver com o desastre! Contaste que o namorado dela estivera a beber e a fumar erva e guiara 
sem o menor cuidado...

Ainda assim... A cerimnia vudu deve t-la colocado ao alcance do perigo. Mais tarde, voltei  feiticeira vudu com a Nina, e ela fez-me tirar a fita de dentro da 
caixa com a cobra, mas no me garantiu o fim da maldio. Disse-me que, uma vez lanada a minha raiva ao vento, este tomava conta dela e o mais certo era eu no 
poder recuper-la.

Mas, me...

Sabes, contei  Gisselle.

E ela que disse?

Serviu-se simplesmente dessa informao para fazer chantagem comigo e obrigar-me a ser sua escrava, mas eu mereci. Nunca devia ter permitido que a raiva tomasse 
conta de mim. S a Nina  que se encontrava a par, mais ningum. Estava sempre a acender velas para manter o mal longe de mim, e a dar-me amuletos da sorte como 
a moedinha que tu usas disse a minha me, sorrindo.

Demos a volta a uma esquina e comemos a descer uma estrada comprida e escura. As casas assemelhavam-se a cabanas. Apesar da hora, vi crianas pequenas ainda a 
brincar na varanda da frente das casas e nos ptios sujos e miserveis. Ao longo dos passeios, avistavam-se automveis avariados e as ruas estavam imundas, com as 
sarjetas atafulhadas de latas, garrafas e jornais.

Parmos em frente de um casebre que parecia ligeiramente em melhor estado que os outros. O ptio e o passeio apresentavam-se limpos, mas vi penas e ossos pendurados 
no umbral da porta da entrada.

Espere aqui por ns recomendou a minha me ao motorista.

Olhe que no fico aqui muito tempo advertiu-a ele.

Tomei nota do seu nome e da sua matrcula retorquiu-lhe 


ela. Acho bem que aqui esteja quando eu e a minha filha sairmos daquela casa.

O homem soltou um resmungo  laia de resposta, mas preparou-se para esperar. A minha me respirou fundo e a seguir pegou-me na mo. Aproximmo-nos da soleira e batemos 
 porta. Um instante depois, uma negra baixinha espreitou a ver quem era. Tinha o cabelo grisalho a pender-lhe at meio das costas, vestia o que parecia ser uma 
serapilheira e calava uns tnis velhos, sem atacadores. Penduradas nos lbulos das orelhas estavam duas pequenas lagartixas vivas. Ambas se agarravam estoicamente, 
para no carem.

Viemos ver a Nina disse-lhe a minha me.

A Nina no est c respondeu a pequena mulher. A minha me olhou de relance para o bilhete que recebera.

Disseram-me que viesse a esta morada pois a Nina Jackson estava nesta casa, muito doente e  beira da morte.

Isso pode ser verdade, mas a Nina foi-se embora. Zumbi levou-a h cerca de uma hora. Est no paraso.

Oh, no. Chegmos demasiado tarde gemeu a minha me.

Apertei-lhe a mo e ela endireitou os ombros.

Mesmo assim quero v-la insistiu.

A mulher desviou-se para nos deixar passar. Do fundo da casa chegava at ns um aroma adocicado. A velha fez sinal para a esquerda e ouvimos o ressoar montono de 
um tambor. Lentamente, eu e a minha me aproximmo-nos da entrada do aposento contguo.

Era um quarto pequeno, com as persianas corridas. A cama ocupava a maior parte do espao e  sua volta ardia cerca de uma centena de velas. Sentada, muito quieta, 
mesmo ao lado do caixo, encontrava-se uma outra mulher negra, no muito diferente da que nos abrira a porta. No outro lado, em frente, via-se um velho com uma barba 
luminosamente branca, a bater num tambor feito de tiras de madeira de cipreste apertadas em arco e encimadas por uma pele de carneiro. Quando entrmos, no olhou 
para ns nem moveu a cabea um milmetro que fosse, enquanto a idosa se voltava para ns e os seus olhos grandes e tristes se iluminavam, indiciando algum reconhecimento.

 a Ruby da Nina, no ? perguntou.

Sim, sou respondeu a minha me. A senhora  a irm da Nina, no  verdade?

A mulher disse que sim com a cabea e olhou para o corpo de Nina Jackson, cujo rosto parecia de cera, lembrando uma mscara. Eu ainda no reparara, pois ficara ofuscada 
com o

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brilho das velas, mas aos ps da cama estavam dois gatos, um preto e outro branco, ambos mortos e embalsamados. Do alto da cabeceira do leito pendia uma boneca preta 
com um vestido vivamente colorido e um colar feito de vrtebras de serpente e com um dente de aligtor, encastoado em prata, a servir de pendente.

A minha irm no pde esperar mais disse a mulher.

Lamento murmurou a minha me, indo colocar-se perto da cama. Eu mantive-me ao seu lado. Pobre Nina.

A Nina agora est rica disse a irm sem hesitar. Est com zumbi.

 verdade concordou a minha me, sorrindo. Respirou fundo antes de tocar na mo de Nina. Fechou os olhos e rezou silenciosamente, olhando em seguida para a irm 
de Nina. Posso ajudar nalguma coisa?

No, madame. A Nina chamou-a porque queria fazer alguma coisa por si. Zumbi, antes de a levar, disse-lhe alguma coisa. Antes de partir, ela disse: vo chamar Madame 
Andreas. Tragam-na aqui. Tenho de lhe contar o que zumbi me disse. Mas a senhora no veio e ela no pde esperar mais, compreende?

A minha me deixou escapar um pequeno grito e eu peguei-lhe na mo.

Ela disse o que era?

Era coisa que a Nina s podia contar a si. S me disse que a fosse chamar depressa e depois perguntou-me se j c estava e eu respondi que no. Passado um bocado, 
repetiu a pergunta e a resposta foi a mesma. Ouvi-a ento fazer uma reza. Deu o ltimo suspiro e, quando olhei mais de perto, reparei que morrera com uma pequena 
lgrima no olho. No  bom sinal.

"Agora v e reze, madame. V e reze pela voz da Nina. Talvez seja melhor ir ao cemitrio quando for meia-noite. Leve um gato preto. Talvez a Nina fale do alm atravs 
da boca dele.

O tambor aumentou de intensidade.

Me, vamos embora sussurrei, sentindo um arrepio na espinha. A minha me parecia transfigurada, com os olhos muito abertos e fixos de medo. Temos o txi  espera 
acrescentei.

Vi-a suspirar fundo de novo e em seguida abrir a bolsa, de onde tirou algum dinheiro.

Por favor, aceitem esta contribuio para as despesas que forem necessrias para o funeral da Nina pediu.

A irm de Nina pegou nas notas, enquanto a minha me olhava uma ltima vez para a falecida, antes de se retirar.

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 melhor irem ao cemitrio  meia-noite, ouvimos a irm de Nina dizer atrs de ns.

A minha me permaneceu em silncio durante quase todo o trajecto para casa. Ficou a olhar pela janela at chegarmos. Depois virou-se para mim e murmurou

Devia ter ido imediatamente. Estava com um pressentimento. No era situao que pudesse esperar

Mas, me, como poderias faz-lo com toda aquela gente ali para te ver?

Nada disso tinha a mesma importncia. Tenho a certeza de que a Nina no me teria mandado chamar se no fosse grave,

insistiu, sacudindo a cabea

Me, tu certamente no acreditas em nada daquilo. No te passa pela cabea que a Nina tenha ido para a terra dos mortos e depois volte para te dizer qualquer coisa, 
pois no?

A minha me no respondeu

Me?

Recordo-me de uma vez ter ido com a grandmere Catherime esconjurar um esprito mau, daqueles que aparecem a ron dar quando morre uma criana que no foi baptizada 
contou

Chamaram-na para que o afastasse, a fim de no trazer azar  famlia

Como  que ela o fazia?

Deitava uma gota de gua benta em todos os recipientes, em todas as cisternas, tudo o que pudesse conter gua. Dvamos a volta  casa e ela ia aspergindo a gua 
benta

O que foi? inquiri, ao v-la hesitar

Senti-o. Senti o esprito sussurrou-me. ela Passou perto de mim, tocou-me no rosto e desapareceu na noite

Engoli em seco, mal podendo acreditar no que ouvia

Respeito a crena de todos declarou a minha me e no contesto os feitios, os gris gris ou os rituais. No quero acreditar na maioria deles, mas s vezes, s vezes 
no consigo. Fico com o estmago s voltas

Abracei-a, pois tremia

Oh, me, tudo isso no passa de velhas supersties um pouco tolas. So inventadas pelas pessoas. No podes acreditar que ir acontecer algum mal s por no teres 
chegado a tempo de falar com a Nina

Espero que no disse a minha me abanando a cabea. Espero que no

Quando chegmos a casa, o meu pai e os rapazes j ali se encontravam. Mandara-os deitar mas, um quarto de hora mais tarde, os dois queixaram-se de dores de barriga

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O que no me surpreende minimamente, tendo em considerao tudo o que engoliram hoje  noite. Fez uma pausa e fitou a minha me insistentemente. H algum problema? 
A Nina morreu?

Sim, Beau, quando cheguei j estava morta.

Lamento disse ele. Essa Nina era uma pessoa muito curiosa. Lembro-me da maneira como lidava com a Gisselle. Era a nica pessoa capaz de a fazer obedecer a alguma 
coisa. Estou convencido de que tinha um pouco de medo da Nina, apesar de troar dela e do seu vudu.

A irm da Nina disse-me que ela tinha qualquer coisa importante para me dizer, Beau.

O meu pai olhou para a mulher.

Sobre o qu?

Algo de que tivera conhecimento no outro mundo deixou escapar a minha me.

A princpio o meu pai limitou-se a ficar a olhar, a seguir abriu a boca de espanto.

No ests a querer dizer-me que acreditas que a Nina voltou do meio dos mortos para te dizer alguma coisa, no? Ao ver que a minha me acenava afirmativamente com 
a cabea, acrescentou: Mon Dieu, Ruby! Uma mulher com a tua inteligncia e...

No tem nada a ver com a inteligncia, Beau.

O meu pai j no disse mais nada. No era a primeira vez que ele e a minha me tinham aquela discusso e ele sabia como ela era inabalvel nas suas velhas crenas.

Estou cansado disse. Vou-me deitar. Acrescentou, voltando-se para trs a meio das escadas, o Bertrand, da galeria, telefonou a dizer que setenta por cento do teu 
trabalho foi vendido, o que  um recorde para uma estreia. Parabns.

Dito isto, continuou a subir. A minha me suspirou.

Que noite. Devia sentir-me feliz. No entanto, aprendi h muito que, por trs de cada raio de sol, se esconde uma sombra. Acho que s nos resta encontrar o melhor 
equilbrio possvel entre os dois. Sorriu-me. Obrigada por estares ao meu lado e seres o meu conforto.

Abramo-nos.

Acho melhor subir e ver como os rapazes esto. Se calhar ainda terei de recorrer a uma das receitas de ervas da grandmre Catherine observou.

Quando os rapazes a viram, compuseram um ar implorativo.

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No vale a pena estar a ralhar com eles esta noite declarou, ao sair do quarto. Esto ambos demasiado esverdeados para ouvir uma palavra.

A minha me desceu para lhes ir preparar uma velha e conhecida mezinha, e eu fui-me deitar. Mal acabara de fechar os olhos, veio-me  memria a viso da centena 
de velas e ouvi o som do tambor. Mais tarde tive um pesadelo horrvel, em que Nina se erguia no seu leito de morte e se voltava para mim Abriu os olhos, que eram 
amarelos. De debaixo das plpebras escorria-lhe, em vez de lgrimas, cera de velas que depois se solidificava sobre as faces. Quando abriu a boca para falar, ouvi 
apenas a voz da minha me a gritar: "No!" Acordei, sobressaltada. Ia a levantar-me para beber gua quando ouvi passos no corredor, assim como o som de algum a 
soluar. Esperei um pouco e depois espreitei. A minha me descia as escadas. Vi-a sair por uma porta que dava para o ptio sob o efeito, ao que me pareceu, de um 
ataque de sonambulismo.

Vesti o meu roupo e fui atrs dela. A princpio no a vi, depois vislumbrei a sua silhueta no meio das sombras do jardim.

Me sussurrei, que ests aqui fora a fazer?

Ela no me ouviu, portanto acerquei-me um pouco mais e insisti.

Oh, Pearl replicou ela com uma voz acabrunhada de tristeza, estava a contar que a Nina me falasse no meio da escurido. No digas ao pai que eu vim aqui para fora 
implorou.

Peguei-lhe na mo e senti que tinha a pele pegajosa e fria.

 melhor voltares para a cama, me, e deixares de te preocupar.

No posso. Est para acontecer qualquer coisa derivada da m sorte que aces por mim cometidas no passado atraram  nossa casa. Tenho a certeza de que a Nina queria 
avisar-me.

Isso  um disparate, me, e tu bem o sabes. As coisas s acontecem por razes lgicas e naturais.

A minha me suspirou profundamente.

Tenho dvidas murmurou. No sei.

Pois bem, eu tenho a certeza declarei com firmeza. Agora, vem deitar-te, se no, conto ao pai.

Comeou a caminhar em direco a casa, do meu lado. quando, de repente, se deteve e me agarrou desesperadamente na mo.

Ouviste aquilo? perguntou em voz baixa. Esforcei-me por escutar mas no me chegou nenhum som

fora do normal.

Ouvir o qu, me?

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O som de algum a chorar,  o mesmo de h bocado

No eras tu? perguntei. Abriu muito os olhos

Ento, tambm tu ouviste' exclamou de imediato

Pra com isso, me. Ests a assustar-me

Ficmos de ouvido  escuta durante mais algum tempo

No ouo nada declarei

A minha me sacudiu a cabea e voltmos as duas para casa. Fomos para os respectivos quartos mas j era manhzinha quando adormeci.

Na manh seguinte, a minha me no desceu para tomar o pequeno-almoo antes de eu seguir para o trabalho. O meu pai disse-me que passara uma noite agitada e estava 
a dormir profundamente. De facto, apesar da esplndida recepo que as suas obras tinham recebido, manteve-se melanclica durante alguns dias. Quando voltei do hospital, 
encontrei, como de costume, os gmeos  porta, a queixarem-se

A me est a comear a ouvir mal, concluiu Pierre Jean fez que sim com a cabea, preocupado

Devia ir a um mdico dos ouvidos

Talvez tu possas fazer-lhe um exame, Pearl alvitrou Jean

Porque dizem que ela est a perder o ouvido? perguntei, sorridente

Se lhe perguntamos alguma coisa, temos de repetir a pergunta duas ou trs vezes explicou Pierre.

s vezes temos de gritar acrescentou Jean

Ela tem andado um pouco distrada ultimamente, expliquei-lhes No tem nada a ver com a audio. Basta que tenham um pouco de pacincia

Abanaram a cabea cepticamente e voltaram s suas brincadeiras. O ambiente de ansiedade que se abatera sobre a nossa casa deprimia-os. Tinham perdido o entusiasmo 
pelas suas partidas. Tambm o meu pai comeou a ficar preocupado com a minha me, que deixara de trabalhar, no visitava os amigos nem os recebia, estando, igualmente, 
a alimentar-se mal at que uma noite, ao jantar, achou que encontrara a soluo

Na prxima semana, a Pearl tem a segunda e a tera-feira livres e eu tenho direito a um feriado. Que tal irmos passar esse fim-de-semana ao chateou. Ruby? A mudana 
de cenrio ir fazer-te bem. Tu podes arranjar ideias novas para o teu trabalho e eu e os rapazes iremos  pesca

Isso' gritou Jean, entusiasmado

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No sei respondeu a minha me.

O meu pai olhou para mim em busca de apoio.

Adoraria mudar de cenrio, me, e alm disso j no vamos at l h bastante tempo disse eu. Tambm poderei aproveitar para fazer algumas leituras de preparao 
para a faculdade.

Fitou-me e anuiu.

 capaz de no ser m ideia concordou.

Os rapazes ficaram delirantes e o arranjo das malas e o planeamento trouxeram alguma animao ao que, caso contrrio, teriam sido momentos de desalento. A minha 
me, apesar da sua relutncia inicial, tambm se entusiasmou com os preparativos. Na manh seguinte, ningum precisou de acordar os meus irmos. J estavam vestidos 
e prontos quando os meus pais e eu descemos para tomar o pequeno-almoo. Quando, porm, a minha me foi inspeccionar-lhes a bagagem, descobriu que tinham includo 
fisgas, bolas de basebol, camuflados, berlindes e canivetes.

Tero muito com que se entreter l disse-lhes ela. No precisam de levar toda esta tralha.

O meu pai meteu as coisas no carro logo a seguir ao pequeno-almoo. Penso que estava ainda mais entusiasmado do que os gmeos com aquelas minifrias. Estes, como 
de costume, no se calaram um instante durante toda a viagem, fazendo perguntas a torto e a direito sobre o que viam. Que estavam as pessoas a vender na berma da 
estrada? Como  que faziam aquelas cestas e chapus de palhinha? Porque tinham construdo as cabanas em cima de estacas? A minha me ficou com pouco tempo para os 
seus pensamentos sombrios; at mesmo o meu pai, que normalmente impunha um certo travo aos gmeos, limitou-se a sorrir, piscar-me o olho e deix-los tagarelar o 
caminho todo.

Estava um belo dia de Vero. Levar a minha me para o mundo rural parecia ser a panaceia que o meu pai e eu desejvamos. A viso do seu adorado musgo a cair de velhos 
ciprestes, as reluzentes varas-de-ouro, os salgueiros e choupos e. aqui e ali. pequenos lagos cobertos de lrios e jacintos, enchiam-na de prazer e devolviam aos 
seus olhos e faces o anterior brilho. Os gmeos adoravam pr  prova os seus conhecimentos sobre aves, e ela identificava, de bom grado, alguma gara de bico grande 
ou um cardeal escarlate. Ouviram-na descrever, fascinados, a maneira como um pssaro-carniceiro guardava a sua comida no meio de espinhos, de modo a poder comer 
a carne curada durante o Inverno. Tudo o que dizia respeito  Natureza

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fascinava-os. Conclu que tinham sido mesmo eles a herdar, na verdade, o amor da nossa av pela vida selvagem.

Espero que cheguemos a ver cobras, crocodilos e aligatores declarou Jean quando estvamos quase a chegar ao que fora a casa de campo da famlia Dumas.

No tentes encontr-los advertiu-o a minha me. Nada de andarem por a a fazer exploraes por vossa conta. Quero-vos perto de casa, excepto quando forem acompanhados 
pelo vosso pai, entendido?

Relutantes, prometeram.

L est ela! exclamou o meu pai ao avistarmos a casa depois de uma curva.

O edifcio ao qual o meu av Dumas costumava referir-se como o seu rancho no passava, na realidade, de um castelo em ponto pequeno. Possua um telhado muito inclinado, 
com espirais, pinculos, pequenas torres, espiges e duas chamins de formato bizarro. A extremidade metlica ao longo das arestas do telhado era ricamente trabalhada. 
As janelas e o umbral da porta eram em forma de arco.  esquerda erguiam-se duas pequenas habitaes para os criados e os caseiros.  direita, a uma certa distncia, 
ficavam os estbulos com os cavalos de corrida e um celeiro. A propriedade estendia-se por campos dispersos, com zonas arborizadas e um riacho a cort-los no extremo 
norte.

 semelhana dos castelos da zona rural francesa, tambm aquele possua belos jardins e no relvado da frente erguiam-se dois mirantes, assim como bancos, cadeiras 
e fontes em pedra. Quando chegmos, os caseiros andavam a aparar arbustos e a arrancar ervas daninhas.

Podemos ir j andar a cavalo, pai? perguntou Jean, entusiasmado.

Antes disso iremos instalar-nos, desfazer as malas e organizar-nos. Depois veremos qual  o programa das festividades respondeu.

Os gmeos contiveram a sua excitao crescente mas, ao regalarem a vista pelos nossos campos maravilhosos, os pequenos lagos, os prados e a corrente de gua que 
desaparecia, ziguezagueante, na profundeza dos bosques, ficaram com ar de quem estava prestes a rebentar a qualquer instante. Mal o pai Parou o carro, desataram 
a correr, mas ele chamou-os imediatamente com um grito.

Vocs dois, ajudem aqui a descarregar e levem a vossa bagagem para o quarto que vos pertence. V. J tm idade para Ser auto-suficientes declarou.

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Voltaram para junto do carro e pegaram nos seus pertences, Jean colocando orgulhosamente a sua mala ao ombro e ajudando Pierre a descarregar a sua.

A minha me deteve-se, por instantes, a olhar em volta. Depois ergueu o olhar para uma das janelas de cima. Uma qualquer recordao ensombrou-lhe o semblante. O 
meu pai reparou na sua perturbao e aproximou-se rapidamente.

Ruby, por favor, gozemos estes dias com alegria e deixemos o passado enterrado implorou.

A minha me anuiu, soltando um suspiro profundo, e dirigiu-se para a porta da frente.

Com excepo de alguns quadros da minha me, os meus pais pouco tinham feito para mudar a decorao. O chteau dispunha de um pequeno vestbulo ornamentado com reposteiros 
e enormes quadros retratando paisagens. O mobilirio era um misto de moderno e das mesmas peas rsticas francesas que tnhamos na nossa casa de Nova Orlees.

Depois de nos instalarmos todos, o meu pai levou os gmeos  pesca e a minha me e eu fomos para o jardim, onde me pus a ler e a minha me montou o seu cavalete. 
Embora pouco conversssemos, tentvamos alhear-nos da presena uma da outra. Tanto a leitura como a pintura requeria concentrao e isolamento. A minha me depressa 
se perdeu no seu projecto e eu no meu livro. Sem que, praticamente, dssemos por isso, no tardou que a tarde mergulhasse na penumbra e ns fssemos obrigadas a 
entrar para nos prepararmos para o jantar.

O meu pai e os gmeos regressaram com o fruto da sua pescaria. Os rapazes vinham de tal maneira excitados com as trutas e outros espcimes da vida selvagem que no 
se calaram um minuto sobre o assunto durante toda a refeio. Ningum mais teve oportunidade de proferir uma palavra; no entanto, o entusiasmo deles era contagiante. 
Sentimo-nos todos rejuvenescidos, especialmente a minha me. Encarreguei-me de ir deitar os gmeos, deixando os meus pais sozinhos para se deliciarem com a noite 
quente e estrelada do Hayou. Os gmeos s acederam em dormir, relutantes, depois de o nosso pai lhes prometer que, na manh seguinte, iriam andar a cavalo.

Eu tambm gostava de montar; portanto, no dia seguinte a minha me retomou as suas pinturas e eu, o meu pai e os gmeos fomos passear a cavalo durante quase duas 
horas. Depois do almoo, o meu pai subiu ao seu quarto para dormir a sesta e a minha me e eu voltmos para o jardim, onde ela continuou a pintar e eu retomei as 
minhas leituras de estudo.

Perto do fim da tarde, uma onda de nuvens escuras aproximou-se,

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vinda de leste. A brisa ganhou velocidade e fora, de modo que a minha me achou melhor voltarmos para casa. O vento agitava os nossos cabelos, as minhas pginas 
e a tela e o cavalete da minha me. Tentmos controlar os nossos materiais, no meio de risadas. Quando estvamos a guardar os pincis, as bisnagas de tinta, a tela 
e o cavalete, ela fez subitamente uma pausa, o sorriso a morrer-lhe nos lbios e uma expresso confusa no rosto.

O que foi isto? perguntou.

Isto o qu, me? quis saber.

No ouviste? Parecia algum a gritar.

Voltou-se lentamente. O meu pai acabara de sair de casa e aproximara-se de ns quando, tambm eu, ouvi os gritos.

Pierre sussurrei ao ver o meu irmo aproximar-se, cambaleante, esforando-se por abrir caminho por entre a erva alta. Caiu uma vez e a minha me gritou. O meu pai 
deitou a correr para o filho.

Pearl gemeu a minha me.

No deve ser nada de especial, me tranquilizei-a, dirigindo-me para Pierre.

Onde estaria Jean?, perguntei a mim mesma. Ao ver Pierre gritar o nome de Jean e apontar para a rea pantanosa que deixara para trs, senti o corao gelar.

Foi mordido por uma cobra!

As suas palavras foram trazidas at ns pelo vento e chegaram aos ouvidos da minha me, que viera atrs de mim. Levou as mos ao rosto e gritou para as nuvens de 
tempestade que se aproximavam.

Nina!

Voltei para trs para a abraar, mas j no fui a tempo de a amparar.

O trovo pareceu vir de dentro dos nossos coraes.



A MALDIO CONCRETIZA-SE

A mocassina-aqutica  uma vbora grande e venenosa, de cor verde-acastanhada. As gentes do Sul chamam-lhe, frequentemente, boca-de-algodo. Enrosca-se nos ramos 
mais baixos dos salgueiros e, quando est dentro de gua, pode parecer-se como um ramo partido a flutuar.

Jean entrara na gua de um pequeno lago para chegar a uma tartaruga que dormia no meio das folhas dos lrios. Pierre alertara-o para que no o fizesse, mas Jean 
estava fascinado. Eu sabia que, quando aquele meu irmo se fixava nalguma coisa, era como se ficasse hipnotizado. Desligava-se de tudo o que o rodeava e concentrava-se 
exclusivamente no que queria fazer, ver ou tocar. Pierre ficara na beira do lago a gritar-lhe, mas ele no lhe dera qualquer ateno.

Quando se aproximou da cobra, esta atacou.

Pensei que fosse um ramo, pai gemeu Pierre.

Era uma frase que ficaria a entoar mentalmente durante muito tempo: "Pensei que fosse um ramo."

Jean flutuava de rosto para baixo quando o meu pai se lanou  gua para chegar junto dele. Levantou-o e ergueu-o acima da sua cabea. Eu, que acabara de chegar 
 clareira, vi-o correr para fora de gua como se esta fervesse  sua volta. Para mim no h nada mais assustador do que o som e a viso de um homem adulto a gritar. 
No  suposto os pais chorarem. Ao mesmo tempo no havia, para mim, viso mais arrasadora e aterrorizante que a do meu pai petrificado perante a perspectiva de perder 
o seu filho, meu irmo. Dava a impresso de ter ficado sem o menor sentido de orientao, estava completamente fora de si.

Encheu o rosto do filho de beijos que eu sabia ele rezar para que fossem mgicos; no entanto, os pontos que tinham cosido as plpebras de Jean pareciam inamovveis, 
e a sua linda carinha, um rosto sempre cheio de animao, assim como aqueles

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olhos azuis, que passeavam por uma sala ou um lugar em permanente busca de algo interessante, j tinham comeado a empalidecer como um nenfar a murchar.

O meu pai voltou-se para mim com um olhar de desespero que jamais esquecerei.

Acerquei-me dele a correr.

Ele no est a respirar! exclamou.

Ajudei-o a colocar Jean em cima de uma faixa de relva macia.

Faz com que ele fique bem, Pearl, por favor implorou.

Jean fora mordido no pulso esquerdo. Ao v-lo muito inchado, percebi que se tratara de uma vbora adulta e que a dose de veneno fora considervel. O choque da mordedura 
e o seu efeito no sistema nervoso deviam t-lo feito entrar em pnico. Tudo indicava que cara na gua mas, em vez de se dirigir para a margem, afundara-se. Sentira, 
sem dvida, uma dor violenta no pulso e o corao a bater violentamente.

No curso de primeiros socorros que tirara nos bombeiros o ano anterior, eu aprendera que, quando uma pessoa entra em pnico  tona de gua, os seus movimentos descontrolados 
impedem-na de manter o corpo a flutuar. 'Se se afunda e comea a engolir gua, no incio o msculo da traqueia contrai-se automaticamente e impede a entrada da gua 
nos pulmes, indo esta para o estmago atravs do esfago. No entanto, o reflexo da laringe impede a respirao, o que conduz, rapidamente,  perda de conscincia, 
mesmo que no tenha havido nenhuma injeco de veneno de vbora letal. Ter sido, certamente, o que aconteceu a Jean.

Os lbios do meu irmo tinham-se tornado azulados e, como no lhe sentia pulsaes nem no corao nem no pulso, comecei imediatamente a fazer-lhe uma reanimao 
cardiopulmonar, jamais imaginando, quando aprendera aquela tcnica no ano anterior, que viria a pratic-la a srio no meu prprio irmo. Recordava as instrues, 
mandando calar o meu pai e as suas lamrias e os incentivos de Pierre para que Jean se pusesse bom. Em vez disso, ouvi as palavras do meu instrutor a dizer-me que 
a mdia de compresses devia ser de oitenta por minuto, insuflando-lhe ar pela boca de quinze em quinze minutos. Passados apenas dois minutos, que tinham parecido 
horas, ergui os olhos para o meu pai.

Temos de o levar para o hospital.

Ele anuiu e pegou em Jean. Pierre e eu atravessmos o arvoredo e depois o relvado, atrs dele. A minha me estava

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sentada num banco, o rosto esvado e branco, as lgrimas a correr e lbios trmulos.

Temos de ir a correr para o hospital gritou-lhe o meu pai, dirigindo-se para o carro. A minha me sacudiu violentamente a cabea, como que para afastar mosquitos. 
Dei a mo a Pierre e ambos a ajudmos a levantar-se.

Metemo-nos todos no carro. A minha me e eu ficmos no banco de trs, com Jean. Ela manteve a cabea do filho sobre os joelhos, afagando-lhe continuamente o cabelo, 
agora com as lgrimas a carem tambm sobre o rosto dele.

A viagem no me ficou gravada na memria. O meu pai guiava aceleradamente, buzinando para afastar tudo e todos os que apareciam no nosso caminho. Entrmos na rea 
de acesso das urgncias e parmos. O meu pai pegou novamente em Jean com os dois braos e a minha me levantou-se com lentido, para ir atrs dele. Perdera j toda 
a esperana. Era uma concha de si mesma, deixando-se levar por ns.

Jean recebeu a assistncia de uma equipa de mdicos e enfermeiras. Eu fiquei sentada ao lado da minha me na sala de espera, agarrando-lhe na mo inerte. Pierre, 
ao meu lado, encontrava-se em estado de estupefaco, fortemente agarrado  minha outra mo, como que esperando que eu pudesse arranc-lo do meio da tragdia que 
se desenrolava  nossa volta.

A minha me, que estivera sentada a olhar para a parede sem expresso, disse repentinamente:

Se ao menos eu tivesse sado da festa... se tivesse ido falar com a Nina antes de ela morrer.

Pra com isso, me. A Nina nada tem a ver com o que aconteceu.

Abanou a cabea e suspirou to profundamente que eu tive a impresso de ouvir o seu peito estalar. Continuou a olhar em frente com expresso vazia,  espera.

Vi, mentalmente, o que eles estariam a fazer a Jean: injectavam-lhe um antdoto para o veneno; aplicavam-lhe um desfibrilhador; aspiravam-lhe a gua dos pulmes. 
O meu pai assistia a tudo, rezando, qual homem transformado em pedra.

O tempo deixara de ter significado, da que eu tivesse perdido a noo das horas passadas at o meu pai sair, seguido por algum pessoal mdico. No eram necessrias 
palavras. Os seus rostos diziam tudo.

Pierre, que se chegara mais para mim, rodeando-me a cintura com os braos, apertou-me ainda mais desesperadamente. A parte que, em mim, se mantinha analtica e inacreditavelmente 
desprendida em termos emocionais perguntou a si mesma em

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que determinada altura da infncia  que nos apercebemos da finalidade da morte. Dizem-nos que as pessoas que morrem vo-se embora, para sempre, at um lugar mais 
bonito, o que atenua a nossa confuso e sofrimento, pois imaginamos que sero ainda mais felizes. Isso ajuda-nos a p-los de parte, a esquecer, a voltar para os 
que ainda esto connosco.

Mais tarde, numa qualquer idade frgil, percebemos, de repente, que a morte  mais do que um simples bilhete de comboio ou de avio, e compreendemos a natureza temporal 
da nossa prpria existncia. Um dia, algures, no sabemos como, tambm ns iniciaremos essa jornada inexorvel. No entanto, nada  mais injusto e injustificvel 
do que a partida extempornea e forada de uma criana.

Talvez Jean se tivesse tornado mdico ou advogado, ou ento um grande atleta ou um homem de negcios bem sucedido. Teria formado a sua prpria famlia e teria tido 
filhos seus. Ainda estava na idade das indefinies. Era uma criana cheia de curiosidade e de vivacidade, a transbordar de um desejo de viver cada momento, de provar 
todas as bolachas, beber todas as laranjadas, dar todas as gargalhadas, correr at o corao quase lhe rebentar, subir s rvores e ter um co aos ps ou um gato 
ao colo. Ele era o nosso Huckleberry Finn, mais  vontade dentro de umas calas de ganga coadas do que de fato e gravata, jamais perturbado pelas madeixas de cabelo 
que lhe caam para a testa, ansioso por enfiar o dedo na tarte ou na cobertura do bolo.

E agora... desaparecera.

Perdemo-lo informou o meu pai, deixando desmoronar a fachada de impassibilidade com uma torrente de lgrimas.

A minha me ergueu os olhos para o tecto e soltou um grito, antes de desfalecer nos braos do meu pai. Eu fiquei to abalada com a sua reaco que nem sequer reparei 
que Pierre cara para trs. Quando, porm, olhei para ele, senti uma segunda facada no corao. Apercebi-me de que mergulhara num estado catatnico, de olhos muito 
abertos.

A nossa tragdia ainda estava no comeo.

Ver Pierre sem Jean a seu lado era como ver algum a quem haviam amputado um membro. Parecia sempre que lhe faltava qualquer coisa; portanto, era compreensvel que 
caisse num estado de choque, talvez ainda mais profundo e intenso do que aquele por que a minha me estava a passar. Os mdicos examinaram-no, esperanados de que 
sasse dele pouco tempo depois. Aconselharam-nos a lev-lo para casa e a t-lo sob
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vigilncia constante. O meu pai transportara um filho em braos para o hospital e teve de trazer o outro da mesma maneira. Voltmos para o chteau como se j fssemos 
na procisso do funeral de Jean. A minha me ia encostada ao banco, com a cabea apoiada a uma das paredes laterais do carro. Eu sentara-me com um brao em torno 
de Pierre, sussurrando-lhe palavras de conforto ao ouvido. O meu pai comportava-se mecanicamente, executando todos os movimentos que se esperavam dele. Levou Pierre 
para casa, enquanto eu ajudava a minha me. Deitou o meu irmo na cama, decidindo no ficar ali mais tempo. Mandou os criados fazer as nossas malas rapidamente e 
telefonou ao nosso mdico de famlia a pedir-lhe que esperasse por ns na nossa casa de Nova Orlees. A seguir tomou as providncias necessrias para que o corpo 
de Jean fosse transferido para uma agncia funerria. Eu encontrava-me a seu lado, pronta a ajud-lo em qualquer coisa; no entanto, ele pediu-me que me concentrasse 
em Pierre, que ainda no sara do seu estado de semi-inconscincia. Quando chegou a altura de partirmos, teve de ser levado para o carro, onde permaneceu encostado 
a mim, inerte, durante toda a viagem at Nova Orlees. A minha me ia desfalecida no banco da frente, com os olhos fechados para afastar a realidade.

Nada se espalha mais depressa do que as ms notcias. Ainda no estvamos em casa h uma hora quando os telefones comearam a tocar. O meu pai tivera de ligar para 
a Europa a fim de avisar os avs Andreas, que, como de costume, tinham ido passar o Vero  Europa, do que acontecera. A minha av disse que o av estava demasiado 
doente para apanhar o avio a tempo de assistir ao funeral. Sofrera um ataque cardaco no ano anterior.

O mdico dera um sedativo  minha me. Examinou Pierre e foi de opinio que em breve sairia do seu estado de choque. Seguindo as suas indicaes, tentei fazer com 
que ele comesse e bebesse alguma coisa; porm, o meu irmo recusava-se a abrir a boca. Comecei a recear que tanto os mdicos do hospital como o nosso mdico de famlia 
tivessem subestimado o seu trauma emocional.

A atmosfera sombria que invadira a nossa casa antes de partirmos para o campo no se comparava, minimamente, com o que viera a seguir.  morte instalara-se em cada 
canto escuro, movendo-se, altiva e livremente, pelos corredores, atenuando cada luz, desvanecendo cada cor, fazendo fenecer cada flor e pintando as nossas janelas 
de cinzento, ao ponto de, por muito ensolarado que o dia estivesse, para ns dar sempre a impresso de estar a chover. As pessoas s falavam em sussurros e
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caminhavam na ponta dos ps para no serem ouvidas. Os empregados entravam e saam silenciosamente das divises para executar as suas tarefas, reunindo-se depois 
na cozinha ou na copa para se consolarem uns aos outros. O tiquetaque dos relgios comeou a soar como troves.

Mais para o fim da tarde, o meu pai reuniu toda a sua fora interior para ir para o gabinete receber as condolncias das pessoas e finalizar os procedimentos para 
o funeral de Jean. Tinha um ar empalidecido e grisalho sob a luz difusa, qual homem que tivesse envelhecido dcadas em minutos. De manh cedo, depois de um dos seus 
scios se retirar, entrei no seu gabinete. Recostado na cadeira da secretria, olhava para a parede em frente com ar ausente. No pareceu dar por mim.

Pai chamei.

Voltou-se para mim como que num sonho. As lgrimas brilhavam nos seus olhos escuros.

O que , Pearl?

 sobre o Pierre, pai. Ele no apresenta melhoras. No come nada desde... desde o hospital. Nem sequer tomou um gole de gua.

Culpa-se a si mesmo afirmou o meu pai, abanando a cabea. A seguir bateu no peito com os punhos fechados com tal violncia que eu estremeci. Mas eu  que tenho a 
culpa.

Corri para o seu lado e pousei a minha mo no seu ombro.

Claro que no, pai. Ningum pode ser responsabilizado.

Eu  que propus que fssemos para l. Eu  que insisti... gemeu com voz quase inaudvel.

Pai, tu sabes que, mais tarde ou mais cedo, iramos l. No podes culpar-te. Foi um acidente horrvel.

Acidente repetiu o meu pai com amargura. O seu queixo tremeu. Eu avisei-os para que no fossem para longe e que tomassem cuidado, no foi?

Claro que foi, pai. Deixa de te culpar. A me est l em cima toda torcida de remorsos, e o Pierre entrou numa espcie de coma pela mesma razo. O Jean simplesmente 
no devia ter entrado na gua.

No passava de um menino, ainda era uma criana protestou o meu pai. Era meu dever tomar conta dele, vigi-lo, proteg-lo. Fracassei. Fracassei miseravelmente.

Fechou os olhos. Parecia querer conserv-los para sempre assim.

Pai, estou muito receosa em relao ao Pierre. Temos de fazer algo. Telefona ao mdico e pede-lhe que volte c.

O meu pai abriu os olhos lentamente e olhou para mim como

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se as minhas palavras estivessem a penetrar no seu crebro muito lentamente.

Achas que  grave?

No tarda a ficar desidratado. Acho que tem mesmo um pouco de febre.

Oh, no! Ainda fico sem os dois exclamou, levantando-se e abanando a cabea, pensativo.  melhor prestar-lhe alguma ateno em vez de deixar-me engolir na minha 
prpria tragdia.

Dito isto, saiu do gabinete e subiu at ao quarto de Pierre. comigo no seu encalo.

Pierre no movera um msculo desde que eu estivera ao p dele. Tinha os olhos abertos, mas to vazios que era como se eu pudesse ver atravs deles, pelo longo corredor, 
at ao negrume da sua mente fechada. O meu pai sentou-se na beira da cama, ao seu lado, e pegou-lhe na mo.

Pierre, tens de fazer um esforo para sair desse estado e ajudar-nos a ns, assim como a me. Precisas de comer e beber alguma coisa. A culpa no foi tua. Tentaste 
impedir que o Jean se metesse na gua. V, Pierre implorou o meu pai.

O menino nem sequer pestanejou.

V, Pierre insistiu o meu pai, tocando-lhe no rosto. V filho, por favor.

Os olhos de Pierre continuaram imveis. De repente, fez uma careta, como se estivesse em grande sofrimento. A seguir soltou um som gutural horrvel, que me assustou 
a mim e ao meu pai, o qual recuou, surpreendido, e levantou-se.

Qual  o problema que ele tem? Porque est a reagir assim?

Penso que est a reviver a tragdia calculei.

Pierre, pra com isso. Pra com isso ordenou o meu pai.

Sacudiu o filho pelos ombros. A expresso de Pierre no se alterou mas deixou de fazer aquele som terrvel. O meu pai soltou-o e virou-se para mim.

 como dizes, Pearl, mais vale chamar o mdico.

Vai, pai, eu fico com ele disse. O meu pai saiu do quarto.

Sentei-me na beira da cama e peguei na mo de Pierre, afagando-a meigamente.

Pobre Pierre murmurei. Foi uma tragdia assistires a uma cena to horrvel, mas o certo  que no tens de te sentir culpado. No tiveste a menor responsabilidade 
no sucedido.

Ergui os olhos para o seu rosto e vi uma pequena lgrima

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despontar-lhe ao canto do olho e depois ziguezaguear, lentamente, pela face abaixo, at chegar ao queixo. Espantosamente, a reaco ficou-se por ali: uma nica lgrima. 
Era como se tivesse chorado todas as outras por dentro e j no restassem mais para mostrar. Inclinei-me e limpei aquela lgrima solitria.

No queres experimentar beber um pouco de gua, Pierre? Por favor. Por mim. Imploro-te supliquei.

Os lbios do meu irmo no se mexeram e os seus olhos continuaram frios e rgidos como fragmentos de turquesa. Suspirei e continuei a falar-lhe ternamente, sem lhe 
largar a mo, at o esforo me deixar exausta. Nessa altura, ouvi a porta abrir-se e a minha me deteve-se  entrada, com o rosto marcado pelo sulco deixado pelas 
suas prprias lgrimas, a pele cor de cera. Estava em camisa de dormir mas no trazia chinelos calados.

O que  que ele tem? perguntou com uma voz despojada de emoo.

Parecia uma pessoa que fora hipnotizada e falava como que sob um feitio; todavia, parecia ter finalmente compreendido que Pierre no estava nada bem.

No quer comer nem beber nada, a sua expresso no mudou minimamente desde que voltmos, e tambm no se mexeu. Est em estado catatnico, me. Eu disse ao pai para 
chamar o mdico.

Mon Dieu exclamou. O que foi que eu fiz?

Me, por favor. Culpares-te no trar nenhum bem a ningum. Olha o que fez ao Pierre. Voltei-me de novo para ele. Tenho a certeza de que est cheio de remorsos.

Meu menino balbuciou a minha me, aproximando-se para o abraar.

Sentou-se na beira da cama e envolveu-o nos braos; Pierre fazia lembrar uma boneca de trapos, com a cabea a balanar, os olhos imveis, os membros sem vida. Embalou-o 
e tentou confort-lo, mas ele no reagiu. Ao aperceber-se do facto, voltou a deit-lo sobre a almofada com uma expresso de choque e medo no rosto.

O que poderemos fazer, Pearl? perguntou-me a chorar.

O mdico deve estar a chegar, me, mas eu acho que o Pierre precisar de ir para o hospital. Iro p-lo a soro at voltar a si.

Voltar? perguntou-me. Voltar de onde?

Do santurio em que se refugiou, onde o que aconteceu no  uma realidade.

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Quanto tempo poder esta situao manter-se? perguntou, olhando para o filho.

Tive medo de lhe dizer o que sabia. Lera sobre pessoas que. devido a algum trauma emocional, haviam permanecido em estado catatnico durante anos. Algumas no tinham 
chegado a emergir dele, outras, quando tal aconteceu, vinham completamente diferentes pois haviam regredido at  infncia.

Ele no tardar a voltar a si, me, mas precisa de estar sob intensa vigilncia mdica repliquei.

Claro, tens razo. Fez-me uma festa na face com muita ternura e sorriu. s a minha filha mais velha. A partir de agora vou depender muito de ti, Pearl. Sei que no 
 justo, pois devias estar livre para desfrutar destes anos e no suportares o peso de tantas agruras e azares. Contava que levasses uma vida diferente da que eu 
tive. Esperava...

Calou-se, com os lbios a tremer.

No te preocupes que eu estou bem, me. Olhou de novo para Pierre.

Os gmeos eram muito chegados. Em pequenos, quando um deles chorava, o outro fazia o mesmo logo a seguir e, quando um acordava, era certo e sabido que aconteceria 
logo o mesmo ao outro. Se bem te lembras, o Jean comeou a andar antes do Pierre.

Lembro, sim, me.

Apesar disso, como o Pierre gatinhava, ele tambm fazia o mesmo. Um nunca queria deixar o outro muito para trs. Agora...

Fechou os olhos. Rodeei-a com um brao e chormos juntas, confortando-nos uma  outra durante alguns momentos. Por fim o mdico chegou e o meu pai levou-o a ver 
Pierre. Deixmo-nos ficar um pouco mais para trs, vendo-o examinar o meu irmo e verificar como as suas pupilas dilatavam sob a aco da luz, controlando-lhe a 
pulsao e auscultando-lhe o corao e os pulmes.

Devamos lev-lo para o hospital, monsieur disse ao meu pai. Tambm gostaria de o colocar sob os cuidados de um psiquiatra.

O meu pai engoliu em seco. A minha me comeou a chorar baixinho.

Tomarei as providncias necessrias disse o mdico. Se me d licena, farei uns telefonemas.

Venha at ao meu gabinete sugeriu o meu pai.

Eu preparo-o para ir ofereci-me imediatamente.

Ele ir ficar to assustado gemeu a minha me.

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Vesti o roupo a Pierre e calcei-lhe os chinelos, separando alguns objectos que sabia irem fazer-lhe falta, objectos que rezei para que lhe viessem a fazer, de facto, 
falta muito em breve. A minha me foi vestir-se e, pouco depois, o meu pai voltou a transportar o pobre Pierre para o carro e fomos todos lev-lo ao hospital.

Quando lhe vestiram uma das camisas de dormir do hospital e o deitaram numa cama, pareceu muito mais pequeno; ao enfiarem-lhe na veia uma agulha ligada ao tubo intravenoso, 
os meus pais pareceram tomar conscincia subitamente da gravidade do seu estado. O meu pai abraou a minha me e, juntos, com ar consternado, ficaram a ver o mdico 
e a enfermeira cuidarem dele.

Como as enfermeiras me conheciam, mostraram-se mais preocupadas e solidrias. A psiquiatra chamada era uma tal Dra. LeFevre. Com cerca de sessenta anos, tinha o 
cabelo acastanhado a ficar grisalho. Eu j ouvira falar dela mas poucas vezes a vira e nunca lhe falara. Primeiro interrogou o meu pai para se inteirar das circunstncias 
e a seguir foi examinar Pierre. Veio falar comigo e com os meus pais ao corredor. Era uma mulher de voz branda; no entanto expressava-se com ntida autoridade e 
confiana.

O vosso filho sofre de um distrbio nervoso ps-traumtico principiou. Depois da experincia que me descreveram,  bastante compreensvel. No difere muito do que 
alguns soldados veteranos sentem. Na nossa profisso,  frequente referirmo-nos a este problema como anestesia emocional. A pessoa, para deixar de sofrer, como que 
se desliga a si prpria.

Quanto tempo...

Penso que conseguiremos arranc-lo deste estado em breve. No entanto, alerto-os desde j de que ele ir necessitar, possivelmente durante algum tempo, de uma terapia 
intensiva. Algo como o que aconteceu poderia deix-lo num grave estado de depresso e ansiedade. Correramos o risco de vir a descobrir que sofre de enxaquecas crnicas, 
tem grande dificuldade de concentrao... Claro que precisamos de esperar para ver. Entretanto, faremos com que receba o tratamento adequado.

Voltou-se para mim.

Porque ser que tenho a impresso de que j a vi?

Trabalho aqui respondi-lhe. Sou auxiliar de enfermagem.

Ah,  verdade. Ouvi falar muito bem de si. Bem, amanh voltarei a examinar o Pierre. Telefone-me ao fim da tarde.

Obrigada, doutora agradeceu o meu pai.

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A minha me quis ficar junto de Pierre durante mais um pouco. Algumas das minhas amigas que eu fizera quando fora trabalhar para o hospital vieram apresentar-me 
as suas condolncias assim que souberam do sucedido. Jack Weller no estava de servio, o que foi um alvio para mim, pois assim no teria de me confrontar com ele 
naquele momento emocional terrvel. A minha me deixou-se ficar sentada numa cadeira, a olhar para o filho. A certa altura, porm, o meu pai obrigou-a a levantar-se 
e a ir para casa. Esperavam-nos dias difceis. Ele sabia que ela precisava sobretudo de repousar.

Estarei aqui com ele o mximo de tempo que puder, me prometi.

Ela sorriu-me, olhou de novo para o rosto pattico de Pierre, ainda paralisado numa expresso vazia, e depois permitiu que o marido a levasse para o carro.

Naquela noite, a casa esteve demasiado silenciosa. Eu dormi em perodos curtos, acordando de rompante e pondo-me  escuta, esperanada em ouvir os meus irmos a 
pregarem alguma partida, verificando depois que tudo no passara de um sonho. Porm, nada mais ouvia alm do tiquetaque do meu relgio e do som profundo do relgio 
de p do andar de baixo. Este ecoava pelos corredores, contando o tempo que faltava para o funeral de Jean. Enterrei o rosto na almofada para abafar as lgrimas, 
mas sempre que fechava os olhos via o rosto de Jean, traquinas, feliz, cheio de vida e promessas.

Quando o dia raiou eu, incapaz de dormir, levantei-me, vesti-me e desci, indo descobrir que o meu pai no fora  cama. Com a cabea pousada em cima da secretria, 
dormia de pura exausto.  sua direita estava uma fotografia recente dos gmeos e,  sua esquerda, uma garrafa quase vazia de usque. No tive coragem de o acordar. 
Limitei-me a sair silenciosamente e a fechar a porta. Depois fui preparar o pequeno-almoo para a minha me e dar incio quela que eu sabia que iria ser a pior 
semana da nossa vida.

Foi tanta gente ao funeral de Jean que a multido no coube na igreja, tendo de ficar  porta, nos degraus e no passeio. Algumas das minhas colegas de liceu apareceram, 
porm no vi Claude. Sabia que Catherine fora de frias com a famlia e s saberia do que sucedera a Jean quando voltasse. A minha me, sob a aco de alguns sedativos, 
movia-se como que num sonho, tendo gravado no rosto um sorriso rgido que de vez em quando parecia anglico mas que me mostrava nitidamente a dor profunda que a 
enchia da cabea aos ps. Naquela altura j

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todos estavam a par do estado de Pierre e de como o mesmo contribua ainda mais para acentuar a nossa tragdia. Ele continuava ligado ao soro e catatnico.

Terminado o servio religioso, a procisso seguiu para o cemitrio. Recordei as perguntas que Jean e Pierre me tinham feito sobre os tmulos aquilo a que, em Nova 
Orlees, designamos de tumbas construdas acima do solo devido ao nvel do lenol de gua. O que, em tempos, fora um local cheio de mistrio e curiosidade para Jean 
seria, a partir dali, a sua ltima morada e lugar de repouso.

Os meus pais agarravam-se fortemente um ao outro. Era quase sempre o meu pai a amparar a minha me, cujas pernas se moviam como se pertencessem a uma marioneta. 
Eu permanecia o mximo de tempo que podia junto dela, pronta a segur-la eu mesma se desfalecesse. Ao chegarmos ao stio da campa, abramo-nos os trs. No creio 
que nenhum de ns tenha ouvido, verdadeiramente, as palavras do padre. S nos dvamos conta do ritmo mrbido da sua voz a recitar as oraes. Salpicou o caixo de 
Jean com gua benta e finalizou a cerimnia dizendo: "men."

Mal desviei os olhos do rosto dos meus pais o dia todo, da que no me tenha apercebido do cu azul. Para mim no passava de um dia fortemente enevoado, onde s 
soprava uma ligeira brisa.

Quando voltvamos para a limusina avistei Sophie, debaixo de uma rvore. Limpava as lgrimas dos olhos com o pulso mido; porm, o facto de estar ali encheu-me de 
coragem e ajudou-me a voltar para casa.

A minha me foi imediatamente deitar-se, enquanto o meu pai ficou sentado no sof da sala, a falar com as pessoas e a beberricar usque de uma garrafa de vidro. 
Assim que tive oportunidade liguei para o hospital, na esperana de Pierre j ter comeado a recuperar. Precisvamos urgentemente de uma boa notcia; no entanto, 
o estado dele mantinha-se inalterado.

Resolvi ir para junto dele, certa de que um dia inteiro sem nenhuma de ns ao seu lado devia ser insuportvel, apesar de termos ido ao funeral de Jean. Segredei 
as minhas intenes ao meu pai, que se limitou a acenar que sim com a cabea. A dor deixava-o entorpecido e alheio ao que se passava  sua volta.

Ao chegar ao hospital, encontrei a Dra. LeFevre no corredor. Acabara de examinar Pierre.

Vou mudar o Pierre para a unidade de cuidados psiquitricos anunciou. A sua recuperao ir levar mais tempo do que imaginei. O trauma emocional foi profundo. Presumo 
que ele e o Jean fossem muito chegados.

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Inseparveis retorqui, e muito protectores um em relao ao outro.

Bem, sei que a sua famlia est a passar por uma fase muito difcil. No entanto, sugiro que lhe dispensem o mximo de tempo que puderem. O simples facto de ouvir 
a vossa voz e sentir a vossa presena ao seu lado ajud-lo- a ficar mais reconfortado e tornar a sua recuperao mais rpida.

O modo como desviou o olhar do meu no me agradou.

Acha que ele chegar a melhorar? Ou seja, ficar bom?

Veremos respondeu a mdica em tom pouco seguro, afastando-se em seguida.

Coloquei a minha cadeira o mais perto possvel da cama de Pierre e sentei-me, agarrada  sua mo livre. Ele olhava em frente, pestanejando, com os lbios ligeiramente 
entreabertos. Afaguei-lhe a mo e falei-lhe suavemente.

Tens de te pr bom, Pierre. O pai e a me necessitam desesperadamente que melhores. Eu sinto a tua falta. O Jean no gostaria nada que ficasses assim. Teria desejado 
que estivesses bom para ajudar os pais. Por favor, faz um esforo, Pierre.

Fiquei ali sentada,  espera, observando. Com excepo do movimento reflexo das plpebras, ele fazia lembrar uma esttua feita de pele humana e ossos. Os seus olhos 
e ouvidos tinham servido de veculo para lhe levar informaes horrendas e chocantes, pelo que decidira fech-los, recusando-se a interiorizar mais pormenores. Algures, 
dentro de si mesmo, estava a salvo, brincava com Jean, podia ouvir a sua voz e v-lo. Recusava-se a escutar a minha, pois isso estilhaaria a iluso como se fosse 
de loua e os fragmentos continuariam a cortar-lhe o corao.

Antes de eu entrar de servio, Sophie apareceu e eu agradeci-lhe a sua presena no funeral. Prometeu-me espreitar Pierre sempre que pudesse e tambm falar com ele. 
Contei-lhe que em breve o levariam para a unidade de psiquiatria.

No tem importncia, tambm poderei ir l acima... prometeu.

Abramo-nos e ela foi trabalhar. Eu permaneci junto de Pierre o mximo de tempo que pude, conversando com ele. suplicando-lhe, reconfortando-o, incentivando-o a 
que regressasse para junto de ns. Por fim, j exausta, voltei para casa.

Todos quantos ali tinham ido oferecer-nos as suas condolncias j se haviam retirado. A casa estava mortalmente silenciosa. Aubrey disse-me que o meu pai se retirara 
para o seu gabinete, onde o encontrei sentado no seu sof de couro, misericordiosamente adormecido. Tapei-o com um cobertor e depois subi para ver a minha me.

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A princpio imaginei-a a dormir tambm, mas depois vi-a virar lentamente a cabea para mim e abrir os olhos como algum que se erguera de um caixo. Estendeu-me 
uma mo e eu corri para junto dela. Abramo-nos e, em seguida, sentei-me a seu lado, na beira da cama.

Onde est o teu pai? perguntou-me.

No seu gabinete, a dormir.

Foste ver o Pierre?

Acenei afirmativamente com a cabea.

A mdica disse-me que o vai transferir para a unidade de psiquiatria, de modo a receber o tipo de tratamento de que precisa contei-lhe.

Quer dizer que melhorou?

Ainda no, me, mas h-de acontecer.

A minha me sacudiu a cabea e desviou o olhar.

No penses que os teus pecados se apagam. Confessas-te, fazes penitncia, contas ser perdoada, porm eles so indelveis. Ficam a pairar como parasitas,  espera 
de uma oportunidade para se alimentarem da tua boa sorte.

Tens de fazer um esforo para acabar com esse comportamento, me.

Ouve-me, Pearl disse-me ela, apertando ainda mais a minha mo. Tu s mais inteligente do que eu era na tua idade. No cometers os mesmos erros nem te deixars dominar 
pelas tuas fraquezas. No padeces das mesmas que eu tinha. E isso  bom porque assim no s no te magoas a ti prpria como tambm poupas aqueles que te estimam.

Me...

Espera. O que poder uma alma livre e inocente como a do Jean ter feito para merecer semelhante castigo? No foi ele que o atraiu. No vs que o peso dos meus pecados 
 que caiu sobre ele, fazendo-o sofrer?

"A Nina sabia murmurou. A Nina sabia. Suspirei to profunda e audivelmente que ela se virou para mim.

H muito tempo atrs, cometi um grande erro, mas no me refiro ao facto de ter engravidado de ti. Tu s demasiado bonita e maravilhosa para que algo de mal se relacione 
contigo. No entanto, depois de nasceres, ficmos sozinhas no Hayou.

J mo contaste, me. No precisas de explicar.

- Quero explicar, preciso de explicar. No concordei em casar com o teu tio Paul s porque o teu pai andava pela EuroPa a levar uma bela vida de homem rico.

- Mas tu pensaste que ele ficara noivo e j no haveria Possibilidade de virem a casar lembrei-lhe.

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Sim, sim, mas o Paul era meu meio-irmo.  verdade, s viemos a descobrir esse pormenor j ramos ambos adolescentes e depois de o Paul se ter apaixonado por mim, 
mas nada disso serve de desculpa.

Desculpa para o qu, me? Olha como vivamos quando voltaste para o Hayou. Porque no haverias de concordar em viver em Cypress Woods? Disseste que, apesar de tudo, 
todos pensavam que eu era sua filha.

Sim,  verdade, mas ele tambm pouco fez para os dissuadir dessa ideia.

Porque me repetes toda essa histria?

Porque no soube resistir-lhe e deixei que me convencesse a casar com ele. Chegmos mesmo a ser abenoados por um padre.

Mas tinhas-me contado que no fora mais do que um casamento de convenincia, que tu e o Paul no passavam de amigos.

Nem sempre confessou a minha me. Houve uma altura em que fizemos de conta que ramos outras pessoas e... pequei.

"No fiz penitncia, no pedi perdo. Fiz de conta que no acontecera. No entanto, o pecado passou a fazer parte da minha prpria sombra e seguiu-me sempre, a partir 
do tempo em que vivi no Hayou. Essa sombra foi, a pouco e pouco, assenhoreando-se desta casa e desta famlia, at clamar pelo meu filho Jean.

Oh, me, no exclamei.

Abanei a cabea, magoada com aquela notcia, mas, apesar de tudo, no podia acreditar que Deus punisse Jean pelo pecado da me.

A minha me fechou os olhos.

Estou exausta, mas no durmo. S vejo o rosto do Jean. o meu filho, na minha frente, o Beau a fugir dos pntanos com ele nos braos. E quando olho para trs, deparo 
com essa sombra a sorrir triunfantemente para mim.

Abriu os olhos e agarrou-me na mo.

O Jean ainda est aqui, ainda no saiu de junto de ns. desta casa. Quero que vs ao stio da Nina e fales com a irm dela. Conta-lhe o que aconteceu e pede-lhe 
que traga os amuletos aqui.

Me, ests a dizer disparates. Alm disso o pai nunca nos deixaria trazer amuletos para dentro desta casa.

Tens de o fazer, Pearl disse-me, com os olhos muito abertos. Prometes?

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Apercebi-me de que s descansaria se eu lhe desse a minha palavra.

Est bem, me, prometo.

Ainda bem disse, largando-me a mo e fechando novamente os olhos. Agora j posso dormir.

Fiquei ali sentada durante algum tempo, at a sua respirao se tornar lenta e compassada. Depois levantei-me, silenciosamente, e sa do quarto a pensar na pesada 
carga de culpa que a minha me mantivera enterrada nas profundezas da sua memria. No tinha dvidas de que a acabrunhara; no entanto, fora capaz de fazer de conta 
que nunca acontecera. Admiti que se tivesse sentido s e receosa. Todos quantos amara a tinham abandonado, com excepo de Paul. Eu jamais poderia culp-la por algo 
malvolo. Jamais.

Durante os dias que se seguiram, a minha me comportou-se como uma invlida, nunca saindo do seu quarto, levantando-se apenas para tomar banho e mudar de camisa 
de dormir. O meu pai e eu amos frequentemente  ala de psiquiatria visitar Pierre. O meu pai pouco trabalhava e, ao cair da tarde, normalmente enfiava-se no seu 
gabinete e punha-se a beber usque para depois adormecer com mais facilidade.

Uma tarde, cerca de quatro dias depois, fui a primeira a chegar ao hospital. Comecei a conversar com Pierre da forma habitual: primeiro relembrava o que ia acontecendo 
l por casa, as pessoas que telefonavam, os amigos de Jean e Pierre que perguntavam por ele. Ia falando e afagando-lhe a mo ao mesmo tempo, dando-lhe beijinhos 
no rosto e dizendo-lhe que a nossa me estava com muitas saudades dele. Depois a auxiliar de enfermagem trouxe sumo e eu, como de costume, esforcei-me para que Pierre 
engolisse algum.

Tinha a impresso de que os meus esforos seriam em vo, como acontecera at ali, quando, de repente, os seus lbios se abriram e os dentes se descerraram. Entusiasmada, 
comecei a dar-lhe um bocadinho de sumo. O menino, ao sentir o gosto da fruta na boca, engoliu-o e aceitou mais um pouco.

Isso mesmo, Pierre! Que maravilha! Assim no tardars a largar o soro.

Corri a contar  enfermeira que, por sua vez, chamou a Dra. Le Fevre. Quando o meu pai chegou, Pierre bebera a maior Parte do sumo. Ainda no falava nem se mexia; 
no entanto, j Se registara aquela pequena modificao.

O meu pai ficou encantado.

Temos de contar  Ruby assim que chegarmos a casa. Talvez ela agora j se levante para vir v-lo.

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Voltmos apressadamente para casa. Por fim, as sombras escuras que pairavam sobre ns haviam sido atravessadas pela luz. Quando encostmos ao passeio, vi uma mulher 
esguia e negra a sair de casa. Vestia uma saia vermelha at aos ps, sandlias e uma blusa imaculadamente branca. As suas pulseiras eram feitas de ossos de animais 
e os brincos faziam lembrar olhos de gato encastoados em prata. Olhou na nossa direco, porm no se deteve. Reparei que tinha uma cicatriz a atravessar-lhe a face 
direita, formando um tringulo na ponta de cima, mesmo por baixo da ma de rosto muito saliente.

Que diabo  aquilo? murmurou o meu pai.

A mulher desapareceu, depois de sair pelo nosso porto. Corremos para dentro e subimos ao piso de cima. A minha me no estava no quarto; no entanto, via-se uma 
lata com enxofre a arder em cima de cada uma das mesinhas-de-cabeceira O cheiro sulfreo empestava o ar.

Que raio... principiou o meu pai, cheirando o ar. Onde  que ela est? Que faz?

No lhe grites, pai adverti. Ela...

Eu sei o que ela est a fazer. Sei exactamente o que est a fazer! exclamou, saindo porta fora.

Segui-o at ao andar trreo. A minha me no estava na sala de estar nem no gabinete ou na cozinha. Por fim encontrmo-la no seu estdio. Sentada diante do cavalete, 
desenhava; porm, de cada lado via-se uma vela azul a arder.

Ruby chamou o meu pai, levando-a a voltar-se para ele.

Ol, Beau.

Que estava aquela mulher a fazer aqui? Porque puseste aquela porcaria a arder no nosso quarto? E que esto estas duas velas a fazer aqui?

Tive de preparar alguns gris-gris para combater a adversidade, Beau. No te zangues. Voltei a sentir-me segura. Tambm retomarei o meu trabalho.

Sorriu para mim mas achei o gesto estranho; era como se viesse de uma pessoa enfeitiada. Tal como o meu pai, senti curiosidade em saber o que aquela especialista 
em vudu fizera.

No posso acreditar numa coisa destas indignou-se o meu pai. Empestar o nosso quarto...

Sacudiu a cabea e, de repente, lembrou-se do motivo que nos levara a voltar apressadamente para casa.

Ah,  verdade, temos boas notcias. A Pearl conseguiu que o Pierre bebesse um pouco de sumo.

A minha me limitou-se a olhar para ele com o mesmo sorriso parado nos lbios.

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Ouviste o que eu disse, Ruby? O Pierre bebeu um pouco de sumo.  possvel que lhe retirem o soro em breve. h luz ao fundo do tnel acrescentou, nitidamente aborrecido 
com a indiferena da mulher

Claro que h. Beau disse ela, por fim. Eu j sabia. Isso foi consequncia do ritual que aquela mulher vudu aqui realizou No compreendes? A Nina vai ajudar-nos do 
alem. Ergueu os olhos para o alto. Vai ajudar-nos

Mon Dieu exclamou o meu pai. No posso acreditar no que estou a ouvir. No queres que te leve j a ver o Pierre?

Por enquanto, no, Beau. Ainda no estou pronta. Em breve

Desisto declarou o meu pai erguendo as mos. Fala tu com ela, Pearl. Talvez consigas faz-la recuperar o bom senso para que v visitar o filho sem agir como uma 
luntica

Dito isto, saiu do estdio

O Beau foi sempre muito incrdulo observou a minha me Mas h-de mudar

Retomou o seu trabalho

Me disse eu, aproximando-me dela, agora no podes enterrar-te nestes rituais e feitios. Tens de ir comigo ver o Pierre

Ainda no disse. Faltam alguns passos. Caso contrrio, s lhe trarei o azar. Ele entender. Farei por isso. Tu vs que eu tenho razo, no , querida?

Abstive-me de responder. Olhei para o desenho que a minha me estava a fazer. Representava Jean a flutuar no pntano

Me

Ela prosseguiu o seu trabalho como se eu no estivesse ali. Instantes depois, fiz meno de me afastar mas ela reparou e reteve-me com a mo

 preciso que faas algo comigo, Pearl Ter de ser esta noite. S no poders  dizer ao teu pai. Tenho a certeza de que tentar impedir que vamos, pois no  capaz 
de compreender

-O que , me?

Temos de estar no cemitrio  meia-noite. A me Lea levar um gato preto consigo. Talvez consigamos falar com a Nina e saber que outras medidas deveremos tomar.

Ai isso, no, me, est completamente fora de questo. Tem de ser insistiu, com uma expresso selvtica no olhar, ao mesmo tempo que quase me enterrava os dedos 
na
pele.
Est bem, me, est bem

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Descontraiu-se.

Promete que nada dirs ao pai.

Prometo disse.

Naquele momento senti-me como que a fazer um pacto com o demnio.

Sorriu-me e voltou ao seu desenho.

Observei-a por momentos e depois retirei-me. Encontrei o meu pai sentado no sof do seu gabinete, a beber do seu clice de usque.

J viste como a tua me est? perguntou-me imediatamente.

Est a sofrer uma depresso nervosa muito especial, pai. Temos de ser compreensivos com ela e deix-la  vontade durante algum tempo, at recuperar o equilbrio.

Uma expresso dolorosa faiscou-lhe nos olhos.

Convenci-me de que ela correria para o hospital comigo. Em vez disso, anda por a a queimar velas, a fazer desenhos esquisitos e a falar de rituais e gris-gris. 
J s me resta um amigo declarou, erguendo o clice.

Isso no  melhor do que aquilo que a me est a fazer, pai. Tens de parar de beber adverti.

Eu sei reconheceu o meu pai. Dentro de pouco tempo. Bem, tenho de ir tratar de uns negcios. Passaremos pelo Pierre depois do jantar. Talvez a Ruby saia daquele 
estado e venha connosco.

No quis desencoraj-lo, mas no acreditava que a minha me fosse.

Veremos respondi.

Claro que a minha me no iria connosco ao hospital.

As enfermeiras informaram-nos de que Pierre comera um pouco de ovo escalfado e bebera algum leite. Continuava sem falar e agia como se no escutasse o que se dizia; 
no entanto, ficmos todos esperanados. Foi o suficiente para que a disposio do meu pai melhorasse. Tornou-se mais conversador e enrgico.

Amanh tens de ir connosco, Ruby disse  mulher ao chegar a casa, onde a encontrou na sala de estar a ler e a ouvir msica.

Est bem, Beau concordou, lanando-me um olhar conspirativo. Irei.

ptimo, ptimo replicou o meu pai, olhando para mim. Calculei, a julgar pela expresso do seu rosto, que pensava que as coisas tinham finalmente comeado a compor-se. 
-" Vou-me deitar.

120

Eu j vou, Beau disse-lhe a minha me.

O Pierre fez bons progressos, me, mas agora precisa de te ver e ouvir contei-lhe.

Eu sei, querida. E assim continuar desde que mantenhas a tua promessa.

Me...

Baterei  porta do teu quarto s onze e meia. Quero-te pronta disse.

Fiquei a olhar para ela durante uns momentos. Que ia eu fazer? Depois baixei os olhos para o livro que lhe via entre as mos.

Segurava-o virado ao contrrio, servindo-se dele unicamente para poder reflectir nos seus pensamentos insanos.

Me, ir a cemitrios  meia-noite  demasiado perigoso. O pai ficar zangadssimo com ns duas, sobretudo comigo. Por favor implorei.

A minha me fitou-me fixamente.

Muito bem, Pearl disse, se no queres ir, no vs, no faz mal.

Mas tu tambm no vais, no , me? No ? insisti.

No irei respondeu por fim, mas eu no acreditei nela. Esforcei-me por ficar acordada e assim poder ouvir os passos dela, caso os meus receios se concretizassem.



PARA ALEM DO TMULO

Apesar do meu desejo imperioso e veemente em me manter acordada, mal conseguia faz-lo. Tentei ler; porm, os meus olhos fugiam da pgina e a minha cabea pendia 
cada vez mais. Achei que seria mais fcil ficar imvel no meio da escurido; mas, mal apaguei a luz e pousei a cabea na almofada, as minhas plpebras cerraram-se. 
S dei por mim quando acordei, sobressaltada, e olhei para o relgio, dando-me conta de que j faltava quase um quarto para a meia-noite. Se a minha me batera  
porta do meu quarto ou j sara, no a ouvira. No conseguia imagin-la a ir sozinha ao cemitrio quela hora. Certa de que iria dar com ela ainda na cama, levantei-me, 
vesti o roupo e calcei as pantufas, atravessando o corredor em direco ao quarto dos meus pais na ponta dos ps.

A porta encontrava-se ligeiramente entreaberta. Empurrei-a suavemente e espreitei. A luz ambarina de um quarto crescente delineava a silhueta da cmoda, candeeiros, 
cadeiras e toucador. Podia ver a cabea do meu pai pousada na almofada; porm, no vi a da minha me. Durante um longo momento, o pnico manteve-me os ps pregados 
ao cho. Devia estar na casa de banho, disse de mim para mim. Esperei e escutei, mas no havia indcios dela nem o menor som. Bati suavemente  porta e esperei que 
o meu pai acordasse, mas no se mexeu.

Resolvi entrar e chamei-o em voz alta:

Pai!

Tive, como nica resposta, um ronco pesado e sonoro. Acerquei-me dele e toquei-lhe no ombro. No queria acord-lo abruptamente e assust-lo. Poderia pensar que nos 
tinham chamado para irmos ao hospital por causa de Pierre. No entanto, continuou a dormir.

Pai.

Abanei-o. Resmungou e voltou-se para cima, ainda de olhos fechados.

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Detectei o acentuado cheiro a uisque e vi a pesada garrafa de vidro, quase vazia, em cima da mesinha-de-cabeceira. Ao sacudi-lo de novo, dessa vez com mais fora, 
o meu pai roncou, as plpebras estremeceram mas os olhos mal se abriram

Ahaaaa deixou escapar.

Pai, acorda. Onde est a me?

Ahaaa repetiu ele, fechando os olhos e virando-se para o outro lado

Frustrada mas preocupadissima com a minha me, sa do quarto e desci as escadas a correr. Espreitei em todos os quartos, que estavam s escuras, e depois fui at 
 cozinha, esperando encontr-la a aquecer um pouco de leite. No entanto, deparei apenas com a luz acesa e dela nem sinais em parte alguma

Reflecti um pouco e depois corri at ao seu estdio. Embora tivesse a luz apagada, como imaginei que estava ali sentada, acendi-a. Sustive a respirao e o meu corao 
quase parou. No estava, no entanto, o seu quadro mais recente despertou-me a ateno. Acerquei-me um pouco mais e vi que lhe acrescentara mais alguns pormenores

Era um esboo do rosto de Jean num corpo de fantasma, saindo do pntano a flutuar, no entanto, a gua que se estendia por baixo fazia lembrar vagamente a figura 
de um homem com os olhos esbugalhados. Examinei o desenho e depois recuei, soltando uma exclamao. Era o rosto que eu tantas vezes via no meu pesadelo habitual, 
o rosto de Paul Tate, que constava ter-se atirado  gua de desgosto por a minha me o ter deixado para ir viver com o meu pai. Era um rosto que, pelos vistos, tambm 
a perseguia

Apaguei a luz e atravessei apressadamente a casa, em direco  garagem, onde o meu pior receio se confirmou. o carro da minha me desaparecera. Fora ter com a mulher 
vudu ao cemitrio onde Nina Jackson estava enterrada. No andar de cima, o meu pai dormia, imerso numa letargia alcoolizada. Que poderia eu fazer?

Vesti-me rapidamente e fui at ao cemitrio no carro do meu pai. O fulgor da Lua fazia com que os tmulos emitissem um brilho cor de cera e as sombras ao seu redor 
se acentuassem, criando longos corredores de escurido que envolviam inexoravelmente a maioria das construes, permitindo ver apenas os seus topos. O negrume fazia 
lembrar um mar de tinta

Hesitei, mas depois, lentamente, dei a volta com o carro ao cemitrio. A princpio nada vi e esperei que a minha me tivesse ido a qualquer outro lugar menos arrepiante. 
Contudo, ao finalizar a volta, deparei com o automvel dela, vazio, estacionado na outra entrada

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As batidas do meu corao comearam a acelerar. Parei atrs da viatura e tirei uma lanterna do porta-luvas. A seguir desliguei o motor e apaguei as luzes, permitindo 
que o rio de tinta tambm me envolvesse. Fui invadida por uma onda de ansiedade que me fez sentir a pulsao nos ossos. Os dedos tremiam-me ao baixar o puxador para 
depois me apear. Por um instante tive a impresso de que, sob os meus ps, o solo se transformara em areia movedia. Cada passada em direco ao cemitrio exigiu 
grande esforo.

Acendi a lanterna e fiz incidir o feixe no carreiro que se estendia  minha frente, no me atrevendo a olhar para a direita ou para a esquerda. Mantive a ateno 
fixa no feixe luminoso e caminhei em frente, esperando encontrar a minha me rapidamente e lev-la dali para fora.

De repente ouvi um miado agudo de gato que me pregou um susto de morte, deixando-me o estmago aos saltos. Senti o sangue fugir-me para os ps. Parei e passei o 
feixe de luz por cima das tumbas, abrindo caminho por entre as figuras de pedra, as palavras gravadas e os rostos esculpidos dos mortos. Soou um segundo miado dilacerante, 
seguido de uma rosnadela, e depois reinou o mais absoluto silncio.

Me! gritei para a noite, esperando que me respondesse; ouvi apenas as batidas do meu prprio corao nos ouvidos. Me, onde ests?

O silncio foi dilacerado por uma gargalhada estridente. Como no me parecia da minha me, recuei uns passos. Ao ouvir sussurrar audivelmente  minha direita, voltei-me 
nessa direco.

Me, sou eu! Onde ests?

O sussurro desapareceu. Aguardei e a seguir enveredei por outro corredor. Pouco depois, a feiticeira vudu que eu e o meu pai vramos sair da nossa casa na vspera 
passou em frente de mim. Trazia um gato preto nos braos. No olhou na minha direco. Caminhou pelo meio da escurido como se tivesse lanternas no lugar dos olhos 
e desapareceu com a mesma rapidez com que aparecera. Um momento depois a minha me saa do meio das trevas, trazendo uma vela branca segura entre as mos e caminhando 
com a lentido de um sonmbulo. O fulgor da vela conferia aos seus olhos o aspecto de poas de luz acinzentada e fazia as suas faces reluzir.

Me gritei, correndo para ela.

Pearl, est tudo bem disse em voz branda sem, porm, olhar para mim nem parar. Os seus olhos fixavam-se mais no que recordava do que no que via, continuando a caminhar.

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Era como se achasse que tambm era uma apario. Peguei-lhe na mo e ela virou-se para mim, ainda com a luz da vela a reflectir-se nos seus olhos. A Nina falou-me. 
Agora sei o que tenho de fazer.

Me, pra com isso. Ests a assustar-me.

Sacudi-a com fora e a vela que tinha nas mos caiu e apagou-se mal tocou no cho.

Oh, no! exclamou, olhando para trs, para a escurido. Depressa, Pearl, temos de sair do cemitrio.

Agarrou-me desesperadamente na mo e puxou-me para a frente. Corremos pelos corredores escuros, at chegarmos  estrada. A parmos, recuperando o flego.

Porque fizeste isto, me? Que ideia foi essa de vires c sozinha?

No tinha outra sada, Pearl. Agora voltemos para casa. Est tudo bem. No precisavas de vir  minha procura.

Prometeste que no vinhas aqui. Adormeci e, quando fui  tua procura, vi que tinhas sado e levado o carro. Tentei acordar o pai mas ele dormia profundamente... 
continuei, ansiosa por me manter a falar e escutar o som da minha prpria voz.

Um fiapo de nuvem deslizara para a frente da Lua, atenuando a pouca luz que havia  nossa volta. O silncio reinante naquele cemitrio s escuras era aterrador.

No te preocupes insistiu a minha me. Tudo ir correr bem.

s capaz de voltar para casa a guiar, me?

Claro que sou. Vamos. Pearl, no vale a pena contares ao pai onde estivemos.

Sim, mas voltemos para casa, me. Depressa.

Ela meteu-se no seu carro e eu no meu. Guiou com lentido mas cuidadosamente, e enveredmos pelo caminho de acesso  garagem ao mesmo tempo. Depois de arrumarmos 
os automveis, entrmos em casa e fomos para cima.

Que foi que fizeste l com aquela mulher, me? perguntei-lhe ao chegar  porta do meu quarto.

- Fiz o que tinha de fazer para falar com a Nina.

Falaste com ela?

Fiquei atnita por a minha me ser capaz de acreditar em Semelhante coisa.

. Sim, falei, e depois ela respondeu-me atravs do gato.
Sei o que devo fazer.

E o que , me? O que foi que ela te disse para fazeres? No posso contar a ningum, Pearl querida. S te digo
adoro-te a ti, ao teu pai e ao teu irmo mais do que  minha prpria vida.

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Me, que vais fazer? Estou assustada.

Agora j no h motivo nenhum para isso respondeu com um sorriso. Depois abraou-me. Minha doce Pearl. disse, afastando-me farripas de cabelo da testa. Merecias 
melhor sorte do que nascer sob auspcios to tenebrosos. Mas em breve o Sol voltar a brilhar para ns, prometo-te.

Me, imploro-te, tens de me contar o que achas que deves fazer. Por favor. No direi ao pai.

Correr tudo bem. Tens de ter f, Pearl. Sei que s acreditas na cincia, mas tambm deves ter f em algo que est para alm dos microscpios e tambm das leis da 
Natureza. Tens de crer naquilo que no vs, pois algo est por trs da escurido,  espera, observando. Acredita e no tenhas medo.

Dito isto, fechou os olhos.

Me...

Estou cansada. Amanh falamos, est bem? Agora deixa-me enfiar na cama sem acordar o teu pai. Vai descansar, querida, vai.

Fiz um esforo enorme para no lhe fazer mais perguntas ao v-la seguir para o seu quarto. Deu a impresso de que atravessava o umbral a flutuar e desapareceu.

Eu tinha o corao muito acelerado e senti dificuldade em respirar e no ser submergida por tudo o que estava a acontecer com tanta rapidez. Detestava a ideia de 
trair a minha me, mas estava convencida de que no podia deixar de pr o meu pai ao corrente do que se passara naquela noite e do que ela dissera. Urgia que se 
interessasse mais pelo que a mulher pensava e fazia e deixasse de andar to irritado com a questo.

Passei uma noite agitada, sempre a mexer-me e s voltas. acordando e adormecendo profundamente. Apesar de exausta, foi com agrado que recebi o primeiro beijo matinal 
do sol no meu rosto. Levantei-me rapidamente para me poder lavar, vestir e ouvir vozes felizes e sentir o cheiro das flores a desabrochar na manh. A recordao 
do que se passara na vspera  noite era to vaga que me pareceu ter sonhado com tudo aquilo. Porm, quando olhei para os meus tnis, reparei que tinham sinais de 
terra do cemitrio e senti um arrepio percorrer-me a espinha

Para minha surpresa, vi que o meu pai se levantara mais cedo e j fora para o escritrio. A minha me ainda no descera do quarto. Esperei um pouco por ela e depois 
resolvi subir para ir ver como estava, encontrando-a profundamente adormecida. Pobrezinha, pensei, to atormentada... Fechei a porta suavemente e voltei  sala de 
jantar para tomar o pequeno-almoo. A minha me ainda continuava a dormir quando voltei ao seu

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quarto pela segunda vez. Nessa ocasio, porm, entrei e fiquei ao seu lado, vendo o seu peito subir e descer ao ritmo lento da respirao. Quando estava prestes 
a vir-me embora, ela soltou um murmrio, abriu os olhos e soergueu-se.

Bom dia, me cumprimentei-a.

Passeou o olhar pelo quarto, como se se tivesse esquecido do stio onde estava. Antes de me retribuir a saudao, esfregou a testa vigorosamente, como que para afastar 
os restos do sonho. A seguir respirou fundo e passou a mo pelos cabelos, afastando-os para trs.

Bom dia, querida. Que horas so? Oh, no... exclamou a olhar para o relgio da sua mesa-de-cabeceira. Espero que o teu pai no esteja  minha espera para tomar o 
pequeno-almoo.

No, levantou-se mais cedo e j foi para o trabalho.

Trabalho? Reflectiu um pouco. ptimo.  disso que ele precisa... manter-se ocupado. Tu tambm, querida. Quero que retomes as tuas tarefas no hospital.

Ainda  cedo, me. Prefiro dedicar o mximo de tempo possvel ao Pierre.

No te preocupes com o Pierre, ele ir ficar bom retorquiu convictamente e esboando o mesmo meio sorriso que lhe ficara desde o funeral de Jean.

Voltei para junto da sua cabeceira.

O que querias dizer ontem  noite quando me afirmaste que sabias exactamente o que era preciso fazer, me? Que tencionas fazer? O que foi que te disse aquela mulher 
vudu?

Oh, foram apenas uns cnticos e rituais inofensivos, Pearl. No precisas de ficar preocupada. Deixa-me cultivar estas minhas velhas crenas. No prejudicam ningum 
e, quem sabe... Como sempre te disse, nunca se deve menosprezar a f de ningum. O seu meio sorriso desapareceu e ficou com um ar apreensivo. No falaste da noite 
passada ao teu pai, pois no, Pearl?

No, me. Quando desci para o pequeno-almoo j ele se tinha ido embora.

ptimo. Por favor nem uma palavra a ele, querida. J lhe bastam as outras coisas para andar fragilizado. Mais um empurrozinho e poder ir-se abaixo. No queres 
que isso acontea, pois no?

Mas, me, olha que ir a cemitrios  noite...

Prometo no voltar l. Est bem? Vem c, querida pediu, estendendo-me os braos. Ns duas fomos sempre muito ligadas, no ? Confimos sempre inteiramente uma na 
outra.

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 verdade, me.

Ento continua a confiar em mim, Pearl. Por favor implorou com olhar doce e carinhoso.

Est bem, me, desde que no voltes l.

No voltarei. Olhou em volta. Bem,  melhor levantar-me e comer alguma coisa. Esta manh tenho fome.

Hoje vais comigo ao hospital, me?

Vou respondeu-me. Antes disso s preciso de tratar de uns assuntos. Que tal ires andando, que eu depois vou ter contigo?

Quando? quis saber.

Depois de almoo. De acordo?

Talvez fosse melhor esperar por ti e irmos juntas sugeri, no acreditando nela.

Vejamos, Pearl. O que foi que ainda agora te pedi? Que confiasses em mim, no  verdade? Ficarei bem. Alm disso, quando eu l chegar j o Pierre ter comeado a 
recuperar de verdade. Vers.

Saiu da cama e foi para a casa de banho. Eu ainda fiquei um pouco por ali, sem saber se devia, ou no, telefonar ao meu pai e pedir-lhe que viesse o mais depressa 
possvel para casa.

Depois achei que a minha me tinha razo, pois tambm o pai no andava nada bem do seu sistema nervoso. Calhara-me a mim ser o pilar de sustentao daquela casa, 
quer o quisesse ou no. De qualquer modo estava a fazer-se tarde e eu no queria que Pierre passasse to grande parte do dia sem um de ns presente.

No entanto, quando cheguei, soube que o meu pai j o visitara. Levara-lhe os seus livros de quadradinhos e chocolates preferidos; tudo ficara em cima da mesa, porm, 
no mesmo stio onde os deixara. Pierre estava confortavelmente recostado na sua cama, de mos juntas sobre o colo, os olhos fixos na parede em frente e as plpebras 
a agitarem-se pensativamente. Quando o beijei na bochecha, reparei que os lbios lhe tremiam ao de leve. Sentei-me ao seu lado e peguei-lhe na mo esquerda.

A me vem c visitar-te hoje, Pierre. Seria bom falares com ela. Anda muito ansiosa por ouvir a tua voz.

O pestanejar manteve-se no mesmo ritmo e os olhos no se desviaram. Olhei para a mo que tinha entre as minhas. Estava aberta e tinha a palma fria.

Todos nos culpamos, Pierre, mas nenhum de ns teve culpa murmurei.

Olhei para cima e vi os seus olhos, depois o seu rosto, virarem-se para mim. Os lbios contraram-se-lhe no esforo de

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abrir a boca e a seguir reparei que aproximava a lngua dos dentes. No tremendo esforo para mover o rosto e proferir algum som inteligvel, abriu muito os olhos. 
Eu aguardei, sustendo a respirao.

Foi ento que os seus lbios se moveram para cima e para baixo, seguindo-se um estalido.

Calma, Pierre, calma. Queres dizer alguma coisa? Estou mesmo aqui.

Voltei a beij-lo na face. Moveu os lbios mais depressa e um som comeou a formar-se na garganta. Proferiu ento a primeira palavra desde a tragdia de Jean.

Eu...

Sim, Pierre disse, sentindo-me  beira das lgrimas. Sim, querido.

Eu... p... pen... pensei... Aproximei mais o ouvido dos seus lbios.

Pensei que era um ramo disse Pierre, fechando os olhos a seguir.

Oh, Pierre. Abracei-o. Ns sabemos, ns sabemos, querido. Ningum te culpa. Ningum disse, embalando-o para a frente e para trs entre os meus braos.

Quando, porm, o soltei e me recostei, voltara a olhar fixamente para a parede, de lbios inertes e com as plpebras a pestanejar do mesmo modo.

Que tal estamos hoje? ouvi algum perguntar. Ao virar-me, vi que era a Dra. LeFevre.

Ele falou comigo! exclamei. Foi muito baixinho, mas disse uma frase.

Isso  uma maravilha. A sua recuperao j comeou a srio. Aconselho que o levem para casa. Precisar de alguns cuidados de enfermagem; no entanto, j no est 
a soro e j se alimenta de slidos e lquidos. O resto  apenas uma questo de tempo, amor e carinho. Depois veremos que tipo de terapia dever fazer.

Oh, Pierre, ouviste a doutora? Vais para casa. No  uma maravilha?

O menino no reagiu nem mudou de expresso ou moveu os lbios.

A Dra. LeFevre mediu-lhe a tenso arterial e comeou a falar com ele.

A tua famlia quer que vs para casa, Pierre. Precisam de que te ponhas bom e voltes a ser o que eras. Mas eles no podem fazer tudo por ti. Portanto, tambm tens 
de o querer. Precisas de fazer aquilo de que falmos, est bem? perguntou-lhe, dando-lhe uma palmadinha afectuosa na mo.

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Pierre no deu a impresso de ouvi-la ou v-la. A mdica sorriu e piscou-me o olho.

Ser preciso algum tempo acrescentou. Tempo e pacincia.

Vou telefonar ao meu pai a perguntar-lhe o que quer que faamos.

Muito bem. Posso recomendar algumas enfermeiras. Ele que ligue para o meu gabinete daqui a cerca de uma hora acrescentou. Depois fez uma pausa e levou-me para uma 
certa distncia da cama. Como vai a sua me? Tenho visto o seu pai aqui, mas ela no.

At agora no tem passado nada bem. Tambm est cheia de remorsos respondi.

 natural. Mas tem melhorado?

Parece-me que sim.

Se se ocupar do Pierre, ocupar a mente e por fim ao seu sentimento de culpa. No ter tempo para lamentaes assegurou-me a Dra. LeFevre. E a Pearl deve retomar 
o seu trabalho. Sentem a sua falta por aqui.

Sorri e agradeci-lhe, apressando-me a sair para o corredor a fim de telefonar ao meu pai. Encontrei-o excitadssimo.

J telefonaste  tua me?

Ainda no. Pensei em ligar primeiro para ti, para ires tratando das coisas.

ptimo. Muito bem, vou comear imediatamente. Liga tu  tua me. Quando me levantei dormia to profundamente que nem lhe falei observou.

Eu sei. Estive quase a dizer-lhe porqu, mas lembrei-me de que a minha me ficaria muito desgostosa se eu quebrasse a promessa feita. Vou ligar j para ela.

Telefonei para casa e Aubrey atendeu.

Preciso de falar imediatamente com a minha me, Aubrey disse, apressadamente.

A senhora j saiu informou.

Olhei de relance para o meu relgio. Ela dissera-me que s iria ao hospital depois do almoo.

Disse aonde ia?

No, menina. Despediu-se de todos e saiu.

Despediu-se? Que quer dizer?

Fez questo em ver todos os empregados antes de sair respondeu, nitidamente confundido com o comportamento da minha me.

O meu corao comeou a bater mais depressa. Aonde teria

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ido? Que estaria a fazer? Disse a mim mesma que fizera mal em deix-la sozinha e cheia de promessas

Reparou se recebeu alguma chamada esta manh, ou se teve visitas?

Que eu tenha dado por isso, no, menina

Quando saiu levou alguma coisa consigo?

Aubrey hesitou. Eu sabia que ele no gostava de transmitir informaes que dessem a impresso de estar a espiar as pessoas da casa

No esteja preocupado, Aubrey A minha me tem andado perturbada desde o falecimento do Jean e no est em si. Preciso de saber o que se passa

Ficou em silncio por um momento

S sei do sucedido disse a custo, porque a Margaret estava confusa e comentou comigo, menina

Sabe do qu, Aubrey?

A senhora andou  procura de uma coisa qualquer na cmoda do Jean. Tirou todas as gavetas para fora e despejou o contedo no cho. Depois pegou na fotografia dos 
gmeos que o senhor Andreas tinha pendurada por cima da secretria e

Fez uma pausa

E o qu, Aubrey?

Cortou a metade que tinha o seu irmo Jean e deixou a outra. Depois saiu de casa s com uma mala pequena

Depreendi, pelo tom das suas palavras, que havia algo mais

Que aconteceu mais, Aubrey? perguntei, quase entrechocando os dentes de ansiedade

A senhora no levou o carro, menina. Foi simplesmente a p

No foi ningum busc-la, no chamou um txi, nada?

Que eu visse, no, menina

Viu-a afastar-se de casa a p

Vi, sim, menina. No olhou uma nica vez para trs. Deseja dar alguma ordem?

No, Aubrey, por agora, nada respondi, com os olhos a marejarem-se de lgrimas. Daqui a pouco estarei em casa

Despedi-me, pousei o auscultador no gancho e deixei-me ficar no mesmo stio, sentindo um torpor enregelante subir-me pelas pernas. Onde teria ido a minha me? Que 
ritual bizarro tencionaria executar agora? Arrepiei-me e cruzei os braos sobre o peito

Viva, Pearl cumprimentou-me Sophie, que se aproximara. Passei pelo quarto do teu irmo e a enfermeira disse-me que ainda estavas aqui. J soube da novidade maravilhosa. 
A mdica vai dar-lhe alta, no ?

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Vai, sim retorqui, tentando sorrir. Sophie s precisou de me olhar nos olhos.

O que se passa? perguntou. Porque no te sentes feliz com o facto?

Oh, Sophie, o problema no est no meu irmo, mas sim na minha me respondi, desatando a chorar e deixando-me envolver pelos seus braos reconfortantes.

Assim que me acalmei, tentei telefonar para o meu pai; porm, j no o apanhei no escritrio. Fui directamente para casa. esperanada de que a minha me tivesse 
voltado; no entanto. Aubrey abanou a cabea com ar pesaroso e olhar condodo quando lhe perguntei. Mandara a empregada preparar o quarto de Jean e arrumar a sua 
roupa. As gavetas da cmoda continuavam no meio do cho, embora j tudo tivesse sido arrumado dentro delas; no consegui descobrir nenhuma pista relativamente ao 
que a minha me levara, o que tencionava fazer ou para onde fora. Ao ver a fotografia dos gmeos, senti o corao enregelar-se. Arrancara Jean de junto de Pierre 
tal como a morte fizera e, apesar de eu saber que as fotografias no podiam mudar de expresso, pareceu-me ver grande melancolia no olhar de Pierre.

Desci at ao estdio da minha me e olhei para o estranho quadro que estivera a pintar. J fora completado. A mim pareceu-me ver a alma de Jean a fugir do corpo 
do tio Paul, que flutuava. Ao olhar mais de perto, reparei que desenhara o corpo deste assemelhando-o ao de uma serpente. Mais ao fundo do canal, quase oculto pelo 
musgo pendente, via-se um rosto pequenino parecido com o da minha me. Aquela cena sara, sem dvida, de um dos seus pesadelos horrendos, pensei. Tapei o quadro 
e voltei  sala de estar. Aubrey veio informar-me de que o meu pai chegara e subira imediatamente, pensando que eu me encontrava no meu quarto. Apressei-me a ir 
ter com ele.

Onde est a Ruby? perguntou, saindo do seu quarto.

Oh, pai, ento o Aubrey no te contou?

Contou o qu?

A me foi-se embora. Tirou umas coisas de uma das gavetas da cmoda de roupa do Jean, rasgou a parte dele na fotografia dos gmeos do teu gabinete e saiu com uma 
mala pequena.

Aonde  que ela foi?

No fao ideia gemi, sentando-me num banquinho que estava no corredor.

O que dizes, Pearl? O que se passa?

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No tive oportunidade de te contar porque j c no estavas quando desci para o pequeno-almoo esta manh, mas a me ontem  noite saiu de casa enquanto dormias. 
Foi at ao tmulo da Nina Jackson, onde se encontrou com a tal mulher vudu. Queria que eu a acompanhasse mas eu recusei e fi-la prometer que desistia da ideia. Mas 
acabou por ir. Fui  sua procura e encontrei-a l.

Tudo isto se passou ontem  noite? exclamou, incrdulo. Porque  que eu no...

Tentei acordar-te, pai disse, em tom queixoso.

O meu pai ficou a olhar fixamente para mim durante uns segundos, depois sacudiu a cabea.

Tenho a certeza de que tentaste. Ultimamente parece que no sirvo para nada.

Ela obrigou-me a prometer que no te falava no assunto, mas eu tencionava faz-lo, apesar disso declarei, limpando uma lgrima furtiva. Apenas esperei de mais. Quando 
cheguei ao hospital, vi os progressos do Pierre, falei com a mdica e esqueci-me por completo. Devia ter-te contado quando te telefonei.

Deixa estar, Pearl disse-me o meu pai. A culpa no  tua. Era minha obrigao ter dado pela sada dela ontem  noite, em vez de me ter embebedado e adormecido que 
nem uma pedra. Isto no tem sido fcil para nenhum de ns. Sei que ela tem agido de maneira estranha, com aquelas malfadadas crenas sobrenaturais murmurou. Devia 
ter-lhe prestado mais ateno. Onde imaginas que esteja?

Engoli em seco e reflecti.

Talvez em casa da irm da Nina Jackson. Foi onde tudo comeou.

Certo. Lembras-te da morada?

Lembro.

Muito bem. nesse caso  melhor irmos at l  sua procura.

Anu e respirei fundo.

E como est o Pierre? perguntei.

J arranjei enfermeira. Estar aqui por volta das cinco da tarde. Depois de localizarmos a tua me, iremos buscar o Pierre. Vamos.

Vou levar qualquer coisa para o Pierre vestir disse. Assim fiz e a seguir descemos as escadas a correr.

No caminho para casa da irm de Nina Jackson, contei-lhe o ritual feito pela minha me na noite anterior e o facto de t-la ouvido afirmar repetidamente que j sabia 
o que fazer.

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Afirmou que a Nina falara com ela atravs do gato preto

Essa gente devia ser presa e posta daqui para fora queixou-se o meu pai S causam problemas mas enfim, a tua me foi criada a acreditar em curandeiros, espritos 
maus, casas protegidas com velas e esttuas de santos. Depois prosseguiu, abanando a cabea. Estamos na era da televiso interactiva e essa gente ainda no saiu 
do sculo quinze

"Reparem-me neste lugar murmurou quando chegmos

Quem, no seu juzo perfeito, se prestaria a entrar ali, com todas aquelas penas penduradas, ossos a tilintar, p nos degraus para manter o diabo  distncia. Estaremos 
no sculo vinte?
exclamou o meu pai, com o rosto escarlate de raiva e frustrao

Pousei a minha mo no seu ombro e ele respirou fundo acalmando-se

Vamos buscar a tua me e lev-la para casa decidiu com voz fatigada

Aproximmo-nos da porta da frente e batemos. O Roll-Royce do meu pai chamara a ateno de alguns vizinhos, que haviam sado de suas casas para ver. O meu pai voltou 
a bater, desta vez com mais vigor

A irm de Nina Jackson apareceu  porta, envergando uma bata esfarrapada. Descala, tinha o cabelo a pingar. O meu pai ficou de boca aberta

Desculpe incomodarmos, mas talvez se lembre de mim. Sou.

 a menina da Ruby. Veio c ver a Nina

Precisamente, retorqui

A minha mulher est a? perguntou o meu pai sem mais delongas

A mulher sacudiu a cabea

Tem a certeza?

No est c ningum. Estive a proteger-me do mau -olhado. Tomei um banho de alho, salva, tomilho, gua de gernios, manjerico, salsa e cinco cntimos de salitre, 
explicou orgulhosamente. Depois imclinou-se para mim. Anda por a gente, desde que a Nina morreu, a querer amaldioar-me os passos Mas eu declarou, empertigando-se, 
eu no lhes dou oportunidade para isso

Viu a minha mulher? insistiu o meu pai, cheio de impacincia

A irm de Nina negou com a cabea

Ela foi-se embora? perguntou

Foi, e ns andamos muito preocupados com a sua ausncia comentei eu

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A irm de Nina reflectiu um pouco.

Se ela fugiu,  melhor queimarem algumas das suas roupas com gasolina e cc de galinha.

Oh, por amor de Deus gemeu o meu pai, saiamos daqui.

Ontem  noite ela foi ao cemitrio para falar com a Nina apressei-me a dizer. Por que razo se iria embora hoje?

Ah, isso  diferente. Deve carregar alguma espcie de maldio e a Nina disse-lhe como havia de fazer.

Mas para onde iria ela? perguntei.

Para onde quer que imagine que a maldio comeou respondeu a irm de Nina sem hesitar. Tem de encontrar o homem mau e atirar-lhe com a porta na cara. Seria esse 
o conselho da Nina.

Satisfeita? perguntou-me o meu pai. Ficmos na mesma. Vamos, querida.

Esperem disse a irm de Nina. No mexam os ps.

Entrou em casa, de onde voltou rapidamente, enfiando-me algo nas mos.

O que  isto? perguntei. Fazia lembrar um berlinde encastoado em prata.

 o olho de um gato morto  meia-noite. Quando se perder na escurido, ele ser o seu guia e mostrar-lhe- a luz explicou.

 um olho a srio? perguntei, fazendo meno de abrir a mo, gesto que ela susteve fechando-me novamente os dedos sobre o objecto.

No tenha medo. V. Encontre a sua me.

Engoli em seco e enfiei o objecto no meu bolso. A seguir agradeci-lhe, e o meu pai e eu voltmos para o carro.

Esta viagem foi em vo ou estou enganado? perguntou-me, arrancando.

Mas onde estar ela, pai?

No fao ideia, mas tenho a certeza de que no tardar a voltar para casa. E quando vir que o Pierre j l est, ter mais com que se entreter para perder tempo 
com toda essa estupidez respondeu-me.

Esperava que tivesse razo; no entanto, no estava assim to certa.

Fomos directamente para o hospital, de onde traramos Pierre para casa. Se este tinha alguma noo de que estava a ser levado para casa, no o demonstrava. Sentado 
com a mesma rigidez de sempre, olhava fixamente em frente. No entanto,

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segundo a enfermeira, comera um pouco melhor e naquele momento chupava sumo por uma palhinha

Que maravilha, exclamou o meu pai. Voltou-se para Pierre. Ei, rapaz, pronto para voltar para casa?

Pierre pestanejou mas no respondeu. O meu pai passou-lhe a mo pelo cabelo, como tinha o hbito de fazer, e depois ajudou-me a vesti-lo e a mud-lo para a cadeira 
de rodas. A enfermeira deixou-me empurr-la para fora do quarto, seguindo depois pelo corredor enquanto o meu pai ficava a assinar uns papeis. Alguns instantes depois 
tentou p-lo de p, porm, o filho no se aguentou nas pernas dbeis, pelo que foi obrigado a carreg-lo at ao carro e instal-lo no banco de trs. Sentei-me ao 
seu lado e seguimos para casa

Vais gostar de voltar para o teu prprio quarto afirmei ao meu irmo, e trocar a comida do hospital pelos petiscos da Milly

E tambm poders sair para o ar livre acrescentou o meu pai. Todos os teus amigos tm telefonado a saber de ti. Pierre apesar de no nos responder, moveu os olhos 
de um lado para o outro, e eu tive a certeza de que se admirava de no ver a me ali

A me est ansiosa por te ver, Pierre tranquilizei-o eu. Saiu para te comprar umas coisas

O meu pai manteve-se calado

Quando chegmos a casa, Aubrey veio ajudar e aproveitou para indicar Mrs Hockmgheimer, a enfermeira, uma mulher de cinquenta anos, baixa e robusta, com o cabelo 
castanho-claro liso impecavelmente cortado por uma altura do queixo. Era senhora de uns agradveis olhos verdes e de um sorriso suave e gentil que me deixou imediatamente 
 vontade. Terminadas as apresentaes, a minha primeira pergunta foi para Aubrey

A minha me j voltou?

Aubrey olhou de relance para o meu pai e disse que no com a cabea

Telefonou?

No, menina

Levemos o Pierre para o seu quarto disse o meu pai furioso. Depois nos preocuparemos com a tua me

Levou Pierre para dentro de casa e depois subiu com ele ao andar de cima, seguido por Mrs Hockmgheimer. Esta vestiu o pijama ao menino e instalou-o confortavelmente 
na sua cama

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preparara-lhe j uma bebida fresca. Pierre devia ter-se sentido  vontade com ela pois aceitou o copo com a palhinha que ela lhe deu e comeou a beber. Os seus olhos 
continuavam a desviar-se de ns para a porta,  espera de que a minha me entrasse. O meu pai e eu entreolhmo-nos e depois ele fez-me sinal para que sasse.

Eu informei-a de que o Pierre j estava melhor lembrou-me. Por que razo no foi ao hospital hoje de manh, em vez de andar por a a cirandar com esse mulherio ligado 
ao vudu? Acho melhor comear a fazer uns telefonemas a saber se alguma amiga ou conhecida a viu hoje declarou, antes de ir para o seu gabinete.

Mais tarde veio dizer-me que ningum a vira nem soubera dela.

 como se tivesse desaparecido da face da terra acrescentou, agora mais preocupado que furioso.

O dia chegava ao fim e o crepsculo j comeara a escurecer as sombras do nosso jardim, enquanto os candeeiros da rua se iam acendendo.

Que havemos de fazer, pai? Achas bem telefonar  Polcia?

E dizer-lhes o qu? Que a minha mulher anda por a metida em rituais vudu? Ela  uma adulta, Pearl. No lhes posso pedir que a procurem.

Mas no est a pensar com clareza, pai. Se calhar anda por a a vaguear, confusa.

O meu pai espraiou o olhar para l da janela. A noite cara sobre tudo o que nos cercava.

Talvez ela no demore a cair em si e a voltar, ou ento, pelo menos, a telefonar a dizer-nos onde est respondeu-me. Olhou para mim com desespero e abriu os braos. 
No sei o que mais fazer, querida. Temos um rapazinho l em cima a precisar desesperadamente da me, e ela nem sequer sabe que ele saiu do hospital e voltou para 
casa.

Talvez ela l v, pai alvitrei, esperanosa. A partir da, apressar-se- a voltar para casa.

Talvez, mas  bvio que, por enquanto, ainda l no foi. Pegou na sua garrafa de usque.

Pai, por favor no bebas demasiado esta noite. Vi-o hesitar e, logo a seguir, concordar.

Tens razo.  melhor que me mantenha alerta. Quem sabe o que poder acontecer a seguir? disse voltando a pr-me o corao aos saltos e as pernas geladas e rgidas.

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Passou-se mais uma hora. Mrs Hockmgheimer tentou alimentar Pierre, que se mostrou relutante em abrir a boca. Eu sabia porqu. Queria a sua me. Mantive-me longe 
do quarto dele, sem saber que mentira lhe contar

O meu pai e eu pouco comemos tambm, tal era a falta de apetite. Conversmos e espermos, pousando os olhos ora na porta, ora no relgio. Cada batida do relgio 
de p era como um soco no estmago. Depois de jantar, subimos para ver Pierre. Mrs Hockmgheimer tambm devia admirar-se com o facto de a minha me no aparecer, 
mas era demasiado educada para perguntar. Manteve-se fora do quarto enquanto o meu pai e eu tentmos falar com Pierre sobre vrios assuntos. De vez em quando, ele 
olhava para a porta at que, a certa altura, uma nica lgrima lhe escorreu por baixo da plpebra direita e os seus lbios comearam a tremer

Ma mam balbuciou

Mon Dieu exclamou o meu pai, levantando-se de rompante. J no suporto mais isto

Saiu intempestivamente do quarto e desceu as escadas. Virei-me para Pierre e peguei-lhe na mo

A mam ficou demasiado perturbada e confusa com o que aconteceu, Pierre Est a tentar encontrar as respostas mas gosta muito de ti e quer fazer seja o que for para 
te aju dar a melhorar ainda mais depressa. Voltar para casa assim que puder. Vers garanti-lhe, dando-lhe, a seguir, um beijo na face

Ma mam repetiu Pierre. Fechou os olhos

Mrs Hockmgheimer voltou ao quarto e, ao reparar na preocupao que o meu rosto deixava transparecer, examinou o meu irmo

Est apenas exausto, observou. Nas condies em que se encontra, tir-lo do hospital e traz-lo para aqui representou um grande esforo

Concordei e levantei-me, enquanto a enfermeira ajeitava a almofada a Pierre, que parecia ter adormecido. Naquele caso pensei, era uma bno

Desci ao piso de baixo e encontrei o meu pai a andar de um lado para o outro no seu gabinete, a beber directamente da garrafa de vidro com uisque. Murmurava de si 
para si

Com que direito  que ela faz uma coisa destas? Porque no pensa no Pierre, j para no falar em mim, E na Pearl. Temos uma famlia a zelar, um rapazinho que est 
doente. Como pde fazer uma coisa destas?

Pai, no

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Parou e olhou para mim, pestanejando de fria. De repente inclinou a cabea como se acabasse de ouvir algo vedado a qualquer outra pessoa.

Oh, Pearl exclamou num sussurro enrouquecido

O que foi, pai?

No creio..

Em qu, pai? Em que  que no crs?

No creio que ela volte declarou


CHEGA UMA CARTA

Sentei-me ao p da janela da frente,  espera, procurando constantemente sinais da minha me na rua. As palavras do meu pai tinham-me alvoraado o estmago e acelerado 
o corao, que bombeava aceleradamente o sangue atravs das veias. O relgio de p continuou a assinalar solenemente a passagem das horas. Aubrey apagou as luzes, 
e o trnsito no exterior quase desaparecera. A minha me continuava a no dar sinais de vida. O meu pai ainda fez mais alguns telefonemas, todos eles em vo. De 
vez em quando vinha at  entrada da sala e trocvamos olhares de desnimo.

Foste ver o Pierre? perguntou-me ele depois de suspirar prolongada e profundamente.

Fui. Est a dormir. Mal comeu.

O meu pai acenou que sim com a cabea, olhou para o seu relgio de pulso e voltou para o seu gabinete onde, eu sabia, estava a beber para se entorpecer.

Por fim, eram nove e meia, vi uma figura atravessar a rua e aproximar-se do nosso porto. Ao ficar visvel sob a luz vi, no entanto, que no era a minha me. Tratava-se 
de uma rapariga negra muito alta e magra, envergando uma saia preta comprida e uma camisola cinzenta. Ao ver que vinha bater  porta, levantei-me cheia de expectativa, 
mas Aubrey atendeu antes de mim. Penso que se sentia to nervoso como eu em relao ao desaparecimento da minha me. Quanto ao meu pai, ou no ouvira a campainha 
ou j estava demasiado perturbado para se inteirar de quem era.

Sim? perguntou Aubrey.

Tenho uma carta para entregar, senhor replicou a rapariga, com sotaque francs. Pediram-me que a entregasse pessoalmente a Mademoiselle Pearl ou a Monsieur Andreas 
acrescentou com firmeza.

Pode dar-ma, f-la-ei chegar a uma dessas pessoas disse Aubrey, estendendo a mo.

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Desculpe, senhor, mas tenho de a entregar pessoalmente insistiu a jovem.

Aubrey estava prestes a responder quando eu me acerquei.

Deixe estar, Aubrey, eu atendo. Sou a Pearl Andreas. Faa favor de dizer.

A rapariga analisou-me durante algum tempo e depois anuiu. Parecia no ter mais de catorze ou quinze anos, mas tinha um ar to confiante e decidido que sugeria ter 
mais idade. Possua uma pele muito lisa e luzidia, uns olhos negros enormes que captaram a luz da entrada e brilhavam como nix polido.

Pediram-me que lhe entregasse isto disse, passando-me uma carta.

Peguei imediatamente no sobrescrito. No trazia o nome do destinatrio nem o do remetente.

Quem foi que a mandou?

Vem tudo explicado na carta informou a rapariga. No sorriu; porm, mergulhou o seu olhar no meu com tal

intensidade que tive a impresso de que devassava a minha prpria alma. Depois presenteou-me com um pequeno sorriso de lbios fechados, virou-se e seguiu o seu caminho. 
Vi que acelerava o passo sobre as lajes do ptio, desaparecendo no meio da escurido de onde to repentinamente emergira.

Aubrey ficou  espera ao meu lado, com uma expresso de grande preocupao.

Est tudo bem, Aubrey tranquilizei-o. Fechou a porta e voltou para a sua rea.

Reparei melhor no sobrescrito e vi que tinha uma espcie de p avermelhado na orla. Abri-o rapidamente, verificando que a carta era endereada ao meu pai e a mim 
e que a letra era da minha me.

O meu corao parou e depois recomeou a bater violentamente. Sem ler as primeiras palavras, abri a porta da frente e desci os degraus a correr. Atravessei as lajes 
e desemboquei na rua precisamente na altura em que a rapariga negra dava a volta  esquina mais afastada. Caminhava muito depressa.

Espere! gritei; porm, ela no me ouviu. Corri pela rua, no seu encalo. Ao virar a esquina, vi-a dirigir-se para o elctrico.

Espere! voltei a gritar, descia o elctrico pelos carris da estao. Por favor, mademoiselle, espere!

Corri o mais depressa que pude. A jovem virou-se e olhou para mim ao subir para o elctrico, mas no se deteve. Entrou, e a porta do veculo fechou-se quando eu 
ia a chegar junto

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dele. Vi a rapariga sentar-se num banco de trs, ao lado de uma janela aberta. Olhou para mim. Agitei a carta e corri ao lado do elctrico.

Onde  que ela est?  a minha me! Onde est? gritei.

A rapariga fitou-me do lado de l da janela, mas no disse uma palavra.

Por favor! implorei, j com o elctrico a afastar-se. De repente, a jovem atirou-me algo pela janela, algo que

saltitou sobre a relva,  minha frente, precisamente na altura em que o elctrico virava a esquina e desaparecia. Parei para retomar o flego. O meu corao pulsava 
doidamente no meu peito, batendo com tanta fora que eu tinha a impresso de que as minhas costelas iriam rebentar. Arquejante, avancei, tentando ver onde o objecto 
cara. Fosse o que fosse, estava dentro de um pequeno saquinho de pano. Peguei nele e puxei o cordel, fazendo uma pausa para olhar na direco do elctrico. Que 
teria aquilo a ver com a minha me?

Senti um volume duro no interior do saquinho e tirei-o, cuidadosamente. Mal pousei os olhos nele, soltei um grito e deixei-o cair. Era a cabea de uma serpente. 
Tive a impresso de que o corao me saltava para fora do peito e me subia  garganta. Fiquei escarlate e, por momentos, era como se tivesse entrado num forno. As 
pessoas que passavam abrandavam o passo, olhando para mim. Tenho a certeza de que parecia enlouquecida e histrica, arquejando, chorando, sacudindo a cabea. Por 
fim recuperei algum controlo, voltei-me e corri para casa.

Mal entrei, atravessei apressadamente o corredor, em direco ao gabinete do meu pai. Este encontrava-se sentado  sua secretria, a olhar para um retrato de si 
mesmo ao lado da minha me, que esta pintara de uma fotografia. Tinha a garrafa de usque na mo direita.

Pai! A me mandou-nos uma carta! declarei.

Ele voltou-se com lentido. Tinha o rosto sulcado de lgrimas, que limpou rapidamente com as costas da mo.

De que carta falas?

Uma rapariga veio aqui entreg-la  porta. Tentei correr atrs dela para lhe fazer perguntas, mas subiu para o elctrico antes de conseguir det-la. Quando lhe gritei 
que me dissesse onde a minha me estava, atirou-me uma coisa horrorosa pela janela.

Horrorosa? O que era?

Era um saquinho com uma cabea de serpente dentro respondi, chorando.

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Uma cabea de serpente? Que primitivo!

E h p vermelho no sobrescrito acrescentei, erguendo-o para que visse.

P vermelho, mais uma arte vudu observou o meu pai com uma expresso de desagrado. Onde  que ela est? Que diz a carta?

No sei, ainda no a li.

Bem, ento f-lo ordenou, chegando-se para a frente na sua poltrona.

Virei-me para o candeeiro mais prximo e abri a carta.

Meu adorado marido Beau e minha adorada filha Pearl.

Quando receberem esta carta j estarei muito longe. Digo-vos isto para que no andem a correr a cidade de alto a baixo para tentarem levar-me para casa. Foi por 
isso que esperei at agora para vos escrever.

Sei que no acreditam com a mesma veemncia que eu nos poderes do desconhecido, o que no admira visto os dois no terem crescido num mundo regido por estas crenas. 
Sou neta de uma verdadeira traiteur e, como tal, possuo uma certa capacidade de viso. Agora sei-o, mais que nunca.

Ontem  noite falei com a falecida. A voz da Nina era lmpida e o seu esprito estava em mim. Lamentou no ter podido falar-me antes da tragdia. Acha que poderia 
t-la evitado.

Vejam-me s o estado de esprito com que ela est! comentou o meu pai. Essa gente envenenou os pensamentos da minha Ruby, aproveitou-se dela quando estava de luto, 
debilitada e vulnervel. Meto-os a todos na cadeia declarou, enraivecido.

H mais, pai disse eu, erguendo o papel com os dedos trmulos.

Continua pediu, baixando a cabea num gesto de derrota.

Embora no pudesse impedir o que aconteceu ao Jean, tenho poderes para evitar que entre mais azar na nossa vida, magoando aqueles que eu amo. A Nina deu-me instrues 
especficas para arrancar a camada de maldade espalhada sobre o nosso lar e a nossa vida, maldade nascida dos meus pecados.

Estas instrues requerem que eu saia de casa, provavelmente para sempre. Penso que depender do Destino. No quis partir com tanta brusquido, mas sabia que, se 
falasse disto a algum de vs, tentariam impedir-me.

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J pudemos ver o que estes rituais podem fazer por ns. Desde que eu me mantenha no caminho que me foi destinado, o Pierre continuar a melhorar.

Rogo a ambos que no tentem seguir-me ou deter-me. No entanto, quero que os dois tenham a certeza do muito que vos amo e de quo difcil isto est a ser para mim.

Confio em ti, Pearl, para que sejas a fora que eu no consegui ser. Fica junto do teu pai e do teu irmo e ajuda-os

Beau, meu querido, tenta perdoar-me e acreditar no que te digo. Se tiver a tua confiana, enfrentarei os dias vindouros com mais fora, assim como a batalha que 
se avizinha. Sentirei a tua f em mim.

No poderei ver-vos, falar-vos ou escrever-vos at completar a minha misso. S o fao porque vos amo a todos mais do que a mim mesma. O meu sofrimento no ser 
em vo se com ele eu comprar felicidade e sade para a minha famlia.

Gosto muito de vocs.

Ruby

Baixei as mos e olhei para o meu pai. Lgrimas quentes corriam-me livremente pelas faces, pingando do meu queixo.

O meu pai ficou a olhar em frente durante alguns instantes e depois recostou-se.

Pois bem disse, por fim, a est. Precisamente o que eu j temia e suspeitava. Quem sabe para onde ela ter ido ou o que estar a fazer?

Temos de a encontrar, pai, e traz-la para casa.

Encontr-la repetiu ele iradamente. Aquela gente fecha-se em volta dos seus como amijoas. No falaro connosco, no nos diro absolutamente nada.

Pegou na garrafa de usque quase vazia e serviu-se de nova dose.

Talvez caia em si e nos telefone murmurou.

Pai, temos de chamar a Polcia. Toda esta tristeza e tragdia deu-lhe volta  cabea. Eles entendero e ajudar-nos-o declarei.

O meu pai sacudiu a cabea.

Pura perda de tempo.

No, no  insisti. No suporto a ideia de a saber sob a influncia dessa gente. Se no os chamares, eu o farei.

Que tencionas dizer-lhes? Que a tua me foi-se embora para ir praticar rituais vudu sabe-se l aonde? perguntou com ar desdenhoso.

Exactamente.

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No te levaro a srio, Pearl. Tm problemas muito mais urgentes para resolver nesta cidade.

Vale a pena tentar, pai. Tomou um grande gole de usque.

Pai! No podes ficar a sentado dia e noite a embebedares-te at adormeceres gritei.

Ela foi-se embora, fugiu, regressou ao seu passado bizarro, e o meu filho morreu proferiu. O meu menino desapareceu. O meu outro est catatnico. O que foi que eu 
fiz para merecer isto?

Deixa de lamentar-te a ti prprio, pai. A me precisa de ns.

O meu pai encostou o queixo ao peito. Senti a raiva a tomar conta de mim. O que acontecera aos meus pais fora terrvel, sem dvida, ningum devia passar por semelhante 
tragdia; porm, se o meu pai no encontrasse uma reserva de fora da qual retirar nova energia e determinao, os acontecimentos terrveis no se ficariam por ali. 
A minha me pedira-me para ser forte. Se para isso era preciso raiar a crueldade, pacincia, pensei.

 assim que enfrentas todas as crises por que passas, pai? Deixando-te ficar no meio delas? escarneci. Foi por isso que fugiste para a Europa, deixando a me grvida 
de mim?

Ergueu a cabea bruscamente, franzindo as sobrancelhas como se as minhas palavras fossem minsculas facas.

No, eu...

Tu deixaste-a sozinha, a enfrentar a raiva e a desconsiderao. Ela reuniu as suas foras e regressou ao Hayou e conseguiu aguentar-se a ela e a mim, enquanto tu 
frequentavas restaurantes caros e festas de arromba na Europa. Agora quando ela volta a precisar de ti, ficas a a emborcar usque e lamuriares-te com o que te aconteceu.

Por favor, Pearl, eu no fui nem sou assim defendeu-se.

Ento, recompe-te e procuremos a me. Telefona  Polcia exigi friamente, falando com grande determinao.

O meu pai anuiu, ficando sbrio de imediato.

Est bem concordou. Talvez tenhas razo. Comearemos pela Polcia.

Endireitei os ombros e limpei as lgrimas com as costas da mo.

Vou ver como o Pierre est.  principalmente por ele que temos de encontrar a me e traz-la para casa.

O meu pai mordeu o lbio inferior e acenou com a cabea.

145


Dei meia volta, sai do gabinete e subi as escadas sem mais delongas, para que ele no reparasse no quo penoso era, para mim, trat-lo com tamanha dureza. Ao chegar 
ao patamar, tive de parar um pouco para recuperar o flego e abrandar o ritmo cardaco

No quarto de Pierre, Mrs Hockingheimer dormitava na sua poltrona. Ao ouvir-me, abriu imediatamente os olhos

Como vai ele? perguntei em voz baixa

O rosto do meu irmo estava em repouso, porm, tinha os lbios retorcidos, certamente em reaco a algum pesadelo pensei

Tem sido um sono agitado informou-me a enfermeira. No consegui que comesse mais, mas bebeu um pouco de gua. Senti-o um pouco quente, embora no lhe tenha encontrado 
febre

Muito bem disse eu tristemente

Mademoiselle, chamou-me, quando eu ia a sair Ele murmurou algo

Que foi?

Chamou pela me. Posso perguntar onde ela est? Mrs Hockingheimer no estava a ser bisbilhoteira. Qualquer pessoa teria o direito de se admirar pelo facto de a me 
de Pierre no se encontrar ao seu lado, pensei

A nossa me ficou muito perturbada com toda a tragdia por que passmos. Considera-se responsvel e desapareceu. Temos de ligar para a Polcia e

Os meus lbios comearam a tremer incontrolavelmente. Era como se o meu rosto se tivesse rebelado. No conseguia pronunciar as palavras, que me ficavam atravessadas 
na garganta

Mrs Hockingheimer viu o que estava a acontecer e levantou-se imediatamente para se aproximar de mim. Pobre menina, no quis perturb-la disse, abraando-me

Ningum a viu. O meu pai e eu estamos quase loucos. Vamos telefonar para a Polcia sem demora.

Lamento muito. V, v incentivou, dando-me palmadinhas suaves na mo. Tem de se manter forte. No se preocupe com o Pierre. Vigi-lo-ei permanentemente

Fico-lhe grata. Mistress Hockingheimer agradeci, respirando fundo

Mrs Hockingheimer limpou-me as lgrimas que teimavam em no me sair das faces e sorriu

 uma mulher forte. Arranjar maneira de socorrer a sua me asseverou-me

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Voltei a agradecer-lhe e desci para receber a Polcia, juntamente com o meu pai

*

Apareceram-nos  porta um detective e dois agentes de patrulha. O primeiro disse ser o tenente Ribocheaux. Era alto como o meu pai, mas de ombros muito mais largos 
e maxilar quadrado. Fazia lembrar um ex-jogador de futebol. Os agentes ficaram  entrada do gabinete, ouvindo o meu pai relatar ao detective o desenrolar dos terrveis 
acontecimentos. Mostrou-lhe a carta da minha me e depois coube-me a mim relatar-lhe a visita por esta feita ao cemitrio. Eu ainda no falara dos pormenores ao 
meu pai, que ficou com uma expresso muito assustada ao ouvir-me referir o guincho, o gato preto, o facto de a minha me andar com uma vela na mo e os sussurros

J tinham visto essa rapariga negra que trouxe a carta? perguntou o tenente Ribocheaux. Tambm se encontrava no cemitrio ou na tal casa aonde a sua me foi ver 
a falecida?

No, senhor

E quando correu atrs dela, diz que ela lhe atirou uma cabea de serpente pela janela do elctrico?

 verdade. Larguei-a imediatamente.  provvel que ainda esteja no mesmo stio. Posso mostrar-lha

Imagino que seja uma daquelas lembranas que os turistas compram nas lojas de vudu do French Quarter, observou o detective

Ainda assim, no seria capaz de a trazer para casa

Compreendo afirmou ele. sorrindo Virou-se para os polcias uniformizados Ted e Billy, vo l dar uma olhada. Talvez ainda l esteja, e assim sendo poder fornecer-nos 
alguma pista

Depreendi, pelo ar que fizeram, que s concordavam em realizar aquela tarefa por deferncia para comigo. Indiquei-lhes o stio exacto onde deveria ter ficado, e 
eles partiram

O tenente Ribocheaux voltou-se para o meu pai

Monsieur Andreas, a sua esposa estava sob cuidados mdicos?

No no sentido que penso estar a referir-se replicou o meu pai, mas o nosso mdico de famlia prescrevera-lhe sedativos

O tenente Ribocheaux puxou do seu bloco de notas

Imagino que j tenha telefonado a todos os seus amigos, a pessoas que ela poderia ter ido ver, no?

Todas aquelas de que conseguimos lembrar-nos respondeu o meu pai. Ningum sabia dela nem a vira

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Parentes?

Presentemente no temos nenhuns em Nova Orlees. Os meus pais encontram-se na Europa, a passar o Vero.

Bem, onde moram os vossos familiares mais chegados'.'

A famlia da minha mulher  do Hayou, nos arredores de Houma, mas ela no iria ter com eles declarou o meu pai.

As relaes no so muito cordiais.

Com excepo da tia Jeanne lembrei-lhe.

Sim, mas no me parece que a tua me fosse ter com ela

observou o meu pai.

Muito bem disse o tenente Ribocheaux. Dem-me a morada dessa casa dos Jackson.

Assim fiz e o detective guardou-a imediatamente.

Iremos fazer-lhes uma visita prometeu. Entretanto, agradeo que me disponibilizem uma fotografia recente de Madame Andreas. Tambm gostaria de falar com o mordomo, 
para obter uma descrio do que levava vestido quando a viram pela ltima vez.

O meu pai fez-me sinal e eu fui chamar Aubrey. Este mostrou relutncia em fornecer ao detective pormenores bizarros relacionados com o comportamento da minha me; 
porm, eu incentivei-o a ser o mais preciso possvel. O tenente Ribocheaux tomou mais apontamentos.

Os agentes regressaram. Tinham encontrado a cabea de serpente mas, tal como o tenente Ribocheaux previra, nada tinha que a diferenciasse.

Tal como eu j desconfiava, no difere das que se podem comprar no estabelecimento da Marie Laveau. Algum andou a brincar consigo.

Se isso  verdade, foi uma grande crueldade repliquei.

Depois de os polcias se retirarem, sentei-me com o meu pai no gabinete.

No acredito muito que a encontrem, Pearl. Mandaro um carro-patrulha dar uma volta por a,  certo, mas s se a tua me lhes aparecer mesmo  frente... Conheo 
essa gente ligada ao vudu. Convencem-se de que esto a fazer algo de espiritual e de bom. No querero que a tua me seja encontrada e trazida de volta. Isso poderia 
quebrar no sei que magia.

Talvez tambm devssemos ir a casa da irm da Nina sugeri, e no arrancar p de l at nos dizer a verdade.

No nos servir de nada. Ao menos a Polcia sempre dispe de alguma autoridade. Que tal ires-te deitar, querida? No faz sentido estarmos aqui os dois a p e preocupados 
a

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noite toda. Alm disso, preciso que estejas forte e cheia de sade para os dias que se aproximam.

No vais ficar aqui em baixo a noite toda, pois no, pai? perguntei, olhando para a garrafa de usque.

O meu pai viu onde eu fixara o olhar.

No bebo mais prometeu. Tenho de estar alerta, para o caso de sermos precisos.

Levantei-me e aproximei-me dele. Abramo-nos e ele manteve-me apertada contra si mais tempo que o habitual, antes de me soltar e voltar a recostar-se.

Boa noite, pai.

Boa noite, princesa. Obrigado por me fazeres recuperar a razo disse-me, sorrindo. H bocado, tive mesmo a impresso de que estava a olhar para a tua me quando 
tinha a tua idade.

Dei-lhe mais um beijo e afastei-me. Ao chegar  porta, virei-me. O meu pai voltara de novo a poltrona para a direco anterior e continuava a olhar fixamente para 
o retrato da minha me, interrogando-se, certamente, sobre se alguma vez voltariam a viver tempos to felizes e maravilhosos como aqueles em que o retrato fora pintado.

Quando fui espreitar Pierre, tanto ele como Mrs. Hockingheimer dormiam profundamente, pelo que fechei a porta suavemente e segui para o meu quarto. Quando ia a meter-me 
na cama, Sophie telefonou. Contei-lhe o que acontecera, at  altura em que a rapariga negra atirara a cabea de serpente pela janela do elctrico.

No percebo muito de vudu disse-me Sophie, mas a minha av  uma perita. Se quiseres, pergunto-lhe.

Reflecti na questo. Comeava a concordar com o meu pai, ou seja, quanto mais gente envolvssemos no sucedido, mais baralhados e confusos ficvamos. At ali, aquilo 
s servira para me encher a cabea de maus pensamentos e de me dar pesadelos.

No, obrigada,  melhor no.

Se quiseres posso ir a ter contigo e ajudar-te a procurar props.

Agradeo-te, mas eu prpria nem saberia por onde comear. Esperaremos pelo que a Polcia diz amanh.

Talvez ela volte para casa esta noite.

Oxal.

Rezarei por ti e pela tua famlia disse a jovem.

"Que ironia", pensei. Ainda h poucas semanas, Sophie ficara a olhar, da janela do elctrico, para o Garden District com ar de inveja, enquanto eu lhe dizia adeus 
antes de me dirigir

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para casa. Tinha a certeza de que teria dado qualquer coisa para trocar de lugar comigo. Agora eu  que era objecto da sua compaixo e simpatia. "O dinheiro proporciona 
conforto s pessoas mas no as torna felizes", pensei.

Obrigada, Sophie.

As lgrimas vieram-me aos olhos s de pensar que nenhuma das minhas amigas de liceu, da chamada alta burguesia, telefonara ou aparecera, enquanto a mais recente 
delas, a mais pobre de todas, se preocupava o suficiente para disponibilizar o seu tempo livre para me ajudar.

Depois de desligar, juntei as mos debaixo do queixo e tambm disse uma orao. Rezei pela minha me, por Pierre, pelo meu pai e para ter fora suficiente para os 
ajudar a todos. Depois tentei dormir. Fiquei s voltas na cama durante horas, at adormecer, mas o meu sono foi inquieto e continuamente interrompido. Era frequente 
eu acordar com um sobressalto, esforando-me intensamente por ouvir alguma porta a abrir-se ou um telefone a tocar. Ansiava por escutar a voz da minha me no corredor 
ou pelas escadas acima; no entanto, s me chegava o silncio mortal da morgue em que a nossa casa se transformara.

Pela manh, o meu pai tinha um ar desgrenhado e mal dormido. Ficara, sem dvida, quase toda a noite a p. Fora no sof do seu gabinete que dormira o pouco que conseguira. 
Fiz com que comesse um pequeno-almoo substancial e depois convenci-o a ir tomar um banho. Mrs. Hockingheimer levantara e lavara Pierre. F-lo comer parte do seu 
pequeno-almoo, mas ele mostrava o mesmo olhar vazio, a mesma expectativa quando eu entrei. Falei-lhe durante algum tempo. Os seus lbios tremeram e depois formaram 
a palavra "me". Controlei a sensao dolorosa no corao e contive as lgrimas.

Convenci o meu pai a telefonar ao tenente Ribocheaux a fim de saber se havia novidades; porm, estava tudo na mesma. O meu pai desligou o telefone e fitou-me com 
a exausto e a frustrao estampadas no rosto.

Eu bem te disse que no nos serviria de nada chamar a Polcia disse. Eles no encaram essa questo do vudu a srio e, quando um adulto desaparece, no ficam muito 
preocupados. Claro que prometem procur-lo.

No suporto ficar aqui parada  espera, pai. Temos de fazer qualquer coisa.

O qu, querida? Percorrer a cidade?

No acredito que ela ainda esteja por c observei. Acho que devamos ir ao Hayou.

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O meu pai riu-se.

Servir-nos-ia de muito, tu e eu, dois citadinos a tentar encontrar algum no meio dos pntanos. Se a esperana de o fazermos aqui, onde conhecemos o territrio, 
 escassa, imagina o que poderamos conseguir indo at l? Eu nem sequer saberia por onde comear.

Reflecti por um momento, recordando as histrias que a minha me contava, e depois olhei para o meu pai com renovado entusiasmo e esperana.

Comearemos pela cabana disse.

Cabana?

A velha cabana para onde voltou quando engravidou de mim. Ela acredita em espritos. Portanto, de certeza imagina que o da sua grandmre Catherine ainda l est, 
ou at mesmo o da me dela, a minha av.

Deixa-me ver o quadro que ela pintou lembrou-se o meu pai.

Fomos at ao estdio, onde ele ficou a olhar para o quadro durante algum tempo, com ar pensativo.

Em que ests a pensar, pai?

O que foi que aquela velha doida, a irm da Nina, nos disse...? Que a Ruby fora para onde quer que a maldio comeara. Na cabea dela isso poderia perfeitamente 
ser o Hayou. Sobretudo quando olho para este quadro. Vou telefonar  Jeanne.

Voltou ao seu gabinete para o fazer. Eu segui-o e fiquei  porta  espera, enquanto ele falava com a irm do tio Paul.

A tia Jeanne no tivera conhecimento da morte de Jean. Essa notcia j foi suficiente para a desmoralizar. A seguir o meu pai falou-lhe do desaparecimento da minha 
me. Aguardei, esperanosamente, ao lado do meu pai; no entanto, pude depreender, pela conversa, que no vira nem soubera da minha me, nem ela nem nenhum conhecido 
seu.

O meu pai pousou o auscultador e abanou a cabea.

Bem, pelo menos sabemos que para o Hayou ainda no foi concluiu, recostando-se.

Ainda assim devamos ir l, pai.

No sei.

 melhor do que ficarmos aqui sentados a olhar um para o outro sem esperana. Peo-te. Vamos at l e procuremos. Pode ter acabado de chegar ou ento estar nalgum 
stio de que os Tate no saibam. Eles no foram ver  velha cabana.

O meu pai ficou pensativo.

Est bem aquiesceu.  capaz de valer a pena e tu realmente tens razo. Estarmos para aqui de braos cruzados,  espera de que o telefone toque, est a dar cabo de 
ns.

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Vou l acima avisar Mistress Hockingheimer e o Pierre do que tencionamos fazer, para que no estranhem a nossa ausncia disse.

Boa ideia. Vou buscar os mapas que tenho do Hayou. H muito que no vou at quelas paragens.

O facto de termos uma estratgia e algo de concreto para fazer trouxe esperana aos nossos coraes e renovou-nos a energia. Apressei-me a ir ao piso de cima para 
mudar de roupa e a seguir fui ver Pierre.

Ia mesmo agora ter consigo e com Monsieur Andreas disse-me Mrs. Hockingheimer mal me viu. No gosto da maneira como o Pierre est sempre a adormecer; alm disso, 
agora at a gua se recusa a beber.

Oh, Pierre disse eu, sentando-me na beira da cama e pegando-lhe na mo. Ele no desviou o olhar da parede. No podes continuar a fazer isto a ti prprio. Tens de 
recuperar as foras e ficar bom. Precisamos de ti para ajudar a me. O pai e eu vamos busc-la para vir para casa e ficar junto de ti, mas tens de comer e beber 
para teres fora quando ela voltar. Peo-te por tudo implorei. Por favor, faz um esforo.

Pierre comeou a pestanejar mais rapidamente e respirou fundo. Passei-lhe a mo pelo cabelo.

Prometes fazer isso, Pierre? Prometes?

O rapazinho no respondeu, mas pareceu-me notar mais animao e vivacidade nos seus olhos.

Estaremos fora a maior parte do dia, Mistress Hockingheimer, mas daqui a algumas horas telefonaremos para c.

Pedirei  mdica que passe por aqui esta tarde prometeu a enfermeira.

ptimo.

Boa sorte, minha querida.

Obrigada.

Olhei para Pierre, que movia os lbios, e sentei-me de novo ao seu lado, aproximando o ouvido da sua boca.

A me... a me foi buscar o Jean sussurrou. Aquelas palavras enregelaram-me o corao. Por instantes,

no fui capaz de falar ou engolir.

Oh, Pierre querido gemi.

Abracei-o, beijei-o e embalei-o entre os meus braos. Depois limpei as lgrimas e sa apressadamente do quarto, esperando, de todo o corao, encontrar a minha me 
e traz-la para casa, onde era o seu lugar.

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O MEU MUNDO "CAJUN"

Quando o meu pai e eu samos da cidade, em direco a Terrebonne Parish e Houma, a cidade de origem da minha me, senti-me dominar por um torpor paralisante. J 
l no ia desde criana. Os problemas que tivramos com os pais do tio Paul, desde o famoso julgamento para determinar a quem caberia a custdia da minha pessoa, 
tinham erguido uma barreira quase intransponvel em torno daquela zona do Hayou. A produo do poo de petrleo que o tio Paul deixara em meu nome proporcionara-me 
um rendimento considervel; porm, eu nunca vira o referido poo, pois ficava em Cypress Woods e nem o meu pai nem a minha me haviam jamais reunido coragem suficiente 
para l voltar. Pelo menos at quela altura.

A disputa sobre a propriedade impedira todos de a usufruir, embora o meu pai tivesse jurado jamais l regressar e, ao que parecia, a minha me ter recordaes muito 
tristes que seriam revividas naquelas salas enormes. O que era verdade para eles tambm o era, aparentemente, para Octavious e Gladys Tate, pois estes nada tinham 
feito relativamente  manso. A tia Jeanne dissera que a me dela desejara conserv-la como um monumento  memria do tio Paul.

A minha me podia ter voltado para a cabana onde ela e a sua grandmre Catherine tinham vivido e onde eu nascera mas, tanto quanto eu sabia, j tinham decorrido 
muitos anos desde a ultima visita. Quando lhe perguntava porqu, respondia que nenhuma das amigas da grandmre Catherine era viva; portanto, no havia pessoas que 
gostasse de rever.

Sempre que me falava do seu passado e me contava histrias, eu ficava fascinada. Havia muitos aspectos, relacionados com os seus antecedentes, que eu considerava 
interessantes mas que, no entanto, eram nitidamente penosos para ela. Teria gostado de saber o quanto lhe custara empreender aquela jornada naquela altura, se  
que a fizera. Mesmo obedecendo ao conselho

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dado por algum que falava do lado de l do tmulo, devia ter-lhe sido extremamente difcil.

Durante a primeira parte da viagem, nem o meu pai nem eu falmos muito. Imagino que fssemos os dois perdidos nos nossos pensamentos e nos nossos receios. O dia 
revelara-se particularmente frio e nebulado. Na sua maioria, as nuvens eram longas, largas e enfunadas e, quando alguma passava em frente do Sol, as sombras adensavam-se 
e espraiavam-se sobre a auto-estrada e os campos  nossa volta. Os restaurantes de beira de estrada, assim como os postos de venda de frutas e legumes foram escasseando 
cada vez mais. Comearam a aparecer garotas e pelicanos castanhos ao longo das margens dos canais e de vez em quando via-se um velho barco camaroeiro a enferrujar 
e a apodrecer no meio dos arbustos rasteiros.

No tardou que as casas erguidas sobre toros de madeira comeassem a aparecer com mais frequncia, algumas com crianas a brincar nos ptios, outras com mulheres 
cajuns sentadas nos seus alpendres a conversar enquanto descascavam ervilhas para dentro de potes de ferro forjado ou entreteciam cestos de tiras de madeira de carvalho 
e chapus de palmito, para vender aos turistas. Ao ouvirem-nos passar, levantavam a cabea. Mesmo  nossa frente, trs pescadores, de barbas longas e emaranhadas, 
emergiram de um pntano, de canas de pesca ao ombro.

De repente, dei em pensar como o mundo de onde a minha me viera era diferente daquele em que naquele momento vivamos. Como devia ter sido assustador deixar, em 
idade to jovem, aquele mundo por sua prpria iniciativa e entrar num outro, de gente rica e sofisticada. Devia ter sido o mesmo que ir para outro pas. Porm, no 
tivera outra hiptese. Na esperana de ser salva, fugira do seu av alcolatra.

Agora voltara a esse mundo cajun, igualmente na esperana de ser salva, e ns amos a correr para ali, esperando poder salv-la. A vida parecia decorrer em crculos. 
Respirei fundo e virei-me para o meu pai, que me sorria de maneira estranha.

Porque sorris dessa maneira, pai? perguntei.

Estava a pensar que a tua me tem muita confiana em ti. Transformaste-te numa mulher forte e espantosa comentou. Outras raparigas da tua idade provavelmente ficariam 
em casa a lamuriar-se, mas tu no. Se calhar herdaste essa genica do lado cajun da tua me.

E quanto  tua famlia, pai?

A minha famlia? Ora, toda ela se estragou de tanta abundncia e eu tambm no me sa melhor por ter nascido em bero de ouro. Teria sido bem melhor se fosse cajun.

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Quando  que estiveste aqui pela ltima vez, pai?

Penso que foi durante o julgamento pela tua custdia. Antes disso, quando a tua me vivia em Cypress Woods, dei um passeio at c. Era um lugar lindo. Sentia muitos 
cimes admitiu. E estava apavorado.

Apavorado? Porqu?

Achava que a tua me possua tudo o que alguma vez poderia desejar, que jamais a conquistaria de volta. Alm do lugar maravilhoso em que vivia, tinha um estdio 
magnfico e um homem que a idolatrava. E que tinha eu? A Gisselle, que no fazia outra coisa seno queixar-se.

Riu-se.

Qual  a graa?

Certa vez eu e a Gisselle fomos at Cypress Woods e o tio Paul levou-nos a todos a dar uma volta pelos pntanos. Depois disso, a Gisselle teve pesadelos durante 
semanas.

Porqu?

Por causa dos aligatores e dos insectos. A Ruby e a Gissele eram gmeas, claro, mas eram diferentes como a noite do dia respondeu.

No deve ter sido fcil para a minha me fazer-se passar pela Gisselle, j que eram to diferentes observei.

Era uma parte da histria da minha famlia que sempre me intrigara: a minha me assumir a identidade de Gisselle depois de esta adoecer com uma encefalite e a troca 
se efectuar.

Nem imaginas quanto! Eram como o Doutor Jekyll e Mister Hyde. A Ruby tinha de falar e agir como a Gisselle. Eu contratara empregados novos para, ao menos enquanto 
estava junto da criadagem, ser ela mesma. A Gisselle era sempre desagradvel para com aqueles que considerava abaixo de si, e a Ruby teve de os tratar com a mesma 
frieza. Sei que a tua me ficou aliviada por poder voltar a ser ela mesma quando o ardil foi desmascarado.

"Agora vejamos disse, estudando a estrada que se estendia em frente. Sei que devemos estar a chegar a uma curva.

Abrandou e parou para consultar o mapa.

Entrramos j no meio da zona do Hayou. A vegetao era muito densa em ambos os lados da estrada e eu via as canas por entre os arbustos e as tbuas. Ao baixar o 
vidro da minha janela, chegou-me o canto das cigarras e das rs-arboricolas no pntano.

A princpio no reparei mas, ao passear o olhar pelos arredores, vi aparecer uma cabana por trs de um amontoado de

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salgueiros-chores. A velha habitao de madeira encontrava-se oculta por bananeiras. O ptio, ou o que restava dele, estava atravancado de peas de automveis e 
mquinas. Ao lado da casa, perto da margem, via-se uma piroga meio submersa. Que teria acontecido s pessoas que viviam ali, perguntei a mim mesma. Teriam sido parentes 
meus? Teria ali existido alguma rapariga da minha idade, to curiosa sobre a minha vida em Nova Orlees como eu sobre a dela ali?

Muito bem, agora j me lembro afirmou o meu pai Descemos a estrada  esquerda e mais adiante virmos outra vez  esquerda. A cabana fica a cerca de quilmetro e 
meio da estrada. Pronta?

Sim, pai.

Tinha os meus dedos cruzados.

Seguimos em frente. Uma abertura no meio da vegetao permitiu-me ver um homem jovem a remar numa piroga. Deslizou at uma enorme ilha feita de nenfares de folhas 
largas e flutuantes, de onde uma dezena de grandes rs saltaram, caindo  volta dele e fazendo a gua soar como bolhas a rebentar. S lhe vi o rosto de relance; 
no entanto, pareceu-me digno de uma esttua, queimado pelo sol e esboando um sorriso de profundo prazer.

Voltmos pela segunda vez  esquerda e o meu pai anunciou:

C estamos!

O meu corao comeou a bater mais depressa. Encontraramos a minha me sentada na varanda, a deambular pela cabana ou instalada dentro desta? Esperava que ficasse 
surpreendida, mas contente, por irmos ter com ela. Parmos e o meu pai desligou o motor. Durante um momento prolongado, limitmo-nos a ficar ali sentados, a olhar 
para aquela espcie de casa.

Eu no ia preparada para o que via. Imagino que tivesse formado uma ideia romntica da cabana na minha cabea durante anos. A maioria das minhas recordaes eram 
vagas, mas sempre que a recordava, visualizava uma linda casinha no topo de paus, com um prado verdejante e lindamente florido a rode-la. Via-a acabada de pintar 
e com o telhado de metal a brilhar ao sol do meio-dia. Nas minhas memrias, o canal corria mesmo por trs da casa. Os pelicanos e as garas pairavam por ali, as 
bremas e as carpas saltavam para apanhar insectos e as cabeas dos aligatores assomavam, enquanto nos miravam com olhos curiosos.

Em vez disso, deparmos com o ptio da frente cheio de mato, onde at as ervas daninhas estavam a morrer de to
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abafadas. A varanda inclinava-se para a direita e a cabana para a esquerda. Algumas das tbuas tinham-se desprendido e todas as janelas apresentavam os vidros partidos, 
provavelmente devido  rapaziada, que se entretivera a atirar-lhes pedras.

Apesar de tudo, as minhas recordaes de infncia vieram  superfcie. Tive um vislumbre da varanda onde me deixava embalar numa cadeira de balouo enquanto, da 
sala de estar, chegava at mim msica de rdio. A banca de beira de estrada onde a minha me vendera os seus chapus entretecidos, cestos, geleias e compotas jazia, 
aos pedaos, no meio da erva alta.

No parece que nos ltimos tempos tenha vindo aqui algum comentou o meu pai.

 melhor darmos uma vista de olhos, pai sugeri. Ele anuiu, apertou-me a mo, e abriu a porta.

Tem cuidado recomendou-me quando o segui.

No entanto, ao chegarmos ao carreiro da frente, quase indistinto, parmos. Dava a impresso de que algum caminhara por ali recentemente. O meu pai e eu entreolhmo-nos 
e depois acelermos o passo em direco  varanda. A pequena escada rangeu e os degraus vergaram sob o nosso peso, assim como as tbuas do cho. O meu pai entreabriu 
a porta da frente. As velhas dobradias enferrujadas chiaram e ela oscilou.

Quando amos a entrar, algo se refugiou rapidamente no interior, fazendo-me dar um salto e um grito.

Deve ser um guaxinim sussurrou-me o meu pai.

O meu corao batia tanto que tive a impresso de que o flego me faltava. No ar pairava um cheiro desagradvel e havia montes de teias de aranha no tecto e nas 
paredes; porm, a velha moblia ainda ali estava. O meu pai e eu parmos e olhmos para a sala de estar, onde nos encontrvamos. Depois baixei os olhos para o cho 
e chamei a ateno do meu pai puxando-lhe pela manga da camisa.

Pai, algum esteve aqui h pouco tempo. Ests a ver as pegadas no cho?

Assentiu e acocorou-se para as examinar de mais perto.

So pequenas, como as da tua me. Prosseguimos a nossa investigao casa dentro. A cozinha

estava um caos. O que restava do fogo enferrujara completamente. A porta da geleira antiquada fora arrancada por algum que se pusera a balouar em cima dela. As 
gavetas estavam no meio do cho, algumas delas todas partidas e viam-se mesmo buracos abertos no soalho. O meu pai olhou para a escada interior com preocupao.

 melhor ficares aqui aconselhou. No sei at que ponto ser segura.

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Comeou a subi-la. Os degraus estalaram mas ela aguentou-se. Fiquei em baixo, enquanto ele passava revista aos quartos e  sala do tear. Deixou-se ficar l em cima 
durante algum tempo

A cabana parecia-me minscula. Custava-me imaginar que a minha me e eu ali tivssemos vivido em tempos. Ento agora, assim em to mau estado, revelava-se acabrunhante. 
O vento fazia as paredes ranger e por baixo das tbuas do soalho corriam pequenas criaturas Sobre o tampo de madeira, toda lascada, da mesa de cozinha, viam-se manchas 
que pareciam de sangue seco. Visualizei o meu bisav, embriagado e enfurecido Apesar da humidade e do calor intensos, a lembrana provocou-me calafrios. Cruzei os 
braos bem contra mim e olhei para o cimo da escada. h algum tempo que no sentia nenhum movimento

Pai''

No me respondeu

Pai? insisti, um pouco mais ansiosamente. Instantes depois vi-o descer as escadas. lentamente Trazia

nas mos a fotografia de Jean que a minha me rasgara, retirando-o a ele mais a Pierre de cena. Parecia que lhe tinham entornado por cima pingos de cera

Tinhas razo disse-me, ela esteve aqui. Entusiasmados pela descoberta, procurmos mais sinais da presena da minha me no local, no entanto, no deparmos com mais 
nenhum, to-pouco qualquer indcio que nos desse a menor pista. A maior parte da terra que rodeava a propriedade tinha mato em abundncia e o meu pai achou que no 
vnhamos propriamente vestidos para andar pelo meio de terrenos pantanosos

 demasiado perigoso. De qualquer modo ela no poderia ter ido por ali declarou

Ento aonde  que iremos procur-la?
S conheo mais um lugar, ou seja, Cypress Woods respondeu-me, soltando um suspiro profundo. Ela est a empreender uma jornada de regresso ao passado, uma jornada 
que, espero, ns no tenhamos de fazer

Voltmos para o carro e o meu pai ficou sentado por momentos

Antes de mais nada, daremos um pulo  cidade e compraremos algo para comer, sugeriu. No fica longe, mas Cypress Woods  no lado oposto. S daqui a algumas horas 
 que voltaremos a ter oportunidade para comer e beber alguma coisa

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Est bem, pai concordei.

No tinha fome nem sede. Quando dramos a volta pela cabana e pelo terreno circundante, ficramos cheios de calor e transpirados. Tinhamos a roupa colada  pele, 
tal era a humidade.

Algumas das outras cabanas que vimos ao longo do caminho para a cidade tambm pareciam desertas; no entanto, algum cuidava delas e os campos mostravam-se limpos. 
Detivemo-nos no parque de estacionamento do primeiro restaurante que encontrmos. Anunciava lagostins " discrio". Como era Vero, viam-se alguns turistas pela 
zona. Quando entrmos, quase todos os fregueses ergueram os olhos dos seus fartos pratos de lagostins. Embora no parecessem hostis, analisaram-nos com ar desconfiado. 
Uma mulher de longos cabelos pretos e olhos escuros suspendeu o que estava a fazer e esticou o pescoo como um pssaro, desviando-se do homem em frente do qual estava 
sentada, para olhar para ns. Sorri-lhe, ao que ela correspondeu com um aceno de cabea.

Um grupo de homens, todos vestidos com calas de ganga e T-shirts e os braos manchados de leo de mquinas, levantou-se de uma mesa  nossa direita e dirigiu-se 
para a sada, rindo. Todos eles calavam botas altas. Olharam-nos de relance e o mais jovem dirigiu-me um sorriso afvel e suave, fixando os olhos escuros em mim 
por um momento. Saudou-nos tocando ao de leve na aba do chapu e hesitou, como que prestes a dizer algo.

Anda da, Jack. No  gua para o teu bico observou um dos mais velhos.

O rapaz, embaraado, apressou-se a sair pela porta, no meio da risota dos colegas.

Sentmo-nos, e uma rapariga de avental vermelho e com o cabelo atado em ns grossos veio saber o que desejvamos comer. O meu pai escolheu gumbo de frango e marisco, 
enquanto eu optava pela jambalaya.

Vi um cartaz a anunciar um fais-do-do, sbado  noite, com a participao do Swamp Trio, um conjunto de msica cajun

O que  isto do fais-do-do? inquiri.

 um baile acompanhado de comes e bebes informou a rapariga, de mo na anca e postura displicente. Nunca estiVeram nestas paragens?

No.

De onde so?

. De Nova Orlees respondeu o meu pai com um sorriso.

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Ah! Pois bem, deviam ir  festa disse. Podem danar o two-step. Inclinou-se para mim e acrescentou, olhando para a porta. Conheo alguns rapazes que gostariam de 
a ver por l.

No tencionamos ficar apressei-me a esclarecer.

O meu pai riu-se. Mandou vir uma caneca de cerveja para si e um ch gelado para mim.

Ento? perguntou-me ele a certa altura. O que pensas do mundo da tua me, at aqui? Pelos vistos de pouco te recordas.

 interessante retorqui-lhe discretamente. Mas completamente diferente.
O meu pai concordou com um aceno de cabea e sorriu com a recordao.

Quando vi a tua me pela primeira vez, pensei que se tratasse da Gisselle. Foi durante o Carnaval e estvamos todos mascarados. Encontrei-a em frente da casa, convencido 
de que a Gisselle ia de mendiga. Devia ter calculado que ela jamais escolheria semelhante fatiota, nem mesmo para uma festa. Continuei a insistir que era a Gisselle 
porque nem sequer sabia que ela tinha uma irm gmea. S depois de a tua me protestar muito  que reparei que se tratava de outra pessoa e olhei-a com mais ateno. 
Era muito fresca, natural e, embora tmida, nunca ficava sem dizer o que pensava. s vezes prosseguiu, depois de uma pausa prolongada, pergunto a mim mesmo se ela 
no teria ficado bem melhor se no tivesse sado aqui do seu mundo.

Mas... e o av dela e o horror que ele ia fazer vendendo-a como esposa a um homem? lembrei-lhe.

Sim,  verdade. Cada lugar tem os seus problemas, de facto.

Pai, no achas que devamos telefonar ou ir ver a tia Jeanne?

Talvez depois de irmos at Cypress Woods respondeu-me. No estou com muita vontade de ver a Gladys Tate.

Porque  que a me da tia Jeanne nos detesta, pai?  s por ter perdido a aco em tribunal?

No. A Gladys culpa a tua me pelo que aconteceu ao seu filho Paul. Apesar de saber que no eras filha do Paul, depois da morte dele, abriu aquela guerra pela tua 
custdia. F-lo por vingana. Nunca quis que o filho ficasse com a tua me, evidentemente, e segundo o que a Ruby me contou, penso que nunca vos tratou muito bem 
depois de se mudarem para Cypress Woods.

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A tia Jeanne disse-me que a me tem andado muito aflita com a artrite e pouco sai.

Pois , o destino d muitas voltas e acaba por castigar quem merece observou o meu pai.  melhor evitarmo-la.

Grande parte do passado da minha me fora sombrio e infeliz. Percebia porque recorrera a rituais vudu e a amuletos de boa sorte e porque acreditava ser perseguida 
por maus-olhados. Pobre me, pensei, em que tormento vivia.

A comida estava deliciosa mas nem o meu pai nem eu tnhamos o apetite com que contramos. Naquele momento s pensvamos na minha me. Eu tinha esperana de encontr-la 
em breve.

O telhado da manso que o meu tio Paul baptizara de Cypress Woods erguia-se acima de pltanos e ciprestes, tornando-se cada vez mais alta, aos nossos olhos,  medida 
que nos aproximvamos, vindos da auto-estrada interminvel. Os terrenos circundantes, em tempos encantadores, estavam agora cheios de mato, os canteiros de flores 
atravancados de ervas daninhas, as fontes secas e cheias de lixo aqui e ali, e at as ervas tinham chegado s varandas por entre as frinchas das tbuas, invadindo 
tudo.

 direita ficavam os canais e os pntanos. Uma piroga, amarrada ao embarcadouro, balouava ao sabor da ondulao. Na proa estava uma gara grande pousada, de peito 
inflado, como se exigisse a posse da embarcao. Vimos, a ocidente, os poos de petrleo com as suas torres, o que me trouxe imediatamente  lembrana vises fugidias 
do meu pesadelo habitual. Para mim. era um mau augrio. Inclinei-me para a frente e toquei na moedinha de boa sorte que a minha me me dera.

Ests bem? perguntou o meu pai, sabedor de que os poos de petrleo apareciam sempre no meu pesadelo.

Estou respondi, depois de respirar fundo. Virei-me para a casa. Fazia lembrar um templo grego. Na

varanda de cima estendia-se um corrimo de ferro com o desenho de diamantes. Em ambos os lados da casa, tinham sido construdas alas destinadas a contrabalanar 
os elementos predominantes do edifcio principal.

D a impresso de que no vem c ningum h muito tempo disse o meu pai, desanimado.

Samos do carro e comemos a subir as escadas. Passmos por entre as duas colunas, e o meu pai tentou abrir a porta da frente. No estava fechada mas foi preciso 
muita fora para a empurrar, to emperrada se encontrava. Detivemo-nos no trio

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forrado a telhas em estilo espanhol. o vestbulo fora concebido para deslumbrar quem entrasse na manso, pois no s era amplo e comprido como tambm tinha o tecto 
alto, onde os nossos passos e as nossas vozes ecoavam.

Sobre as nossas cabeas pendiam os candelabros, outrora deslumbrantes, agora com os pendentes de vidro baos como pedras. A moblia fora tapada, e h anos que ningum 
ali limpava nada ou arejava. Em cada canto viam-se enormes teias de aranha a pairar como se fossem velas. Os espelhos possuam uma camada espessa de p a cobri-los 
e por todo o lado se viam dejectos de roedores. No interior, depois de uma tarde com o sol a cozinhar aquela atmosfera hmida, reinava um cheiro a envelhecido e 
a mofo.

 nossa frente ficava a escada em caracol, duas vezes mais larga e elaborada do que a da casa dos Dumas. Percorremos lentamente o corredor, espreitando por cada 
umbral. Todas as divises da manso eram espaosas; no entanto, os reposteiros tinham um ar pesado devido  antiguidade e  sujidade.

- J me tinha esquecido do tamanho desta casa - comentou o meu pai num sussurro. - Est c algum? - chamou. A sua voz reverberou e morreu algures ao fundo da casa, 
provavelmente na cozinha. Aguardmos um momento e depoiso meu pai sugeriu que subssemos ao andar de cima.

Encontrmos pssaros no quarto que pertencera a Paul, Tinham entrado por uma janela aberta e feito ninho no alto da cabeceira da cama. Quando entrmos, esvoaaram 
loucamente, temendo pelos seus ovos. Espreitmos no quarto ao lado, aquele que fora, supostamente, o da minha me; no entanto, tambm no encontrmos vestgios da 
sua presena recente ou da de qualquer outra pessoa. o meu pai e eu passmos tambm em revista os restantes quartos, detendo-nos no das crianas onde, mais uma vez, 
no detectmos sinais da minha me.

- Recordas-te deste quarto? - perguntou-me.

- No muito bem, mas lembro-me de que havia uma caixinha de msica em cima de uma cmoda, com uma bailarina s voltinhas. A me e o tio Paul costumavam p-la a trabalhar 
enquanto eu me enfiava debaixo dos lenis.

- No tenho presente nenhum objecto como esse. Deve ter sido deixado aqui. - Olhou em volta e depois acrescentou: S nos falta procurar em mais um lugar.

Eu sabia aonde ele queria ir. Fomos at  escada dos fundos e subimos at ao enorme sto que servira de estdio  minha me, com as suas vigas estruturais em madeira 
de cipreste talhada  mo. As janelas amplas deitavam para os campos e 
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canais; porm, nenhuma para o lado dos poos de petrleo. Apesar de todo o tempo decorrido e da sujidade acumulada, as enormes clarabias proporcionavam iluminao 
e tornavam o espao claro e arejado,

Eu sabia que o meu pai depositara todas as suas esperanas naquela diviso. Tivera quase a certeza de que encontraramos a minha me alojada ali; todavia, mais uma 
vez no deparmos com o menor vestgio dela ou de qualquer outra pessoa. Alguns dos seus cavaletes estavam montados, mas dava a impresso de ali se encontrarem h 
anos.

-Onde  que a me poder estar, pai? - perguntei, em tom lamuriento.

Ele sacudiu a cabea. Passeou os olhos pelo estdio e franziu os olhos. De repente, esboou um pequeno sorriso.

O que , pai? Porque sorris?

-Parece que ainda foi ontem - retorquiu. O qu?

-Que a Gissele e eu viemos visitar a tua me. A Ruby trouxe-me aqui acima. Apercebemo-nos do muito que ainda nos amvamos e planemos encontrar-nos em Nova Orlees.

- Se calhar ela voltou para Nova Orlees, pai. Talvez s pretendesse regressar  cabana para ali deixar a fotografia do Jean - alvitrei.

o meu pai anuiu, com esperana renovada.

-  possvel. Iremos  procura de um telefone e ligaremos para a tia Jeanne.  a nica coisa que penso valer a pena fazer aqui,

Samos e descemos as escadas juntos. Ao fundo destas tnhamos dois homens  nossa espera. Reconheci um deles como sendo o jovem que me olhara com tanta intensidade 
no restaurante, o outro era muito mais velho, corpulento, com olhos escuros e bochechas infladas e vermelhas. A ponta do queixo tambm era da mesma cor. Envergava 
fato-macaco e suspensrios. Ambos usavam capacetes brancos; no entanto, o mais novo atirara-o para trs da nuca, fazendo-o pender para a esquerda,  maneira dos 
cowboys.

-Quem diabo so vocs? - perguntou o mais velho.
- Eu sou o Beau Andreas e esta  a Pearl, minha filha respondeu o meu pai imediatamente.

- Pearl! - exclamou o mais jovem. -  o nmero vinte e dois.

- Como?

- Ele refere-se ao poo de petrleo nmero vinte e dois. A menina  a proprietria? - perguntou-me. - Pearl Andreas?
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Precisamente respondi.

O jovem assobiou e ficou a olhar para mim. Era um pouco mais alto que o colega e usava o cabelo suficientemente comprido para tapar as orelhas e a nuca. Naquele 
momento via-se-lhe um brilho malicioso nos olhos escuros e um pequeno sorriso cerrado nos lbios. Apesar de ser encorpado, de ombros largos e braos musculosos, 
havia uma brandura no seu rosto, uma suavidade nas suas feies que me punha  vontade.

- Bem, esta casa pertence  famlia Tate disse o homem mais velho. Ningum me avisou de que viria c gente hoje. No quisemos assustar-vos, mas o certo  que lhes 
fazemos o favor de dar uma olhada nisto.

Compreendo disse o meu pai. Pensmos que a minha mulher pudesse ter vindo para aqui.

- A sua mulher? exclamou o homem mais velho, olhando para o mais novo, que encolheu os ombros. S vimos vocs os dois. No  verdade, Jack?

Ningum confirmou o mais jovem.

Precisamos de um telefone declarou o meu pai. Onde poderemos encontrar um perto?

Pode vir at ao atrelado e utilizar o nosso. Eu chamo-me Bart. Sou o capataz.

Estendeu a mo, que o meu pai apertou.

- Este aqui  o Jack Clovis.  quem toma conta do nmero vinte e dois.

O meu pai tambm lhe apertou a mo, mas o jovem voltou-se para mim.

Ainda bem que conheo finalmente a dona observou Jack, dirigindo-me um aceno de cabea. Viva.

Estendeu-me a mo, que eu apertei rapidamente.

Viva retribu.

Apertmos a mo um ao outro. Senti a minha mo minscula perder-se no meio daqueles dedos fortes e da palma grossa.

O poo continua a produzir muito bem informou Jack.

Nem sequer sei qual .

A srio? admirou-se Jack, voltando-se para Bart

Para que precisa ela de saber qual deles ? Basta-lhe estar informada do stio onde pem o dinheiro.

Quando Jack voltou a fitar-me, pareceu-me ler desiluso nos seus olhos.

Gostaria de saber apressei-me a dizer. Jack sorriu efusivamente.

Terei muito gosto em lho mostrar ofereceu-se.

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Olhei para o meu pai, que parecia surpreendido com o meu sbito interesse. A seguir fitei novamente Jack Clovis e sorri.

No quero incomodar ningum declarei.

No ser incmodo nenhum apressou-se Jack a garantir.

Bart riu.

H meses que o Jack anda  espera que aparea algum para falar do seu poo.

O poo pertence a Miss Andreas rectificou Jack.

No a julgar pela maneira como te gabas dele retorquiu Bart.

Jack, apesar de muito moreno, corou visivelmente.

Adoraria v-lo afirmei. Jack endireitou os ombros.

 para j, miss declarou.

Depois irei l buscar-te disse-me o meu pai.

Saiu da casa na companhia de Bart e eu fui com Jack, que me apontou as plataformas.

O seu  o quarto a contar da esquerda informou-me. Percebe alguma coisa de petrleo?

Apenas que vem dentro de latas respondi, fazendo-o rir to alto que receei que partisse uma costela.

No vem em nenhuma lata, miss.

Trate-me por Pearl.

Est bem, Pearl. O petrleo comea por ser crude e est a grande profundidade no solo. Leva vrios milhes de anos a formar-se disse num tom quase mstico e profundo. 
Sabe de que  feito, no  verdade?

Disse que no com a cabea. Parecia que, enquanto eu estivesse disposta a ouvir falar de petrleo, Jack Clovis estaria disposto a informar-me acerca dele.

De residuos de plantas e de animais que ficaram enterrados debaixo de rochas sedimentares. Por a j v observou, sorrindo, quanto tempo no tem ainda de passar 
at ir para dentro da lata.

Todos aqueles poos tm petrleo? perguntei.

Todos aqueles que v alm so chamados poos em desenvolvimento porque estamos num campo petrolfero conhecido prosseguiu Jack. Ainda assim, alguns secaram. Chamamos-lhes 
"espanadores". Ali tem um disse, apontando para um que estava imvel. Depois de bombearmos o petrleo continuou, metemo-lo dentro de um tanque de metal chamado separador, 
onde  reduzido aos trs elementos que o compem: petrleo, gs natural e gua. Depois  guardado

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naqueles tanques, antes de ser despachado por navio, para as refinarias, onde o transformam no produto que compra.

H quanto tempo est neste trabalho? perguntei.

Desde os doze anos. Vive em Nova Orlees, no  verdade?

Exacto.

Ouvimos falar de si e da sua famlia, mas ningum sabia ao certo aventou, desviando o olhar rapidamente.

Ouviram falar o qu? quis saber.

Que a Pearl em tempos viveu aqui com uma mulher que no era sua me e com Mister Tate, que no era seu pai, e que agora vivia numa manso abastada, no sei aonde, 
em que no fazia nenhum e vivia s do seu dinheiro replicou.

Em primeiro lugar principiei, aquela mulher era a minha me.

Ah. Bem, aqui passam a vida a inventar coisas.

Em segundo lugar, ns no nos limitamos a viver do nosso dinheiro. Essa imagem nada tem a ver connosco elucidei friamente.

No quis ofender. A Pearl perguntou, eu respondi observou ele com ligeireza.

O meu pai trabalha arduamente, a minha me  pintora e eu estou prestes a entrar para a faculdade de Medicina.

Vai para mdica? Caramba! assobiou. Bem, aqui tem o seu poo disse, enquanto eu me limitava a olhar. Tem a certeza de que no sabia mesmo onde ficava?

Vivi naquela casa era eu muito pequena expliquei, indicando a manso com a cabea. Alm disso, toda esta maquinaria me metia medo. Pareciam-se demasiado com monstros 
mecnicos. Se algum me levava para perto deles, punha-me a gritar.

Jack anuiu com expresso sria e pensativa.

No me custa imaginar que uma criana olhe para estas coisas e pense que so assim... uma espcie de criaturas ms Para mim, esto vivas disse.

Como se fossem abelhas a sugar o solo, no?

No exactamente disse Jack, rindo. Era essa a ideia que tinha?

Uma delas, em pesadelos.

Oh, lamento. Na verdade  um trabalho muito interessante e sinto-me sempre fascinado pela ideia de que estamos a furar at ao fundo da terra para trazermos para 
a superfcie algo que se formou h tanto tempo, ainda antes de os seres humanos existirem.

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Vi que o seu fascnio era sincero.

Claro que acrescentou Jack, baixando a voz, com os meus colegas, no falo do trabalho assim.

Sorri.

Apresenta algum perigo? perguntei-lhe.

Se houver uma exploso, no queira estar perto de um poo.

Exploso?

Se uma bolsa de ar de alta presso se introduz no poo, hum! disse ele, abrindo os braos.

Oh exclamei, retrocedendo.

No tenha medo. O seu poo  experiente e verdadeiro, e to doce como... como o ar que a Pearl tem confessou.

Foi a minha vez de corar.

Agora vejamos continuou Jack, por que razo andava  procura da sua me na casa velha? Tanto quanto sei, j ningum a utiliza.

Pensmos que ela tivesse vindo para c respondi, com o queixo trmulo.

H algum problema? perguntou. No quero mostrar-me intrometido, mas se puder ajudar nalguma coisa... Sei que parece uma tolice, mas, depois de olhar pelo seu poo 
durante todo este tempo, tenho a impresso de que j a conheo.

Limpei as lgrimas que tinham insistido em sair dos meus olhos com a palma da mo e respirei fundo.

Um dos meus irmos gmeos foi mordido por uma serpente venenosa e morreu. A minha me ainda continua muito perturbada disse. Fugiu.

Lamento.  terrvel. Mas porque viria para aqui?

Cresceu no Hayou e, como j disse, viveu, em tempos, na manso. No sei o que procura ou o que espera fazer, mas sabemos que est algures por aqui. Anda muito confusa. 
Poderia ter ido para qualquer lado. Estamos muito preocupados com ela.

No a vimos, mas ficarei atento.

Abri a minha bolsa e tirei da carteira uma fotografia da minha me comigo, que lhe entreguei.

 ela disse-lhe.

Linda senhora. A Pearl  muito parecida com ela.

Se a vir,  capaz de me telefonar?

Claro. D-me o seu nmero de telefone.

Tirou um lpis do bolso e assentou o meu nmero de telefone na palma da mo.

Depois copio-o para um bocado de papel garantiu-me,

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sorrindo. Ou ento nunca mais lavo a mo e ele fica aqui para sempre. Sorriu suavemente.

Ei, Jack chamou um dos operrios. O que andas a fazer? Agora acompanhas visitas particulares?

A seguir  pergunta soltou uma gargalhada, e Jack olhou para ele, furioso.

No devia estar a desvi-lo do seu trabalho desculpei-me eu, recuando e voltando-me para a casa.

Oh, nada disso. No tem a menor importncia. Estou na minha hora de descanso. Estes tipos so uns brincalhes, mas grupo melhor no h.  malta muito solidria e 
unida.

Inicimos o caminho de volta.

O seu pai ainda trabalha? perguntei a Jack.

No, reformou-se mas continua a viver no Hayou. Passa o tempo na sua piroga, a pescar. S fui a Nova Orlees duas vezes contou-me. Uma vez, tinha ento doze anos, 
a outra, quando fiz vinte e um, h cinco anos atrs. Toda a minha famlia foi: eu, os meus pais e as minhas duas irms. No h dvida de que a vida da cidade  diferente. 
H muita confuso e  preciso esticar o pescoo para ver o Sol e as estrelas.

Ri-me.

Onde ns vivemos no  assim to mau.

Moram numa casa to grande como esta?

No, mas tambm  espaosa admiti.

O meu pai diz que as pessoas que vivem nas cidades gostam de casas grandes porque preferem estar quase todo o tempo dentro delas, em vez de andarem nas ruas, que 
so sujas.

Ri-me de novo.

Temos belos jardins. A zona chama-se Garden District e no se leva propriamente uma vida de cidade.

Ainda bem, mas eu continuaria a sentir a falta dos cus abertos, dos animais, de toda esta natureza afirmou Jack.

Isto aqui  lindo reconheci. Sei que a minha me sentia sempre muitas saudades.

Jack deteve-se e colocou a mo a fazer de pala sobre os olhos, protegendo-os do sol.

Parece que o seu pai est a acenar-lhe disse, apontando.

Olhei na direco indicada e vi o meu pai no atrelado. Parecia perturbado. Talvez tivesse tido alguma notcia da minha me, pensei, apressando-me a chegar junto 
dele.

A Jeanne nunca mais soube dela comunicou-me. No podemos ficar aqui e continuar  procura dela. Telefonei para casa.

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E...?

- O Pierre piorou. A mdica quer voltar a transferi-lo imediatamente para o hospital.

Oh, pai.

Abramo-nos. Reparei que Jack se deixava ficar ligeiramente afastado, de capacete na mo, a observar-nos.

Lamento muito que esteja com esses problemas disse-me quando me fui despedir dele.

O meu outro irmo suportou muito mal a perda do seu gmeo. Est em estado catatnico e no come nem bebe.

E como se isso no bastasse, est com esse problema com a sua me. Quem me dera poder fazer mais.

Esteja atento e veja se ela aparece sussurrei.

Prometo assegurou-me. Adeus.

Entrei para o carro, onde o meu pai j se encontrava. Ele deixou-se ficar imvel por momentos, a olhar para a manso.

A Jeanne tem razo. Faz lembrar uma tumba gigantesca murmurou. Deviam arranj-la ou deit-la abaixo declarou, irado.

Em seguida, ligou o motor e arrancou. Ao afastarmo-nos pela auto-estrada, olhei para trs e vi Jack Clovis parado no mesmo lugar, a ver-nos partir.

Ao longe, para a esquerda, o meu poo de petrleo bombeava como se possusse corao prprio. Pela primeira vez, pensei nos poos de petrleo sem os considerar parecidos 
com monstros. Talvez dali em diante o meu pesadelo acabasse.

Estaria algum outro  espera para tomar o seu lugar?


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UMA VELA AO VENTO

O meu pai levou todo o caminho de volta a Nova Orlees a murmurar de si para si, vogando no meio da esperana. s vezes mais parecia que rezava.

Talvez ela tenha voltado. Se calhar veio aqui para colocar aquela fotografia na cabana... Um dos seus rituais, no ? Quero dizer, nunca se sabe se no passmos 
por ela quando amos a caminho de Houma.  possvel. E se ela chegou a casa antes de ns e se inteirou do estado do filho, pode ter ido com ele para o hospital. 
H essa possibilidade, o que ter ajudado o garoto a sair do seu transe, no  verdade?

Sim, pai respondi, mal ele fez uma pausa para respirar.

Conduzia to depressa que o meu corao matraqueava como um comboio. Parecia fixar-se nos seus pensamentos, no na estrada que se estendia pela frente, o que me 
deixava preocupada.

Ningum a viu por aqui, de modo que, tanto quanto sabemos, ela s foi at  cabana. E tambm j l no estava quando chegmos. Certo? Onde teria ido? Certamente 
no aos Tate. S lhe restava voltar para casa. Sim,  isso, est em casa. Libertou-se desta loucura mesmo a tempo. Agora poderemos ajudar o Pierre, no , Pearl?

Claro que sim, pai. No achas que estamos a ir um pouco depressa de mais?

Que dizes? Olhou para mim e depois para o conta-quilmetros. Oh, no tinha reparado. Espreitou pelo retrovisor. Tivemos sorte em no apanhar uma multa.

Queres que eu guie, pai?

No, estou ptimo. Prestarei mais ateno. Baixou os ombros e descontraiu-se. Deixarem aquela manso magnfica a apodrecer no meio dos pntanos  um horror, no 
achas? Terrvel. Lembraste-te de muita coisa?

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No respondi.

A minha me dissera-me certa vez que o meu pai gostaria de que eu me esquecesse de que, em tempos, vivera ali. Guardava muito poucas fotografias nossas tiradas em 
Cypress Woods e mesmo essas encontravam-se no fundo das gavetas.

Bem, os poos de petrleo continuam a funcionar, tornando os Tate cada vez mais ricos. Antes disso, j eram abastados. Infelizmente, o dinheiro no discrimina acrescentou 
com amargura. No consigo imaginar como estar a Gladys Tate. Mas aqueles poos de petrleo so uma maravilha, no achas? Consta que esto sempre a jorrar.

Ele foi muito simptico observei.

Ele, quem? Ah, sim concordou o meu pai, sorrindo. Que tal achaste o teu poo? A Gladys Tate deve ter-se rodo toda por no conseguir impedir que recebesses o teu 
rendimento.

Pareceu-me igual aos outros. No entanto, o Jack explicou-me muitos aspectos relacionados com ele.

O meu pai sorriu.

Estava a engraxar a patroa, no? No o posso culpar, sobretudo quando a patroa  bonita como tu.

Ele no estava a engraxar-me, pai, foi apenas delicado e elucidativo insurgi-me.

Virei rapidamente a cara, no fosse o meu pai reparar que corara.

Os bonitos olhos de Jack faiscaram diante de mim, assim como o seu sorriso suave. Nunca conhecera nenhum jovem que irradiasse to grande sensao de fora e, no 
entanto, mostrasse tanta sensibilidade e compreenso. Sentira-me segura e confortvel ao seu lado. Trabalhava com as mos e os msculos; porm, o seu amor pelo trabalho 
possua algo de potico.

Tens de ter cuidado com as pessoas que conheces. Pearl advertiu-me o meu pai, compondo uma expresso sria. Assim que algum homem tomar conhecimento da tua riqueza, 
o seu interesse aumentar, mas o problema  que esse poder no ser o tipo de sentimento que desejas despertar. Compreendes o que estou a tentar dizer? Sei que no 
sou to eficaz nisto como a tua me.

Compreendo, pai.

Estou convencido que sim. No me ds preocupaes, de facto, no ds.

Voltou a calar-se e a certa altura retomou o seu solilquio.

Ela tem de estar em casa. Nesta altura j deve ter cado em si. Adora demasiado a famlia para continuar afastada.

 medida que nos aproximvamos de Nova Orlees, as

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nuvens iam fechando os espaos de azul entre elas, at restar apenas uma luminosa camada cinzenta por cima das nossas cabeas, amos a atravessar a ponte quando 
as primeiras gotas caram no pra-brisas. O vento tambm ganhara velocidade. As pessoas perdiam os guarda-chuvas e corriam por todo o lado  procura de abrigo. A 
chuvada principiou ainda no chegramos ao Garden District e tornou-se to pesada que os limpa-vidros no conseguiam manter a visibilidade.

Raios partam isto! queixou-se o meu pai.

Viu-se obrigado a encostar durante algum tempo. A chuva caa a rodos por cima de ns, martelando contra o tejadilho e as janelas.

No entanto, no era mais do que uma das habituais chuvadas rpidas de Vero, e o meu pai no tardou a retomar o caminho para casa. Quando chegmos  nossa entrada, 
o sol j furara o fino vu de nuvens passageiras e fazia incidir raios de esperana sobre as nossas camlias e magnlias. Os passeios de seixos rolados brilhavam. 
Era como se a Me Natureza tivesse lavado a tristeza que manchara as nossas paredes e jardins.

O meu pai quase saltou para fora do carro ainda este mal parara. No consegui acompanhar a sua velocidade. Galgou os degraus dois a dois, at chegar  porta da frente. 
Aubrey estava no corredor a falar com uma das criadas e voltou-se, surpreendido, ao ver o meu pai irromper casa dentro. Apressei-me a chegar junto dele.

Monsieur Andreas cumprimentou Aubrey, aproximando-se.

A minha mulher j voltou? perguntou o meu pai sem demora.

No, momsieur respondeu, sacudindo a cabea com ar acabrunhado, olhando primeiro para mim e depois para a empregada, que retomou o trabalho afanosamente.

Telefonou? Algum lhe falou do Pierre? perguntou o meu pai, abanando a cabea afirmativamente,  espera de um sim. Aubrey, no entanto, voltou a desiludi-lo.

Tanto quanto sei, no, monsieur.

Onde est Mistress Hockingheimer? indagou o meu pai, olhando para o cimo da escada.

Foi para o hospital com o menino Pierre, monsieur. A ambulncia levou-os aos dois.

Ambulncia? repetiu o meu pai, soltando um pequeno gemido.

A seguir, voltou-se para mim. Ao ver aqueles olhos tristes e patticos que deixavam transparecer o seu sofrimento, senti-me mirrar por dentro.

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Onde est ela? Onde poder ter ido? gritou, voltando-se de novo para o mordomo.

Aubrey ficou a olhar, sem saber ao certo o que devia dizer ou fazer.

Pai chamei, puxando-lhe pela manga do casaco. Pai.

O que ? Ah, sim,  melhor irmos directamente para o hospital. Se tiver noticias de Madame Andreas ligue para mim. Telefone-me imediatamente.

Com certeza, monsieur.

Samos porta fora e descemos os degraus.

Talvez ela j tenha ligado para a mdica e ido directamente para o hospital alvitrou, exprimindo o seu desejo em voz alta.

O meu silncio trouxe-o de volta  realidade.

No tardou que chegssemos ao parque de estacionamento do hospital. Quando o meu pai perguntou para onde Pierre fora levado, a voluntria de servio  recepo foi 
demasiado lenta na sua resposta. O meu pai pressionou-a.

Sim, sim disse a senhora ao encontrar, finalmente, a ficha de Pierre. Acabou de dar entrada. Encontra-se na UCI.

Nos cuidados intensivos? admirou-se o meu pai, fazendo uma careta.

Provavelmente  s por precauo, pai tranquilizei-o, como se rezasse uma orao.

O meu pai respirou fundo e corremos os dois para o elevador. Quando chegmos  sala de espera dos cuidados intensivos, Mrs. Hockingheimer apressou-se a vir cumprimentar-nos.

Oh, monsieur exclamou, ainda bem que chegaram. O meu pai susteve a respirao, mal podendo conter as palavras.

O que se passa? O que aconteceu ao Pierre, Mistress Hockingheimer? perguntei ansiosamente.

Mergulhou num coma mais profundo. A psiquiatra est preocupada, diz que o Pierre sofreu uma recaida grave.

Recada? repetiu o meu pai. Voltou ao estado em que estava?

Ainda est pior do que antes respondeu a enfermeira, comeando a chorar.

O rosto do meu pai ficou cinzento. Eu senti o meu corao parar e recomear a bater. O pnico pregou-me os ps ao cho. Sentia as pernas to inertes que no acreditei 
ser capaz de as mover.

Onde est a doutora LeFevre? perguntou o meu pai.

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L dentro, junto do Pierre respondeu Mrs. Hockingheimer. H bocado veio c fora e acabou de entrar acompanhada por outro mdico. Um urologista.

Tentei engolir mas no fui capaz. Os ombros do meu pai descaram. Embora me sentisse verdadeiramente mal, arranjei coragem para falar.

Vamos ter com a mdica, pai.

Dirigimo-nos os dois para a UCI, aterrorizados com o que nos esperava. Ainda no chegramos quando a porta se abriu e a Dra. LeFevre apareceu. Olhou para ns com 
um olhar repleto de confuso e descrena.

O que aconteceu ao meu filho? perguntou o meu pai em voz tnue.

Tenho um especialista a examin-lo, Monsieur Andreas. Est com insuficincia renal.

O que quer isso dizer? perguntou o meu pai, olhando primeiro para mim.

Eu sabia que ele compreendera; porm, estava to nervoso e exaltado que no conseguia pensar.

So os rins, pai disse-lhe.

Os rins dele no esto a filtrar as impurezas, monsieur. Pararam de funcionar.

Porqu? Como  que uma coisa dessas pode acontecer?

J assisti a este processo em doentes que passaram por um coma prolongado, muito mais grave do que o do Pierre. mas relativamente ao seu estado, que pensvamos estar 
a melhorar, deu uma volta sbita para pior e ele mergulhou ainda mais profundamente dentro de si mesmo. Em termos psicolgicos, monsieur acrescentou, depois de uma 
pausa prolongada, o seu filho est a tentar voltar para junto do irmo gmeo.

Voltar... Mas... o Jean est morto balbuciou o meu pai em voz baixa.

Eu sei, monsieur. E o Pierre tambm o sabe.

Nesse caso ele est a...

A querer morrer confirmou a mdica.

As suas palavras soaram como troves sobre ns. O meu pai ficou a olhar para ela, incapaz de acreditar no que ouvira.

Mas como  que uma pessoa... Certamente isso no  possvel, pois no, doutora? perguntou o meu pai.

A mente  muito mais poderosa do que possamos crer, monsieur. As pessoas desenvolvem doenas psicossomticas. Algumas no conseguem ver, apesar de no terem nenhum 
problema fisiolgico nos olhos, outras ficam incapacitadas de andar, embora tenham as pernas ss.

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Fez uma pausa e olhou para trs de ns.

Desculpe, Monsieur Andreas, mas onde est a sua esposa? A me do menino?

O meu pai sacudiu a cabea, com as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto.

A minha me fugiu, doutora respondi eu. Abandonou a nossa casa e enviou-nos uma carta. Culpa-se pelo que aconteceu. Pensmos que regressara ao Hayou e fomos  sua 
procura. Encontrmos indcios de que esteve l. No entanto, no a encontrmos e, assim que soubemos do que acontecera ao Pierre, regressmos imediatamente.

Compreendo. Bem, no posso saber ao certo, mas penso que o menino acha que a me o responsabiliza pela morte do irmo. Que se culpa a si mesmo j eu sei, mas agora 
que a me desapareceu quando ele precisa dela... Bem, as coisas ficam muito mais complicadas como pode ver, monsieur.

Sim, sim, estou a perceber. Que poderemos fazer?

Antes de mais nada, vejamos que tipo de tratamento o doutor Lasky recomenda respondeu a mdica, na altura em que um indivduo baixo e careca saa da UCI.

Vinha de fato e gravata e parecia-me mais um banqueiro do que um mdico. Possua feies midas e olhinhos pequenos e redondos como contas.

Estes so o pai e a irm do rapaz, doutor apresentou a Dra. LeFevre.  o doutor Lasky.

Prazer em conhec-lo, monsieur. Receio que o seu filho esteja muito doente disse o mdico sem mais prembulos. Produziu menos de cinquenta mililitros de urina nas 
ltimas vinte e quatro horas, segundo a vossa enfermeira. Trata-se de um problema de anria, o que origina um acumular excessivo de toxinas no organismo. Como j 
expliquei  doutora LeFevre, o menino sofre de grave insuficincia renal, habitualmente derivada de um traumatismo srio ou de alguma outra doena subjacente. Depois 
de me dar a conhecer os problemas psicolgicos, concordo em absoluto com o seu diagnstico.

Que poderemos fazer? perguntou o meu pai rapidamente.

Bem, enquanto a causa subjacente no  resolvida, preocupemo-nos com o tratamento fsico. Receitei um diurtico, mas, se no houver uma alterao rpida, devemos 
ter de recorrer  dilise. Esperemos para ver. Talvez isto resolva,

Podemos v-lo? perguntei.

- Com certeza respondeu o mdico.

Ele ir ficar bom? perguntou o meu pai.

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A maioria das pessoas que sofre de insuficincia renal aguda acaba por recuperar totalmente. No entanto, este caso difere dos habituais devido s implicaes psicolgicas, 
monsieur. Receio no poder fazer uma previso exacta.

E isso significa o qu? inquiriu o meu pai.

Se ele continuar a no reagir e no produzir e excretar urina, ser submetido a dilise. Mas se a sua mente  capaz de desactivar um rgo...

Com certeza acabar por sair do coma... balbuciou o meu pai  Dra. LeFevre, que no lhe respondeu. H-de sair dele. No achas, Pearl?

Claro que sim, pai respondi, to sufocada que mal consegui pronunciar as palavras. Vamos v-lo.

Isso mesmo concordou o meu pai, dirigindo-se para a UCI comigo, recusando-se a enfrentar as possibilidades lgubres que os dois mdicos tinham descrito. Todavia, 
a Dra. LeFevre agarrou-lhe no pulso e f-lo parar.

Se a sua esposa regressasse o mais depressa possvel, ajudaria, monsieur disse-lhe.

O meu pai anuiu. Quando voltou a aproximar-se de mim, parecia ter envelhecido vinte anos num minuto. Entrmos na UCI e dirigimo-nos para Pierre. O soro gotejava-lhe 
lentamente para dentro da veia. Tinha os olhos fechados, a pele cor de cera e os lbios to plidos que quase pareciam brancos. Reparei que o seu peito mal se movia 
sob o lenol puxado at ao queixo.

O meu pai reprimiu um gemido e pegou na mo do filho.

Ei, rapaz disse, j voltmos. Estamos junto de ti. Pierre. A Pearl est aqui ao meu lado. V, Pierre, abre os olhos e olha para ns.

Esfregou suavemente a mo ao filho, mas este parecia uma muralha inamovvel e insensvel; nem sequer piscou os olhos.

Porque  que isto est a acontecer connosco? gemeu o meu pai, atirando a cabea para trs. Talvez a Ruby tenha razo e se trate de alguma espcie de maldio que 
caiu sobre ns. Um horror atrs de outro, levando-nos  submisso, destruindo-nos por nos atrevermos a ser felizes.

No deves pensar assim, pai. No podes perder a esperana. Quanto mais no seja, pelo Pierre. Ele precisa que sejamos fortes.

O meu pai concordou, embora sem convico. Olhou para Pierre, vendo o elevar tnue que a respirao imprimia ao seu peito e depois baixou a cabea, suspirando. Por 
fim ergueu os olhos acabrunhados, que uma sombra de melancolia escurecia ainda mais.

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- Vou tomar um caf, - disse. Daqui a pouco estarei de volta. Queres alguma coisa?

No, obrigada, pai. Vai.

Levantou-se e saiu, com os ombros descados como se o ar por cima dele pesasse toneladas. Voltei-me para Pierre e peguei-lhe na mo.

Pierre principiei. Precisamos muitssimo de ti. A me acha que  culpada pelo que aconteceu e fugiu, e s voltar se tu comeares a melhorar. Por favor, ajuda-nos 
implorei. Luta contra essa vontade de ficares a dormir para sempre. Volta para ns, para a me. Pensa no estado em que ela ficar com esta situao. Por favor, Pierre 
repeti, com as lgrimas a correr.

Sentia o corao pesado como chumbo. Fiquei ali sentada, agarrada  mo dele, chorando.

Se ao menos a nossa me entrasse por aquela porta agora, pensei. Porque no lhe diriam os espritos que lhe segredavam ao ouvido que era imperioso voltar? A no 
ser, evidentemente, que fossem espritos maus.

O grito de dor que uma outra paciente, no outro lado da sala, soltou trouxe-me violentamente  realidade. No fazia ideia de h quanto tempo ali estava sentada, 
a rezar e a divagar.

Desculpe, minha querida, mas temos de limitar ao mximo as visitas nos cuidados intensivos disse-me uma enfermeira que se aproximara. Se quiser, daqui a uma hora 
pode voltar c com o seu pai.

Assenti com a cabea e olhei de novo para Pierre; quando estava prestes a levantar-me e a largar-lhe a mo, senti que o seu indicador se movia. Foi como um choque 
elctrico pelo brao acima.

Ele mexeu-se! exclamei.

Como? perguntou a enfermeira, olhando para Pierre, cujos olhos continuavam fechados.

O dedo. Mexeu-o ainda eu no lhe tinha largado a mo.

Talvez seja apenas um reflexo nervoso alvitrou a enfermeira.

No, no, ele est a querer comunicar, a querer voltar. Por favor, deixe-me ficar.

Mas...

Por favor, s mais um pouco. Preciso de continuar a falar com ele!

Tenho de lhe pedir que baixe a voz murmurou a enfermeira. Esto aqui outros doentes, todos em estado crtico.

Desculpe.

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As regras das visitas aqui mandam que estas no ultrapassem os cinco, dez minutos de hora a hora para os familiares chegados repetiu com montono autoritarismo.

V chamar a mdica pedi, voltando-me para ela. No tenho a menor dvida de que senti o dedo do meu irmo a mexer e no foi nenhum reflexo nervoso.

Mas...

V cham-la! insisti.

A mulher reparou na determinao do meu olhar e mordeu o lbio inferior, furiosa. Deu meia volta e voltou para o balco das enfermeiras. Sentei-me e recomecei imediatamente 
a falar com Pierre.

Tenho a certeza de que podes voltar para junto de ns. Pierre. Sei que no queres ficar neste hospital horrvel e junto desta gente antiptica mais do que o necessrio. 
Escuta. Ns precisamos de ti. Quero que acordes, para a me poder voltar para casa. Se abrires os olhos, prometo-te que, assim que sairmos daqui, tentarei encontr-la. 
Peo-te que me faas a vontade, Pierre. O Jean tambm quer que tu ajudes a me, tenho a certeza.

Levantei-me e inclinei-me sobre a cama para lhe afastar as madeixas da testa, como a nossa me costumava fazer. Depois aproximei os lbios do seu ouvido e cantarolei-lhe, 
baixinho, a velha cano de embalar cajun que a nossa me tantas vezes cantara a ele e a Jean quando eram pequenos. Ainda no terminara quando ouvi passos atrs 
de mim.

Mademoiselle,

Voltei-me e deparei com o Dr. Lasky.

Ter de obedecer s regras do hospital. Sei que trabalhou c como auxiliar de enfermagem, portanto devia saber como  importante que ns todos...

O Pierre moveu um dedo, doutor. Eu senti. Se puder ficar mais um pouco junto dele...

Temos de deixar que as enfermeiras faam o seu trabalho e...

Senti os dedos de Pierre mexerem de novo e soltei uma exclamao. Quando me virei para ele, as suas plpebras tremularam.

Pierre chamei. Mostra-lhes. Mostra-lhes. Pestanejou com mais fora e, como olhos que tivessem estado fechados h sculos, abriu-os lentamente.

V chamar a doutora LeFevre ordenou o mdico  enfermeira, que se afastou apressadamente.

Continuei a afagar a mo a Pierre, incentivando-o.

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Anda, Pierre. Isso mesmo. Tenta. Volta para ns. O menino manteve os olhos abertos.

 muito bom sinal murmurou o Dr. Lasky atrs de mim.

Ol, Pierre cumprimentou. Sentes-te melhor? Queres voltar depressa para casa, no ?

Pierre virou, lentamente, a cabea para ele. Vi os seus lbios moverem-se e aproximei o meu ouvido deles. Expeliu ar suficiente para se fazer ouvir num sussurro.

Vai buscar a me pediu. Tr-la para casa.

Oh, sim, Pierre. Podes ter a certeza. Abracei-o. Ele falou comigo, doutor!

Excelente declarou o Dr. Lasky, virando-se para receber a Dra. LeFevre, que se precipitava na nossa direco. Afastei-me, enquanto os dois examinavam Pierre, e depois 
resolvi sair para ir buscar o meu pai. Encontrei-o na cafetaria, inclinado sobre uma chvena de caf. Ao dar-lhe a nova, os olhos voltaram a brilhar-lhe e a pele 
recuperou um pouco mais de cor. Apressmo-nos a voltar para junto de Pierre.

Mais tarde, j c fora, no corredor, tendo o meu pai e o Dr. Lasky ao meu lado, a Dra. LeFevre pediu-me que repetisse o que dissera e fizera para obter aquela reaco 
de Pierre. Foi acenando com a cabea, enquanto escutava.

Tem de conseguir que a sua me volte para casa rapidamente disse-me. Se assim no for, ele poder ter nova recada e receio que, em cada vez que isso acontecer, 
mergulhe mais fundo dentro dele mesmo, at se tornar impossvel recuper-lo. Compreende?

Sem dvida respondi, olhando para o meu pai, que se limitava a acenar com a cabea, com uma expresso aterrorizada no olhar.

Tudo indica que, graas  aco do diurtico, pelo menos afastmos o perigo de paragem renal imediata explicou o Dr. Lasky. No entanto, o que j aconteceu pode repetir-se.

Nenhum dos mdicos queria dar-nos falsas esperanas. As suas palavras, embora realistas, eram aguadas como dardos.

O meu pai e eu voltmos para junto de Pierre a fim de lhe assegurarmos que iramos  procura da me e a traramos para o ver o mais depressa possvel. Ele escutou 
e depois fechou os olhos. Naquele momento estava apenas a dormir. O grande esforo que fizera para sair de dentro do tmulo que a sua mente estava a erguer em torno 
dele deixara-o exausto. Ficou a descansar confortavelmente.

E se a Ruby no voltar, Pearl? E se nunca mais regressar? perguntou o meu pai a caminho de casa, no carro.

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Ela voltar. No pode deixar de o fazer.

Porqu? No tem conhecimento do que se est a passar. No a encontramos, -nos impossvel fazer-lhe chegar algum recado. Sacudiu a cabea. Pobre Pierre, se ela no 
voltar

Vamos reflectir sobre o que havemos de fazer, pai. Daremos com ela garanti, apesar de, na altura, no ter a menor ideia dos passos a dar.

As palavras dos mdicos pairavam no ar como nuvens negras e ameaadoras, prontas a desencadear uma tempestade sobre ns. Pierre continuava  beira do esquecimento 
eterno e ns no sabamos o que fazer.

Quando chegmos a casa. a minha me no s no estava como tambm no havia nenhum telefonema dela ou de algum do Hayou. O meu pai ligou  tia Jeanne e explicou 
a situao. Ela prometeu mandar o mximo de pessoas que pudesse procur-la e fazer uma srie de telefonemas a pessoas da rea. Disse que tambm contactaria com a 
polcia local.

Se no recebermos nenhuma notcia esta noite ou amanh, devamos ir outra vez  procura dela. pai sugeri.

Ir  procura aonde? Fomos  cabana e a Cypress Woods No tenho ideia de onde mais ela possa estar. Aquela parte da sua vida  como se fosse uma fantasia para mim. 
Tanto quanto sei poder haver lugares e pessoas que ela nunca mencionou ou que, se o fez, j me esqueci. Sabes que todas as amigas da av j morreram. Que poderemos 
fazer...? Andar pelas estradas secundrias, procurar nos pntanos?

Seria melhor do que ficarmos aqui sentados sem fazer nada, no achas?

No sei, Pearl. Sacudiu a cabea. No sei. E se no caminho para l nos perdemos numa estrada qualquer e ela telefonar para aqui? No, s nos resta esperar.

Nem o meu pai nem eu estvamos com muito apetite para o jantar; no entanto, sentmo-nos  mesa a petiscar qualquer coisa. Todos os empregados andavam calados e com 
expresso preocupada. Na casa reinava uma atmosfera fnebre. Ningum fechava uma porta com fora, todos atravessavam os corredores na ponta dos ps e falavam em 
sussurros. No se ouvia msica, rdio, televiso, apenas o tiquetaque constante do relgio de p. seguido do seu toque surdo e reverberante a anunciar a passagem 
do tempo, o fluir dos minutos sem a menor notcia da minha me. Quando eu e o meu pai nos entreolhvamos, tnhamos o mesmo pensamento, para o qual nem eram precisas 
palavras: Pierre continuava  espera no hospital,  beira do precipcio que o engoliria e agrilhoaria para sempre  inconscincia, ao que

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se seguiria, inevitavelmente, a morte. Eu tinha a certeza de que o menino via na morte uma porta, do outro lado da qual Jean o aguardava.

Nem o meu pai nem eu sabamos o que fazer ou dizer quando voltssemos para junto da criana. Pierre abriria os olhos esperanosamente,  espera de ver a me ao nosso 
lado, para a seguir os fechar, quem sabe se para sempre. Sentamos ambos um medo terrvel de nos arriscarmos; no entanto, era doloroso abstermo-nos de o visitar. 
Quanto mais tempo ficssemos longe, maior seria o seu cepticismo.

O meu pai passou parte da noite no seu gabinete, a falar com amigos, a receber conselhos. Ningum sugeriu algo de diferente do que j tnhamos feito, assim como 
ningum era capaz de compreender por que razo a minha me fugira. Tambm era certo, no entanto, que muito poucos conheciam os seus antecedentes e as razes que 
a tinham levado a acreditar que fora ela a culpada pelos nossos males.

Quis ficar acordada o mais tempo possvel, no fosse o telefone tocar e a minha me dar notcias, e tambm para fazer companhia ao meu pai; porm, quando pousei 
a cabea no sof e fechei os olhos, o sono aprisionou-me to de repente que mais parecia que eu mergulhara numa espcie de coma.

S voltei  realidade quando o relgio de p anunciou as trs da manh. Sentei-me lentamente, esfreguei os olhos e escutei. A casa estava mortalmente silenciosa. 
As luzes dos corredores haviam sido apagadas. Fiquei admirada por o meu pai no me ter ido acordar para me mandar para a cama.

Afastei os ltimos vestgios de sono dos olhos e levantei-me para ir ver como o meu pai estava. Deixara o candeeiro da sua secretria aceso, mas ele no estava. 
Reparei que bebera um pouco, pois a garrafa de usque ficara aberta e via-se um copo parcialmente cheio. Pensando que fora para a cama, subi as escadas. Sentia as 
pernas pesadssimas, cada passo era um esforo. Ao chegar ao andar de cima, vi a porta do quarto do meu pai entreaberta e resolvi ir dar uma espreitadela.

A cama encontrava-se vazia, o candeeiro da mesinha-de-cabeceira aceso. A porta da casa de banho estava aberta; no entanto, no havia luz dentro desta.

Pai! chamei calmamente. Ests a?

Fiquei  escuta mas nada ouvi.

Fui ver se se encontrava nos outros quartos e, como no era o caso, desci de novo ao piso trreo. Os carros continuavam no seu lugar e na cozinha no se via ningum. 
Atravessei a casa e fui ao estdio da minha me. Como as luzes estavam apagadas,

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assustei-me, receando que o meu pai tivesse adormecido ou desmaiado no cho, ao lado da cama. Mas quando ia a voltar para trs, senti um cheiro a usque e detive-me, 
perscrutando no meio da escurido que enchia o estdio. Assim que os meus olhos se adaptaram  ausncia de luz, vi a sua silhueta desenhada no sof. Aproximei-me, 
lentamente, dele.

O meu pai encontrava-se deitado num sof, tendo apenas uma pequena toalha em volta da cintura. Parecia profundamente adormecido. Que estaria ele a fazer? Porque 
se fora deitar ali despido? Ainda pensei em acord-lo, mas depois resolvi deix-lo descansar. Quando ia a sair, ouvi-o chamar pela minha me.

Ruby, continua murmurou. Aproximei-me mais para ouvir.

No pares prosseguiu, tu s uma profissional. No devias ter dificuldade em me desenhar. Quero que o faas. Continua desafiou, rindo em seguida. Pronta? Arrancou 
a toalha dos quadris e atirou-a para as costas do sof. Desenha com paixo, minha querida. Desenha.

Pasmada, fiquei parada no mesmo stio, incapaz de me mover. Sabia que, se ele percebesse que no meio da escurido estava eu e no a minha me, ficaria terrivelmente 
embaraado. Um momento depois, pousou de novo a cabea sobre o sof e murmurou algo que no ouvi. Acalmou e eu sa silenciosamente do estdio, fechando a porta com 
cuidado e deixando o meu pai a rememorar um momento de intimidade que tivera com a minha me.

Perturbada mas exausta, regressei ao meu quarto, pousei a cabea em cima da almofada e adormeci logo a seguir, grata por no ser capaz de pensar mais.

Acordei sobressaltada. Debaixo da minha janela, um pombo selvagem entoava o seu canto triste e agoirento. O cu apresentava-se muito cinzento, impedindo a passagem 
dos sempre bem-vindos raios de sol quente e deixando o mundo envolto numa triste pelcula de penumbra lgubre. A chuva estava iminente. Olhei para o relgio e vi 
que dormira quase at s nove da manh. Ao lembrar-me do que acontecera na noite anterior, levantei-me rapidamente, lavei-me e vesti-me. Ao descer, encontrei o meu 
pai j levantado e no seu gabinete, ao telefone. Falava com a polcia de Houma. Detive-me  entrada, escutando.

Portanto, foram at  cabana e passaram minuciosamente revista aos arredores? perguntou, olhando para mim com ar desanimado. Compreendo. Sim. Ficamos muito gratos. 
Tem o nmero e, se houver algum gasto, faa favor... Quero dizer, se for preciso fazerem algum trabalho extra e no puderem custe-lo... claro. Obrigado, muito obrigado.

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Pousou o auscultador e recostou-se. Tinha o cabelo desgrenhado, o rosto por barbear e acinzentado e vestia a mesma roupa amarrotada da vspera. Calculei que, depois 
de acordar no estdio, se tivesse vestido e ido para o gabinete

Nada diss.e Nem sequer uma pegada. Se calhar foi engolida por um dos aligatores que vivem por trs da cabana

No digas semelhante coisa, pai'

O que queres tu que eu diga?

Telefonaste para o hospital?

Ainda no. Suspirou profundamente. O que havemos de fazer, Pearl!''

Ela voltar para casa ou ligar para ns. afirmei. Estou convencida disso, insisti, ao ver que o meu pai no reagia. Tomaste o pequeno-almoo?
S caf. No tenho vontade de comer. Mas vai tu, Toma alguma coisa. No vale a pena estarmos os dois a sofrer desta maneira, disse Daqui a vinte minutos ligo para 
a Jeanne. Vo ficar todos aborrecidos por irmos incomod-los.

Claro que no vo. Iro compreender.
Ser bom, pois eu j no compreendo nada observou com azedume

L estava ele, a afundar-se de novo na autocompaixo. Como a pacincia j estava a faltar-me, fui tomar o pequeno-almoo. Depois achei que devamos ir visitar Pierre

Eu no posso disse o meu pai No sou capaz de olhar para ele e continuar a prometer-lhe algo que no fao ideia se acontecer.

Mas no podemos deixar de ir, pai. A nossa presena , para j, tudo o que lhe resta. Temos de ir, insisti. Vem da.

Ficou com uma expresso mais alerta.

Est bem, aquiesceu

Depois de instruir Aubrey pormenorizadamente sobre a maneira de nos contactar no caso de algum telefonar a dar alguma informao, guiou relutantemente o automvel 
at ao hospital. Encontrmos a Dra LeFebre no corredor, mesmo em frente da UCI

Ainda no teve notcias da sua esposa, monsieur^ Perguntou a mdica ao ver que ramos, mais uma vez, s ns dois.

Receio bem que no respondeu o meu pai

Como est o Pierre, doutora' perguntei

Ora consciente, ora inconsciente. Sempre que emerge vem cheio de esperana em deparar com a me  sua cabeceira

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e, como no a v, volta a mergulhar no seu sono profundo. No tem ideia aonde ela possa estar? perguntou a mdica.

Imagino vagamente... O problema  que no h indcios dela em lado nenhum queixou-se o meu pai.

A Dra. LeFevre no disfarou o seu aborrecimento, o que s serviu para que o meu pai se sentisse ainda pior.

Estamos a fazer os possveis por encontr-la, doutora disse eu. Temos a Polcia e os amigos  procura.

Muito bem disse a mdica. Faremos o que pudermos acrescentou, dando a entender claramente que no bastaria.

Durante todo o tempo em que eu e o meu pai estivemos junto de Pierre, este no acordou. Nem sequer moveu os dedos quando lhe peguei na mo. Estava  espera de escutar 
a voz da me, no a nossa. A viso e o silncio do filho ps o meu pai fora de si. No conseguiu permanecer no quarto por mais tempo e saiu para o corredor, onde 
o encontrei a andar de um lado para o outro.

Vamos para casa decidiu. Talvez algum tenha telefonado.

Ningum o fizera. O dia pareceu nunca mais terminar. Cada hora caa como mais uma pedra pesada nos nossos coraes. O meu pai comeu qualquer coisa ao almoo mas, 
ao cair da tarde, comeou a beber. Quando a noite chegou, mergulhara j no seu estupor confortvel, enquanto eu ficava  espera do toque do telefone ou da campainha 
da porta. Porm, no houve novidades.

Foi ento que, quando eram quase nove da noite, o telefone tocou e Aubrey veio  sala de estar informar-me de que um tal Mr. Clovis queria falar comigo.

Clovis? admirei-me, inicialmente sem conseguir lembrar-me de quem era.

Disse que se chama Jack Clovis, mademoiselle.

Oh, o Jack exclamei, correndo para o telefone.

Desculpe ligar to tarde principiou ele.

No tem importncia. Jack. O que se passa?

No sei se tem algum significado, mas, quando estava de sada dos campos esta noite, vi luz numa das janelas da casa grande. Sabia que no podia ser o reflexo de 
uma estrela ou da Lua porque esta noite estamos com o cu todo coberto por estas bandas explicou. A mim pareceu-me uma vela.

Foi ver?

Fui, por causa do que me contou sobre a sua me. Fui at l e levei uma lanterna. Fiquei de ouvido  escuta, mas no

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ouvi ningum. No entanto, tenho a certeza de que era uma luz de vela. No a vi quando cheguei  casa, no a vejo agora mas algum andou a passear l dentro esta 
noite. Juro por tudo o que h de mais sagrado.

Reflecti por momentos. Era uma viagem de cerca de duas horas, mas aquela era a primeira vez que surgia um sinal de esperana.

Estaremos a daqui a duas horas afirmei.

A srio? No sei se ser boa ideia, Pearl. No encontrei nada. No posso afianar que tenha visto uma mulher. Detesto obrig-la a vir de carro at aqui a meio da 
noite.

 por uma boa razo, Jack. Vamos mesmo. Mas no vale a pena ficar a p.

Oh, no h problema. Vou-me estender um pouco no escritrio do atrelado. Se adormecer, bata  porta. Caramba, espero mesmo que no venha c em vo.

No se preocupe com isso assegurei-lhe.

Assim que desliguei, fui ter com o meu pai. Para meu desgosto, encontrei-o estendido em cima do sof do gabinete, com um dos braos a pender para o cho, agarrado 
ao gargalo da garrafa de usque.

Pai! chamei-o, correndo para ele e sacudindo-o. Resmungou, abriu os olhos e depois voltou a fech-los.

Pai, o Jack telefonou de Cypress Woods. Algum esteve dentro da casa com uma vela. Temos de ir l. Pode ser a me.

Voltei a sacudi-lo. Dessa vez largou a garrafa, que caiu no cho, derramando o seu contedo sobre o tapete e salpicando-me os ps.

Pai!

O que... Ruby?

Ora, pai, no! exclamei.

Fiquei a olhar para ele durante algum tempo e, ao aperceber-me de que seria incapaz de conduzir e, fosse como fosse, dormiria todo o caminho, acerquei-me da secretria. 
Peguei numa caneta e escrevi rapidamente um bilhete a explicar o que Jack dissera e aonde eu ia. Depois, para ter a certeza de que ele  leria, prendi-o  sua camisa 
e deixei-o onde estava, completamente embriagado, no seu gabinete.

Eu nunca guiara durante uma viagem to longa como aquela iria ser e, alm disso, de noite. Ainda me lembrei de chamar algum para ir comigo. Pensei em Catherine, 
mas recordei-me de que se encontrava de frias. Quanto a Claude ou algum dos seus amigos, estava fora de questo. Fosse como fosse, ningum quereria ir at ao Hayou 
quela hora da noite, pensei, portanto, teria de o fazer sozinha e sem demora.

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Quando, finalmente, me sentei em frente do volante e meti a chave na ignio, pensei em algumas daquelas estradas escuras e senti as pernas e os dedos a tremer. 
Respirei fundo, verifiquei se tinha gasolina suficiente e depois arranquei, virando lentamente rumo s ruas citadinas, deixando o meu pai em casa

Algures, na noite, a minha me aguardava. Pelo menos eu rezava para que assim fosse. Sempre que dvidas me invadiam, lembrava-me de Pierre e do seu olhar implorante

Vai buscar a me pedira-me. Ela que volte para casa

Era para isso que acelerava em direco  auto-estrada, noite adentro


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O BEIJO

Mal haviam passado dez minutos depois de sair da cidade, o cu que se vislumbrava pesado e aterrador cumpriu a sua ameaa. A chuva caiu, aoitada por um vento furioso 
que fazia com que as gotas grossas rebentassem, como ovos, contra o pra-brisas do carro. Os limpa-vidros rangiam com o esforo de manterem o vidro limpo. As luzes 
dos automveis que vinham no sentido contrrio tornavam-se indistintas. Dava a impresso de que se estava sob a aco de uma mono. Eu, com a pulsao muito acelerada, 
sustinha a respirao a cada curva.

De repente senti o carro derrapar e entrei em pnico, travando com demasiada fora, o que fez o veculo resvalar de um lado para o outro. Soltei um grito quando 
o carro embateu numa rvore e a parte traseira do meu lado direito se soltou, deixando-me a berma  vista e as rodas da frente metidas numa vala. Os condutores que 
passavam, cleres, buzinavam como que enfurecidos, temendo que eu voltasse de novo para a estrada, metendo-me no seu caminho.

No entanto, eu nada mais conseguia fazer seno chorar, com as mos enregeladas presas ao volante. No conseguia mover um msculo. O meu corao pulsava freneticamente 
no peito, batendo-me contra as costelas. As lgrimas escorriam-me Pela cara, pingando do meu queixo.

Os limpa-vidros continuavam a trabalhar, apesar de o motor ter parado. Engoli sofregamente o ar, esforando-me por acalmar. A chuva fazia lembrar o tamborilar de 
dedos gigantescos no tejadilho. Ouviram-se mais buzinas e, a certa altura, um par de potentes faris aproximou-se, incidindo sobre mim... Era um camio enorme e 
eu tive a ntida impresso de que ia chocar contra o meu carro; no entanto, o condutor f-lo parar a meia dzia de metros. Vi-o apear-se e correr para me abrir a 
Porta.

Era um homem magro, envergando uma camisola branca

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gasta e umas calas de ganga. Usava um bigode escuro bem aparado e tinha cabelo castanho fino.

Est bem? perguntou-me.

Acho que sim respondi, limpando as lgrimas.

Ficou com as traseiras do automvel enfiadas na auto-estrada e pode crer que ainda lhe batem. J tentou recuar e endireitar-se?

No, senhor.

O homem estava a ficar ensopado pela chuva, mas parecia no se importar com o facto.

Bem, ento v, tente ligar o motor aconselhou. Girei a chave. O motor ligou vrias vezes, porm no pegava.

Se calhar teremos de chamar um reboque murmurou o homem.

Oh, no! Preciso de estar em Houma esta noite! O indivduo reflectiu por um momento.

Deixe-me experimentar sugeriu.

Eu passei para o banco do lado e ele sentou-se ao volante

Deve estar afogado. Manteve o p sobre o acelerador e ligou a ignio. O motor estremeceu violentamente por vrias vezes, e de repente pegou. Vejamos se conseguimos 
sair desta vala disse o homem, metendo a marcha-atrs e acelerando a seguir. O carro ergueu-se e voltou a baixar por vrias vezes. Ele sacudiu a cabea. No sei. 
Se insistirmos podemos dar cabo de alguma coisa.

Tenho de ir a Houma, senhor.  uma questo de vida ou morte.

No  sempre? murmurou ele, olhando para mim Tem a certeza de que j tem idade para guiar?

Oh, claro que sim. Tenho a minha carta mesmo aqui disse, procurando na minha bolsa.

Deixe estar. No sou da Polcia. Os seus pais sabem que saiu com este tempo?

Estou a tentar ir ter com a minha me expliquei-lhe. O homem assentiu com um gesto de cabea.

Est bem. Verei se encontro uma soluo. Tenho uma corrente no camio. D-me uns minutos para a prender ao seu carro e depois verei se consigo tir-lo desta vala.

Obrigada, senhor. Muito obrigada. Sorriu-me e abanou a cabea.

Mulheres a conduzir murmurou, antes de sair.

Eu fiquei  espera. A chuva no abrandava minimamente. Vi-o trabalhar, aparentemente alheio  gua que lhe caa. 
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em cima. No me restavam dvidas de que estava ensopado at  medula. Por fim, bateu-me no vidro da janela.

Agarre bem no volante. Se eu conseguir iar e tirar o carro da, vire-o para a direita para ficar direito, est bem? Percebeu?

Sim, senhor. Obrigada.

Ainda  cedo para me agradecer observou. Voltou a correr para o seu camio. Eu aguardei, at que

ouvi a corrente retesar-se e senti o carro mover-se devagar. Assim que ficou levantado, fiz como ele me dissera e, momentos depois, estava livre. O meu corao batia 
agora de alegria, em vez de medo.

Muito bem disse o sujeito, aproximando-se de novo da minha janela, j est. Se tenciona continuar a conduzir no meio desta tempestade, mais vale que o faa devagar, 
est bem?

Com certeza, senhor. Como poderei retribuir-lhe o favor?

Mande-me um carto de agradecimento brincou o homem, afastando-se apressadamente.

Mas, senhor...

Esperei. Ele subiu para o seu camio e arrancou, buzinando ao afastar-se. Nem cheguei a saber como se chamava.

Minutos depois, voltei para a auto-estrada, conduzindo com cuidado exagerado at a chuva abrandar. Foi diminuindo at parar, to subitamente como comeara. Arrisquei-me 
a acelerar, sentindo mais confiana  medida que deixava mais quilmetros para trs e o piso ia ficando cada vez mais seco. Ainda assim, conduzir numa auto-estrada 
ao lado de camies enormes, de carros que passavam, cleres, e to poucas casas iluminadas, no me deixava nada tranquila. Se me acontecesse alguma coisa, a minha 
me nunca saberia e Pierre jamais se recuperaria, pensei. O meu pai ficaria sozinho e tambm acabaria por morrer, de certeza. A simples ideia de semelhante tragdia 
encheume os olhos de lgrimas pungentes.

Cerca de meia hora mais tarde, reparei que as nuvens tinham rompido e as estrelas ficavam visveis, tremeluzindo de Promessas. O facto animou-me e fez-me sentir 
ainda mais segura. O horrvel acidente que ocorrera no incio da minha viagem ficou reduzido a uma recordao. No entanto, ao aproximar-me de Houma, apercebi-me 
de que j no sabia qual era a estrada secundria que o meu pai tomara para chegarmos a Cypress wods. Reduzi a velocidade e estudei as estradas, que agora
pareciam todas iguais. Desesperada, resolvi parar na primeira

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cabana que encontrasse com luzes acesas. A viagem, que era suposto ter levado duas horas a fazer, j ia quase em trs. Avistei uma casa  minha direita, pelo que 
abrandei e enveredei pelo trilho de acesso.

Mal me apeei, dois esquilos cinzentos subiram aceleradamente por um cipreste prximo, sobressaltando-me com o seu movimento sbito. Ficaram a olhar para mim de um 
ramo por cima da minha cabea, cheios de curiosidade. Ri-me para eles e subi o caminho de cascalho que ia dar  varanda da casa

Era um edifcio de madeira nua, com venezianas cor de laranja desbotadas nas janelas. Algumas tinham estores, outras no. O ptio estava atravancado de automveis 
usados, mquinas de lavar e pirogas danificadas. A varanda tinha colunas quadradas que mal suportavam o telhado de chapa e o primeiro degrau da escada partira-se. 
No escolhera o melhor local para pedir indicaes, mas no sabia bem a que distncia ficaria o seguinte e no podia dar-me ao luxo de me perder mais do que j estava. 
Assim, continuei a aproximar-me.

Do interior vinha o som de msica zydeco e vi, atravs de uma abertura na persiana metlica desengonada, um homem a tocar gaita-de-beios, outro um instrumento 
com uma superfcie ondulada, semelhante a uma tbua da roupa, e um terceiro, um violino. Ouviu-se o som de uma mulher a rir, seguido de algum a gritar: "Laissez 
ls bons temps rouler"  memria dos bons tempos. Seguiram-se mais gritos e gargalhadas e o som de algum a danar no cho de tbuas. quela distncia eu conseguia 
sentir o cheiro a gumbo de marisco. Hesitei em interromper a festa mas, ao voltar-me para trs, deparei com as cercanias s escuras, as rvores com musgo fantasmagoricamente 
pendente, os pirilampos a brilhar em intermitncia na noite e a ausncia absoluta de trnsito ou vivalma, pelo que achei que no me restava alternativa. Subi os 
degraus e bati  porta, a princpio suavemente de mais para me ouvirem, depois com fora suficiente.

Algum riu. A msica parou. Voltei a bater. Momentos depois apareceu  porta um homem vestindo apenas uns calos interiores. Tinha uma fina e densa tira de plos 
a descer-lhe pelo meio do peito, este salpicado, aqui e ali, por sardas amareladas. Descalo, tinha os dedos dos ps grossos e comprido-- como se fossem das mos. 
Do meio do cabelo desgrenhado saam madeixas que lhe chegavam  ponta do nariz. Dava a impresso de no se barbear h dias e de nunca ter aparado o cabelo na nuca, 
que se encaracolava sobre as clavculas. Ficou a olhar para mim.

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- Est a algum, Thomas? perguntou uma mulher.

- Est respondeu o homem.

De repente apareceram duas meninas atrs dele, ambas com vestidos feitos de serapilheira e com um cabelo que parecia jamais ter conhecido tesoura, pois chegava-lhes 
abaixo dos ombros. Fitaram-me com os olhos muito abertos de curiosidade. Aproximou-se um outro homem, este mais baixo, que sorriu abertamente e, a seguir, uma mulher 
alta e robusta, que enfiou os braos rolios por entre quem estava  sua frente, abrindo passagem. O rosto bochechudo tinha queixo duplo e uns olhos grandes e escuros.

Ora essa, pra onde  que vocs dois 'to a olhar.  s uma moa. Deseja alguma coisa, menina?

Perdi-me e gostaria que me dessem algumas indicaes, minha senhora.

Perdida, hein? Olha pr que temos aqui, Jimbo disse, empurrando o homem mais baixo para que um outro, de cabeleira branca e hirsuta, pudesse juntar-se ao grupo embasbacado. 
Era o que tocava o instrumento da tbua. Esta diz que anda perdida.

Pra onde  que vai? perguntou o sujeito que usava a barba grisalha por fazer no queixo e um pequeno bigode.

Ando  procura de um lugar chamado Cypress Woods respondi.

Cypress Woods! exclamou o primeiro homem, revelando, a sorrir, uma srie de buracos no meio dos dentes.

 da famlia dos Tate? perguntou Jimbo.

No, senhor.

Pois, mas Cypress Woods  dos Tate observou o indivduo, fitando-me com ar desconfiado.

A mulher concordou. Ao grupo vieram juntar-se mais dois homens, uma mulher, trs raparigas mais velhas,  volta dos dezasseis anos, e um rapazito ligeiramente mais 
novo.

Veio atrs de algum daqueles tipos que trabalham nos poos de petrleo? perguntou a mulher em tom reprovador. Dobrou os braos sobre o peito e endireitou os ombros.

No  bem isso respondi.

No  bem isso? Que quer isso dizer? No  bem isso?

No vim c para me encontrar com nenhum homem acrescentei, mas algum que trabalha nesses poos tem a informao de que preciso.

Ai ?

A mulher no disfarou o facto de no acreditar em mim. Porque seria assim to importante para eles conhecerem todos os pormenores antes de me darem as indicaes 
de que eu precisava?

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Os Tate no moram l, se  que quer falar com eles informou Jimbo.

No  com os Tate que quero falar. Escutem continuei, soltando um suspiro de impacincia, eu j ali vivi. Percebera que, se no lhes satisfizesse mais um pouco a 
curiosidade, era bem provvel que no me prestassem nenhuma informao. Mas no sou da famlia dos Tate.

Viveu ali? Olhou para a mulher. No me diga? Tambm ela estreitou os olhos.

 parenta da velha traiteur, quis saber.

 demasiado nova para ser neta da Catherine Landry. comentou Jimbo, sacudindo a cabea.

 bisneta dela?

Sou, sim senhora respondi.

Caramba, diabos me levem! ... realmente ela d ares aos Landry, no achas, Jimbo?

L isso d. Aquilo era gente de bom parecer. O Buster vai adorar saber disto. H anos que no fala noutra coisa.

Podem dizer-me que caminho devo tomar para chegar a Cypress Woods? perguntei, j sem disfarar a minha impacincia.

Claro. Desce uma centena de metros por ali e depois volta  esquerda, 't a ver? Depois vai pela estrada at chegar  primeira bifurcao, onde vira  esquerda e 
segue em frente. Ir ter a Cypress Woods. Percebeu?

Percebi, sim, senhor. Obrigada.

O Buster nem vai acreditar numa coisa destas observou a mulher.  parecida com a me dela, no acham?

O Buster no vai acreditar concordou Jimbo, acenando com a cabea.

Ficaram todos a olhar para mim com os olhos muito abertos, fazendo-me sentir como um fantasma.

Obrigada agradeci, voltando apressadamente para o carro.

Ao olhar para trs, vi que continuavam no mesmo stio, fitando-me de boca aberta. Esperava que as indicaes dadas estivessem certas. Guiei devagar. Aquelas estradas 
secundrias eram ainda mais escuras do que a via que me levara at perto de Houma. Os ciprestes erguiam-se, altos e densos, com as suas ramadas retorcidas e curvadas 
sobre mim. A luz reflectida pelos faris do meu carro fazia com que algumas se parecessem com esqueletos. Uma criatura peluda atravessou velozmente a estrada e, 
quando eu ia a dar a ltima curva, uma coruja fez um voo rasante  minha frente, deixando-me estupefacta com o tananho

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das suas asas abertas. Sentindo o corao aos pulos, enveredei finalmente pelo caminho que conduzia a Cypress Woods e aos poos de petrleo. J se haviam passado 
mais de trs horas e meia desde que falara com Jack Clovis. Duvidei de que ainda estivesse por ali

 medida que me ia aproximando, a manso foi-se erguendo no meio da noite. As suas janelas estavam negras, mas algumas faziam lembrar espelhos reflectindo o movimento 
de rvores e arbustos. O edifcio fazia transbordar o seu vazio para o silncio circundante. Somente o vento agitava as persianas soltas e roava nela as pontas 
das ervas altas que cresciam a esmo ao longo das suas paredes. Sem o sol a brilhar  sua volta, parecia ainda mais abandonada e esquecida. Naquele momento era uma 
casa habitada apenas pelas sombras. Quando as nuvens passavam em frente das estrelas, essas sombras deslocavam-se e contorciam-se por trs das janelas e sobre a 
varanda

Eu sentia um vazio dentro de mim ao olhar para a enorme manso outrora repleta de msica e risos, boa comida e bons amigos, um lugar de alegria e de vida, onde a 
minha me criara, fazia muito tempo, magnficas obras de arte. Agora no passava de uma tumba gigantesca sem nenhum corpo a habit-la, com os seus ecos absorvidos 
pelo vasto espao

De repente, todos os meus temores da infncia se abateram sobre mim. Tive medo de virar a cabea e olhar para o poo de petrleo. O meu corao comeou a bater desordenadamente. 
Algo luminoso no meio da escurido expandi a-se sobre os terrenos que se estendiam entre a casa e os pntanos, em vagas ora focadas, ora desfocadas. Talvez fosse 
apenas um reflexo, mas para mim, naquele momento, parecia o concretizar dos meus pesadelos. Dava a impresso de se aproximar cada vez mais de mim, flutuando. Fiquei 
transida de medo

No' gritei, sacudindo a cabea

Acelerei pela vereda acima e virei  esquerda, na direco do atrelado que fazia de escritrio. Havia uma luz minscula acesa na porta e reparei que o interior estava 
fracamente iluminado. Parei rapidamente e apeei-me, apavorada. No fazia o menor frio, quando muito o ar hmido e quente ter-me-ia feito transpirar, no entanto, 
o que eu sentia era um frio na espinha que me enregelava o corao. Apressei-me a subir as escadas e bati  porta. No obtive resposta

Desalentada, pensei que Jack desistira de esperar por mim e
eu me encontrava ali completamente sozinha. Algo coaxou na erva,  minha direita, e ouvi correr celeremente ao longo da areia. Quando voltei a olhar para a casa, 
pareceu-me ver um

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vu fino a flutuar, vindo da varanda de cima. Fosse o que fosse. desapareceu em instantes. Voltei a bater, com mais fora, mas ningum respondeu. Experimentei a 
maaneta da porta e descobri que esta estava destrancada.

Entrei no atrelado. Havia uma secretria  minha direita, coberta de fotocpias e outros papis, um telefone e uma fotocopiadora. Ao fundo daquela diviso ficava 
uma pequena cozinha.  esquerda era o espao da recepo e a, estendido em cima de um sof, com os ps apoiados sobre um dos bancos, estava Jack Clovis, profundamente 
adormecido. Fechei a porta do atrelado e fiquei parada por instantes, embaraada e sem saber o que fazer. Felizmente, ele acabou por sentir a minha presena. As 
suas plpebras estremeceram e descerraram-se. Assim que me viu, sentou-se precipitadamente e empurrou o cabelo para trs com a mo.

Oh, desculpe disse-me, esfregando os olhos vigorosamente. Devo ter adormecido.

Eu  que lhe devo pedir desculpa retorqui eu. Levei imenso tempo a c chegar, mas tive um acidente mesmo  sada de Nova Orlees e depois andei algum tempo perdida.

Acidente? Est bem? exclamou Jack, levantando-se e abotoando a camisa.

Sim, estou bem. Derrapei na estrada e fui parar a uma vala, mas o condutor de um camio socorreu-me.

Oh! Bom. Fitou-me. O seu pai no veio?

No respondi. Vim sozinha.

Sozinha? Oh... admirou-se, optando ento por no fazer mais perguntas.

Viu alguma coisa desde que falmos? perguntei-lhe sem mais delongas.

No. Tambm fiquei de vigia  casa durante cerca de uma hora. No apareceram carros. Nem sei mesmo como  que algum chegaria aqui, excepto...

Excepto o qu? quis saber.

Excepto se viesse pelos canais, claro. Estava demasiado escuro para descer at l abaixo e verificar. Deseja beber alguma coisa? gua fresca, sumo? ofereceu, dirigindo-se 
para a minscula cozinha.

No, estou bem assim. Gostaria de ir imediatamente at  casa e inspeccionar o stio onde disse que viu a luz.

Com certeza. Vou buscar duas lanternas prontificou-se Jack, aproximando-se de um armrio. No foi minha inteno fazer com que viesse at c to tarde. Amanh teria
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provavelmente tido o mesmo efeito. O seu pai est a par da sua vinda?

Ainda no, mas deixei-lhe um bilhete. No h problema. Jack anuiu, expressando, no entanto, um certo cepticismo.

 muitssimo importante que eu encontre a minha me o mais depressa possvel. O meu irmo precisa desesperadamente dela.

Jack ficou a olhar para mim por um instante e a sua expresso suavizou-se.

Compreendo. Muito bem... sendo assim, vamos. Abriu-me a porta e samos. Mais vale irmos de carro at  casa declarou, indicando-me o carro.

Entrmos nele e eu fui a conduzir, descrevendo os problemas que a chuva me levantara no incio da viagem.

Por aqui no choveu muito contou-me Jack. Estas tempestades de Vero costumam ser assim. Umas vezes so violentas, outras no.

Apemo-nos e subimos os degraus que levavam at  casa. Jack acendeu a lanterna e eu fiz o mesmo. Depois entrmos na manso. Eu rezava a todos os santos para que 
a minha me ali estivesse. Se a encontrasse, lev-la-ia directamente para o hospital. Poderamos estar  cabeceira de Pierre dali a algumas horas.

A pouca iluminao que as nossas lanternas forneciam alongava as sombras e fazia com que os quartos e os corredores parecessem ainda mais fundos do que eram. A moblia 
envolta em lenis fazia lembrar espritos aguardando impacientemente pela sua reanimao, e as silhuetas criadas pelos nossos focos luminosos deslizavam pelas paredes 
e pelos tectos como fantasmas reunidos  nossa volta. Os nossos passos faziam ranger o soalho e os nossos sapatos ecoavam sobre as lajes, um pequeno som amplificado 
no vazio.

A luz vinha l de cima disse Jack. Tenha cuidado. Subiu a enorme escadaria na frente. Os degraus rangeram

sob os nossos ps. H muito tempo que no eram utilizados regularmente. Senti os plos da nuca arrepiarem-se, como se algum me tivesse seguido. Parei e dei meia 
volta.  medida que amos avanando, as brumas que os nossos feixes de luz iam afastando voltavam a cerrar-se nas nossas costas. Resolvi ficar o mais prxima possvel 
de Jack. Ao chegarmos ao patamar, ele fez-me sinal para a direita e entrmos no que eu sabia ser o quarto do tio Paul.

Posso estar enganado disse-me, mas tenho quase a certeza absoluta de que a luz vinha daqui. Contei as janelas

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a partir da esquina da casa. Se havia algum neste quarto, essa pessoa estaria mais ou menos aqui. Acercou-se da janela. A luz ainda ficou acesa algum tempo, antes 
de comear a diminuir. Imagino que essa pessoa se tenha metido pela casa dentro, afastando-se da janela. Chamei vrias vezes, mas no obtive resposta. Como j disse, 
podia ser um vagabundo ou um ladro.

No h aqui muita coisa para os ladres levarem, pois no? perguntei.

Bem, h mobilirio, obras de arte, bricabraque, utenslios de cozinha... Claro, h aqui muita coisa aproveitvel, sobretudo para alguns desses piratas dos pntanos. 
No temos crimes urbanos, mas existe por a gente miservel a deambular pelos canais e a assaltar a casa dos outros. Este lugar fica to fora de mo que no  muito 
fcil saque-lo; no entanto, gente desesperada  capaz de tudo.

Os feixes luminosos das lanternas eram como velas. Enquanto estvamos ali a falar, envolviam os nossos rostos num fulgor.

Porque haveria a sua me de aqui vir a meio da noite? perguntou Jack. Salta  vista que a Pearl contava com isso, caso contrrio, no teria c vindo nesta altura. 
Mas no quero ser indiscreto apressou-se a acrescentar.

Sacudi a cabea e mordi os lbios. Se a minha me estivesse naquela casa, certamente ouvir-nos-ia, embora eu j no pudesse ter a certeza de que nos daria a conhecer 
a sua presena No fazia a menor ideia do seu estado de esprito naquela altura.

J lhe falei da morte do meu irmo e do estado em que a minha me ficou, mas no lhe disse que ela se considerou responsvel pela tragdia. Foi a uma praticante 
de vudu e mandaram-na submeter-se a determinados rituais. A seguir partiu para executar no sabemos que aces misteriosas. Enviou-nos uma carta a dizer que s dali 
a muito tempo  que voltaria para casa. se  que isso chegaria a acontecer. Desconfimos de que regressara ao Hayou e encontrmos uma coisa que deixou na cabana 
onde ela e a minha av viveram durante a sua infncia.

Quer ento dizer que a sua me morou nesta casa depois de se casar com o Paul Tate observou Jack.

 verdade.

 por isso que acha que ela voltar c para realizar algum ritual vudu, no?

Ela voltar aonde quer que pense que tenha feito algo que ter dado origem a lanarem-nos uma maldio. Tenho a certeza de que se trata de algum ritual que tenha 
a ver com o afastamento dos maus espritos expliquei-lhe.

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- Presumo que no acredite em nada disso disse ele.

Pois no.

Jack acenou, pensativamente, com a cabea.

- Lamento muito que esteja com todos esses problemas.

A situao est a piorar. O meu irmo, aquele que entrou em coma, tem estado muito mal. A psiquiatra que anda a trat-lo est convencida de que ele acha que a minha 
me o culpa pela morte do meu outro irmo, pois no vai visit-lo. Perdeu a vontade de viver conclu com tristeza.

 terrvel.

Por a j v at que ponto  importante que eu encontre a minha me e a faa voltar para casa.

Sim, de facto  importante. Desculpe no me ter esforado mais para descobrir quem aqui esteve. Quer passar revista ao resto da casa?

 melhor respondi. Jack pegou-me na mo.

Devemos ter cuidado. Esta casa est abandonada h muito tempo; nunca se sabe o que poderemos encontrar.

No hesitei em lhe dar a mo, em que ele agarrou firmemente. Sentir a sua fora era reconfortante. Comemos pelo piso de cima, entrando em todas as divises, espreitando 
dentro de armrios e casas de banho, no descurando qualquer espao possvel. Chamei pela minha me, implorei-lhe que me respondesse se estivesse naquela casa.

O Pierre precisa de ti desesperadamente, me. Se estiveres aqui, por favor, fala connosco. Por favor!

S se ouviu o eco da minha voz, seguido de silncio. Voltmos ao que fora o quarto da minha me. A cama no tinha lenis mas ainda l estavam o colcho e as almofadas. 
Varremos com o feixe das lanternas o cho e as paredes, espreitmos mesmo para debaixo da cama, mas no encontrmos ningum nem vestgios de algum ali ter estado 
recentemente.

Talvez a luz da vela no tenha passado de imaginao minha observou Jack tristemente, e assim fi-la vir at c com falsas esperanas. s vezes os pntanos pregam 
partidas aos nossos sentidos. J viu algum lampejo de gs de pntano?

No.

Incendeia-se e rola sobre a superfcie da gua, fazendo lembrar bolas de fogo explicou Jack. Acontece com tanta rapidez que uma pessoa fica sem saber ao certo se 
no foi s imaginao sua.

Pareceu-me ver algo do gnero quando me aproximei da casa de carro. Realmente poucas recordaes conservo do

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Hayou. Era muito pequena quando me fui embora. Acho fascinante.

- Eu no tenho vontade de viver em qualquer outro stio declarou Jack. - No quero parecer indelicado mas, como sabe, no fui talhado para a vida urbana.

Sorri pela primeira vez em horas, embora no estivesse segura de ele poder ver-me no meio da escurido.

- Bem - proferiu Jack um momento depois -, convido-a a voltar para o atrelado comigo. Prepararei algo fresco para bebermos. Tambm tenho melo no frigorfico - acrescentou. 
A no ser que esteja demasiado cansada.

A excitao e o nervosismo tinham sido to intensos que nem reparara no adiantado da hora nem na fadiga que sentia, Como havamos parado um pouco, comeara a sentir 
as pernas pesadas e a fadiga a invadir-me progressivamente.

-Estou bem - disse.           S um pouco cansada.

- Que tenciona fazer?        perguntou Jack. - Certamente no pretende voltar para trs ainda esta noite, pois no?

- oh, no. Ficarei aqui - respondi, olhando em volta,
- Aqui? Quer dizer, nesta casa?

- Exacto. Se a minha me esteve aqui,  possvel que vol" te, e, se est escondida, acabar por aparecer. No sei que outra coisa possa fazer.

- Mas esta casa est desabitada. No tem parentes com quem possa ficar? Quero dizer, nesta altura devem viver aqui toda a espcie de criaturas, incluindo aranhas, 
cobras e...

-No diga mais nada! - implorei. - Est a assustar-me e eu preciso de ficar aqui.

- Desculpe - pediu Jack, ao ver a minha determinao. Se tem a certeza de que  o que deseja fazer..

- .

-Muito bem. Voltemos para o atrelado. Arranjarei alguma comida e uns cobertores para ns - props ele.

- Ns?

- Bem, com certeza no acha que a deixarei ficar aqui sozinha, pois no? No conseguiria pregar olho ali no atrelado, preocupado consigo aqui - observou ele. - Quero 
dizer, aquela vela pode ter sido utilizada por algum vagabundo.

-No precisa de ficar aqui. Eu estarei bem - afiancei, mas sentindo, no entanto, as pernas e os joelhos trmulos.
- J lhe disse que tomo conta do seu poo de petrleo, farei o mesmo consigo - declarou com firmeza.

Sorri na escurido, grata pela sua generosidade e cuidados.
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-Obrigada - disse-lhe.

-No tem que agradecer. Vamos buscar aquilo de que precisamos - sugeriu.

Samos de casa. o melo frio era refrescante. Depois de comer um pouco, servi-me da casa de banho enquanto Jack arranjava cobertores e um candeeiro de petrleo. 
Em seguida voltmos a casa.

- Onde  que deseja acampar - perguntou ele depois de entrarmos, olhando para a escurido.

- L em cima - respondi. - No antigo quarto da minha me.

o fulgor do candeeiro de petrleo lanava manchas de luz mortia nas paredes enquanto subamos as escadas. As nossas sombras alongavam-se atrs de ns pelos degraus 
abaixo e pela zona de entrada. Jack reparou onde eu fixara a ateno e ru-se. Ergueu o candeeiro, fazendo com que as sombras mudassem de feitio e tamanho.

- Somos gigantescos - observou. - Assustaremos os fantasmas que se acoitarem pelos cantos desta casa.

Acredita em fantasmas, Jack? - perguntei-lhe. -Claro. J os tenho visto.

- Pare com isso - pedi-lhe.

-No, estou a falar a srio. - Fez uma pausa no patamar e virou-se para mim. - No pntano,  noite, a pairar sobre a gua. Fantasmas de ndios, calculo.

- Talvez seja apenas o tal gs dos pntanos de que me falou - refutei.

-No acredita em coisas espirituais?

- Acredito em Deus, mas no em duendes, fantasmas e espritos vudu. Sou uma mulher da cincia - retorqui. - Tenho a certeza de que h uma explicao e uma razo 
lgicas para tudo. Talvez ainda no a conheamos, mas h.

- Est bem - aquiesceu Jack, esboando um pequeno sorriso complacente.

-Acha que mudarei de opinio?

-No sei. S sei que vi - respondeu confiantemente, prosseguindo em direco ao quarto.

Quando entrmos, a chama brilhante do petrleo fez com que o quarto parecesse maior. Jack ia a pousar o candeeiro em cima da mesinha-de-cabeceira quando eu detectei 
algo sobre a cama.

- Espere! - exclamei. - Aproxime mais o candeeiro da cama.

Ele assim fez. Ficmos ambos a olhar para o que estava entre as almofadas. 

Que diabo  aquilo? perguntou Jack. No estava aqui h bocado, pois no?

No -respondi, estendendo lentamente a mo para o objecto.  um mojo disse.

O qu?

O osso de uma perna de gato preto que foi morto exactamente  meia-noite.  um poderoso gris-gris expliquei-lhe. No me restam dvidas de que a minha me se encontra 
por aqui! Ou no reparmos naquilo quando aqui estivemos ou ela veio c na altura em que fomos at ao atrelado.

Ao voltar-me para trs, vi Jack parado no mesmo stio, de boca aberta.

Uma perna de gato preto?

Foi a velha cozinheira da minha me que lha deu. A mesma pessoa que morreu e depois ressuscitou para alertar a minha me, o que no chegou a acontecer porque ela 
estava na festa de inaugurao da sua exposio de pintura. Essa  uma das razes que a levam a culpabilizar-se pela morte do Jean expliquei.

Jack fitou-me como se me achasse louca.

Essa tal mulher morreu e ressuscitou?

Para ser franca, no acredito em nada disso observei. Como j lhe disse, a minha me est a passar por uma espcie de depresso.

Jack assentiu com ar pensativo e em seguida olhou em volta.

Tem a certeza de que quer ficar aqui? voltou a perguntar, agora com um ligeiro tremor na voz.

Absoluta. A minha me pode voltar.

E se ela foi fazer alguma coisa esquisita noutro lugar qualquer? perguntou.

A nica maneira de saber  ficar aqui e aguardar respondi, mais determinada que nunca.

Jack sentiu que nada me demoveria e deixou de tentar convencer-me a no ficar.

Muito bem. No se importa de dormir em cima daquele colcho? Est um pouco poeirento, mas se lhe puser este cobertor em cima e mais este sobre a almofada...

Estarei ptima afirmei. Obrigada.

Eu arranjarei um stio para mim alm disse Jack, indicando a poltrona com a cabea.

Preparou-me a cama e a seguir foi arranjar o seu canto, colocando o candeeiro de petrleo entre ns dois.

Est confortvel? quis saber, depois de se estender.

200


Estou, obrigada respondi. Realmente est a ser muito simptico ao ajudar-me desta maneira

No tem que agradecer

Que idade tm as suas duas irms? perguntei Naquele momento, depois de estar deitada no antigo quarto da minha me e de a escurido se ter cerrado  nossa volta. 
Sentia necessidade de continuar a falar. Alem disso estava interessada em conhecer melhor a vida de Jack

A Daisy tem vinte e dois, e a Suzanne, vinte e nove. Esta casou e tem dois filhos, um rapaz de trs anos e uma rapariga de quatro. O mando tem uma fbrica de conservas

O que faz a Daisy?
Acabou a faculdade em Baton Rouge e est noiva. Casa-se daqui a dois meses, com um tipo que vive em Praine. A famlia dele negoceia em mobilirio. Conheceram-se 
na faculdade

E o Jack? Andou na faculdade?

Eu? No. respondeu. Mal acabei o liceu fui logo ter com o meu pai aos poos de petrleo

Contou-me que aos doze anos j trabalhava

 verdade, mas nessa altura ainda no podia receber salrio. Como  que se lembrou de que eu disse isso?

Lembrei-me, simplesmente retorqui, grata por ele no poder ver-me a corar

No, foi no trabalho que fiz a minha aprendizagem, continuou Jack. No entanto, tambm h muito Dispomos de muito tempo livre

Quais as leituras que mais aprecia?

Sobretudo as que falam da Natureza. Os outros tipos chamam-me Emstem porque ando sempre com o nariz enfiado nos livros. Acho maravilhoso a Pearl querer ir para Medicina. 
Eu, claro est, nunca fui a nenhum mdico, apenas a uma trai teur

Era o que a minha bisav era

Eu sei. Ganhou muita fama por estes lados. Tambm tem magia nas suas mos? Ah, j me esquecia de que no acredita em nada que no tenha lgica

Riu-se

s vezes as pessoas melhoram s de acreditarem piamente em algum.  lgico disse eu

Jack ficou calado por instantes

Imagino que A Pearl seja muito inteligente, no ?
Tenho boas notas

A que ponto so boas?

201


Ao ponto de ser a melhor da minha turma respondi.

No me diga! A srio? Bem me pareceu reflectiu Jack. Tem ar de inteligente, mas eu no sabia ao certo.

Porque no? perguntei, rindo.

Bem respondeu em voz lenta, as nicas raparigas que conheci eram...

Eram o qu?

No eram feias, mas de bonitas tinham muito pouco retorquiu.

Gerou-se um prolongado momento de silncio entre ambos, sem que nenhum de ns soubesse muito bem o que dizer. A certa altura quebrei o silncio.

Isso  uma tolice, Jack. A aparncia nada tem a ver com a capacidade mental.

Tem razo reconheceu ele. S digo disparates. Deve ser do cansao,

Devia dormir concordei. Boa noite, Jack. E obrigada por tudo.

Boa noite retribuiu ele. Quer que apague o candeeiro?

 melhor deix-lo aceso.

Jack ficou calado, mas depois observou:

No tem lgica.

No pude deixar de me rir.

O Jack  muito boa pessoa. Estou contente por estar a tomar conta do meu poo.

Obrigado agradeceu ele. Pearl?

Sim?

Que fez ao osso de gato?

Ainda est aqui, na cama respondi. Foi onde a minha me o quis.

Jack ficou calado. O vento abriu caminho atravs das fendas da casa, entrando e saindo dos quartos que ficavam no piso de baixo, por vezes, em som sibilante. As 
paredes rangiam e. algures, uma persiana solta batia monotonamente contra um caixilho de janela. Pareceu-me ouvir o som de asas a esvoaar e calculei que morcegos 
se tivessem refugiado no meio das vigas; sabia, porm, que no eram perigosos.

Fora uma noite longa e repleta de emoes. Naquele momento, ali deitada, tinha a impresso de que o meu corpo se afundaria no colcho. Tentei permanecer acordada 
para ouvir passos ou o som da voz da minha me, mas no tardei a adormecer.

Mergulhei em sonhos povoados com o rosto das pessoas que

202


encontrara no Hayou. Imaginei que os indivduos que encontrara na cabana e me tinham ensinado o caminho, estavam ali fora, em frente da casa. Depois de me seguirem 
at Cypress Woods, murmuravam entre si, no meio das sombras. Foram-se aproximando at entrarem na casa. Vinham todos a subir as escadas, liderados pela mulher de 
braos rolios, com as crianas todas atrs. Vi que entravam no quarto e senti-as  minha volta. Tinham uns olhos enormes e os seus rostos eram inconsistentes, umas 
vezes ovais, outras, redondos.

Foi ento que senti uma mo pousar-me no rosto. Era demasiado real para ser um sonho; no entanto, no consegui abrir os olhos. Gemi e lutei contra os elos invisveis 
que me prendiam. Tentei abrir a boca mas tinha o maxilar preso. A minha lngua sufocava-me e fiz imensa fora para abrir a boca. Finalmente os meus lbios separaram-se 
e gritei.

Jack correu imediatamente para o meu lado. Sentei-me e rodeei-o com os braos.

O que aconteceu? Houve algum problema, Pearl? perguntou, abraando-me fortemente, enquanto eu prendia os braos em torno dos seus ombros fortes e seguros.

No diga nada e abrace-me implorei. Abrace-me.

Est tudo bem sossegou-me ele, acariciando-me ternamente os cabelos, primeiro com a mo, depois com os lbios. Est em segurana. Est tudo bem.

Tentei engolir. O meu corao batia to fortemente que tinha a certeza de que Jack tambm o sentia no seu peito.

Pobre menina disse ele. Maldita pouca sorte. Maldita.

Aproximou os lbios da minha testa. Eu fechei os olhos, deleitando-me com a ternura do seu toque. Continuou a beijar-me, fazendo deslizar os lbios pelos meus olhos 
fechados, at chegar aos meus lbios. Beijmo-nos longa mas suavemente. Foi ento que ele se afastou.

Desculpe, no era minha inteno...

No tem importncia assegurei-lhe eu, suspirando quando ele afrouxou o abrao. Voltei a recostar-me.

O que aconteceu? perguntou-me.

Senti uma mo na cara.

Deve ter sido apenas um sonho. Eu tambm estava a ter um pesadelo acrescentou, pegando-me na mo. J est melhor?

J, obrigado.

No quero que pense que estava a aproveitar-me de si ou algo do gnero. Eu...

203


Gostei que me beijasse, Jack.

Gostou?

Sim. Foi muito reconfortante.

ptimo declarou ele. Bem... ser melhor tentarmos dormir mais um pouco, no?

Desculpe. Sei que tem de se levantar cedo para ir trabalhar.

No h problema observou Jack. Fitou-me durante mais algum tempo, antes de fazer meno de se levantar, mas depois hesitou, virou-se de novo para mim e inclinou-se 
para me dar mais um beijo.  s para ter a certeza sussurrou.

Vi o pequeno sorriso que esboou e senti um calor intenso percorrer-me o peito, em direco ao meu corao.

Foi com verdadeira pena que o vi pr-se de p e voltar para a poltrona. Ouvi-o acomodar-se e virei-me para olhar para ele. Durante um momento, limitmo-nos a ficar 
a olhar um para o outro atravs da luz fraca do candeeiro de petrleo.

Boa noite disse-me Jack.

Boa noite.

Virei-me para o outro lado e reflecti um pouco antes de me aperceber da razo de toda aquela ansiedade que sentia. Apalpei a cama e procurei com a mo.

Jack ouviu-me mexer.

O que h, Pearl? perguntou.

Jack disse eu. Foi o nojo.

O que tem?

Desapareceu.


12

O DIO  LENTO COMO O VENENO

Se a minha me esteve naquela casa durante a noite, pela manh partira ou escondera-se muito bem. Jack e eu passmos revista ao estdio,  cozinha e at s despensas, 
com maior cuidado que da primeira vez; porm, no havia sinal dela nem to-pouco respondeu aos meus apelos contnuos para que aparecesse.

Ela simplesmente no est aqui concluiu Jack. Deve ter ido para qualquer outro lugar durante a noite. Tem alguma ideia do stio onde poder estar agora?

S conheo a minha tia Jeanne e o meu tio James. A minha me simpatiza com a tia Jeanne. Mantiveram contacto durante todos estes anos.

Ento se calhar foi para junto dela. Podemos telefonar-lhe sugeriu Jack.

Ser melhor l ir pessoalmente contrapus eu. Mas antes disso quero telefonar ao meu pai.

Alm de tambm precisar de tomar o pequeno-almoo. Est de barriga vazia.

Vou at  cidade e...

No vai, no! Temos o atrelado  disposio insistiu Jack.

Quando chegmos ao atrelado, a maioria dos trabalhadores dos poos j ali estava. Quando nos apemos do meu carro, as cabeas viraram-se na nossa direco e os olhos 
esbugalharam-se.

Arranjaste uma ajudante nova, Jack? gritou algum, enquanto os outros riam.

No lhes ligue aconselhou-me Jack em voz baixa, Mantendo os olhos em frente e a cabea erguida.

Quando entrmos no atrelado, Bart LaCroix, o capataz, que Se encontrava sentado na pequena mesa de cozinha a tomar caf e a comer uma rosca, olhou para ns. Ao seu 
lado estava

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outro operrio, mais ou menos da mesma idade, apenas mais alto e com uma farta cabeleira castanho-escura e encaracolada

O que se passa? perguntou Bart, admirado por me ver.

Mademoiselle Andreas voltou para continuar a procurar a me explicou Jack. Tudo indica que esteve aqui durante esta noite.

No me digas! Durante a noite? Isto no  lugar onde se ande a deambular durante a noite.

Ningum andou a deambular corrigiu Jack.

Bart soltou um resmungo, tomou um gole de caf e meteu o resto da rosca na boca de uma s vez.

O Billy diz que estamos a ter um problema com a bomba do trinta e trs. Passa por l e d uma olhadela, est bem?

Certo. Que tal um caf, Pearl? ofereceu.

Obrigada agradeci.

O homem mais alto levantou-se e aproximou uma cadeira da mesa, para eu me sentar. Agradeci-lhe.

O seu pai tambm c est? perguntou Bart.

No, no est.

Bart ergueu as sobrancelhas e olhou para o colega, que ficara de p,  espera de ser apresentado.

Oh, Lefty, esta aqui  Mademoiselle Pearl Andreas, do vinte e dois.

Vinte e dois? exclamou Lefty, impressionado. Sentei-me.

Que tal uma rosca? ofereceu Bart. So frescas, trouxe-as de caminho para aqui. Temos uma padaria bastante boa por estas bandas. Aposto que ainda so melhores que 
as do vosso Caf du Monde.

Obrigada agradeci, provando uma. Sorri e acenei afirmativamente com a cabea. So realmente melhores confirmei.

Bem, ento lancemos mos ao trabalho, Lefty. Vamos olear a bomba disse, olhando para Jack, que fazia de conta no estar a ouvir, servindo-se do denso e negro caf 
cajun. Bart e Lefty colocaram os capacetes e saram do atrelado.

Quer natas no caf? perguntou-me Jack, indicando a minha chvena com a cabea.

Se fizer favor. No foi minha inteno causar-lhe o menor embarao junto dos seus colegas disse.

Nem sequer pense nisso declarou Jack firmemente. A maioria deles sente s inveja. Se quiser, preparo-lhe uns ovos.

206


Para j, isto chega disse. A rosca  realmente uma delcia.

E o que me diz a um sumo de laranja ou uns cereais? Acho que tenho para aqui uns flocos de milho.

Isto chega, Jack, a srio. Sente-se e tome o seu caf. No quero atras-lo ainda mais para o seu trabalho.

Jack sorriu e sentou-se.

O caf  bastante forte, eu sei. Os homens gostam dele assim. O Bart diz que o ajuda a concentrar-se. J trabalhou com o meu pai explicou. Pode parecer abrutalhado 
mas  uma doura de pessoa. Acha que tem de tomar conta de mim.

 agradvel ter algum que se preocupe connosco observei, o que me fez recordar o que tinha para fazer. Preciso de ligar ao meu pai.

Esteja  vontade. Sirva-se daquele telefone alm indicou Jack.

Aubrey atendeu logo ao primeiro toque, o que me fez sentir imediatamente um arrepio pela espinha acima. Era como se estivesse  espera do meu telefonema mesmo junto 
do aparelho.

Monsieur Andreas est a dormir, mademoiselle disse em voz baixa, nitidamente sem querer que os outros empregados escutassem a conversa. Teve um pequeno acidente 
ontem  noite.

Que tipo de acidente, Aubrey? O que aconteceu? Teria o meu pai vindo atrs de mim e estampado o carro

com a chuva torrencial que cara?

No sei a que horas foi para cima ontem  noite, mas o certo  que sentiu uma tontura e caiu nas escadas. Partiu uma perna logo abaixo do joelho.  uma fractura 
pequena, mas o mdico teve de lhe pr gesso e dar um analgsico.  por isso que est a dormir, mademoiselle.

Eu sabia que Aubrey estava a ser delicado ao dizer que o meu pai sentira uma tontura. O mais certo era ter-se levantado da sua poltrona do gabinete e subido as escadas 
ainda muito embriagado.

Ele sabe onde estou?

Sabe, sim, mademoiselle. Encontrou o bilhete que lhe deixou. Ainda o tinha consigo quando deu a queda nas escadas. Eu ouvi o barulho e fui encontr-lo ali. Chammos 
imediatamente o mdico, que foi de opinio que monsieur ficasse em casa. Tomei a liberdade de chamar Mistress Hockingheimer Para cuidar dele. Aguardo a sua chegada 
a qualquer momento.

207


Fez muito bem, Aubrey. Quando o meu pai acordar agradeo que lhe diga que telefonei e que voltarei a faz-lo mais para o fim do dia de hoje. Diga-lhe... diga-lhe 
que a minha me ainda est por aqui e que eu espero encontr-la em breve. Depois voltaremos as duas para casa.

Muito bem, mademoiselle.

Adeus, Aubrey despedi-me, pousando o auscultador com lentido.

Mais problemas? perguntou Jack. Contei-lhe e ele sacudiu a cabea.

No h dvida de que lhe caram muitas dificuldades em cima, Pearl. Tem a certeza de que quer continuar por c?

 imperioso que encontre a minha me declarei, lembrando-me ento de que precisava de ligar para o hospital a saber de Pierre.

A enfermeira de atendimento das UCI foi sucinta. O meu irmo continuava a intercalar os seus perodos de sono comatoso com estados de alerta. Da ltima vez dormira 
oito horas seguidas. Depois estivera apenas meia hora acordado. Os mdicos ainda no o tinham ido ver naquela manh. A enfermeira aconselhou-me a ligar de novo  
tarde.

Voltei a sentar-me, com o rosto crispado de preocupao.

Posso fazer mais alguma coisa por si? perguntou-me Jack depois de eu lhe contar o que me haviam dito no hospital.

No.  melhor voltar para o seu trabalho. Vou visitar a minha tia Jeanne e depois volto.

Indiquei a Jack onde a minha tia morava e ele ensinou-me a l chegar, com a ajuda de um pequeno mapa que desenhei num guardanapo. Por fim, deu-me o nmero de telefone 
do atrelado.

Se tiver alguma dificuldade ou precisar de alguma coisa, ligue para aqui pediu.

Obrigada, Jack.

Est com ar de quem precisa de um abrao observou, passando  aco antes que eu pudesse protestar, no que no estivesse com vontade de o receber.

Apertou-me contra si e eu pousei a cabea no seu ombro.

As coisas iro melhorar garantiu-me. Ver. E por razes objectivas e lgicas acrescentou com um sorriso.

As suas palavras trouxeram aos meus lbios o sorriso de que estes to desesperadamente necessitavam. Depois sa, para ir ter com a minha tia Jeanne.

208


As indicaes de Jack revelaram-se perfeitamente claras. Cheguei a casa da minha tia cerca de meia hora mais tarde. James, seu marido, era um advogado de sucesso; 
no entanto, a famlia dela, os Tate, era uma das mais abastadas do Hayou. A casa onde morava, embora no to ampla como Cypress Woods, impressionava.

Entrei na propriedade atravs de uma avenida ladeada de enormes carvalhos e ciprestes, cujas ramadas mais altas e frondosas formavam como que um dossel e onde sombras 
longas e refrescantes protegiam o caminho, dando-me a impresso de que atravessava um tnel que conduzia a outro mundo. A casa estava rodeada por acres e acres de 
campos e jardins.  minha esquerda via-se um lago, cuja gua se encontrava coberta por uma ilha de folhas de nenfares. A casa em si era formada por uma estrutura 
trrea e comprida, com uma varanda que se estendia por toda a frente e um dos lados. A comunicao entre o interior e a varanda era feita atravs de portas altas 
envidraadas.

Estacionei o carro e apeei-me com lentido. Das traseiras chegou at mim o zunir de segadeiras e vi um jardineiro a podar flores num jardim ao fundo,  direita. 
Os canteiros estavam cheios de hibiscos e hortnsias cor-de-rosa e azuis em flor. No meio do jardim erguia-se uma fonte de trs andares. Esquilos cinzentos corriam 
 volta do jardineiro, alguns to prximos que ele poderia fazer-lhes uma festa se estendesse a mo. Ergueu o olhar para mim; porm, retomou de imediato o seu trabalho, 
como se estivesse a ser vigiado por algum invisvel.

O cu da manh apresentava-se sulcado por nuvens longas e finas que faziam lembrar nvoa a pairar sobre o fundo azul-claro; no entanto, reparei em cmulos de trovoada 
para os lados do golfo, deduzindo que chovia em Nova Orlees. Ao aproximar-me, dois cardeais esvoaaram pela varanda e a seguir pousaram para olhar para mim. No 
havia dvida de que a casa da tia Jeanne estava situada num local idlico, mgico e tranquilo, pensei. Subi rapidamente os degraus e fiz-me anunciar servindo-me 
do batente de cobre. Instantes depois, apareceu um mordomo.

Desejo ver Mistress Pitot disse-lhe.

Quem devo anunciar, mademoiselle! perguntou-me. Muito mais novo que Aubrey, devia ter entre trinta e cinco

e quarenta anos e o cabelo era castanho-claro e os olhos cor de avel. Esguio, era senhor de um nariz pontudo, e os lbios, que formavam uma linha fina, encontravam-se 
naquele momento tensos, aguardando a minha resposta.

209


Pearl Andreas informei.

O mordomo dirigiu-me um aceno de cabea e afastou-se para me deixar entrar. Depois de ele fechar a porta atrs de mim, parei, expectante.

Um momento, s'il vous plat disse.

Olhei em torno, apreciando o vestbulo. A casa era bem iluminada, com janelas por todo o lado, que deixavam o sol entrar a rodos. O soalho era feito com uma madeira 
de cipreste magnfica e as paredes estavam pintadas em tom de casca de ovo e decoradas com pinturas campestres e cenas de pescadores no canal. Mesmo  minha frente, 
erguia-se um relgio de p alto em carvalho mesclado e, ao lado, uma ventoinha de marfim com figuras femininas, em trajes de baile, pintadas nas ps douradas. Momentos 
depois aparecia a tia Jeanne, de roupo rosa-vivo e chinelos japoneses, atravessando apressadamente o corredor na minha direco, com uma expresso de alegria no 
rosto. O longo cabelo castanho-escuro caa-lhe pelos ombros, solto.

Pearl! Que surpresa maravilhosa! Estendeu-me as mos e atraiu-me contra o seu peito, num abrao carinhoso. O teu pai est contigo?

No, tia Jeanne respondi. Fez uma careta de preocupao.

A tua me continua desaparecida?

Respondi que sim com um aceno e ela sacudiu a cabea, suspirando.

Que horror para vocs! Como se j no bastasse tudo o que aconteceu. Como vai o Pierre?

No est nada bem. Na verdade, piorou bastante.  por isso que me encontro aqui. Tenho de encontrar a minha me. O meu irmo precisa dela. Esperava que tivesse notcias 
suas.

Lamento muito mas nem uma palavra, uma slaba. Nenhuma das pessoas a quem perguntei por ela a viu ou sabe dela. Mas certamente acabar por aparecer acrescentou. 
Anda disse, pegando-me na mo, a minha me e eu ainda estamos a tomar o pequeno-almoo. Tens fome?

No respondi.

No esperava ver Mrs. Tate. As pernas comearam a tremer-me e o corao acelerou.

Que tal te parece a nossa casa?

 bonita e muito tranquila respondi.

 verdade. Adoro partilh-la com pessoas que me so queridas. Tens de ficar aqui esta noite. Promete pediu.

210


- No posso respondi. No entanto, aceitarei o convite para outra noite qualquer apressei-me a acrescentar ao ver

que

o sorriso dela se desvanecia.

- Bom, se prometes, permito que no fiques esta noite. Vem conhecer a minha me.

Puxou-me consigo e eu olhei para a primeira diviso, uma agradvel sala de estar em tons de azul-porcelana.

Grande parte do mobilirio  constitudo por antiguidades explicou a tia Jeanne. O James adora comprar e restaurar peas.  o seu passatempo. Entusiasma-se mais 
diante de um achado valioso do que com os seus casos jurdicos. J reparaste naquele sof? perguntou, apontando. Est forrado com o material de uma colcha feita 
 mo e a cadeira ao lado  de mil e oitocentos. O James tem no seu gabinete uma autntica secretria crioula francesa de plantao feita de pau-rosa e nogueira. 
Alm disso encheu as paredes de facas, espadas e elmos que datam da ocupao espanhola da Luisiana. Oh exclamou, parando para me dar mais um abrao, estou to contente 
por teres vindo finalmente aqui! Apesar das circunstncias terrveis.

Obrigada, tia Jeanne agradeci, sustendo a respirao quando entrmos na sala de jantar.

Mrs. Tate estava de costas para ns. Sentada  mesa numa cadeira de rodas, mastigava lentamente um pedacinho de torrada. A tia Jeanne fez-me dar a volta at ficar 
de frente para ela, para que no tivesse de virar a cabea.

Olha quem est aqui, me.

A artrite fizera com que a cabea de Gladys Tate parecesse enterrada no meio dos ombros. Tinha o cabelo grisalho curto to ralo que se lhe viam zonas de couro cabeludo. 
O rosto estava cheio de rugas, sobretudo na testa, queixo e em volta dos olhos escuros aguados. O roupo rosa e azul tornava-a ainda mais murcha e franzina. Pendia-lhe 
dos ombros delgados, rodeando-a. Os meus olhos foram imediatamente atrados para as suas mos. Tinha os dedos inchados nas articulaes e curvos como garras. A ntida 
ateno de que as suas unhas eram alvo Parecia bizarra assim como o resto da sua maquilhagem. Tinha a cara demasiado empoada e o bton era excessivo, o que lhe dava 
um ar apalhaado. Tudo para disfarar a sua palidez doentia, reflecti.

No sorriu. Mergulhou o olhar inexpressivo no meu e a seguir os seus lbios finos tremeram, esboando um sorriso sardnico. Pousou a torrada no prato, tomou um gole 
de caf e abanou a cabea.

211


 ela, ? inquiriu, por fim.

No  linda, me?

Gladys Tate lanou um olhar reprovador  tia Jeanne e depois voltou a olhar para mim, mirando-me to minuciosamente que me senti um espcime sob a lente de um microscpio

Tem um rosto agradvel admitiu. Mostra mais parecenas com o pai do que com o lado dos Landry. O que  uma bno para ti acrescentou, acenando-me com a cabea.

A minha me  considerada uma das mulheres mais bonitas e talentosas de Nova Orlees declarei, fixando nela o mesmo olhar atento com que me brindava. Ficarei muito 
orgulhosa e grata por me compararem a ela seja em que aspecto for.

Ora disse, levando a torrada  boca.

Reparei que no conseguia fechar suficientemente os dedos para a manter segura. Mastigava com lentido e via-se que engolia com esforo. No caso dela, a idade parecia 
mais uma doena do que uma fase natural.

Pearl, fazes o favor de te sentar e de comer alguma coisa insistiu a tia Jeanne.

Fiz-lhe a vontade e uma criada serviu-me imediatamente uma chvena de caf.

Tens aqui compota caseira ofereceu a tia Jeanne, indicando o recipiente que ocupava o centro da mesa.

Os pezinhos ao lado tinham um aspecto delicioso. Agradeci-lhe e peguei num, barrando-o com um pouco do doce que retirei com a faca da manteiga. A minha tia pediu-me 
ento que lhe falasse mais de Pierre e eu descrevi-lhe o seu estado.

Mrs. Tate no perdia pitada do que eu dizia ou fazia.

Que idade tens agora? perguntou num tom spero, nitidamente desinteressada da nossa tragdia.

Quase dezoito, minha senhora.

Acabou agora o liceu, lembra-se, me? Foi a melhor aluna e vai para a universidade tirar Medicina.

Mrs. Tate sorriu afectadamente, aprofundando as rugas.

Era suposto o teu pai tambm se tornar mdico disse, acrescentando rapidamente: No fiques admirada por eu estar to bem informada sobre os teus pais. No sei se 
sabes mas por pouco no foste criada aqui. Era o que devia ter acontecido.

Vejamos, a me prometeu nunca mais tocar nesse assunto.

212


A idosa olhou para a filha com os olhos glidos e acinzentados a lanar chispas demonacas.

Prometi, mas de que servem as promessas? Ser que as pessoas as mantm? As promessas mais no so do que mentiras elaboradas declarou.

Devia ter tido um ataque pouco grave recentemente, pensei, ao reparar que o canto esquerdo da boca lhe tremia, enquanto o outro se conservava imvel. Tambm o olho 
do mesmo lado estava um pouco mais fechado.

No sei qual  a sua opinio, Mistress Tate declarei, mas o certo  que hei-de ser mdica.

A idosa pareceu, por momentos, impressionada. Depois mordiscou a sua torrada.

Sabes continuou, o meu filho Paul teria sido um bom pai para ti. Claro que eu no queria que isso lhe acontecesse, mas ela enfeitiou-o.

Me!

Cavara-se uma linha esbranquiada em torno dos lbios tensos e odientos de Mrs. Tate.

No me contraries. De feitios percebo eu declarou. H aqui pessoas que pensam que a tua bisav era uma curandeira, uma traiteur, como lhe chamam, mas eu sei a verdade. 
Era uma bruxa. Contei ao Paul. Implorei-lhe que se mantivesse afastado da cabana, daquela casa demonaca, mas ele estava deslumbrado, condenado.

Se a me tenciona continuar a falar desse assunto, terei de levar a Pearl para comer noutro lado. Ela no tem culpa do passado.

Ento de quem  a culpa? Minha? Olha para mim disse, erguendo as mos em forma de garra. V o que aquela mulher me fez. Amaldioou-me. E porqu? Por ter tentado 
salvar o meu filho. O meu filho gemeu.

Desculpa pediu-me a tia Jeanne.

No se preocupe. O sofrimento distorce o raciocnio das pessoas afirmei. Lamento que sofra de artrite. Mistress Tate, mas olhe que o facto no se deve a nenhuma 
maldio. Calculo que o seu mdico lhe tenha diagnosticado artrite reumatide observei. Est a tomar algum medicamento anti-inflamatrio?

Medicamentos, ora! Tenho armrios cheios de medicamentos que no me fazem nada murmurou.

Talvez fosse boa ideia ir a Nova Orlees consultar um especialista.

J fui a especialistas, nenhum deles vale um chavo. J te disse,  uma maldio. No h medicina que me valha.

213


Isso no pode ser, Mistress Tate. Acho que...

Achas o qu? Ests a ouvi-la, Jeanne, ela acha. Que arrogncia. Por acaso j s mdica?

No, mas...

Nesse caso no tens de te pronunciar ripostou a \ velha. Jeanne, d-me um dos meus comprimidos. Esses ao menos impedem-me de sofrer.

Est bem, me respondeu a tia Jeanne, olhando para mim e levantando-se.

Mal saiu da sala, Mrs. Tate pareceu sofrer um assomo de energia. Inclinou-se para mim com olhinhos cheios de vivacidade.

Fala-me da tua me. Rpido.

Expliquei de novo o que acontecera a Jean e a razo que levara a minha me a voltar ao Hayou.

A histria pareceu delici-la. Sorriu e recostou-se.

 verdade... proferiu. Ela  responsvel e as coisas no ficaro por a at ela...

At ela o qu?

Morrer afogada, tal como o meu filho declarou amargamente.

Pareceu-me ver o seu rosto murchar e deformar-se sob a fora do dio que sentia. Ver semelhante transformao encheu-me de ira; a minha espinha foi percorrida por 
um arrepio. Olhei-a nos olhos, com igual amargura.

O que est a dizer  horrvel. A senhora no s est doente do corpo como tambm da mente. O meu pai tinha razo. Os seus valores esto completamente distorcidos 
e o seu dio fez de si essa... essa criatura! gritei, pondo-me de p

Pearl! exclamou a tia Jeanne, entrando na sala. O que aconteceu? Me, o que foi que disse?

Apenas a verdade murmurou a velha. D-me o comprimido.

Sa da sala a correr, sentindo o corao a ribombar e o rosto vermelho de raiva e medo.

A minha tia apanhou-me ia eu a descer os degraus da entrada.

Pearl, espera! Por favor! No deves dar-lhe ouvidos. Pearl! Ela no est bem.

No, no est. Tanta maldade e dio est a corro-la por dentro declarei. Tive esperana e rezei para que, por qualquer razo, a minha me tivesse vindo ter consigo. 
Sempre gostou de si, mas agora vejo porque tal jamais teria sido possvel acrescentei, olhando para trs.

214

Pode ser que ela ainda me telefone. Pearl...

Vou voltar para Cypress Woods anunciei. Foi onde esteve recentemente.

Em Cypress Woods? Oh, valha-me Deus. Espero que esteja bem. Pobrezinha. No h nada pior do que perder um filho. Olha como a minha me ficou.

Abrandei, pois ela tinha razo. No havia desculpa para todo aquele dio que dominava Gladys Tate, mas compreendia-se que achasse que o mundo fora cruel para ela.

Volta para dentro, Pearl. A minha me acalmar e ir dormir. Assim, ns as duas j poderemos conversar.

Agradeo-lhe, tia Jeanne, mas no ficaria descansada de tanto pensar no Pierre e nos meus pais.

Mas que contas fazer em Cypress Woods?

Esperar, ter esperana, continuar a procurar respondi. Passarei outra vez pela cabana para ver se ela l voltou e depois voltarei para Cypress Woods.

Eu teria muito gosto em colaborar contigo nessa busca, mas no posso deixar a minha me sozinha explicou.

Eu ficarei bem, tia Jeanne.

A minha me vai voltar para a sua casa amanh. A partir dessa altura podes vir ficar aqui comigo, est bem? Se quiseres, tambm te farei companhia nas tuas voltas.

Depois se v. Esperava no ser obrigada a estar ali no dia seguinte. Obrigada.

Abramo-nos e eu fui andando em direco ao carro. A minha tia ficou  entrada, de braos cruzados, sorrindo-me esperanosamente. Vi o mordomo aproximar-se dela 
e ouvi-o pronunciar:

Mistress Tate deseja v-la imediatamente, minha senhora. A tia Jeanne disse-me adeus e eu meti-me no automvel e

afastei-me, compreendendo naquela altura um pouco melhor o tormento e a tristeza em que a minha me vivera enquanto fizera parte da famlia Tate.

 primeira vista, a cabana parecia estar na mesma. No entanto, o carreiro por entre a erva alta afigurava-se-me mais pisado, mas no tinha a certeza. A porta da 
frente da cabana Pendia agora da dobradia de baixo, estando a de cima partida. Quando entrei, recebi um choque tremendo. As poucas peas da velha moblia que restavam 
haviam sido reviradas e atiradas como se fossem de brinquedo. O sof tinha as pernas Partidas e assim estavam os braos da cadeira de balouo. No

215


stio da parede contra a qual uma cadeira fora atirada, viam-se marcas.

A cozinha estava pior. A mesa fora virada de pernas para o ar, e as tbuas de madeira de cipreste encontravam-se rachadas e partidas. O fogo a lenha fora afastado 
da parede e as prateleiras, por cima, desmanchadas.

A viso daquela destruio to selvtica encheu-me de terror. Espreitei pela escada que conduzia ao piso de cima. A minha me no poderia ter cometido semelhante 
loucura, pensei. Nem mesmo sob a aco de uma raiva tremenda teria foras para tanto. Mas ento quem fora? E porqu?

Hesitante mas curiosa, comecei a subir as escadas. Os degraus rangiam to violentamente que tive medo de que cedessem sob o meu peso. Olhei pela porta do primeiro 
quarto com que deparei e fiquei de boca aberta. Algum esventrara o colcho, cujo recheio estava espalhado por todo o lado e nas paredes tambm se viam golpes fundos.

De repente, ouvi um pequeno estrondo e, por um momento. o corao caiu-me aos ps. O meu primeiro impulso foi dar meia volta e correr escadas abaixo; no entanto, 
o pnico pregou-me ao mesmo stio. O barulho repetiu-se. Parecia vir de baixo e de trs da casa. Respirei fundo, virei-me e desci os degraus lenta e silenciosamente, 
de ouvido  escuta.

Os barulhos cessaram mas eu tinha a certeza de que no os imaginara. O silncio era mais assustador. Com o corao a bater violentamente, sa da cabana e olhei  
volta, para o terreno circundante. Do outro lado do carreiro, um mocho, empoleirado no ramo grosso de um pltano, olhava-me como que desconfiado. Agitava as asas 
nervosamente e virava-se sobre o ramo A certa altura levantou voo e passou por cima de mim, afastando-se. Voltei a respirar fundo e fui dar a volta  cabana. Ouvi 
algo escapulir-se no meio das ervas e, ao ver uma cobra-boca-de-algodo enroscada em cima de uma pedra a apanhar sol. parei. No conseguia engolir. Tinha medo de 
fazer um som que fosse.

Nesse momento ouvi algo a chapinhar na gua do canal e acerquei-me rapidamente da esquina da casa, a tempo de ver algum desaparecer na curva, remando numa piroga. 
Voltei-me lentamente para as traseiras da cabana e reparei que algum andara a atirar bolas de lama contra a sua parede. Mas porqu? Que significaria toda aquela 
raiva e destruio? Seria apenas vandalismo?

Voltando silenciosamente pelo carreiro estreito que ia ter  frente da casa, meti-me no carro cheia de pressa. Fiquei

216


sentada durante algum tempo, a reflectir. Depois resolvi ir at  cidade antes de voltar a Cypress Woods. Tinha a garganta to seca que parecia lixa. Precisava de 
uma bebida fresca. Parei num pequeno restaurante chamado simplesmente "Cozinha da Av". Tinha um balco em frmica branca, com dez banquetas e cerca de uma dzia 
de mesinhas de dobrar e cadeiras de madeira. O cheiro a caranguejo, gumbo e jambalaya agitou-me o estmago e eu apercebi-me de que a montanha-russa emocional em 
que eu andara despertara-me uma fome avassaladora.

Atrs do balco estava um homem baixo e careca e, a seu lado, uma mulher corpulenta de sorriso simptico, enormes olhos castanhos e o cabelo castanho-escuro fortemente 
preso com ganchos num coque atrs da cabea. Ambos exibiam aventais brancos onde se lia "Cozinha da Av, Houma, Luisiana". Trs das mesas encontravam-se ocupadas, 
uma com um grupo de senhoras de idade, metade das quais me fitaram com curiosidade.

Viva cumprimentou a mulher corpulenta. Vem almoar?

Um quadro negro anunciava que o prato do dia era caranguejos recheados.

Venho sim, se faz favor respondi, escolhendo a mesa mais prxima.

A mulher deu a volta ao balco.

Bem, no temos lista escrita mas nesta casa nunca falta a tarte de caranguejo, sanduches variadas e a jambalaya especial do Billy.

O homenzinho careca assentiu com a cabea e sorriu.

Tudo acompanhado com arroz integral da regio continuou a mulher. Hoje tambm temos quiabos e tomates guisados, se gostar.

Quero a jambalaya e uma limonada, se faz favor pedi.

Ouviste, Billy?

 pra j retorquiu o homenzinho, deitando mos ao trabalho.

Est de passagem? perguntou a mulher, continuando a meu lado.

 verdade respondi.

Ficou a olhar para mim como se pressentisse que eu tinha algo mais para dizer.

A minha me j viveu aqui acrescentei. Agora voltou e eu... conto juntar-me a ela.

217


- Eu nunca sa daqui. Como se chama a sua me?
- Ruby - respondi.

- Ruby? No me diga que  a Ruby Landry! - Ao ver-me acenar afirmativamente com a cabea, acrescentou, excitada: - A menina  filha da Ruby Landry?

- Sou.

- Escutem aqui - declarou, dirigindo-se para quem estava presente na sala. - Est aqui a filha da Ruby Landry. Todos Pararam de comer e olharam para mim.

- Eu sou a Ella Thibodeau - apresentou-se a mulher. A minha av foi amiga da sua bisav. Onde est a sua me? Caramba, como eu gostaria de a ver! Andmos juntas 
na escola. Ela no tarda a, ?

-No sei. Ela desconhece que vim ter com ela.

- Oh! - Sorriu, no entanto os seus olhos reflectiram a confuso que sentia. - H muito tempo que a Ruby no aparece por c. Ouvi dizer que agora  uma pintora famosa 
em Nova Orlees. Vem c pintar alguma coisa?

- Isso mesmo - menti.

Apressei-me a desviar o olhar. o meu pai sempre dissera que o meu rosto era um livro aberto. Qualquer pessoa podia ler os meus pensamentos.

- A Ruby deve ter ido l para cima, para Cypress Woods,  uma tristeza terem deixado aquele lugar to bonito arruinar-se. Espero que ela o recupere - sussurrou. 
- A maluca da Gladys Tate no deixa ningum aproximar-se de l, nem mesmo para consertar uma persiana estragada. E aqueles campos maravilhosos... - Deu um estalo 
com a lngua. - Foi uma tristeza, uma tragdia. Pobre Paul Tate. No havia rapariga aqui do stio que no andasse pelo beio por ele, sabe, mas realmente ele s 
tinha olhos para a sua me. Sabamos que a Gladys Tate no gostava dela. Mistress Tate andava sempre de nariz empinado, ningum era suficientemente bom para os Tate.

"De modo que, quando a Ruby e o Paul fugiram para casar, ficmos todos satisfeitos por eles. A menina parecia um anjinho. A sua me foi muito corajosa por viver 
naquela cabana sozinha consigo, aguentando com tudo sem ajudas. o Paul levou muito tempo a assumir as suas responsabilidades - disse -, mas quando isso aconteceu, 
construiu aquele palcio para a Ruby. Uma tragdia - repetiu -, alguma maldio antiga, de certeza. Se a sua bisav fosse viva, nada disso teria acontecido
- assegurou-me. - Ela era uma milagreira, sobretudo quando se tratava de curar pessoas.

218
Eu lembro-me...

-Falas de mais, Ella - gritou Billy. - Vem buscar a limonada da senhora.

-Oh, cala essa boca - ripostou-lhe Ella, indo, porm, buscar a limonada e trazendo-a para a minha mesa. - Onde  que eu ia? Ah, j sei, lembro-me de que uma vez 
tive uma dor de ouvidos terrvel. No conseguia dormir para esse lado. Fui ter com a sua bisav Catherine, que me assoprou fumo para dentro do ouvido e depois tapou-o 
com a mo. No dia seguinte, j estava curada. Um remdio simples mas s uma traiteur de mo-cheia  que poderia saber a quantidade de fumo a soprar e como, no  
verdade?

Sorri. - o que me tm dito - observei.
- Anda a estudar?

- No Outono entrarei para a universidade.
- Ah, mas que maravilha - exclamou.

-Aqui est a jambalaya da senhora. Queres dar-lha antes que arrefea? - perguntou Billy.

Ella rolou os olhos e trouxe-me o meu almoo.

- o Billy no  de Houma, mas sim de Beaumont, no Texas - esclareceu, como se o facto explicasse tudo.

- Foi-nos visitar,  minha me e eu, enquanto estivemos emCypress Woods? - perguntei, comeando a comer.

- Eu? No. Nesse tempo a sua me era muito metida consigo e raramente vinha  cidade. o Paul tratava-lhe de tudo. Nunca vi homem mais dedicado  sua mulher. Os de 
Beaumont
- continuou, alteando a voz o suficiente para Billy ouvir -, bem podiam aprender alguma coisa com ele no que respeita a cuidar das suas mulheres.

- Sai de ao p da rapariga e deixa de lhe encher os ouvidos - ordenou-lhe Billy. - Claro, o julgamento pela sua custdia foi chocante. Ainda hoje o povo est convencido 
de que a menina era filha do Paul, isso lhe garanto - declarou a mulher. - Sempre que o via consigo ao colo, ficava toda derretida. Pai ou no, no poderia t-la 
amado mais. Uma tragdia - voltou a repetir. - Bem, diga  sua me para passar aqui para nos vermos, 't bem? Agora que  uma artista famosa em Nova Orlees no 
quer dizer que esquea as velhas amigas.

Disse-lhe que sim com a cabea e ela voltou para o seu lugar ao balco. Fui pensando no que Ella dissera enquanto comia. Durante algum tempo, a vida em Cypress Woods 
devia ter sido idlica para a minha me. Vivia num castelo, com um

219
homem que a tratava como a uma rainha. A sua arte era o nico contacto que mantinha com o mundo exterior.

Ajambalaya estava deliciosa; no entanto, tinha o estmago to apertado que no consegui chegar ao fim. Depois de Ella levar a loua, liguei para o meu pai do telefone 
que estava a um canto. Dessa vez encontrei-o acordado.

L dei cabo de tudo outra vez, no ? lamuriou-se ele. Devia estar a contigo,  procura da Ruby.

Eu estou bem, pai. Tens muitas dores?

Bem as mereo respondeu-me. Escuta, Pearl, no te quero por a s voltas sozinha.  melhor voltares para casa. Daqui a um dia ou dois, quando estiver mais recuperado, 
verei o que h a fazer.

No te preocupes porque est tudo bem, pai. Descobri que a me est aqui. No posso ir-me embora sem ela. O Jack Clovis est a dar-me uma ajuda.

Ah, bem, ao menos que haja algum que o faa disse, ainda arrasado por sentimentos de autocomiserao. Vai-me telefonando para eu estar a par da situao, est bem?

Prometo. Assim que encontrar a me, telefono garanti.

Agora nem sequer posso ir ao hospital ver o Pierre gemeu. Estou uma desgraa acrescentou, comeando a soluar.

Atribu o seu estado emocional aos medicamentos e ao seu sofrimento. Tentei reconfort-lo um pouco mais e depois desliguei e marquei o nmero do hospital. Dessa 
vez consegui falar com a Dra. LeFebre.

Receio que a situao no esteja nada bem informou-me ela. O doutor ligou o Pierre  mquina de dihse. Os seus perodos de inconscincia so cada vez mais prolongados 
e comigo j no reage minimamente. Soube alguma coisa da sua me?

Ando a tentar encontr-la. Estou em Houma.

O tempo no joga a nosso favor alertou-me. A tenso arterial do Pierre est a baixar.

Depois de desligar, a minha expresso preocupada atraiu a ateno de Ella Thibodeau, que se aproximou rapidamente.

Est com algum problema, querida? perguntou. Sacudi a cabea, mas as lgrimas escorriam-me pela cara

No, senhora respondi com voz incerta.

Bem, se precisar de alguma coisa, ligue para ns. O pessoal cajun  muito solidrio.

Agradeci-lhe e paguei a conta. A seguir sa apressadamente, a fim de voltar para Cypress Woods.

220


Durante o caminho, recuperei de novo a serenidade. A conversa com Ella permitira-me ter uma ideia mais precisa de como fora a vida em Cypress Woods. Que teria a 
minha me visto quando regressara ali? Teria ficado ainda mais deprimida ou olhara para o seu antigo lar atravs de uma lente cor-de-rosa? As recordaes t-la-iam 
levado de volta a um tempo em que as flores estavam em boto, as aves cantavam, um tempo de msica e beleza, de conforto e segurana? Considerando tudo o que acontecera, 
j no admirava que tivesse fugido para Cypress Woods e para o mundo onde em tempos fora protegida pelo dinheiro e o amor de Paul e pela magia da sua av Catherine.

Onde estaria aquela magia naquele momento?, perguntei a mim mesma. Precisvamos tanto dela...


13

O PASSADO VEM A JULGAMENTO

Os cmulos de tempestade tinham deslizado insidiosamente na nossa direco ao longo de todo o dia. Quando cheguei a Cypress Woods, j estavam bem por cima de ns, 
rumorejando e anunciando chuva e vento. Segui directamente para a casa; no entanto, uma nuvem rebentou no preciso momento em que parei o carro. Esperei um pouco 
mas, ao ver que o tempo s pioraria antes de abrandar, tapei a cabea com o casaco, precipitei-me para fora do carro e subi os degraus da entrada a correr. O vento 
aoitou-me com pesadas gotas de gua, ensopando-me o rosto.

Entrei na casa e fechei a enorme porta, impedindo assim a entrada da chuva e das rajadas de ar; vi-me no meio da escurido densa que enchia o vestbulo hmido e 
bafiento. Um arrepio perpassou-me, fixando-se como a palma fria de uma mo monstruosa na base da minha nuca. Estremeci e olhei para o cimo da escadaria.

Me! gritei, Ests a?

A minha voz reverberou e o eco fez lembrar algum a atormentar-me, imitando o meu desespero.

"Me, ests a?"

Ao silncio mortal seguiu-se o ranger pesado da estrutura e do piso de madeira. As persianas agitaram-se e a chuva comeou a cair com mais fora. Andaria a minha 
me ali por fora'.' A ideia de ter sido apanhada por aquela tempestade horrorizava-me. As lgrimas deslizavam-me pelo rosto, tal como a chuva que escorria pelo vidro 
da janela, misturando-se com as gotas de chuva que, nele, ainda no se tinham evaporado. Senti outro arrepio percorrer-me e fazer com que os meus dentes batessem. 
Tornava-se imperioso encontrar um lugar mais quente.

Entrei apressadamente na sala de estar que ficava  minha direita e tirei a coberta que tapava o sof. Apesar de poeirenta, embrulhei-me nela como se fosse um cobertor 
e instalei-me

222

num dos cantos, encolhendo as pernas contra o peito e rodeando-as com os braos.

O vento dava a impresso de circular em torno da casa e abra-la, procurando a mais pequena abertura para atravessar, assobiando e aoitando as divises, agitando 
os longos cortinados numa dana macabra e balouando os candelabros agoirentamente l no alto. A tormenta ganhou intensidade. J ouvira dizer que as tempestades 
de Vero no Hayou eram muitas vezes piores do que as de Nova Orlees. Aquela parecia ter o poder de arrancar aquela casa enorme dos seus alicerces e atir-la para 
o pntano.

Me, onde poders estar a esta hora? Corrers algum perigo? murmurei. Quem sabe... encontrar-se-ia no andar de cima, a chorar, encolhida a um canto, tal como eu 
estava ali, naquele sof. Olhei para o tecto, desejando ter o poder, s daquela vez, de ver atravs das paredes.

Um prato decorativo caiu de cima da prateleira de uma estante  minha direita e desfez-se em pedaos no pavimento feito de tbuas de madeira de cipreste. O barulho 
assustou-me e fez-me gritar. O vento tornou-se mais ruidoso, irado. Os candelabros entrechocavam-se como ossos velhos. Numa outra diviso, ao fundo do corredor, 
caiu mais uma pea de vidro, explodindo como um tiro. As gotas de chuva tamborilavam contra as janelas, ziguezagueando e arranhando como unhas afiadas, vidros abaixo. 
O vento que passava livremente pela casa agitava a poeira. Tossi e enterrei o rosto entre as mos, sentindo-me ora gelada ora febril. A tempestade estava cada vez 
mais violenta e tive a impresso de que nunca mais terminaria. As prprias paredes ameaavam ruir, esmagando-me. Estava to escuro que mal conseguia ver a minha 
mo. Foi ento que ouvi a porta da frente abrir-se.

No entanto, tambm a ouvi fechar.

Pearl! Pearl, onde est? gritou Jack.

Nunca me sentira to feliz por ouvir a voz de outra pessoa, sobretudo a dele.

Jack, estou aqui!

Vi-o entrar apressadamente, de impermevel negro luzidio, capuz e botas altas, de lanterna e um embrulho debaixo do brao.

Est bem? perguntou-me, correndo para mim. Pousou a lanterna e tirou o chapu. Depois limpou a nuca molhada pela chuva com a mo.

Esta tempestade horrvel surgiu to de repente queixei-me por entre os dentes, que batiam.

-A rdio alertou-nos sobre a aproximao de tufes

223


contou Jack. A tempestade foi crescendo  medida que entrou pelo continente.

Tirou o embrulho que trazia debaixo do brao. Continha um cobertor e um candeeiro de petrleo, que pousou em cima de uma mesa.

Reparei que vinha para aqui e ainda lhe acenei para que fosse ter comigo ao atrelado, mas a Pearl no reparou.

Despiu a gabardina e colocou-a em cima de uma cadeira. no preciso momento em que nova rajada de vento e chuva embatia contra a casa, levando-me a soltar um grito. 
Jack veio imediatamente para junto de mim e eu refugiei-me entre os seus braos, saboreando o calor do seu corpo.

Pobrezinha, est enregelada reparou, esfregando-me vigorosamente os ombros e os braos.

Os meus dentes no pararam de bater uns contra os outros

Oh, Jack, que vamos fazer?

Esperaremos que isto acabe respondeu-me. Mas no podemos esquecer que tudo o que estiver solto ir pelos ares. Deixe-me acender o candeeiro.

Afastei-me dele para lhe libertar os movimentos. Depois voltou a sentar-se e ofereceu-me de novo o aconchego dos seus braos. A luz da chama tremulante desenhava 
formas distorcidas na parede. Faziam lembrar silhuetas de marionetas grotescas pendendo de cordis e movendo-se ao ritmo do vento

Est mais quente? perguntou Jack.

Estou sim, obrigada. Ningum disse que era um tufo

observei.

s vezes abatem-se sobre ns sem avisar, o que torna excitante viver aqui comentou Jack, sorrindo.

Parece-me que passo bem sem este tipo de excitao Jack riu.

A sua me contactou com a sua tia? Se voltou para Cypress Woods  porque no a encontrou l, como  evidente

concluiu.

No. Tenho a certeza de que tambm no ir l nem falar com quem l est. Conheci a me da minha tia esclareci, fazendo uma careta.

A Gladys Tate?

Disse que sim com a cabea.

Nunca a vi por estes lados, mas j ouvi dizer que  uma pessoa muito rspida. Na verdade acrescentou, logo a seguir, a rapaziada diz mesmo que quem usa calas naquela 
famlia  ela. Sempre que Mister Tate aparece por aqui, tem um ar desgraado. Desde que recebamos o que nos  devido, no tenho nada a ver com isso; portanto, no 
presto muita ateno

224


Jack, voltei  cabana da minha bisav e algum foi ali depois de eu e o meu pai termos l estado. Quem quer que tenha sido, destruiu tudo. Descrevi o estado em que 
a moblia e as paredes tinham ficado. Porque haveria algum de fazer semelhante coisa a um lugar velho e desabitado como aquele? _ perguntei.

- No fao ideia respondeu Jack com ar preocupado.  estranho. Reflectiu por um momento, depois encolheu os ombros. Comeu e bebeu alguma coisa?

Fui  cidade e almocei num restaurante chamado Cozinha da Av.

Na casa da Ella? A comida  ptima, no ?

Andou na escola com a minha me. No lhe falei da verdadeira razo que me trouxe at c disse. Nem da cabana.

Bem, no tarda nada que todos saibam o que aconteceu. O meu pai diz que, aqui no Hayou, ter telefone  desperdiar dinheiro. Uma pessoa conta algo a outra e, antes 
desse dia chegar ao fim, j toda a gente sabe.

As pessoas cajuns so realmente chegadas, no so?

Formam uma grande famlia respondeu Jack orgulhosamente. Mas tambm temos as nossas contendas, como toda a gente.

Eu sou meia cajum afirmei. No entanto, tenho a impresso de que estou noutro pas.

A minha av costumava dizer que uma pessoa s se torna cajun de trs maneiras: pelo sangue, pelo casamento ou pela porta das traseiras. Pois eu digo-lhe uma coisa: 
a Pearl tem a genica de uma cajun. Aposto que poucas raparigas elegantes de Nova Orlees viriam aqui sozinhas, por muito importante que fosse.

No sei que mais poderia fazer. A minha me no est em casa, o meu irmo tem vindo a piorar a cada dia que passa, o meu pai tem uma perna partida...

Jack abanou a cabea com ar pensativo. De repente, apercebi-me de que a tempestade chegara ao fim. Reinava na casa um silncio sepulcral e o ar estava parado.

Acabou disse, aliviada. Jack sacudiu a cabea.

O olho do furaco est agora a passar por cima de ns. Vem a mais preveniu.

De facto, momentos depois, o vento recomeou a assobiar Pela casa, fazendo bater as persianas, e a chuva voltou a tamborilar fortemente sobre os j abalados caixilhos 
das janelas. No

225


piso de cima, uma rajada de ar rebentou com uma janela, que ouvimos estatelar-se no meio do cho.

Encolhi-me e Jack apertou-me contra si. O meu corao batia to fortemente que eu tinha a certeza de que ele pensava que era o seu.

No lhe acontecer nada de mal assegurou-me, mais uma vez.

Senti os seus lbios sobre o meu cabelo, o seu hlito quente sobre o meu rosto. O terror desencadeado pelo furaco, a longa tormenta de tristeza que recara sobre 
ns, assim como a situao desesperada em que nos encontrvamos, fizeram-me ansiar pela tranquilidade e segurana que encontrava nos braos de Jack, uma pessoa meiga, 
afectuosa e muito sensvel.

Enterrei o rosto no seu ombro, incapaz de conter as lgrimas. Jack abraou-me com fora e consolou-me, enquanto eu soluava. Conhecamo-nos h pouco tempo, mas a 
sua sinceridade fazia com que esse perodo curto representasse anos. O vento uivava, a chuva fustigava a casa, mais objectos caram e quebraram-se, mais uma janela 
foi pelos ares. O mundo parecia estar a abrir uma fenda por onde ns iramos cair. A tonalidade prpura do cu comeara a acentuar-se e a escurido a aumentar. A 
chama do candeeiro de petrleo tremeluzia a duras penas.

Caramba sussurrou Jack, dando a perceber que mesmo ele, que nascera e vivera ali toda a vida, estava impressionado com aquele furaco. A casa continuava a tremer. 
Tudo o que se encontrava preso, abanava. Agarrmo-nos um ao outro quais dois nufragos desesperados tendo por nica salvao uma jangada num mar revolto. O vento 
aumentou e abrandou, lanando repetidas rajadas de chuva contra a casa.

Foi ento que, to repentinamente como tinha comeado, a tempestade terminou. A Me Natureza relaxou e saiu de cima de ns com a tempestade no seu encalo, dirigindo-se 
para norte, a fim de lembrar outros de quo poderosa podia ser e do quanto a devamos respeitar. Jack afrouxou o forte amplexo com que me prendera e ambos respirmos 
de alvio.

Ter mesmo acabado? perguntei, ainda cptica.

Acabou respondeu. De vez. No vou gostar nada de ir l para fora amanh de manh e deparar com toda a destruio que causou. Sente-se bem?

Disse que sim com a cabea, porm no me afastei do seu lado. A minha pulsao abrandara, mas a lassido que sentira anteriormente nas pernas ainda no desaparecera. 
No estava com grandes foras para me levantar. Jack acariciou-me o cabelo com a mo esquerda.

226


Por quantas destas tempestades j passou? perguntei-lhe.

Algumas, mas esta foi de arrasar.

Eu nasci durante uma tempestade contei-lhe. A minha me falou-me do que passou e de como o meu tio Paul esteve ao seu lado a ajud-la no parto.

Ento, isso explica tudo exclamou Jack.

Explica o qu?

De onde lhe vem essa genica... do furaco. Deixou a sua marca no seu corao. Aposto que impe respeito quando se zanga.

No... Bem, talvez reconheci. Jack riu-se.

No tenciono investigar. Portanto declarou, voltando a sentar-se, que tenciona fazer agora?

Nada. Vou ficar aqui  espera respondi.

Certamente no acha que a sua me voltar, pois no?

Acho, sim retorqui. Ela sabe que eu estive aqui. No poder deixar de voltar.

Jack reflectiu por um momento.

Muito bem disse, por fim. Vamos at ao atrelado buscar umas coisas e ver at onde chegaram os estragos causados pelo furaco, e depois voltamos.

No, prefiro ficar aqui insisti. Ia iniciar uma busca pela casa quando a tempestade se desencadeou. Talvez a minha me esteja escondida nalgum stio.

No h dvida de que possui a teimosia dos Cajuns. Quando tomam uma deciso, nada os faz voltar atrs observou Jack. Est bem. Espere por mim aqui. Quando eu voltar, 
passaremos a casa em revista juntos. Vou buscar alguma coisa para o nosso jantar.

No tenho fome.

Mas ter assegurou-me ele. Deixarei o candeeiro, mas prometa-me que esperar por mim antes de se pr a andar outra vez pela casa.

Prometo declarei.

. Jack ficou a olhar para mim por uns instantes e depois sorrriu-me naquele seu jeito suave e discreto que eu comeava a adorar. Retribu o gesto e inclinei-me de 
modo a que os meus lbios se entreabrissem ao de leve, convidando os dele. Beijmo-nos. - Volto j prometeu-me num sussurro, vestindo a gabardina luzidia e colocando 
o chapu. No saia da.

No se preocupe, no sairei prometi.

227


Jack riu e retirou-se apressadamente.

Olhei  minha volta. No auge da tempestade, correra a abrigar-me, sem reparar no refgio que escolhera. Agora, mais calma, ergui os olhos para o enorme quadro a 
leo que mostrava uma angra nos pntanos. Embora estivesse demasiado escuro para ver os pormenores, uma viso breve faiscou na minha mente e vi a gara noctvaga 
de bico grosso passar, clere, sobre as guas.

De repente, veio-me  memria uma srie de recordaes de infncia. Vi-me a espreitar pela enorme escadaria que, na altura, parecia-me o Grande Canyon. Ouvi risos 
no corredor, a gargalhada intensamente meldica do meu tio Paul, que me sorria efusivamente sempre que me via. Senti-o levantar-me e levar-me aos ombros pela casa. 
Rememorei deliciosos aromas da cozinha. Vi a nossa cozinheira a trabalhar sobre os foges e a mandar a ajudante cortar isto e misturar aquilo. Todas as pessoas que 
povoavam as minhas recordaes eram grandes, gigantescas nas palavras e nos feitos.

 medida que as recordaes iam fluindo, a casa, naquele momento to escura e apavorante, ressuscitava na minha memria. Segundo as minhas recordaes, era luminosa, 
quente e cheia de vida. O tio Paul pendurava um dos quadros da minha me. enquanto eu me mantinha ao lado desta, segurando na sua mo e maravilhando-me com a magia 
que sara dos seus dedos. Com um trao de pincel, ela conseguia encher um rosto de vida ou fazer aves voar ou peixes saltar. Ouvi msica e mais risos. Via-se gente 
por todo o lado, no havia sala ou canto que parecesse deserto ou frio. E de uma janela, provavelmente do meu quarto, via os jardins, ensolarados e luxuriantes de 
flores com todas as cores do arco-ris.

Ficara com a impresso de que, um dia, eu e minha me havamos fugido daquela casa e que, por tudo ter sido to rpido e definitivo, as minhas recordaes haviam 
mergulhado at aos meandros mais recnditos da minha mente. Era quase como se eu tivesse receio em deix-las vir  tona, de arrastarem consigo algum pesadelo horrendo.

Os poos de petrleo trabalhavam no meio da noite. Criaturas deslizavam ao longo das margens do pntano e a gua escureceu, apavorante, ocultando o rosto que se 
reflectiria na sua superfcie, um rosto que ainda me estava velado.

Pestanejei, e as recordaes desapareceram com a mesma rapidez com que tinham chegado. Dei comigo de novo no presente, naquela casa escura e hmida,  procura da 
minha me. na esperana de a encontrar antes que fosse demasiado tarde para todos ns.

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No me mexi at Jack voltar, e este, ao ver-me no mesmo stio, riu-se. Trazia uma caixa de carto cheia de comida e bebida.

Est demasiado escuro para ver como deve ser, mas h rvores por terra, ramos espalhados, gua a correr por tudo quanto  lado. O atrelado aguentou-se bem, embora 
tenha ficado sem telefone, mas s pela manh  que poderei inspeccionar a maquinaria. Vou pousar isto em cima da mesa da sala de jantar disse, indicando a caixa 
de carto. Pegue no candeeiro e v  frente.

Assim fiz. O cu ainda estava intensamente carregado, o que tambm escurecia muito a casa. O candeeiro lanava um claro de luz turva no cho e nas paredes e,  
medida que percorramos o corredor, o negrume parecia colar-se a ns. Pequenos ratos-do-campo escapuliam-se para dentro de buracos no maiores do que uma moeda de 
vinte cntimos. Ouvia arranhar e correr apressadamente noutras divises, pelo que depreendi que outros animais tambm se tinham refugiado da tempestade ali dentro.

A mesa da casa de jantar estava coberta por um pano que o tempo amarelecera. Puxei-o para trs e Jack pousou a caixa de carto. Sem largar o candeeiro, olhei para 
as paredes, o tecto, o grandioso candelabro e as janelas amplas. Tive lampejos de velhas recordaes. Em criana, aquela mesa parecera-me ter quilmetros de comprimento 
e largura. A imagem do tio Paul sentado  cabeceira faiscou na escurido como um fantasma, e eu sobressaltei-me.

O que foi? perguntou Jack. Sacudi a cabea.

Nada, est tudo bem.

Quer dar mais uma vista de olhos  casa?

Se no se importa repliquei.

Jack pegou-me na mo e segurou o candeeiro com a outra. Fomos ento verificar a cozinha e as despensas, assim como as salas de estar, antes de descermos ao piso 
de baixo. Vi, atravs de uma janela ao fundo do corredor, faiscar  distncia. Eu agarrava-me fortemente  mo de Jack, massacrando-lhe os dedos, mas ele parecia 
no se importar.

Fomos ver ao meu quarto de criana, espreitmos nos armrios, demos uma vista de olhos no quarto de hspedes, nos aposentos do tio Paul e da minha me, mas, desta, 
nem sinal.

Onde poder ela estar com uma tempestade to grande reflecti em voz alta.

Talvez esteja com algum de quem pouco falou. Quem

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sabe se no encontrou alguma cabana desabitada e se instalou nela, ou ento foi para um motel. Esta noite pouca coisa pode fazer, Pearl, com os telefones cortados 
e as estradas interrompidas em vrios pontos. Mais vale descontrair-se o melhor que puder.

 provvel que tenha razo reconheci, suspirando e apercebendo-me de que tinha a garganta seca e a lngua spera. Estou cheia de sede.

Trouxe gua e um pouco de vinho de mirtilo anunciou Jack, acompanhando-me de novo at  escadaria. O jantar ser de restos de ontem  noite, mas fui eu mesmo quem 
preparou tudo.

Ri-me ao ver o orgulho com que Jack falava dos seus cozinhados.

E que fez ontem  noite?

Peixe assado. O Bart e o Lefty tinham combinado comer comigo, mas foram antes a uma jantarada de caranguejo " discrio" disse, enquanto descamos as escadas.

Porque no foi com eles?

No me apetecia respondeu.

No tem namorada, Jack? perguntei.

No lhe podia ver o rosto quando se virou para mim, mas desconfiei de que sorria.

J tive algumas, mas nada de srio.

Porque no?

Apenas isso retorquiu, nada de srio. Na sua maioria, as raparigas que conheci so...

So o qu? perguntei, intrigada.

Cabeas-de-vento respondeu ele, fazendo-me rir. O Bart diz que uma mulher no precisa de ter muito na cabea para emparceirar com um homem, mas no  esse o tipo 
que me agrada continuou.

Voltmos  casa de jantar, onde Jack pousou o candeeiro em cima da mesa e comeou a retirar as coisas de dentro da caixa de carto. Vinha tudo cuidadosamente embrulhado 
em papel de alumnio. Serviu-me um copo de gua.

Obrigada, Jack agradeci, bebendo rapidamente a gua, que estava fresca.

Quer mais?

Para j, no, obrigada.

O seu rosto parecia lustroso mas tranquilo sob o fulgor do candeeiro, e os seus olhos brilhavam.

Que tipo de mulher prefere, Jack? insisti.

Algum com quem possa conversar sobre coisas importantes, uma companheira, no apenas uma...

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Apenas uma qu?

Apenas uma mulher replicou Jack, voltando-se de novo para a caixa de carto. Trouxe um fogo esterno pequeno para aquecer o molho. Receita da minha av; trs chvenas 
de maionese caseira, seis gotas de Tabasco, quatro colheres de ch de sumo de limo, meia-chvena de alcaparras, uma colher de ch de molho de alcaparras e duas 
colheres de sopa de mostarda seca

Deve ser uma maravilha. Reconheo que de cozinha no percebo nada. L em casa temos uma cozinheira, alis desde sempre. Ao ver que Jack ficava calado, acrescentei; 
Acha-me uma menina rica e mimada?

-No me parece mimada observou ele. Raparigas mimadas e cabeas-de-vento mimadas j eu conheci muitas disse, fitando-me atentamente. A Pearl no se assemelha a nenhuma 
delas

Ainda bem. Quer que ajude nalguma coisa?

Claro, Tome disse, estendendo-me uma toalha, guardanapos e talheres. Ponha a mesa

Sim, senhor aquiesci obedientemente

Jack descobriu um carrinho de rodas e serviu-se dele para preparar a nossa comida. Tambm trouxera dois suportes com as respectivas velas, azuis. Depois de as colocar 
no centro da mesa, acendeu-as. Pouco contriburam para aumentar a luminosidade, no entanto, o brilho que emanavam era reconfortante. Eu pus os pratos e os copos 
e Jack trouxe o seu vinho caseiro

Muito bem, mademoiselle, agora j se pode sentar. Depois de eu o fazer, serviu o vinho. Espero que seja do seu gosto.  de uma colheita de mil novecentos e cinquenta

Ri-me e provei-o

Excelente, senhor! Os meus parabns

Obrigado, mademoiselle. E agora, a estrela da nossa festa! Pegou no meu prato e disps os alimentos nele. A seguir

fez o mesmo ao seu e sentou-se ao meu lado

Tem um aspecto delicioso elogiei

Servira-me o peixe acompanhado com feijo-verde e milho

Lamento que no haja po

Passaremos sem ele repliquei

Jack sorriu e pegou no seu copo de vinho

Vamos brindar?

Vamos

 tempestade

Ao furaco?

Foi graas a ele que esta noite estamos aqui a jantar

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Os copos tilintaram um contra o outro. O que prova que. para os perseverantes, h males que vm por bem.

Senti o calor do vinho, mas tambm dei-me conta de outro tipo de calor, esse vindo do corao.

Comamos props Jack.

No sei se era das circunstncias ou do desgaste provocado pelas emoes vividas, o certo  que eu estava com um apetite voraz. H muito, muito tempo que no tinha 
uma refeio to deliciosa. Enquanto comamos, Jack foi-me falando de si e da sua famlia. A me, que era diabtica, estivera quase sempre doente durante a sua vida 
de adulta; portanto, quem tratara praticamente de toda a alimentao e da casa fora a av. Havia sido criado no Hayou e raras vezes sara dali, indo s duas vezes 
a Nova Orlees e a Dlias com a famlia, visitar uns parentes e. em certa ocasio, a Clearwater, na Florida, de frias.

Imagino que a minha vida tenha sido muito simples comparada com tudo o que a Pearl j fez e viu observou Jack. Estou longe de ser aquilo que designaria de sofisticado.

A sua vida poder ter sido simples, mas o Jack de simples no tem nada. A maioria dos chamados homens sofisticados que conheci no lhe chegava, sequer, aos calcanhares 
declarei, talvez com um pouco mais de fervor do que tencionava; porm, depois do terceiro copo de vinho, tinha a lngua solta e os pensamentos livres. Nem mesmo 
a luz fraca impediu que reparasse no rubor de Jack e no seu ar de satisfao. Riu suavemente e lanou-me um olhar de contentamento.

Continumos a comer com lentido e, sempre que erguia os meus olhos, encontrava os dele que, por vezes, pareciam ter a chama das velas a arder dentro.

Lamento no ter caf ou sobremesa desculpou-se Jack, quase num sussurro.

No tem importncia. Comi mais do que esperava.

Realmente v-se observou Jack, indicando o prato vazio, onde eu no deixara qualquer resto.

Muito pouco prprio de uma senhora, que deve deixar sempre alguma coisa no prato reconheci, sacudindo a cabea com ar reprovador.

No me diga! Bom, nesse caso acho que nunca conheci nenhuma senhora como deve ser replicou ele, imitando no sei que rato-dos-pntanos. S daquelas que comem o prato.

Ri a bom rir, atirando a cabea para trs e endireitando-me a seguir. Jack tambm riu, mas inclinou-se para mim. As nossas cabeas aproximaram-se lentamente e ele 
beijou-me a ponta do

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nariz. Os nossos olhares ficaram novamente presos um no outro. O meu corao batia suavemente e eu sentia as faces e o pescoo a ficarem quentes. Seria do vinho?

No ser melhor arrumarmos as coisas? sugeri em voz branda.

Arrumar? Nem pensar, mademoiselle. Temos empregados para isso. Permita-me que a acompanhe ao salo props Jack, levantando-se e oferecendo-me o brao. Eu tambm 
me pus de p. Talvez no fosse m ideia levarmos connosco o vinho caseiro acrescentou ele, pegando na garrafa pelo gargalo e em dois copos. Depois apagou as velas 
com um sopro e eu segurei no candeeiro. Voltmos para a sala de estar.

Embora a tempestade j tivesse passado, continuava a chuviscar, o que originava um agradvel tamborilar nos vidros das janelas. Os relmpagos ainda faiscavam  distncia, 
cada raio conferindo ao cu negro-azeviche uma tonalidade vermelha flamejante por uma fraco de segundo. Fixei o meu olhar na viso, enquanto Jack enchia os nossos 
copos.

Espero que em Nova Orlees tudo esteja bem observei.

No perca a esperana disse Jack, passando-me o meu copo, cujo contedo fui beberricando. A certa altura relaxei e encostei a cabea s costas do sof. Jack ficou 
de p, de olhos postos em mim. Quando voltei a olhar para ele, vi bastante mais do que simples preocupao e angstia no seu olhar. O que vi fez com que o meu corao 
desse um pulo. Aquilo a que chamavam amor  primeira vista existiria de verdade?

Os seus olhos eram um mar de desejo, o que tambm me tornava ciente da minha prpria nsia de satisfao romntica. Essas sensaes faziam-me sentir culpada. Engoli 
a custo e fechei os olhos. Quando os reabri, Jack estava ao meu lado, pegando-me na mo.

Sente-se bem?

Acho que estou apenas cansada repliquei. Ele fez um gesto de compreenso.

Claro. Depois do que passou, no admira. Bem acrescentou, se insiste em ficar aqui mais uma noite, penso que podemos ir l para cima. Os cobertores que eu trouxe 
ontem  noite ainda l esto.

Eu assenti e ele tirou-me o copo para o pousar na mesa junto de ns. Em seguida ajudou-me a levantar e pegou no candeeiro. Caminhmos no meio da escurido e subimos 
as escadas, pouco ou nada falando. Ele envolveu-me com o seu brao direito e eu encostei a cabea ao seu ombro, fechando os olhos.

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De repente ouvi um rudo em baixo e parei.

Que foi aquilo?

O qu?

Ouvi qualquer coisa. Olhei para o negrume que se estendia abaixo de ns. Me? Ests a?

Silncio.

Deve ter sido um rato sugeriu Jack.

Ainda fiquei mais um pouco  escuta e depois acabei por concordar. Continumos a subir as escadas tal como at ali, Jack a levar-me e eu de cabea encostada ao seu 
ombro.

C estamos anunciou ele ao chegarmos ao antigo quarto da minha me. Jack pousou o candeeiro em cima de uma mesinha-de-cabeceira e eu. depois de me descalar, recostei-me. 
Jack deixou-se ficar no mesmo stio, a olhar para mim. Estendi-lhe a mo, na qual ele agarrou, levando-a aos lbios. Eu nada disse. O meu corao batia fortemente. 
Ele aguardou um momento e depois largou-me a mo e voltou-se, a fim de ir para o sof.

Jack chamei.

Foi como se a minha voz tivesse o poder de se alhear da minha vontade. O nome dele viera-me  boca to rpida e espontaneamente que eu nem tive oportunidade de reflectir 
sobre o porqu ou o que eu desejava. No importava. Ele sabia.

Jack voltou para junto de mim, ajoelhou-se ao lado da cama para beijar a minha mo antes de se inclinar para pousar os seus lbios sobre os meus.

Pearl sussurrou.

Tentei raciocinar, pensar no que estava prestes a acontecer, como sempre fizera quando me sucedera beijar algum rapaz. Naquela noite, no entanto, a minha avaliao 
cientfica manteve-se ao largo, aquela minha parte que questionava e analisava cada carcia, cada beijo, nunca mostrou a face. E no era apenas o vinho. Nos braos 
de Jack, sentia-me segura e certa dos cuidados e da ternura dele por mim. O que ele desejava que acontecesse... era por ns dois.

As suas carcias eram ternas e desprovidas de egosmo. Em vez de me sentir receosa e com medo, recebi com prazer o turbilho de emoes, tendo vontade de me deixar 
envolver por aquela onda avassaladora. Senti que abria cada porta, convidava cada beijo. Ergui o queixo para que os seus lbios alcanassem o meu pescoo, enquanto 
eu lhe beijava as faces e os olhos. Quando se levantou, cheguei-me para o lado, a fim de lhe arranjar espao junto de mim.

Pearl sussurrou Jack.

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Nunca o meu nome soara to docemente.

Passou as mos pelos meus braos, pousando-as a seguir nos meus seios. As nossas roupas como que desapareceram num abrir e fechar de olhos, deixando que a pele dos 
nossos corpos se tocasse. Sempre que ele se detinha, algo hesitante, eu beijava-o com mais ardor, afastando qualquer relutncia, asseverando-lhe que eu queria seguir 
a trilha que ambos amos abrindo em direco ao meu corao.

Tens a certeza? perguntou-me ele uma ltima vez.

Sim, oh, sim, Jack respondi.

A cada carcia dos seus lbios e das suas mos, percorriam-me sensaes electrizantes. Dei-me conta de que, afinal de contas, eu no era nenhuma criatura cientfica, 
mas sim uma mulher.

Explodimos um contra o outro. Eu mordi-lhe a orelha com tal fora que me pareceu sentir o gosto de sangue; porm, ele no se queixou. Jack manteve-me fortemente 
presa nos seus braos, abrandando os seus beijos  medida que os nossos coraes se aquietavam. Agarrava-se a mim como se no quisesse deixar-me partir.

Ests bem? perguntou-me ao ver que eu no falava e mal respirava.

Acenei com a cabea e sussurrei que sim. Jack libertou-me ento e acomodou-se ao meu lado. Durante muito tempo nenhum dos dois proferiu uma palavra.

Pearl principiou ele a certa altura, no quero que penses que...

No fales. Pousei um dedo sobre os seus lbios. No te atrevas a explicar o que quer que seja.

Reparei que ficava surpreendido.

Je ne regrette rien. No me arrependo de nada apressei-me a acrescentar calmamente.

Jack sorriu e beijou-me.

Fizemos amor apaixonadamente, ambos certos do que queramos. Sem timidez nem hesitao, foi uma longa torrente de Paixo que subiu cada vez mais alto at rebentar 
numa cascata que ia batendo repetidas vezes nas rochas em baixo, cada uma acompanhada por um "Sim" cada vez mais forte e feliz.

Exaustos, separmo-nos e ficmos deitados um ao lado do outro, esperando que a nossa respirao se acalmasse e os coraes se aquietassem. Senti um calor saboroso 
no corpo e fechei Os olhos.

Jack encontrou a minha mo e agarrou nela.

No h dvida de que nasceste no meio de um furaco declarou, fazendo-me rir.

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No entanto,  medida que a minha paixo esmorecia, o neu raciocnio e a minha lgica voltavam, trazendo na bagagem a culpa. Que se passaria de errado comigo? Como 
podia eu comportar-me com semelhante abandono? Sabia que, se dissesse uma palavra, tambm Jack ficaria cheio de remorsos, o que eu no desejava.

E no entanto, no meio de todas aquelas complicaes e tristezas, eu fora capaz de sentir um prazer to intenso. No estava certo, pois no? Virei-lhe as costas e 
contive as lgrimas.

Jack, como se escutasse os meus pensamentos, voltou-se para mim e sussurrou-me:

No fiques assim. O que aconteceu no significa que te preocupes menos com a tua famlia ou que no estejas a esforar-te o suficiente para a ajudar. No podes andar 
sempre em alta velocidade sem de vez em quando fazeres uma paragem para recarregar as baterias. s humana, Pearl. Acho que, s vezes, esqueces-te disso.

Voltei-me para ele lentamente e sorri.

Nunca mais me esquecerei disso, Jack.

Ele retribuiu-me o sorriso, beijou-me e aninhou-me nos seus braos, enquanto eu fechava os olhos.

O sono caiu sobre mim com a mesma fora e rapidez dos ventos gerados pelo furaco. No fui capaz de o conter, assim como no o pudera fazer em relao ao vento. 
Segundos depois, adormecia.

Quando reabri os olhos, o sol entrava a jorros pelas janelas. Custava a acreditar que passramos por uma tempestade to violenta na noite anterior. Na verdade, toda 
essa noite parecera um sonho. Teramos, Jack e eu, jantado romanticamente? Fizramos realmente amor? Quando me voltei para o seu lado, vi que j partira. Deixara-me 
um bilhete em cima da almofada

No tive coragem de te acordar, dormias como um anjo. Precisei de me levantar muito cedo por causa da tempestade. Quando acordares vem ter comigo ao atrelado, que 
eu preparo-te um pequeno-almoo  moda cajun.

Jack

Sentei-me e consultei o relgio. Dormira quase at s dez da manh. Enchi-me de pnico. Devia ter acordado mais cedo para procurar um telefone. Precisava de saber 
como estavam  meu pai e Pierre.

Levantei-me apressadamente e fui  casa de banho ver se havia gua. Para minha agradvel surpresa, depois de correr

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acastanhada durante algum tempo pela torneira, comeou a sair tpida. No estava quente; no entanto, pude lavar a cara e ir aos lavabos. Depois disso vesti-me e 
desci ao piso de baixo. jack limpara todos os vestgios do nosso jantar, mas vi o resultado da intruso da tempestade em todo o lado: pratos quebrados, janelas partidas, 
cortinados e zonas de cho ensopadas de gua.

Era horrvel que os Tate tivessem deixado aquela manso chegar a tal estado de degradao, pensei. Porque seria que as pessoas que tinham tudo eram to esbanjadoras 
e ms? Que vingana poderia Gladys Tate retirar do prazer de ver algo que seu filho tanto estimara deteriorar-se? Quereria certificar-se de que nunca mais ningum 
desfrutava daquela casa? Mesmo o pouco de que me recordava do tio Paul e do que a minha me me contara, sabia que ele jamais teria desejado semelhante coisa.

Ao ouvir passos atrs de mim, sobressaltei-me.

Jack? s tu? chamei.

No houve resposta, mas uma das tbuas do soalho do corredor rangeu.

Virei-me lentamente. " a minha me", pensei. "Voltou, finalmente." Com o corao a bater de alegria e expectativa, corri pelo corredor, em direco  cozinha. Certamente 
ter-se-ia l sentado,  minha espera.

Me! chamei, irrompendo pela cozinha dentro. No entanto, em vez da minha me, deparei com um homenzarro. No rosto enorme, o nariz monstruoso era dotado de narinas 
suficientemente largas para inalar trs vezes o ar de que necessitava. A queixada era saliente e arredondada na ponta, e os lbios eram grossos e muito vermelhos. 
Tinha uma barba castanha, entremeada de plos brancos, de trs ou quatro dias, barba que formava um tufo denso por baixo do lbio inferior. Quando sorriu, reparei 
que lhe faltava um dente de baixo e alguns de trs. Tudo o resto estava manchado de amarelo devido  nicotina.

Calava umas botas pela altura do joelho, vestia calas de ganga esfarrapadas e uma camisa com um rasgo no stio do ombro e que parecia que fora lavada em gua 
com ferrugem.

Sorriu, fazendo com que a curva dos lbios grossos se afundasse entre as bochechas salientes e estreitasse os olhos castanhos estupidificados, que se abriam sob 
a testa saliente e fortemente vincada.

Quem  o senhor? perguntei.

- Sempre  verdade exclamou o homem,  a filha da Ruby, no ?

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Sim, sou filha da Ruby Dumas. E quem  o senhor? ^ perguntei com mais insistncia.

O sorriso do homem desvaneceu-se.

O meu nome  Buster Trahaw e sou amigo da sua me. replicou. Uns amigos meus disseram-me que anda  procura dela, por isso vim ver com os meus olhos.

Viu a minha me? perguntei.

No me lembrava de a ter ouvido mencionar algum com aquele nome e tambm me custava a acreditar que alguma vez tivesse tido amigos como aquele; porm, como Jack 
dissera na noite anterior, havia muita gente que eu no conhecia e que a minha me podia ter ido ver ou visitar, sobretudo se fora apanhada pela tempestade.

Claro que a vi respondeu o homem. Porque  que acha que tou aqui?

Onde  que ela est? Encontra-se bem? inquiri rapidamente.

Ela... ela no 't bem declarou. 'T doente que nem um co. Quando me contaram que voc estava aqui. ela disse: "Vai busc-la depressa." Por isso eu vim.

Onde  que se encontra?

Em casa da minha me respondeu o homem. A minha me  traiteur.

Ah exclamei. Fazia sentido.  capaz de me levar at l, se faz favor?

Claro respondeu o homem. S que temos de ir de pressa. Tenho trabalho para fazer e no posso andar por a muito tempo.

Muito bem, vamos incitei eu, voltando-me para a sada. Tenho o carro l fora.

No podemos ir de carro contraps o indivduo, sem se mexer. A casa da minha me fica nos pntanos. Vim busc-la numa piroga.  por aqui...

Dirigiu-se para a porta das traseiras.

Mas...

Vem ou no? J lhe disse que tenho de trabalhar. Hesitei. Devia informar Jack, pensei. Peguei no bilhete qque ele me deixara e escrevinhei nas suas costas:

Querido Jack

Fui com o Buster Trahaw, que diz que a minha me est em casa dele. Voltarei assim que puder

Beijos Pearl

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Deixei o papel em cima do aparador e apressei-me a seguir guster Trahaw, que j sara porta fora. Indicou-me o embarcadouro.

Tenho a piroga ali em baixo.

Fui atrs dele, olhando para trs uma vez e lamentando no ter tido tempo para ver Jack, mas talvez houvesse tempo para encontrar a minha me e traz-la de volta 
ainda antes de ele encontrar o meu bilhete. Cheia de esperana, segui apressadamente o homem, que, sem esperar por mim, praticamente correu para o embarcadouro e 
meteu-se na piroga. Voltei a hesitar. No me recordava da ltima vez em que andara num transporte daqueles, ou percorrera mesmo algum dos canais.

Por fim, estendeu a mo para me ajudar e eu entrei na embarcao.

ptimo disse. At que enfim.

Sorriu, mergulhou o remo na gua e afastou-nos para longe do embarcadouro, pelo pntano dentro. Fiquei sentada, muito tensa, e observei-o, cheia de ansiedade. O 
homem no desviou o olhar de mim uma vez sequer e tambm no parou de sorrir.


14

A DVIDA DO BISAV TEM DE SER PAGA

A piroga de Buster Trahaw estava to velha e em to mau estado que eu tive medo de que se desmanchasse e nos fizesse mergulhar na gua do pntano que, quando samos 
do embarcadouro, ficara cor de ch. Buster ia remando, no meio de roncos e grunhidos. No tardou que gotas de suor, do tamanho de berlindes, lhe brotassem da testa, 
deslizando pela pele spera antes de lhe pingarem do maxilar e do queixo

Fica muito longe? perguntei, nervosa

O cho da piroga estava atravancado de restos de isco e de minhocas secas pelo sol, assim como beatas, garrafas de cerveja vazias e latas de conserva amolgadas

Perto, muito perto respondeu-me sem hesitar. Instintivamente olhei para o embarcadouro que ficara para trs. Sentia uma vontade enorme de lhe pedir que me levasse 
de volta at l, mas receava que estivesse a falar verdade e que a minha me se encontrasse realmente em casa dele. Sentir-me-ia muito mais segura e descansada se 
tivesse podido falar com Jack antes de partir. Quem sabe quanto tempo passaria antes de ele dar com o meu bilhete. E se no o encontrasse? No devia ter-me ido embora 
daquela maneira, disse a mim mesma

Virei-me de novo para a frente. De facto no me recordava de ter andado de piroga em criana, mas, ao rever coisas em tempos familiares, certas recordaes visuais 
voltaram.  minha direita, no meio dos nenfares e das tbuas, bremas alimentavam-se dos insectos que esvoaavam  tona da gua. Isso dava a impresso de ter bolhas 
a rebentar. As cortinas de barbas-de-velho que pendiam dos ramos dos ciprestes, balanavam ao sabor da brisa. As liblulas pairavam a poucos centmetros da superfcie 
do canal, deslocando-se velozmente ora para um lado ora para outro. Sempre que algo as espantava Moviam-se em conjunto, como se fossem pontinhos negros formando 
umamosca gigantesca

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Buster dirigiu a piroga ligeiramente para a esquerda e enveredmos por um canal mais estreito, passando primeiro por baixo de uma abbada formada por ramos de salgueiro. 
Quando olhei para trs, foi como se uma porta verde se tivesse fechado atrs de ns.  medida que amos avanando pelo canal, a vegetao ia-se tornando cada vez 
mais densa. Por vezes, o dossel formado pelos ciprestes inclinados sobre a gua era to denso que quase tapava o sol. Vi um aligtor a dormir debaixo de um tronco 
de rvore cado e meio apodrecido, e a seguir um outro, que passou por ns a flutuar, mirando-nos com olhos desconfiados ou expectantes.

Buster, ao ver que eu me encolhia, riu.

No tens que te preocupar declarou. Lutar com os aligatores at me d gozo. A seguir soltou uma gargalhada monumental que ecoou por entre a vegetao. Tu s uma 
madame toda janota, no s? Aposto como j nem te lembras de que viveste aqui, hem?

No. Mas no sou nenhuma madame janota repliquei. Aonde fica esse lugar?

J alm, ao virar da curva respondeu, fazendo sinal com a cabea para a esquerda.

Protegi os olhos com a mo e espraiei o olhar na dita direco. A margem, ao fundo, estava coberta de madressilvas em flor. Duas garas nveas pavoneavam-se em cima 
de uma rocha, enquanto rs enormes saltavam  sua volta; porm, no avistei nem cabanas nem outros seres humanos.

A quietude do lugar invadiu-me. Tirando o som de uma pomba ou o grito de um falco-dos-pntanos, s ouvia os grunhidos que Buster soltava de vez em quando e o mergulhar 
rtmico do seu remo na gua. Vi um par de lontras desaparecer no interior das suas cpulas construdas com erva seca e depois um veado de cauda branca, que ergueu 
a cabea e olhou para ns, afastando-se a trotar. Era como se tudo o que existia na Natureza soubesse que devia precaver-se contra Buster Trahaw.

Em que se ocupa? perguntei-lhe, pois no o vira fazer o mnimo esforo para iniciar uma conversa e, na verdade, nada adiantara sobre si mesmo.

Que quer dizer com essa de me ocupar?

 pescador de ostras ou carpinteiro?

Advogado  que no sou declarou, comeando a rir. - Pesco um pouco. Cao outro tanto. Vendo barbas-de-velho ao pessoal das moblias, para enchimento de cadeiras 
e sofs e *ao outras coisas quando as arranjo. O meu pai tambm me Deixou umas massas. Claro que j foi quase tudo pela goela

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abaixo acrescentou, voltando a rir alarvemente, o que lhe fazia saltar a ma-de-ado sob a pele grosseira.

Quando amos a dar a curva, Buster comeou a remar como se fosse perseguido por algum.

Como  que a minha me veio aqui parar? perguntei-lhe, desconfiada.

Veio da outra ponta respondeu-me apressadamente

Que outra ponta?

Pra com tanta pergunta atirou-me secamente. No posso remar este barco e falar ao mesmo tempo.

Senti o meu corao comear a acelerar. Voltei-me e olhei para trs. Cypress Woods ficara quilmetros para trs. Entrmos noutro canal, esse ainda mais estreito. 
Nalguns pontos podia mesmo estender os braos e tocar em ambas as margens. Os mosquitos pareciam maiores e havia-os em nuvens cada vez mais densas. A gua tambm 
estava mais escura. Algo deslizou de uma rocha  nossa frente, enfando-se na gua, o que fez com que eu me encolhesse de novo.

No estou a gostar disto observei. Nunca mais chegamos a lado nenhum. V pr-me no stio de onde me trouxe. Pedirei a algum que me leve de carro at  outra ponta

Buster, no entanto, no olhou para mim nem abrandou

Mister Trahaw, eu disse...

Nessa altura o homem virou-se e olhou para trs.

J chegmos anunciou, na altura em que saamos do canal e desembocvamos num pequeno lago.

Vi um casebre de caador  frente. Erguia-se uns dois metros acima do pntano, sobre fileiras de paus. As tbuas davam a impresso de terem sido coladas umas s 
outras com pastilha elstica. Algumas pendiam, meio soltas, sobre as janelas. O corrimo da varanda estava na ponta mais afastada e, mesmo  distncia, no tinha 
dificuldade em ver buracos abertos no piso da habitao. Como poderia a minha me ir, sequer, a semelhante stio?

A minha me jamais ficaria aqui declarei.

Porque no? Sabes de quem era esta casa? perguntou ele reduzindo os lbios a uma linha fina. Do teu bisav, menina. Foi daqui que vocs todos saram; portanto, no 
te armes em toleirona, ouviste?

O meu bisav?

Isso mesmo. O Jack Landry. Caava com armadilhas ^ era o melhor guia de caa destas bandas. Claro que agora sou eu acrescentou.

Remou mais depressa, enquanto eu me esforava por ver sinais da minha me.

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Onde  que ela est?

J te disse, deitada no catre, l dentro, doente que nem um co. J 'ts mais satisfeita por teres vindo?

No respondi. Sosseguei e esperei que ele chegasse ao embarcadouro e prendesse a piroga. O acesso  varanda era feito por uma escada que balanava por todos os lados. 
Buster pousou um dos ps no primeiro degrau e estendeu-me a mo.

Anda. Eu ajudo ofereceu-se.

Levantei-me com lentido, mas a piroga comeou a balouar e eu por pouco no ca borda fora. Soltei um grito e o homem riu-se.

Pega aqui ordenou.

Fi-lo com relutncia e assim que lhe toquei na mo, puxou-me com fora tal que perdi o equilbrio e ca no meio dos seus braos monstruosos. Ele voltou a rir, manteve-me 
contra si por instantes e depois puxou-me para fora da piroga como se eu no pesasse mais do que um beb. Firmei os meus ps na escada o melhor que pude e subi para 
a varanda. Ele seguiu-me de perto.

Espalhadas pela varanda, formando montes aqui e ali, viam-se redes de apanhar ostras, montculos de barbas-de-velho, garrafas de cerveja vazias, tigelas imundas 
com restos de gumbo seco, e a nica pea de moblia  vista era uma cadeira de balouo tombada de lado e sem um dos braos. As tbuas deram de si e eu receei que 
alguma ainda cedesse sob o meu peso.

No tem perigo. Entra disse ele, apontando para a porta.

Eu acerquei-me lentamente da porta e entrei no casebre que, segundo ele, pertencera em tempos ao meu bisav.

Era uma diviso nica. Mesmo  nossa frente estava uma mesa de tbuas coberta de loua usada h muito, assim como garrafas de cerveja e de usque vazias.  direita 
via-se um catre, com um cobertor cinzento manchado cado ao lado e os lenis acastanhados de sujidade e rasgados. Peles de vrios animais pendiam de pregos fixos 
nas paredes. Sobre uma prateleira comprida, perto da mesa, viam-se frascos com rs e cobras de salmoura e os insectos de gua mais horrendos que eu J vira. Para 
onde quer que olhasse s via roupa e serapilheiras espalhadas por tudo o que era stio. As duas janelas tinham uma camada de sujidade to espessa que mal deixavam 
passar a luz.

- Onde est a minha me? perguntei.

Ora esta! exclamou Buster. Ento no  que ela foi-se embora e nem sequer arrumou a casa?

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Riu-se e eu, ao ouvir um rudo metlico, virei-me. Buster, estava  porta, com uma longa corrente de metal nas mos.

-Quero voltar imediatamente para trs - ordenei.

- Caramba, isso no  nada simptico da tua parte, pois no? Ainda por cima depois de tudo o que eu fiz pela tua me. Riu-se de novo.

- Imediatamente - exigi, dirigindo-me para a porta. Buster riu, uma vez mais, e, rodeando-me com os braos, levantou-me e levou-me para o catre, enquanto eu gritava. 
Atirou-me para cima dele com toda a fora e, antes que eu tivesse possibilidade de resistir, enrolou a corrente em volta do meu tornozelo direito e prendeu-a com 
um cadeado.

-A chave est aqui - disse, mostrando-ma antes de a meter dentro do bolso do lado direito das calas. Ao ver que eu me erguia para protestar, levantou a enorme mo 
direita, ameaando que me batia. Olhei para os dedos calejados e sujos e para o pulso grosso e encolhi-me.

O que est a fazer? - gritei.

-A arrecadar o que me  devido - declarou, recuando, sem largar a outra ponta da corrente, que passou pelo meio do que parecia ser um enorme espigo metlico de 
linha frrea cravado no cho de madeira, prendendo depois essa ponta com outro cadeado.

O que  que lhe  devido? - perguntei, aterrorizada. -Uma mulher, a tens. Comprei uma Landry aqui h uns anos e ela fugiu-me. Depois, quando voltou e eu fui reclamar 
o que era legitimamente meu, ela mandou-me prender. Passei algum tempo na choa por causa dela, mas o Buster Trahaw nunca perdoa uma dvida. No, senhora. Parentes 
meus - continuou, pegando numa garrafa com um resto de cerveja, no fundo - disseram-me que tu estavas c. Bem, c a mim no me interessa que Landry for, desde que 
a minha dvida fique paga.

Levou a garrafa  boca e sorveu o resto da cerveja atravs dos lbios grossos, enquanto a sua garganta se contorcia como uma cobra. Depois atirou-a para o fundo 
da casa. No se partiu, apenas embateu na parede e caiu no cho.

- Achei que, como fora aldrabado, podia ficar com esta cabana, mas isto no  nada comparado com o que me devem. Sorriu. - Tu completas o resto.

- o que quer de mim?

- o qu? - Por um momento pareceu confuso. - Pra j, quero uma mulher. E o que eu quero que tu faas  o que uma mulher deve fazer. Primeiro, limpas esta casa. Dou 
largueza 244
suficiente a esta corrente para te poderes mexer por a  vontade.
- Aqui! -acrescentou, apontando para um pote ferrugento, no canto  direita -, fica a cagadeira. Se quiseres, serves-te dos
jornais que empilhei ao lado.

- No pode fazer uma coisa destas - gritei. - isto  rapto... Claro que posso.  o que me  devido e aqui nos pntanos uma dvida  uma dvida, percebeste?

Comecei a chorar. Ele analisou-me durante um momento e depois aproximou-se, ameaadoramente. Eu encolhi-me contra a parede do casebre.

-No quero ouvir chorar. Nem berrar. Quero uma mulher quieta e obediente, igual s duas que o meu pai teve. Agora vou arranjar-te uns trapos para vestires e perderes 
esse ar janota, agora s uma mulher dos pntanos. - Enfiou a mo por debaixo do catre e tirou de l o que parecia ser mais uma serapilheira
- Bota isto. J! - gritou, fazendo cair sobre mim pingos de saliva.

Toda eu tremia, mal me conseguindo mexer. Ele agarrou-me pelo brao, logo abaixo do cotovelo, e apertou-mo de tal maneira que gritei. A seguir bateu-me com a mo 
esquerda, projectando-me a cabea para trs. o choque foi pior do que a dor qe se seguiu. Fiquei sem conseguir falar ou engolir. Ele enfiou os dedos no meu cabelo 
e agarrou uma mo-cheia dele, pondo-me de p. Eu soluava silenciosamente, sentindo como que o peito prestes a rebentar.

- Tira-me j esses trapos janotas - ordenou. - Toca a fazer o que eu mando!

Comecei a desabotoar a blusa com as mos trmulas, sem parar de tremer e de chorar. Quando despi a saia, ele sorriu de satisfao.

-Quero isso tudo da para fora - ordenou. - Mesmo essa roupa de baixo comprada em loja. V. Tenho de ver o material que arranjei.
Ao princpio achei que iria desmaiar. No interior do casebre estava abafado. Ao ver que eu no me mexia, o homenzarro virou-se e foi buscar um cinturo de couro 
preto ao cimo duma pilha de roupa, enrolando uma das pontas em volta da mo e do pulso. Quando o vi aproximar-se, de mo levantada, abri nuito os olhos e ergui os 
braos para me proteger. Ele balanou o cinto e atingiu-me na coxa. A pancada deixou-me sem flego. Dessa vez no voltou a pegar em mim pelos cabelos, enfiou antes 
os dedos no meu soutien e puxou-o com tal fora que os colchetes rebentaram e a pea de roupa foi-me arrancada. Atirou-a

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para trs de si, enquanto eu caa sobre o catre, a gritar. Bateu-me de novo, dessa vez na outra perna. Senti os olhos rolarem para trs e depois tudo ficou escuro. 
Quando os reabri estava deitada de costas sobre o catre, envergando a serapilheira e sem nada por baixo. No me mexi. A dor que sentia na coxa fez-me lembrar vivamente 
o que acontecera. Tambm reparei que a minha moedinha da sorte desaparecera. No incio tive medo de me virar para a direita ou para a esquerda, mas quando olhei, 
ele desaparecera. Respirei fundo e sentei-me, para ter a certeza de que no se instalara a um canto ou no cho, por baixo de mim. O casebre estava vazio.

Encorajada e cheia de esperana, levantei-me; no entanto, depressa percebi que continuava com a corrente a prender-me o tornozelo. Tentei fazer deslizar o calcanhar 
por ela, mas estava demasiado apertada. Talvez conseguisse desprender a outra ponta, pensei. Se fosse bem sucedida, carregaria com aquela corrente se fosse preciso, 
s para poder fugir.

Ao dar alguns passos na sala, vi um bilhete grande preso  porta da frente, que estava fechada. Parecia ter sido escrito com um bocado de madeira queimada. "Fui 
comprar um bocado de usque e comida para cozinhares. Limpa tudo antes de eu chegar. Teu marido, Buster."

Em pnico, corri para o espigo de linha frrea e tentei desprender aquela ponta da corrente; porm, os meus esforos foram completamente infrutferos. Abri a porta 
e sa para a varanda. Vi que Buster me tirara o relgio mas sabia que j me encontrava ali h algum tempo porque o Sol comeara a baixar por trs dos ciprestes, 
lanando sombras longas e escuras sobre o canal. Buster no estava  vista, nem ele nem ningum. Ainda assim gritei:

Socorro! Por favor, ajudem-me!

Aguardei. A minha voz ecoou sobre a gua e morreu no pntano. Uma gara levantou voo de uma rvore, rasou a gua e desapareceu canal fora. Ao olhar para a direita 
da varanda reparei que o cu estava a ficar carregado. Uma densa camada de nuvens cinzento-escuras ia deslizando sobre o fundo azul-turqueza, e o vento comeara 
a soprar atravs do pntano. Virei-me ento para o lado direito da varanda e vi uma cobra-boca-de-algodo enfiar-se por entre as tbuas do cho. Ao ver-me, retesou 
os anis do corpo. Fiquei transida de medo. Rrecuei lentamente para dentro do casebre, atirando com a porta

Buster Trahaw podia ausentar-se o tempo que quisesse sem precisar de se preocupar com a minha fuga. Eu estava agrilhoada ao lado de dentro e guardada por todas as 
criaturas que viviam no pntano, pensei. Que poderia fazer? Receosa da reaco

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que Buster pudesse ter se, ao voltar, visse que eu nada limpara, comecei a arrumar o casebre. Peguei e dobrei a maior parte da roupa, quase toda ela imunda. Juntei 
a loua e meti-a dentro do lava-loua. A gua corria, lamacenta; no entanto, lavei tudo o melhor que pude. Feito isso, esfreguei as tbuas da mesa, endireitei as 
poucas peas de moblia existentes e fiz a cama. Descobri uma vassoura a um canto que, apesar de j estar muito rala, serviu para varrer o cho de tbuas. Arranjei 
um pano, que molhei para limpar as janelas. Procurei a minha roupa por todo o lado, mas no a descobri. Calculei que Buster a tivesse atirado para o pntano, juntamente 
com o meu relgio e a minha pulseira.

Havia uma pequena caixa de madeira no canto  direita. Fiquei esperanada de que contivesse alguma ferramenta que eu pudesse utilizar para abrir o cadeado, embora 
no soubesse o que fazer uma vez em liberdade. No havia mais nenhuma embarcao l fora e eu certamente no poderia nadar no canal infestado de aligatores e cobras. 
Tambm no tinha sapatos; portanto, mesmo que conseguisse chegar ao matagal, dificilmente teria coragem para caminhar por entre a erva alta.

No havia ferramentas na caixa, apenas uma bonita toalha de pano com pssaros bordados  mo; no entanto, por baixo dela encontrei algumas fotografias antigas, a 
preto e branco. Mostravam uma mulher jovem e bonita, descala sobre a erva, em frente da cabana da minha bisav Catherine. Ao examinar-lhe o rosto, reparei que se 
parecia imenso com a minha me. Buster afirmara que aquela cabana pertencera ao meu bisav Jack. Calculei que fosse verdade e que a jovem da fotografia fosse a minha 
grandmre Gabriel.

Se ao menos o esprito dela ali estivesse naquele momento, pensei, esperanada na nica coisa que poderia salvar-me: um milagre. Havia ainda fotografias de um casal 
mais velho, que imaginei serem os meus bisavs Catherine e Jack. Numa delas, a minha bisav tinha um beb ao colo, que imaginei ser a minha me. Ver os seus rostos 
e aperceber-me de quem eram proporcionou-me, por momentos, algum conforto e uma certa esperana. Estava certa de que haveria uma maneira de sair daquela situao 
terrvel.

Voltei a guardar as fotografias e fechei o ba de madeira. Depois levantei-me e olhei  minha volta. Onde  que poderia esconder-me? Que utilizaria para me defender? 
Na parede via^se uma faca de mato pendurada. Tirei-a para baixo. Nunca me imaginara a apunhalar algum, nem mesmo um indivduo como Buster Trahaw; porm, quando 
uma pessoa estava desesperada,

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mesmo uma pessoa como eu, era capaz de mergulhar dentro de si at stios que nunca imaginara existirem e encontrar foras para tal. Tinha a certeza disso.

De repente ouvi a risada de Buster. A seguir, gritou a dizer que queria a sua mulher  porta. Coloquei a faca no mesmo stio, tencionando utiliz-la quando tivesse 
uma oportunidade melhor; aproximei-me da porta na ponta dos ps, entreabrindo ligeiramente para espreitar. Vi-o remar pelo canal, em direco  cabana, parando de 
vez em quando para tomar um gole do seu garrafo.

Mulher! Vem  varanda receber o teu homem! gritou. Pe-me esse eu a fora, se no dou-te tanta pancada que te arranco o coiro! Ouviste? Vem c pra fora!

Demasiado aterrorizada para desobedecer, sa para a varanda. At a cobra o devia ter ouvido e fugido, pois no estava  vista.

Assim  que eu gosto gritou o homem. Diz adeus. V, acena.

Levantei a mo e, molemente, fiz o que ele mandava. Riu de novo e remou com mais fora, at chegar ao embarcadouro. Quando subiu para o casebre, todo ele pareceu 
estremecer. Vacilou por momentos e depois sorriu, entregando-me um saco com artigos de mercearia.

Trouxe a janta para a nossa noite de npcias disse. E bebida com fartura. O Buster vai finalmente ter a sua festa de casamento. Toma.

Apressei-me a obedecer. Depois fui para dentro do casebre Ele seguiu-me e parou, de boca aberta.

Caramba, isto  que  uma mulher. Eu sabia. Tinha a certeza de que no ficaria mal servido com uma Landry. Boa mulher. Vamos ter uma boa vida juntos.

O que  isto? perguntei timidamente, abrindo um embrulho e tirando parte do seu contedo.

Ps de porco, tripas e tudo o que  preciso para um bom gwnbo. Sabes fazer um roux, no sabes?

Ao ver que eu dizia que no com a cabea, indignou-se

O qu? De certeza que sabes, mulher. Basta pores-te ao fogo a faz-lo at ficar como deve ser, percebeste? Eu fico aqui sentado a beber copos e a ver a minha mulherzinha 
trabalhar. V, despacha-te. E se no ficar bom, quem paga  o teu traseiro. E que belo traseiro tu tens.

Pousou as manpulas nas minhas ndegas e apertou-as at eu gritar, o que s o fez rir ainda mais.

Primeiro, comemos, depois consumamos o casamento disse, num sussurro rouco.

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Aproximara os lbios do meu ouvido e o hlito dele cheirava a rato morto. Com o estmago s voltas e a sensao de que estava prestes a ir abaixo nas pernas, fechei 
os olhos e esforcei-me por no dar parte de fraca, convencida de que ainda seria pior.

s voltas com os ingredientes, tentei desesperadamente recordar-me do que a nossa cozinheira fazia. Observara-a algumas vezes. O roux era apenas um molho acastanhado; 
no entanto, cada cozinheira cajun fazia algo diferente para o tornar especial. A minha esperana era Buster estar demasiado embriagado para se dar conta do sabor 
que porventura tivesse. Entretanto, precisava de fazer de conta que sabia o que estava a fazer. Portanto comecei a preparar a refeio que para Buster Trahaw era 
uma celebrao e, para mim, mais como que uma "ltima ceia".

Buster esparramou-se em cima do catre enquanto eu trabalhava e, passado pouco tempo, ao virar-me para olhar para ele, vi que adormecera. Ergui os olhos para a faca. 
Podia ir tir-la da parede sem fazer barulho nenhum, aproximar-me dele na ponta dos ps e... Seria capaz disso? Claro que sim. Dissecara rs e vermes, sabia onde 
devia cortar; porm, nunca matara propositadamente fosse o que fosse. Se por acaso pisava um gafanhoto, chorava. Sabia, no entanto, que, se no fizesse algo, Buster 
levaria a melhor comigo.

Achei que talvez fosse possvel assust-lo e obrig-lo a dar-me a chave do cadeado. Podia encostar-lhe a faca  garganta e dizer-lhe que a tirasse do bolso, ou ento, 
quem sabe, dar-lhe uma pancada na cabea e retirar-lha eu, ou ainda, dar-lhe uma valente pancada na cabea com a frigideira de ferro forjado. As vrias opes faziam-me 
estremecer.

Ouvi-o resmungar e depois ressonar. Tinha os olhos fechados e a cabea voltada para a parede. Era a minha oportunidade de chegar  faca. Pousei a colher de pau silenciosamente 
e, com igual suavidade, dirigi-me para a faca, segurando na corrente para que no arrastasse no cho.

Buster grunhiu de novo e eu parei, sustendo a respirao. O ar escapou-se-lhe por entre as beias grossas, a seguir resfolegou e recomeou a ressonar. P ante p, 
acerquei-me mais da faca, peguei nela, por pouco no a deixei cair e a seguir apertei-a contra o meu peito. Virei-me lentamente e voltei para o stio onde estivera, 
com igual cuidado. Ao aproximar-me do homenzarro, fechei os olhos e rezei a pedir coragem.

Disse a mim mesma que, numa situao daquelas, a minha

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me no teria hesitado. Eu tinha o meu pai e o pobre Pierre  espera de que eu encontrasse a minha me e a levasse para casa. No poderia permanecer prisioneira 
naquele casebre muito mais tempo, e tudo o que se interpunha entre mim e a liberdade era aquele homem cruel que no merecia um grama de misericrdia. Fiquei ali, 
a fortalecer-me contra ele, at me convencer de que me sentia com coragem para fazer o que no podia deixar de ser feito. Depois aproximei-me dele, ergui a faca 
e premi a lmina contra a feia ma-de-ado que fazia lembrar um pequeno roedor debaixo da pele dele.

Premi-a rapidamente e os olhos dele abriram-se de imediato

Qu'...

No se mexa ordenei, ou corto-lhe a garganta como faz aos porcos.

Carreguei ainda mais na faca.

Espera a, 't? disse ele. Essa faca corta.

Ento no se mexa enquanto eu no lhe disser respondi.

No me estou a mexer. Raios exclamou Buster, ficando sbrio num instante. Isto no  maneira da mulher dum homem se portar.

Eu no sou sua mulher nem nunca serei ripostei. Prefiro morrer. Portanto, no pense que no sou capaz de lhe cortar a garganta adverti. A fria e a determinao 
com que falei surpreendeu-me a mim prpria. Tenho esta faca mesmo em cima da sua veia jugular. O seu sangue ficar espalhado por toda essa parede que tem em frente. 
Reparei que esbugalhava muito os olhos com semelhante viso.

Cuidado pediu ele. Eu c no iria aleijar a minha mulher.

J lhe disse que no sou sua mulher. Agora meta a mo no bolso e tire a chave do cadeado com que me prendeu o tornozelo. V, mas devagar! gritei, carregando-lhe 
no pescoo com a lmina da faca.

'Tou a ir devagar gritou ele.

Enfiou a mo no bolso, de onde tirou a chave. Peguei nela rapidamente.

No se mexa. Volte a meter a mo no bolso ordenei. Buster assim fez.

Foi preciso contorcer-me um bocado mas consegui levantar o p at ao catre, enfiar a chave na abertura do cadeado e abri-lo. Tirei-o imediatamente, soltando a cadeia 
de maneira a poder libertar o meu p.

A partir dali  que os meus problemas comeavam de

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verdade, pensei. Assim que lhe tirasse a faca do pescoo, o que o impediria de se virar para mim e atacar-me? Raciocinando com rapidez, compreendi que s imitando 
o que ele me fizera. Peguei na corrente e atirei-a para cima da perna dele.

Que 'ts a fazer?

Levante essa perna. Levante-a! gritei, mantendo a faca apertada contra a garganta dele. Buster obedeceu e eu passei-lhe a corrente por baixo e enfiei-lhe o cadeado, 
tal como ele fizera para a prender, e fechei-o. Depois respirei fundo para tentar abrandar as batidas do corao.

s maluca, mulher. No podes fazer uma coisa destas ao Buster Trahaw.

Contei at trs e afastei a faca, recuando um segundo antes de ele tirar a mo do bolso e estend-la para me agarrar no pulso. Ficou a escassos centmetros de o 
conseguir; porm, foi quanto me bastou para correr porta fora enquanto ele se levantava do catre e se precipitava na minha direco.

Ele dispunha de corrente suficiente para chegar  porta e sair para a varanda; portanto, eu teria de chegar ao lado de fora e alcanar a piroga antes de tal acontecer. 
Ao descer precipitadamente as escadas, por pouco no escorreguei e ca na gua. Agarrei-me ao corrimo, que rangeu mas aguentou com o meu peso, enquanto eu tomava 
balano e recuperava o equilbrio.

Buster j estava fora do casebre, agitando o punho no ar e gritando obscenidades.

Volta-me pr'aqui e desprende-me esta cadeia, 'ts a ouvir? Volta aqui!

Atirei a chave ao ar e esta caiu dentro de gua, perante os olhos esbugalhados de raiva de Buster. O seu rosto estava muito vermelho e dava a impresso de que os 
vasos sanguneos das bochechas e da testa iriam explodir. O choque e a fria eram to intensos que mal conseguia formar as palavras devidamente. Gaguejou e agitou 
o punho com frenesim, socando a prpria coxa. Depois, puxou a corrente com tal fora que as veias do pescoo incharam quase ao ponto de rebentarem. Felizmente no 
conseguiu passar a corrente por cima do joelho: no entanto, o esforo e a dor frustraram-no ainda mais.

No esperei para ver o que faria a seguir. Entrei na piroga, desprendi a amarra e peguei no remo como o vira fazer a ele. Empurrei a embarcao para longe do cais.

No te atrevas a deixar o Buster Trahaw! gritou. No te atrevas!

Mergulhei o remo na gua e este desceu tanto que achei que nunca chegaria ao fundo. Na minha tentativa e esforo para

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me manter equilibrada, por pouco no ca borda fora. A piroga comeou a balouar perigosamente. Com medo de mergulhar na gua lamacenta do canal, deixei-me ficar 
quieta no assento e esperei que a embarcao estabilizasse. Buster continuava a berrar, assustando os pssaros com o seu vozeiro. Penso que at os peixes nadaram 
para longe.

Voltei a levantar-me e, dessa vez com mais cuidado, mergulhei o remo na gua at encontrar algo slido. Carreguei com fora e o impulso fez avanar a embarcao. 
Repeti o gesto e esta moveu-se ainda mais depressa. Senti-me mais confiante e continuei. Ao voltar-me para a frente, no entanto, vi que dirigira a piroga para um 
aglomerado de ciprestes tombados sobre a gua. Mudei rapidamente para o outro lado e impulsionei-a no sentido oposto. Depois olhei para trs, em direco ao casebre. 
Buster parara de berrar. Olhava para mim, mal podendo acreditar nos seus olhos; quando se apercebeu de que me ia afastando, foi dominado por uma onda de raiva ainda 
maior. Voltou a entrar no casebre e a seguir precipitou-se para fora, arrancando o espigo do cho e soltando a corrente.

O impulso f-lo passar o corrimo da varanda e cair no pntano com um gigantesco esparramar de gua. Ainda fiquei a olhar durante algum tempo, at ele voltar  superfcie. 
A corrente no o impediu de comear a nadar na minha direco. Manejei o remo freneticamente, sentindo que o meu terror tornava os meus esforos ainda mais desajeitados. 
Fiz fora e remei.

Buster comeou a aproximar-se cada vez mais. O seu corpo poderoso cortava a gua do pntano quase com a mesma rapidez de um aligtor. Eu via a sua cara avermelhada 
cada vez mais perto. Gritei e mergulhei o remo, fazendo o mximo de fora de que era capaz, tentando, ao mesmo tempo que soluava, manter alguma distncia em relao 
a ele.

Assim que te apanhar dou-te uma sova de moer bicho' prometeu-me. Pra essa canoa!

Fez uma pausa para agitar um dos punhos na minha direco e eu manejei o remo de maneira a poder fazer a curva e passar pela abertura estreita que conduzia a um 
canal mais largo. Perdi-o de vista por momentos. Desenvolvi um ritmo harmonioso e impulsionei a piroga com mais eficcia; pormno me apercebera de que o canal tinha 
pouca altura na curva. Quando Buster ali chegasse, agarraria na corrente com as mos e seguiria a p pela margem. Quando j pensava ter-me distanciado o suficiente 
dele para o impossibilitar de me alcanar, apareceu-me a poucos metros de distncia, em terra firme. Redobrei os meus esforos. O desespero forneceu-me a energia 
necessria. Buster correu pelo espao de gua estreito e voltou a mergulhar, segurando na corrente com um brao, por instantes, qual salva-vidas a manter um nufrago 
 tona de gua. A sua fora e determinao eram impressionantes. No havia dvida de que no tardaria a alcanar-me, pensei, e eu no escaparia a um castigo terrvel.

Quando a gua comeou a ganhar mais altura, largou a corrente e ps-se a nadar com os dois braos. Estava agora a menos de meia dzia de metros da piroga. Eu s 
disporia de mais alguns instantes de liberdade, pensei, e ainda considerei a possibilidade de me atirar para a gua se ele agarrasse na embarcao com aquelas suas 
manpulas. Alis, nada o impediria de a virar, fazendo-me mergulhar no canal.

Sentia-me muito fatigada. Os meus impulsos iam ficando mais fracos e eficazes. Tinha as mos cada vez mais rgidas com o esforo, a pele das palmas cheia de bolhas 
e sangue. Doam-me os ombros e tinha a sensao de que engolira uma pedra que me ficara dentro do peito, mesmo por baixo do corao em esforo.

Deixe-me em paz! gritei quando o vi suficientemente prximo para reparar nos seus dentes cerrados e no esgar de escrnio.

Buster mergulhou os braos na gua com maior determinao e, de repente, parou abruptamente.

O que ... gritou, surpreendido.

Vi-o estender os braos para baixo e puxar a corrente.

Fiquei preso gritou, debatendo-se no meio da gua para se libertar.

Hesitei, sustive o remo e deixei a canoa deslizar sozinha Por uns momentos. Nunca se sabia se ele no estaria a fingir, embora parecesse verdadeiramente espantado. 
Ajuda-me! gritou-me. No me deixes ficar aqui! Volta!

Algo se lanou para dentro de gua  minha direita.

Um aligtor berrou Buster.

Que deveria fazer? Se voltasse para trs e o salvasse, certamente me maltrataria, mas... abandon-lo ali, indefeso...

Achei que talvez ficasse demasiado cansado para se vingar,

O certo era que no podia deix-lo ali. Enquanto tentava deter
a piroga e vir-la na direco dele, uma parte de mim advertia-me vivamente para que no o fizesse. O esforo foi superior
ao que eu imaginava, mas a certa altura consegui suster o avano da embarcao. Buster acenava-me e gritava. Entre ns ficava j uma distncia razovel.

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Mergulhei o remo e fiz fora, recorrendo a todo o meu peso para impulsionar a canoa para trs. Esta avanou lentamente at ganhar uma certa velocidade.

-Isso, boa mulher - gritou-me. - Assim  que , o Buster j no te magoa mais. Podes fazer o que quiseres, Tira-me  da gua depressa. Anda, fora nesse remo. Isso,

Empurrei mais uma vez o remo e foi ento que o ouvi agitar-se no meio da gua e gritar com algo.

- Sai, pe-te a andar!

Olhei e vi Buster erguer uma cobra verde comprida para fora da gua e arremess-la para longe. A seguir berrou de novo desta vez em tom mais estridente. A razo 
surgiu na forma de uma cauda de aligtor a agitar-se na gua, ao lado dele, seguindo-se a de outro, e mais outro. Buster esbracejava, lutando con os rpteis, mas 
a certa altura a sua cabea desapareceu debaixo de gua.

-Oh, meu Deus! - murmurei.

Quando voltou a emergir, vi-o inalar o ar sofregamente, antes de desaparecer de novo. Veio  tona uma vez mais, mas j tinha o corpo inerte e no movia os braos. 
Flutuou por momentos e depois desapareceu gua dentro. No stio onde a cabea estivera formaram-se bolhas de ar que, a certa altura, rebentaram, deixando depois 
a superficie da gua serenar. Aguardei sem desviar os olhos do local. o meu estmago andava s voltas. Tive de me sentar pois comecei a sentir-me mal. Ofeguei, Sustive 
a respirao e voltei a ofegar. Sempre que olhava para o stio onde ele estivera, senta-me agoniada. A certa altura, a sensao desvaneceu-se, sendo substituda 
por uma onda de fadiga que fez com que as minhas pernas parecessem de cimento

Olhei para as mos feridas, senti as dores nos meus braos e ombros, mas reuni foras e levantei-me, recomeando a remar. Fi-lo lenta e metodicamente, apercebendo-me 
de que estava prestes a entrar em estado de choque. Fiquei horrorizada de pensar no que me poderia acontecer se desmaiasse em pleno pntano.

Olhei em frente e percebi que seguia por um canal. porm iam aparecendo outros
ao longo do caminho.
Deveria voltar  direita ou  esquerda, ir pelo primeiro ou pelo segundo? Naquele momento todos pareciam iguais. A vegetao, as pedras e os ciprestes tombados assemelhavam-se 
queles pelos quais Buster passara quando me levara de piroga para o casebre. Em pnico, enveredei por um que, conforme descobri depois, foi dar a uma enseada minscula. 
Tive de voltar para trs.

Sentia o estmago a doer de fome e a cabea esvada.
Eu,
254
uma rapariga criada em Nova Orlees, a viver numa casa onde
nada faltava, bem cuidada, mimada, requintada, vestia agora uma serapilheira e remava, numa canoa meio apodrecida, pelo meio de um pntano cheio de insectos, cobras 
e aligatores. Ainda por cima, perdida!

Desatei a rir. Sabia que se tratava de uma reaco histrica, mas no conseguia conter-me. As minhas gargalhadas ecoaram  minha volta e no tardaram a transformar-se 
em soluos. Quando consegui que a canoa entrasse noutro canal mais largo, fiz uma pausa e sentei-me. Tinha a garganta to seca que no conseguia engolir, e a minha 
lngua parecia lixa. Olhei desesperadamente em volta, em busca de algum indcio de direco. Como poderiam os habitantes da zona saber o caminho por entre aqueles 
pntanos? Exausta e derrotada, recostei-me. A piroga balouava ao sabor da suave ondulao da gua. Duas garas passaram por cima de mim, mirando-me com curiosidade 
e cautela, antes de se afastarem. Seguiu-se-lhes um cardeal que, mais ousado, pousou na proa da embarcao, executando um pequeno sapateado sem
desviar os olhos de mim.

- Sabes como sair daqui? - perguntei-lhe.

o cardeal levantou as asas, como que encolhendo os ombros, e voou atrs das garas. Voltei a fechar os olhos e recostei-me de novo, demasiado cansada para pensar. 
Devo ter adormecido durante alguns momentos, pois, quando reabri os olhos, a piroga balouava suavemente contra um cipreste tombado. Uma famlia de ratos-almiscarados 
subira a bordo para cheirar o que havia e inspeccionar-me; assim que me movi, escapuliram-se apressadamente para o meio da vegetao. Endireitei-me, mergulhei a 
mo na gua e esfreguei o rosto para acordar melhor. Em seguida, pus-me de p e empurrei a canoa para longe do cipreste.

Quando comecei a manejar o remo, ouvi o zunido de um barco a motor. Era difcil perceber de que direco vinha; no entanto, aguardei. Cresceu de intensidade e reparei 
que se aproximava pela minha direita. Dirigi a canoa nessa direco. Instantes depois, apareceu um barco, que era pequeno, mas trazia Jack l dentro. Nunca nenhuma 
viso fora mais agradvel para mim.

-Jack! - gritei.

o som do motor no o deixou ouvir-me ao passar. Frustrada, remei de modo a colocar a piroga na sua direco. Porm, que possibilidades tinha eu de alcanar um barco 
a motor? A certa altura desisti e voltei a sentar-me, com uma enorme

255
sensao de derrota. A gua batia brandamente contra a embarcao. Olhei de relance para o cu, que comeara a ficar ameaadoramente cinzento-chumbo, anunciando 
chuva e vento. E se houvesse outro furaco?

Umi a palma das mos sob o queixo, fechei os olhos e rezei

Meu Deus disse, sei que no tenho sido to religiosa quanto deveria e que encaro os milagres com o cepticismo de uma cientista, mas espero que escutes as minhas 
preces e tenhas pena de mim.

Comecei a balanar-me para a frente e para trs e a entoar uma msica. Fechei os olhos e recostei-me. Talvez o destino existisse, pensei. Talvez a f da minha me 
na inevitabilidade das coisas fosse justificada. No se sabia se, por razes que jamais se conheceriam, estava escrito que eu seria levada de volta queles pntanos 
e que eles me clamariam. Talvez todos os meus esforos para ser mdica, para ser outra pessoa, fossem afinal de contas irracionais e em vo. Algum dotado de poderes 
malficos deitara mau-olhado  nossa famlia e no havia como escapar. Comecei a perceber por que razo a minha me achara que tinha de fugir, salvando assim a sua 
famlia do que acreditava ser uma desgraa inevitvel.

Sentia-me at demasiado fatigada para chorar. Nada mais era capaz de fazer alm de ali ficar deitada a aguardar que algo de terrvel acontecesse. Foi ento que voltei 
a ouvir o barulho distante do motor do barco, que se foi tornando cada vez mais forte. Sentei-me e esperei. Momentos depois, o barquito apareceu. Jack avistou-me 
e dirigiu-se na minha direco. Desligou o motor e orientou o barco de modo a acostar  minha canoa. Estava demasiado chocado para falar, limitando-se a olhar para 
mim. Eu tambm olhei para ele, sem saber ao certo se era real ou uma iluso.

Pearl, tenho andado num desespero  tua procura. O que fazes numa canoa? E porque ests vestida com uma... serapilheira?

Eu, em vez de responder, comecei a chorar. Ele adiantou-se e passou-me imediatamente para dentro do seu barco.

Vejam-me s como tu ests, como tens as mos... O que aconteceu?

Oh, Jack respondi. O Buster Trahaw trouxe-me para aqui ao engano. Levou-me para um casebre, onde me prendeu a uma corrente e disse que eu ia ser mulher dele. Consegui 
fugir, mas ele veio atrs de mim. Depois afogou-se ou foi comido por aligatores... ou crocodilos...

Estava demasiado exausta para continuar.

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Santo Deus! exclamou Jack, beijando-me no rosto e apertando-me contra si. No te preocupes. Agora ests a salvo. No deixarei que te acontea mais nada. Vou levar-te 
para Cypress Woods.

Ligou o motor e partimos.

Olhei para trs uma vez, vendo a piroga que ficara a balouar na gua do pntano. Fora ela que me levara para o inferno e me trouxera de l.


15

O OLHO DA TEMPESTADE

Quando chegmos ao embarcadouro, Jack ajudou-me a sair do barco. Fui-me abaixo nas pernas e precisei de me encostar a ele uns instantes. Mal pousei o p em terra 
firme, todo o impacte do que me acontecera e daquilo por que passara se abateu violentamente sobre mim. A chuva tambm recomeara a cair mas ns dois mal dramos 
por ela. Jack pegou em mim com os seus braos fortes e carregou comigo como se fosse um beb

Jack, no precisas de me levar ao colo protestei

Tenho latas de leo que pesam mais do que tu respondeu, sorrindo.

De facto, levou-me carreiro acima, mesmo at ao atrelado, sem a menor demonstrao de esforo. Dei-me conta de que estvamos os dois ensopados at aos ossos, em 
especial eu, naquela espcie de vestido que Buster me obrigara a vestir. Alguns dos outros operrios dos poos aproximaram-se a correr, para se inteirarem do que 
acontecera; porm, Jack no parou para dar explicaes. S me colocou no cho depois de entrarmos no atrelado.

Aqui ao menos podes tomar um duche quente. Despe-me essa serapilheira que eu vou ver se encontro algo para vestires Depois chamaremos a Polcia e contar-lhe-emos 
o que aconteceu.

 melhor tambm ligar para casa para saber como o meu pai est disse, afastando o cabelo enlameado da testa e dos olhos. Entretanto formara-se uma pequena poa aos 
meus ps. Estou uma desgraa.

No te preocupes.

Jack reparou nos verges que os golpes de Buster me tinham deixado nas pernas.

Isso no est com bom aspecto observou Jack. ' Talvez devesse chamar um mdico ou uma traiteur.

No tem importncia. A pele no rompeu. Depois aplicar-lhe-ei gelo.

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J me esquecia de que vais ser mdica disse Jack, sorrindo. Ter-te por aqui d muito jeito.

Sentia-me to suja depois daquilo por que passara que me deixei ficar no duche at Jack bater  porta a perguntar se estava tudo bem.

Pearl?

Estou bem gritei, deixando-me ficar ali a sentir a gua quente a escorrer por mim. Ouvi-o abrir a porta.

Vou deixar a roupa aqui gritou-me.

Fechei a gua e afastei a cortina para espreitar. Jack dispensara-me um dos seus macaces e uma camisa de xadrez, assim como um par de meias e umas sandlias, tambm 
suas.

Prendes as calas na cintura com este bocado de corda disse ao ver-me rir. Desculpa, mas no tenho nenhuma saia.

Serve muito bem. Obrigada.

Est tudo bem contigo?

Agora est respondi.

Ele no escondeu a sua satisfao.

Estou a fazer um ch bem quente e tenho ali umas bolachas e compota.

Obrigada, Jack.

Depois de me secar e vestir as roupas, enrolei a cabea numa toalha. Quando sa da casa de banho, Jack ergueu a cabea.

Sinto-me uma outra pessoa, sobretudo nestas roupas confessei. Enrolara as calas do macaco, de maneira a ficarem mais curtas mas, ainda assim, eram demasiado largas 
para mim, tal como a camisa de Jack. Devo estar com um ar muito esquisito, no ?

Para mim ests maravilhosa. Nunca pensei que as minhas roupas ficassem to bem em algum. Sorriu mas, logo a seguir, ficou com uma expresso grave. Agora, senta-te 
ordenou, apontando para a cadeira.

A sua ira apanhou-me de surpresa, pelo que me apressei a obedecer.

Qual  o problema?

Jack cruzou os braos e endireitou os ombros.

Como  que pudeste acompanhar uma pessoa como aquela, deixando-me apenas um bilhete? Sabes que foi s por isto disse, formando um pequeno espao entre o indicador 
e o polegar, que eu no dei com ele? E quando li o nome Trahaw, por pouco no tive um ataque de corao. Ainda me custa acreditar que te tenhas metido pelos pntanos 
dentro com aquela besta.

Jack, ele afianou que sabia onde a minha me estava, Por isso eu...

259


Para uma mulher que se supe inteligente, no h dvida de que fazes tolices.

Olhei para baixo, prestes a rebentar em lgrimas.

Desculpa estar a refilar contigo, Pearl, mas quando vi que tinhas desaparecido e percebi que foras para o pntano com aquele sujeito, senti-me muito mal. Pensei 
que nunca mais te voltava a ver.

Ergui os olhos rasos de lgrimas para Jack e vi que falava com sinceridade.

Desculpa, Jack. Foi estupidez minha. Devia ter falado contigo primeiro.

Sim, bem, talvez. O mais provvel era ele tentar impedir-te, o que ainda poderia ser pior alvitrou em tom reconciliador.

No consigo imaginar algo pior do que foi, Jack comentei.

Jack acenou com a cabea e depois voltou-se para a chaleira, que comeara a assobiar. Preparou-me uma chvena de ch e passou-me as bolachas e a compota.

Agradeci e comi uma, depois outra, apesar de achar que estava sem fome.

Jack riu.

Vou buscar-te mais disse. No quero que te ponhas a comer a mesa.

Acho que no me dei conta da energia que gastei para remar naquela piroga.

Muito bem disse, trazendo-me mais bolachas. Agora conta-me o que aconteceu.

Jack sentou-se  minha frente e escutou a minha descrio do que acontecera no casebre e como eu fugira. Quando cheguei ao fim, acenou com a cabea, de olhos fixos 
em mim, com uma nova expresso de apreo neles.

Retiro o que disse h bocado. Reagiste com rapidez e eficincia, mesmo para uma menina da cidade observou

Jack dirigiu-me um sorriso to terno que eu achei que seria capaz de me deixar afundar nele para sempre. Os seus olhos e os seus lbios meigos faziam-me sentir algo 
mais do que segU" rana. O meu lugar era ali, estava escrito que era ali. Costumava pedir constantemente  minha me que me falasse da magia do amor, desejosa de 
saber se, de facto, era possvel duas pessoas serem atradas uma para a outra por foras msticas no explicadas em laboratrio. Eu tinha vontade de acreditar, mas 
como nunca acontecera comigo, sentia-me cptica. No entanto* o calor emitido pelos olhos de Jack derreteram todo o meu cinismo.

260


Acho melhor telefonar para casa do meu pai para saber como ele est sugeri eu, suavemente.

Jack concordou com um aceno de cabea.

A seguir, ligarei para a Polcia. Ters de lhes falar sobre o que aconteceu e explicar em que stio achas que o Buster se afundou.

No devo ser capaz, Jack. Os canais do pntano parecem-me todos iguais.

No te preocupes com isso disse Jack. C por mim ningum ter saudades de um traste como o Buster Trahaw.

Foi Aubrey quem atendeu o telefone quando liguei para casa, dizendo-me que o meu pai estava a dormir.

Mas j perguntou vrias vezes por si, mademoiselle.

Diga-lhe que, assim que eu puder, ligarei novamente, Aubrey. E tambm que est tudo bem comigo, diga-lhe ainda que...

Sim, mademoiselle?

Nada, Aubrey. Depois telefono para ele acrescentei.

Para qu dar ms notcias ao meu pai, pensei. No encontrara a minha me, por pouco no me deixara aprisionar e, quem sabe, matar; tambm nada podia fazer para ajudar 
Pierre.

No te vs abaixo nas canetas aconselhou Jack depois de eu pousar o auscultador e vendo o meu ar desconsolado.

Sorri, recordando-me de ouvir a minha me utilizar aquela expresso cajun muitas vezes.

Ainda no chegmos ao fim acrescentou Jack com olhar firme e determinado.

Dirigi-lhe mais um sorriso de gratido mas, no meu corao, eu j desistira de ter esperana. Vendo bem, no havia mais nada a fazer ali. Mais valia voltar para 
casa.

Jack telefonou  Polcia e, pouco depois, chegou um carro-patrulha com dois agentes. Ouviram o meu relato, sacudindo as cabeas de incredulidade.

Vamos mandar um par de barcos patrulhar o canal para ver se restou alguma coisa dele disse-me um dos polcias. "Sabemos que a sua me desapareceu. O seu pai ligou-nos 
l Para a esquadra e falou com o chefe, e Mistress Pitot tambm telefonou algumas vezes. Temos a descrio da sua me e estamos alerta.

. Agradeci-lhes e, a seguir, Jack acompanhou-os at ao exterior onde eu j no os ouvia, para acabarem de falar. Ao olhar pel'a janela, vi-os sacudir a cabea ainda 
com maior comiserao. Jack despediu-se deles com um aperto de mo e partiram,

261


Mas, mal isso aconteceu, os colegas de Jack aproximaram-se para ouvir a histria. Relutante, Jack descreveu-lhes os acontecimentos. Depois, chamou-me e eu vim at 
 entrada, escutar a raiva que exprimiram diante do sucedido.

Todos se ofereceram ento para fazer algo por mim. Um queria ir at Houma e comprar-me roupas novas, outros propuseram formar um grupo de busca para devassarem os 
pntanos  procura da minha me; no entanto, Jack explicou-lhes por que motivo achava que no serviria de nada.

No se preocupe, mademoiselle declararam. Nunca mais nenhum Trahaw voltar a pr o p nesta propriedade.

Quer dizer que h mais gente dessa famlia? perguntei a Jack.

Primos, mas no vivem perto respondeu-me, exibindo uma expresso de raiva. Ela ficar bem assegurou aos colegas. Voltem para o trabalho.

Entrou de novo no atrelado.

Acho que  melhor comear a pensar em voltar para Nova Orlees antes que se faa demasiado tarde, Jack.

Detesto ver-te fazer essa viagem depois do que passaste. No poders ficar mais uma noite, recuperar foras e depois voltar para casa? Que diferena podero fazer 
mais algumas horas? Precisas de repouso, Pearl. Estende-te um bocado em cima daquele sof e dorme uma sesta. Tenho de fazer no poo. mas depois virei preparar uma 
ptima refeio para ns.

No sei. Devia voltar para casa, Jack. O meu pai precisa de mim e j estou h demasiado tempo afastada do Pierre.

Est bem aquiesceu Jack depois de reflectir um pouco. Descansas, jantas e depois vou at Nova Orlees contigo. O Bart pode pr o Jimmy no meu turno da manh. Depois 
voltarei de autocarro.

No te posso pedir que faas semelhante sacrifcio, Jack protestei.

No  nenhum sacrifcio,  por vontade minha disse. - Agora ests em territrio cajun e quando um homem cajun fala

Sim? aguardei, sorrindo.

s vezes uma mulher cajun escuta replicou ele, e ambos desatmos a rir.

A fadiga que ele previra levou a melhor sobre mim. Bocejei, mal conseguindo manter os olhos abertos.

V, deita-te a e descansa um bocado, ouviste? ordenou Jack.

Sim, senhor respondi, rindo.

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No entanto, segui a sugesto dele e estendi-me no sof. Fechei os olhos, ouvindo-o, vagamente, levantar a mesa e lavar a loua. Antes de sair do atrelado para ir 
para o trabalho j eu dormia, e s acordei depois de voltar, fazer o jantar e pr a mesa. L fora, a noite j cara. Fiquei chocada ao verificar quanto tempo dormira. 
Jack no se apercebera de que eu acordara. Acendeu uma vela e ficou a olhar, por um momento, para a pequena chama. A luz iluminava-lhe o rosto suavemente e, quando 
se voltou, tinha a chama da vela reflectida nos olhos.

Viva, como ests? perguntou-me.

Um pouco tonta. Dormi durante quanto tempo?

Algum respondeu, aproximando-se de mim. Sentou-se na beira do sof e pegou-me na mo.

Acho que tinhas razo, estava bem mais cansada do que imaginava.

Tens fome?

Disse que sim com a cabea. O aroma da comida estava a despertar o meu apetite.

ptimo. Esta noite vamos regalar-nos com um autntico banquete cajun: peixe-vermelho recheado e assado no forno com molho de ostra anunciou em tom fanfarro.

Onde  que aprendeste a ser to bom cozinheiro? perguntei, admirada.

De que ests a falar? Sou cajun replicou Jack como se tal explicasse tudo. No sabes que costumam dizer que os Cajuns transformam tudo o que apanham numa iguaria?

Sim, j ouvi dizer. Posso ajudar?

Podes sentar-te e comer. Est tudo pronto respondeu Jack.

Levantei-me, passei o rosto por gua e fui sentar-me  mesa, ao seu lado. Serviu-me vinho branco e eu comi, mais uma vez, vorazmente. Jack ficou a ver-me devorar 
o seu delicioso jantar com um pequeno sorriso nos lbios.

Jack Clovis declarei, entre duas garfadas, isto est uma maravilha. Foste realmente tu o cozinheiro?

Bem...

J calculava observei. Onde  que arranjaste este manjar?

Fui a um restaurante confessou ele, e depois foi s aquecer. Mas estavas a acreditar, no estavas?

S porque confiava em ti respondi.

O sorriso morreu-lhe nos lbios e pegou-me na mo.

Se alguma vez te disser uma mentira, Pearl, avanarei logo com a verdade a seguir, e jamais ser uma mentira que Possa magoar-te prometeu.

263


Est bem, Jack. Sinto-me demasiado esfomeada para me zangar declarei, fazendo-o rir.

Jack ps um pouco de msica moderna a tocar e finalizmos o nosso jantar com o excelente caf cajun e bolo de morango. Eu estava to cheia que mal podia mexer-me; 
no entanto, sentia-me bem-disposta e repousada.

E agora, tencionas dar-me ouvidos e passas a noite aqui' perguntou.

A perspectiva de fazer uma viagem to longa, ainda por cima de noite, aterrava-me.

Acho que sim respondi. Mas terei de me ir embora assim que me levantar.

Combinado concordou Jack.

Eu trato da loua insisti.

No te impeo de o fazeres replicou Jack. Dei-lhe um pequeno soco no ombro e ele fez de conta que

me fazia o mesmo. Rimo-nos e abramo-nos. Como era bom sentir-me leve e descontrada depois do que passara... Bastava estar ao lado de Jack para ficar  vontade. 
Quando estava a lavar e a passar os pratos por gua, ele aproximou-se de mim por trs e beijou-me suavemente na nuca. Parei e senti-o rodear-me a cintura com os 
braos. Encostei-me a ele, fechei os olhos e convidei-o a dar-me mais beijos nas faces, no pescoo e, por fim, depois de me virar para ele, nos lbios.

Deixa ficar esses pratos sussurrou-me ao pegar em mim ao colo.

Atravessou o atrelado comigo nos braos, at chegar ao seu quarto, sobre cuja cama me deitou suavemente. Estava escuro, porm, as nuvens tinham-se apartado e a chuva 
j deixara de cair h muito. A escurido era atravessada por raios de luar que entravam pela janela do atrelado, iluminando as nossas silhuetas. Despimo-nos sem 
pressas e sem proferir uma palavra. Nus. sob os cobertores, voltmos a beijar-nos e eu senti-me envolta pelos seus braos como se fosse a situao mais natural do 
mundo.

Jack foi extremamente meigo. Os seus lbios tinham a leveza de penas, passeando-me pelo corpo abaixo e voltando depois para cima a fim de me acariciarem de novo 
os seios. Os meus gemidos eram pequenos murmrios que acompanhavam a minha respirao acelerada. Mesmo depois de me penetrar, os nossos movimentos mantiveram-se 
graciosos e suaves, aumentando lenta e progressivamente de velocidade at chegarem ao momento supremo, deixando-me sem flego. De repente senti-me girar vertiginosamente; 
no entanto, era uma vertigem

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Deliciosa, uma sensao de leveza que me deixava entontecida. Tinha a impresso de estar prestes a soobrar, no entanto, no me sentia em perigo. Era uma queda maravilhosamente 
livre, um voo atravs do xtase

As palavras de amor que Jack me sussurrava enchiam-me os ouvidos a par das batidas do meu prprio corao. No conseguia deixar de lhe dizer o quanto eu tambm o 
amava. O fluxo de emoo que estivera a acumular-se por trs da minha muralha de cepticismo e medo derrubou-a, fazendo jorrar uma torrente de paixo que ameaou 
submergir-nos a ambos. Apertei-me contra ele exigindo mais e mais e retribuindo os seus beijos com intensidade crescente

Em tempos eu receara nunca poder ser uma amante, no entanto, a gargalhada de surpresa de Jack e o facto de me implorar que o deixasse recuperar o flego fez-me compreender 
que era um receio infundado. Eu era o relmpago que necessitava da associao certa dos elementos para iluminar o cu da noite, e os elementos certos eram algum 
que me amasse e a quem eu amasse de verdade

Por fim, Jack deitou-se de costas na cama e exclamou

Piedade!

Eu ri-me e ficmos de mos dadas enquanto os nossos coraes e as nossas respiraes serenavam. A seguir Jack levou a minha mo aos lbios e beijou-me os dedos um 
a um Depois pousou-a sobre o seu corao

Sente como o meu corao est feliz disse. Sente como bate por ti

O meu tambm, Jack declarei, levando a mo dele ao meu peito

Ficmos deitados lado a lado, em silncio, atnitos com a fora e a intensidade do nosso amor. Apercebi-me de que aquele sentimento era como o olho da tempestade, 
a calmaria que se Segue ao turbilho. Jack dissera-me que o furaco estava em mim porque eu nascera no meio de um. Talvez tivesse razo. Fora no meio do estrebuchar 
de todo aquele infortnio e tragdia que o encontrara  minha espera, para me abraar. Descobrira o seu amor e, com ele, a fora para enfrentar a tempestade que 
se seguiria

Fechei os olhos e mergulhei num sono leve e aprazvel, mas a certa altura da noite acordei, como se algum me acotovelasSe. As minhas plpebras estremeceram. Por 
um instante no me recordei do stio onde estava. Depois ouvi a respirao branda de Jack ao meu lado e descontra-me. Voltei-me para a janela. A lue deitava para 
Cypress Woods e olhei para fora. O meu corao disparou e ergui-me de um salto

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Jack!

O que... que foi?

Olha!

Apontei para a casa. Mal se distinguindo a um canto da janela de esquina do estdio da minha me, via-se o fulgor da chama de uma vela.

Jack sentou-se e olhou atentamente para a enorme casa, cuja silhueta se desenhava contra o cu purpurino da noite. Os seus olhos estreitaram-se e virou-se para mim 
lentamente.

Num sussurro, disse-me:

No h dvida de que est ali algum.

Vestimo-nos rapidamente. Jack agarrou numa lanterna e numa espingarda.

Podem ser ladres explicou, ao reparar na minha surpresa.

Eu estava esperanada de que fosse a minha me; no entanto, tambm me ocorreu outra possibilidade.

Ou ento os primos do Buster Trahaw, no? alvitrei. Jack fez uma careta, mas no negou a hiptese. Em vez disso, foi a uma gaveta buscar mais uma mo-cheia de balas 
para a arma.

Metemo-nos no meu carro e subimos at  manso. O cu da noite exibia uma tonalidade purprea fantasmagrica, quebrada aqui e ali para deixar ver o piscar de algumas 
estrelas. A brisa forte fazia os salgueiros e ciprestes balanar agoirentamente. As sombras pareciam pairar e contorcer-se sobre o cho. Quando samos do carro, 
ouvi o grito de uma gara noctvaga e, a seguir, vi-a agitar as asas e zarpar sobre o campo. rumo aos pntanos.

Ergui os olhos para a manso. O brilho da luz de vela continuava visvel atravs da janela.

Jack pegou-me na mo e acercmo-nos rapidamente da escadaria lateral.

Deixa-me ir  frente sussurrou-me. E subamos o mais silenciosamente que pudermos.

Tentei engolir mas no consegui. O meu corao batia to violentamente que tinha a certeza de que, se se tratasse de un ladro, o ouviria. At receio de respirar 
eu tinha. Lenta e cautelosamente, subimos os degraus que nos levariam ao estdio. Pareceu-me que rangiam o suficiente para denunciar a nossa aproximao, mas eu 
tentei ser o mais leve possvel. Chegados ao cimo, Jack hesitou, verificou a sua espingarda em seguida, mantendo-me atrs de si, abriu a porta com uma investida 
rpida e violenta.

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Ao princpio no vimos ningum. Algumas velas brancas brilhavam em torno de um cavalete sobre o qual estava montada uma tela em branco. Foi ento que ela saiu de 
entre as sombras, ela prpria confundindo-se com uma delas. Era a minha me, finalmente.

Me! gritei, cheia de alegria.

Jack baixou a arma e eu lancei-me a correr, mas parei antes de chegar junto dela.

A minha me comportava-se como se no nos ouvisse nem visse. Sorria ao de leve e movia-se como se fosse uma sonmbula. Tinha o cabelo desgrenhado, com as madeixas 
a encaracolarem a esmo. O rosto exibia acentuados vestgios de lama e no queixo tinha uma mancha escura. O vestido estava amarrotado, enrugado, manchado e tingido, 
sugerindo que nunca mais o despira desde que partira, e tambm que dormira ao relento! Tinha nas mos alguns lpis de carvo e um trapo.

Me, sou eu, a Pearl exclamei, ficando  espera. A minha me voltou-me as costas e ficou de frente para a tela em branco. Jack continuava atrs de mim, mirando-a 
com igual curiosidade. Me? No me ouves? perguntei.

Ao ver que no me respondia, voltei-me para Jack.

Jack, o que se passa com ela?

Est numa espcie de transe respondeu-me ele. Cuidado.

Aproximmo-nos mais um pouco. Estendi a mo e toquei-lhe no ombro. A minha me pousou a sua mo sobre a minha e deu-lhe umas palmadinhas afectuosas.

Est tudo bem disse num sussurro audvel que me fez arrepiar de cima a baixo. Basta que desenhe o rosto dele como o recordo, tal como ficou gravado no meu corao. 
Sabes, os meus actos  que o aprisionaram.

"Mas tu no deves culp-lo, ningum o deve fazer, nem mesmo a igreja. Ele andava muito fora de si. Eu devia ter calculado que ficaria assim. No devia ter aceitado 
o seu sacrifcio com tanta facilidade. Ns ramos, na verdade, tudo o que lhe restava.

"Oh, ele era dono desta casa enorme e de todos estes terrenos cheios de poos de petrleo, mas o dinheiro pouco significado tinha para ele sem as pessoas que amava 
junto de si, pessoas com quem gast-lo.

"Ele sofreu muito continuou, at no ser capaz de aguentar mais. Foi at ao pntano para nos recordar, para relembrar os dias da juventude em que estvamos sempre 
juntos, inocentes e amigos, crentes na promessa do amanh e jamais

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imaginando que haviam monstros  nossa espreita, at mesmo dentro dos nossos coraes.

"Ele passou por grandes distrbios, embriagando-se, amaldioando e lamentando o seu destino, at chegar  concluso de que no conseguiria sobreviver com aquela 
vida incompleta e lanou a sua desprezvel existncia ao vento. Atirou-se  gua. nadou em crculos at no lhe restarem foras. Depois encheu os pulmes com a gua 
pantanosa e arrastou o seu pobre corpo para terra, acabando por morrer sob as estrelas que outrora lhe tinham parecido to cintilantes e prometedoras.

"E tudo isso aconteceu sobretudo por minha culpa. Eu aceitara egoistamente o seu amor e a sua ajuda, e, depois do meu verdadeiro amor ficar de novo disponvel para 
mim, fechara deliberadamente os olhos ao sofrimento de Paul e aceitara, mais uma vez, a sua generosidade. Tive uma nova existncia: estava com aquele que amava, 
a seu lado todas as noites, enquanto ao Paul restava um lugar vazio que s podia preencher com os seus sonhos. No bastava.

"Eu  que o fiz passar por semelhante tormento. Fingi opor-me a cada oferta sua. Arranjava argumentos para o dissuadir; no entanto, cedia diante dos que ele me apresentava. 
Deixei que se enganasse a si mesmo. E talvez o que foi o pior de tudo. permiti que amasse a Pearl como se fosse sua prpria filha, deixei-o fazer de conta que era 
seu pai. Dei-lhe essa iluso e de repente arranquei-lha das mos e do corao.

"Compreendem, ele perdera tudo o que lhe era querido e eu fora insensvel a tanta dor.

Me... balbuciei, com as lgrimas a escorrerem-me pela cara, lgrimas que me queimavam por dentro pois sentia intensamente o seu sofrimento.

Ela voltou a dar-me palmadinhas na mo; porm, no desviou o olhar da tela.

No, no vale a pena continuar a fingir ou a negar. A minha grandmre Catherine disse-me que sempre que alimentamos um mau pensamento ou cometemos uma m aco. 
aparece um esprito mau solto no mundo para combater contra os bons. Os espritos maus que eu libertei vieram, finalmente, ter comigo. Descobriram o caminho para 
a minha casa. Tenho de fazer o que  preciso declarou em voz branda.

E o que precisas de fazer, me? perguntei, receosa da resposta.

O esprito da grandmre Catherine disse-me. Ontem  noite dormi em cima da sepultura dela e esperei que as suas pa" lavras de sabedoria se infiltrassem no meu crebro. 
Devo pr nesta tela o rosto do Paul que trago no corao.

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Limpou a poeira da tela com o farrapo que tinha na mo.

E depois devo lev-la at  sepultura dele e queim-la, para que o seu esprito perturbado possa regressar para ele, permitindo-lhe assim fugir ao limbo.

Me, tens de voltar para casa comigo disse por entre lgrimas. Eu estou aqui agora, ao p de ti. Sou eu, a Pearl. Por favor, olha para mim, escuta-me. Precisamos 
todos de ti, o Pierre, o pai e eu.

A minha me continuou, porm, voltada para a tela. Ergueu o seu lpis de carvo e comeou a desenhar um rosto.

Me!

Espera disse Jack, pousando as mos nos meus ombros. Deixa-a fazer aquilo primeiro.

Fazer aquilo? Mas ela enlouqueceu, Jack! Tenho de a trazer  realidade! exclamei.

No conseguirias, e ela nada poderia fazer por ti ou pelo teu irmo. J vi pessoas assim confessou, em cerimnias religiosas, onde uma traiteur tentou resolver determinado 
problema mental. Umas vezes resultou, outras no, mas  preciso deix-la fazer o que ela pensa que tem de ser.

Isto faz lembrar a magia negra, o vudu. Jack,  uma perda de tempo.

No cabe a ti decidir, Pearl. O que importa  aquilo em que ela acredita. Tu no tens de a imitar. Eu no sou psiquiatra mas conheo o poder da mente quando se trata 
destas questes. No foste criada no Hayou, onde religio e superstio se juntam para formar um conjunto de diversas crenas, mas a tua me, sim insistiu.

Olhei de novo para a minha me, que j desenhara o contorno do rosto e trabalhava agora os olhos e o nariz. De repente comeou a cantarolar baixinho com os lbios 
fechados. Eu nunca ouvira aquela melodia, mas reparei que lhe abria um sorriso suave no rosto, um sorriso que dava a perceber que se deleitava com uma qualquer recordao.

Nunca os milagres feitos pelos dedos da minha me se tinham tornado to evidentes como naquele momento. Em minutos, deu vida ao rosto desenhado na tela velha e suja. 
Vi brilho Daqueles olhos, um pequeno esgar nos lbios e no tive dificuldade em imaginar que respirava. As suas mos percorriam a tela como se tivesse vida prpria, 
como se o quadro lhe flusse Para fora atravs dos dedos. Os pormenores eram suficientes Para que reconhecesse o meu tio Paul, porm a expresso do seu rosto era 
assustadora. J a vira uma centena de vezes. Era o rosto do homem na gua.

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Arquejei e recuei para os braos de Jack.

Ela est a desenh-lo como eu o tenho visto em inmeros pesadelos.

Tambm deve ser o pesadelo dela sugeriu Jack. Finalmente baixou os braos e recuou um pequeno passo

Olhou para o retrato e sussurrou:

Perdo.

Depois deixou cair o lpis de carvo e fez meno de pegar na tela.

Jack adiantou-se rapidamente.

Deixe-me ajud-la, Madame Andreas disse.

Ela fitou-o, sorriu suavemente e anuiu. Jack tirou a tela do cavalete.

Que ests a fazer agora, Jack? perguntei.

Faremos o que a tua me quer explicou-me. V d-lhe uma ajuda.

Sustive a minha me pelo cotovelo e virei-a delicadamente para a porta.

Obrigada, querida agradeceu-me, mantendo no entanto os olhos fixos em frente, enquanto amos atrs de Jack para fora do estdio, descamos as escadas, movendo-nos 
com uma lentido de um cortejo funerrio.

Sei onde o Paul Tate est enterrado disse-me Jack. Demos a volta  casa. Jack levava a lanterna acesa e o seu feixe de luz afastava a escurido, abrindo-nos um caminho 
at ao cemitrio, que tinha um porto de ferro e continha um nico tmulo. Sob a luz do candeeiro de Jack, aquele apresentava uma tonalidade fantasmagoricamente 
amarelada, em vez do cinzento habitual. O nome e as datas do tio Paul estavam gravadas no granito, tal como o seu epitfio: "Tragicamente perdido mas no esquecido."

A minha me fez uma pausa  entrada e voltou-se para Jack e para mim.

Obrigada agradeceu, mas agora devo ficar sozinha.

Compreendo, madame disse Jack, entregando-lhe a tela.

Eu estava profundamente espantada com a sua compreenso e sensibilidade.

A minha me pegou na tela e entrou no pequeno cemitrio. Jack recuou e deu-me a mo. Ficmos  espera, observando A minha me. Ajoelhou-se aos ps do tmulo e baixou 
a cabea. Rezou uma orao em silncio e em seguida encostou a tela  lpide. Ergueu os olhos para as estrelas. Os ombros tremiam-lhe com os soluos, mas a certa 
altura pareceu reunir novas energias e pegou numa caixa de fsforos.

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Acendeu cuidadosamente um fsforo e manteve-o debaixo de um dos cantos da tela. Demorou algum tempo mas a chama acabou por saltar do fsforo para o material ressequido. 
Ganhou depois fora e consumiu a tela, subindo pelo retrato do tio paul. A minha me deixou-se ficar ali a olhar para as chamas. O fumo revoluteou para o alto, at 
ser apanhado pela brisa e desaparecer na noite. No tardou que a tela ardesse por completo, com chamas to brilhantes que iluminaram o tmulo e o que o cercava. 
A minha me pareceu, por um momento, fazer parte do fogo que, s tantas, com a mesma rapidez com que deflagrara, comeou a extinguir-se. A tela desfez-se em cinzas 
e falhas que caram ao lado do tmulo de pedra. Quando se viu que j tudo ardera praticamente, Jack largou-me a mo e entrou no recinto gradeado. Fui atrs dele.

Ajoelhou-se para pegar nos braos da minha me e ajud-la a pr-se de p.

 tempo de ir, madame disse-lhe. Terminou.

Sim sussurrou ela. Sim, terminou.

Me!

Virou-se lentamente para mim, como quem emerge de um sono profundo, fitou-me e apercebeu-se de quem eu era. O seu rosto amenizou-se com um sorriso de felicidade.

Pearl, minha querida Pearl.

Me exclamei, abraando-a. Ficmos agarradas uma  outra durante muito tempo. O meu corpo estremecia com os soluos, enquanto ela me afagava os cabelos com meiguice, 
beijando-me na testa. Endireitei-me e limpei as lgrimas dos olhos e das faces, sorrindo. Ests bem?

Sim, querida, estou bem.

Temos de voltar para casa, me, para junto do Pierre
e do pai. O Pierre precisa desesperadamente de ti. Acha que o culpas pelo que aconteceu ao Jean, e os mdicos dizem que  por isso que no sai do seu estado catatnico.

Ela acenou com a cabea, pensativa. A seguir olhou para Jack, reparando verdadeiramente nele pela primeira vez.

Este  o Jack Clovis, me. Ajudou-me muito, a mim e a todos ns.

A minha me sorriu-lhe.

Fico-lhe grata, Jack agradeceu. Jack anuiu.

Permita-me que continue a ajud-la, madame. Venha ao atrelado refrescar-se antes de voltar para casa sugeriu.

 muito simptico da sua parte, monsieur agradeceu a minha me, voltando-se para olhar para o tmulo, onde ainda

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brilhavam as ltimas centelhas. Suspirou profundamente, deu um passo em frente com um sorriso de contentamento no rosto e a seguir desmaiou nos braos de Jack, que 
a amparou rapidamente.

Sobressaltei-me; porm, Jack levantou-a com toda a facilidade.

No  nada de grave tranquilizou-me. Est apenas extremamente fatigada. Levemo-la para o atrelado.

Transportou-a para o carro, sentando-a no banco da frente. Eu instalei-me ao lado da minha me, mantendo a sua cabea no meu ombro at chegarmos ao atrelado. Quando 
a levmos para dentro e sentmos num sof, comeara j a voltar a si. Coloquei-lhe uma toalha molhada na testa e Jack foi buscar-lhe um copo de gua. As suas plpebras 
continuaram a tremular e a cerrar-se. A partir de certa altura mantiveram-se abertas; mas parecia muito confusa.

Est tudo bem, me. Agora j ests em segurana.

Onde estou eu? perguntou, olhando em volta. Expliquei-lhe, enquanto ela bebia um pouco de gua.

Quando  que comeu pela ltima vez, Madame Andreas' perguntou Jack.

No se recordava; Jack preparou-lhe umas torradas e ch.  medida que foi comendo, as foras comearam a voltar-lhe e. com elas, a memria.

Eu sabia que tinhas vindo buscar-me contou-me. Uma noite vi-te na manso. No entanto, no podia deixar que me encontrasses, pois ainda no tinha recebido a resposta 
da grandmre Catherine.

Onde  que ficaste durante todo este tempo, me? Procurmos por ti em todo o lado.

No incio fiquei aqui explicou-me, o que me fez deduzir que fora na altura em que Jack vira a luz da vela. Tambm passei algum tempo na cabana, at um dia aparecer 
por l um homem pavoroso que disse que me ia buscar, como se soubesse do meu regresso. Escondi-me, mas ele teve uma fria e destruiu a cabana, levando-me a fugir 
para uma outra.

Era o Buster Trahaw.

Precisamente disse a minha me. Como  que sabes?

Relatei-lhe parte do que me acontecera, omitindo os pormenores mais horrendos, o que no impediu que ficasse muito perturbada.

S de pensar que fui eu a causadora de tantos tormentos e sofrimento... observou, com os lbios a tremer.

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No foste, no, me. Se nada do que aconteceu foi propositado da tua parte, ento no tens a menor culpa. No podes manter o mal afastado dos coraes de todas as 
pessoas. O Buster Trahaw era um indivduo asqueroso que,  menor oportunidade, teria atormentado outra pessoa qualquer.

 altamente provvel que o tenha j feito muitas vezes calculou Jack.

Mesmo assim contraps a minha me, se eu no tivesse fugido, tu no terias vindo  minha procura...

O que passou, passou, me. Deixemos o passado para trs. Temos problemas mais importantes com que nos preocupar disse, falando-lhe ento do estado de Pierre e da 
fractura que o meu pai sofrera na perna, o que o retinha em casa.

Temos de voltar imediatamente declarou ela, esforando-se por se pr de p. Eles precisam de ns.

Acho que devia dormir um pouco, madame. A manh ainda est um pouco distante e podero partir assim que acordar sugeriu Jack. Assim exausta, pouca ajuda poder prestar.

A minha me sorriu.

Encontraste um jovem muito sensato, Pearl comentou.

Olhei para Jack e sorri.

Eu sei.

Quando voltei a pousar os olhos na minha me, reparei que me fitava com ar de quem j entendera o que se passava. A seguir olhou para Jack e depois de novo para 
mim, acenou suavemente com a cabea na almofada. Momentos depois, dormia profundamente. Levantei-me do sof e Jack aproximou-se de mim, rodeando-me com um brao. 
Ficmos os dois a olhar para a minha me.

Penso que o pior j passou para ela observou. O passado est, finalmente, enterrado.

Mas, e quanto ao futuro, Jack?

No sei. Ningum sabe. Ters apenas de fazer o melhor que souberes e puderes respondeu-me.

Encostei a minha cabea no seu ombro.

No teria conseguido nada disto sem a tua ajuda, Jack. Obrigada.

Jack beijou-me a ponta do nariz e eu abri os olhos, mergulhando nos dele.

No tens de me agradecer disse-me. Vamos dormir um pouco, para que amanh possamos fazer alguma coisa de jeito.

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Depois de nos certificarmos de que a minha me se encontrava confortvel, Jack e eu voltmos para a cama, onde me aninhei nos seus braos.

Jack disse, passado um longo momento de silncio

Sim?

Acreditas nas mesmas coisas que a minha me? Achas que ela ouviu mesmo a voz da minha bisav junto do seu tmulo?

Sei que me arrisco a que a tua considerao por mim diminua replicou ele, mas o certo  que sim, acredito

Reflecti por um instante.

A minha considerao por ti no diminuiu, Jack.

Ainda bem. Eu tambm no pensarei menos bem de ti se no acreditares acrescentou.

Depois de reflectir na resposta de Jack, declarei:

Se assim no fosse, eu no poderia ser feliz. Jack apertou-me com mais fora.

No precismos de falar mais. Os nossos corpos e as nossas mentes comunicavam entre si em silncio. Fechei os olhos, preocupada s de pensar que, no dia seguinte, 
j no o teria junto de mim para me proteger e tambm receosa com o que me aguardava em Nova Orlees.

Duvidava de que o pior j tivesse passado.


16

A VERDADE DOS FACTOS

Apesar da fadiga, a minha me ps-se a p ainda antes de mim e de Jack. Ouvi-a movimentar-se e, a certa altura, chamar por mim. Levantei-me rapidamente e corri para 
junto dela. Tinha uma expresso perturbada e confusa

Tenho a sensao de que acabo de sair de um longo pesadelo afirmou, acrescentando depois firmemente, como quem acorda de um sono prolongado. Temos de ir para casa

Bom dia, Madame Andreas cumprimentou Jack, saindo do quarto

A minha me olhou para mim com estranheza

Certamente lembras-te do Jack, no , me?

Ah, sem dvida!Desculpe, mas esta manh sinto-me completamente baralhada. Bom dia retribuiu

Dormiu bem naquele sof?  muito confortvel. J adormeci vezes sem conta nele disse Jack, sorrindo

A expresso da minha me desanuviou-se

Nas ultimas semanas dormi em stios bem mais desconfortveis observou

Deseja tomar o pequeno-almoo? Vou fazer caf sugeriu Jack

Temos de ir repetiu a minha me num sussurro

Coma primeiro alguma coisa, Madame Andreas. Precisa de recuperar as foras insistiu Jack

 verdade reconheceu a minha me. Comeremos Primeiro

Ficou muito calada enquanto bebemos caf e comemos torradas e fruta, no entanto, olhava repetidamente ora para mim, ora para Jack. No perdia pitada dos gestos dele 
e parecia ter sempre os olhos postos em ns quando Jack e eu nos entreolhvamos

No seria melhor telefonarmos para o pai a dizer que va^os para casa, me?

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Como? Oh, sim, claro respondeu, mostrando-se ainda um pouco letrgica. Ainda no consigo raciocinar com muita clareza. Parece que tenho a cabea esvada.

Liguei para casa e Aubrey chamou imediatamente o meu pai ao telefone assim que soube que a minha me desejava falar com ele.

Encontraste-a! exclamou o meu pai. Oh, graas a Deus. E graas a ti, Pearl. Deixa-me falar com ela, se fazes favor.

Passei o telefone  minha me.

Ol, Beau... Agora j estou bem. Partiremos para a daqui a pouco. Ouviu-o falar durante algum tempo e depois comeou a chorar baixinho. Lamento proferiu em voz 
entrecortada. Lamento muito.

No foi capaz de dizer mais uma palavra, sacudiu a cabea e devolveu-me o aparelho.

Ruby, Ruby? chamou o meu pai.

Ela est bem, pai. Neste momento sente-se apenas extenuada. Partiremos assim que acabarmos de tomar o pequeno-almoo.

Voltem depressa, mas tenham cuidado com a estrada pediu o meu pai.

A minha me tornara a sentar-se. Perguntei discretamente ao meu pai se tivera notcias do hospital.

No h alterao replicou.

At daqui a pouco, pai despedi-me, antes de pousar o auscultador. Fui ter com a minha me e rodeei-a com um brao

Ela comeou a chorar baixinho.

Estrago sempre aquilo em que me meto lamuriou-se, soltando um suspiro.

A culpa no  tua.  preciso que deixes de te culpar pelos acontecimentos. Todos ns somos, de certo modo, responsveis pelos nossos prprios actos. A culpa no 
pode cair toda s nos teus ombros.

Partamos disse, afastando o pires e a chvena de si. No consigo comer nada.

Ajudei-a a levantar-se.

Tens a certeza de que podem fazer essa viagem sozinhas? perguntou-me Jack.

Eu estou ptima, Jack. Assim que nos pusermos ao caminho, tudo correr bem assegurei-lhe.

Jack acompanhou-nos ao exterior e ajudou a minha me a meter-se no automvel.

Tive muito gosto, Madame Andreas. Rezarei uma orao por si.

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Obrigada agradeceu a minha me. fitando-o com ar surpreendido

Jack deu a volta at ao outro lado do carro para se despedir de mini Ficamos do lado de fora, com a porta ainda fechada

Irei at l buscar as minhas roupas brincou

Talvez eu no as devolva Fiquei-lhes muito afeioada

Nesse caso, deixo-te ficar com elas, mas ao menos verte-ei

Sabes o que isso significa, no sabes? Sers obrigado a ir  cidade, onde tens de esticar o pescoo para ver o Sol

Jack riu-se Depois ficou srio e fitou-me com firmeza

Eu no me importaria de viver no meio da escurido total, desde que te tivesse junto de mim, Pearl! Tu serias o meu sol

As suas palavras encheram-me os olhos de lgrimas e ele olhou ento rapidamente para a minha me antes de me dar um beijo de despedida. Os seus lbios mal roaram 
os meus, no entanto, fechei os olhos e saboreei o instante, guardando-o na memria

Por favor, tem cuidado pediu-me Jack, apertando-me a mo. Telefono-te l para o fim do dia

Adeus, Jack despedi-me, abrindo a porta. Obrigada por tudo

Meti-me no automvel e liguei o motor. A minha me esforava-se por conter as lgrimas, mordendo os lbios. Afastmo-nos com lentido. Vi, pelo espelho retrovisor, 
que Jack ficara a ver-nos. Os outros operrios dos poos de petrleo tinham comeado a chegar e alguns apitaram e disseram adeus

Parece que todos te conhecem observou a minha me, admirada

Este pessoal ligado  extraco petrolfera forma um grupo muito unido retorqui, lembrando-me da maneira como Jack os descrevera. Interajudam-se e preocupam-se uns 
com os outros. Assim que souberam do que me aconteceu, ofereceram-se, ao Jack e eu, para ajudar no que fosse preciso

Quando demos a curva, afastando-nos do atrelado, a casa comeou a desaparecer atrs de ns e eu fiquei com um pequeno sorriso prazenteiro nos lbios

A minha me reparou

Como foi que conheceste aquele jovem, Pearl?

Foi quando eu e o pai viemos a Cypress Woods  tua procura.  ele quem cuida do meu poo de petrleo, o nmero vinte e dois disse com orgulho

O teu poo, Ah, a herana que o tio Paul te deixou. Entristeceu de novo Ele gostava muito de ti

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 horrvel que os Tate deixem a manso chegar quele ponto de degradao, no , me?

 verdade. Foi, em tempos, a casa mais bonita do Hayou O Paul tinha muito orgulho nela e em tudo o que continha. Ainda me lembro do dia em que nos levou s duas 
a v-la, depois de concluda. No parava de se gabar das suas janelas especiais e dos seus candelabros contou.

Conheci a me do tio Paul disse, descrevendo a minha visita a casa da tia Jeanne.

A minha me ouviu-me repetir o que Gladys Tate dissera, mas no pareceu zangada.

Ela fez-nos passar um inferno. No entanto, agora sou capaz de compreender a perda terrvel que sofreu e por que razo nos quis magoar. Claro que o dio depressa 
envenena, o que representa uma segunda tragdia acrescentou.

Mas a julgar pelo que me contaste e eu pude ver, a Gladys Tate j no era uma mulher feliz antes de tudo acontecer

Pois no. Tinha muitas cruzes a suportar. Esforou-se por acreditar que era a me biolgica do Paul, para seu bem e dele. Estou certa de que o amou tanto como uma 
me pode amar um filho, mas era possessiva e andava sempre mal-humorada. O seu casamento foi um fracasso. O Octavious revelou-se um mulherengo logo desde o incio 
e enganava-a com frequncia. A minha me no foi a sua nica conquista murmurou. A grandmre Catherine costumava dizer que a infelicidade  uma cobra voraz que se 
alimenta de si prpria at se engolir por completo. Quanto pior estava o casamento, mais ele deambulava por fora, e quanto mais ele o fazia, pior a Gladys se sentia. 
Agora s h que ter pena dela.

Ento no percebo por que razo a Gladys e o Octavious se casaram declarei.

s vezes as pessoas casam pelos motivos mais errados, mas s se do conta disso quando j  tarde de mais explicou a minha me. A fortuna dos Tate, a fbrica, tudo 
pertencia  famlia da Gladys, no do Octavious. Ele era um homem bem-parecido e de trato agradvel, que se acorrentou  mulher pelo seu dinheiro e pelos seus bens. 
Tenho a certeza de que soube dizer-lhe as palavras certas. Talvez no a tenha convencido de que estava apaixonado, se calhar foi ela mesma que quis acreditar nisso 
mas, fosse como fosse, o efeito foi o mesmo. Comearam a construir uma vida alicerada em mentiras, fizeram promessas que no fundo sabiam que jamais cumpririam e 
foram ampliando a iluso at o diabo bater  porta do Octavious e ele atender.

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"Portanto, como vs, tens de ter muito cuidado, Pearl disse a minha me firmemente, voltando-se para mim.  preciso que evites as areias movedias das iluses e 
das promessas falsas. Fazem pairar palavras diante de ti, palavras que brilham como diamantes mas que, quando lhes pegas, fragmentam-se entre os teus dedos e caem-te 
aos ps reduzidas a p.

"s vezes nem sequer tm a inteno de ser falsos para ns, chegam mesmo a acreditar nas suas promessas vs, tambm engolem as suas prprias iluses. Mas isso ainda 
 pior pois, quando so sinceros, ns aceitamos e entregamo-nos por completo aos sonhos. Uma pessoa flutua cada vez mais alto e a queda  na proporo da altura. 
Podes acreditar no que te digo, falo por experincia prpria.

"Esse jovem continuou a minha me, fazendo um trejeito de cabea para trs, at que ponto j te envolveste com ele?

Chama-se Jack Clovis, me. E no  um jovem qualquer.

Dormiste com ele ontem  noite, no foi?

O Jack  o primeiro homem a srio que encontro, me.  sincero e no faz promessas que no possa cumprir. Tem os ps bem firmes na realidade. No  um sonhador repliquei.

A minha me sacudiu a cabea com cepticismo.

Aquilo que tenho tentado dizer-te, mostrar-te com o meu passado trgico,  que tens de ter muito cuidado. A linha dos Landry nasceu, por alguma razo, destinada 
a lavrar um prado cheio de escolhos.

Eu tenho muito cuidado, me. Sempre tive. Tu sabes.

Eu sei, mas quando vieste aqui  minha procura, estavas emocionalmente vulnervel. Tens de te certificar de que o que vs naquele homem, e do que ele afirma que 
v em ti, no est colorido pela tua prpria vulnerabilidade. Ele deve ter-te parecido um anjo-da-guarda.

Pareceu declarei. E com todo o direito.

Receio por ti disse a minha me, com o queixo a tremer. No cometas os mesmos erros que eu. No te apresses, e, quando o teu corao bater e o teu corpo exigir, 
no te entregues por completo, retrocede e pensa em mim.

"Quando uma pessoa comete um erro, magoa-se no s a si mesma como aos que ama.

"No tempo em que vivi no Hayou, a Gisselle escreveu-me a dizer que o teu pai ia casar com outra pessoa e eu pensei que enlouquecia. Ele dera-me como morta, enquanto 
eu estava aqui, jovem e com um filho nos braos. Por isso cedi s iluses, promessas e expectativas que o Paul me oferecia. Queria acreditar

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que seria capaz de viver num mundo mgico onde estaramos para sempre seguros e protegidos. Foi a que a tragdia teve o seu feio comeo.

Comeou de novo a chorar baixinho.

No te atormentes mais, me. Por favor, no chores. Peguei-lhe na mo.

Pobre Jean murmurou. Meu pobre filhinho. Foi embora, embora...

O corao doa-me tanto que achei que no seria capaz de continuar a guiar. Respirei fundo algumas vezes, enquanto a minha me gemia suavemente. A certa altura, 
porm, conteve-se, fechou os olhos e adormeceu com a cabea encostada  janela. Quando olhei para ela, pareceu-me que envelhecera anos. V-la assim trouxe-me lgrimas 
ardentes aos olhos, lgrimas que me toldaram a viso. Era como se estivesse a chover.

De qualquer modo, tudo indicava que se aproximava uma tempestade. O cu apresentava-se muito carregado, com algumas nuvens escuras a rolarem de sudoeste.

Quando entrei na auto-estrada, o Hayou comeou a ficar para trs, diluindo-se como se se tivesse tornado liquido e casse em forma de chuva. As cabanas em cima dos 
paus ainda eram visveis aqui e ali e vi pescadores de ostras e mulheres e crianas cajuns a colher barbas-de-velho. Passmos por alguns postos de venda  beira 
da estrada, at esta se tornar relativamente deserta durante algum tempo.

Pensei em Jack e no que a minha me dissera. Talvez ela tivesse razo, se calhar eu encontrava-me demasiado debilitada e vulnervel quando o conhecera, mas porque 
teria isso de significar que o que sentamos um pelo outro era ilusrio? E porque teria aquilo de querer dizer que Jack era menos sincero do que eu imaginava? Eu 
achava que, s vezes, os tempos trgicos e difceis juntavam pessoas cujo destino j era mesmo esse. A minha me mostrava-se compreensivelmente prudente, mas isso 
no significava que eu tambm tivesse de viver assim

No me arrependia de nada do que acontecera entre Jack e eu. O nosso amor continuava a ser um osis de felicidade num oceano de tumulto e dor. Todos andavam sempre 
a prevenir-me contra os perigos do primeiro amor. Mais valia ser cauteloso, modesto e razovel, diziam.

Eu, no entanto, estava convencida de que o que sentia por Jack era mais do que o primeiro devaneio de uma jovem. Nos dois descobrramos, juntos, sentimentos profundos 
que estavam muito para alm de meras paixonetas juvenis.

"No, me", pensei, "no precisas de te preocupar com a

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minha relao com o Jack. Ela ergue-se sobre solo firme, no areias movedias,  a nica iluso que temos e a hiptese de alguma vez virmos a esquecer-nos um do 
outro e do sentimento que nasceu entre ns "

Acelerei. A chuva comeou a cair antes de chegarmos a Nova Orlees, porm, era miudinha, lenta e regular, no violenta e abundante. A minha me acordou ao chegarmos 
 ponte e ficou a olhar para as ruas da cidade que iam dar ao Garden District. A luz matinal fazia com que a urbe parecesse fatigada e gasta. Sem o brilho dos anncios 
em non, as cores de arco-iris das roupas e o som da msica, Nova Orlees de manh parecia uma mulher de meia-idade apanhada sem maquilhagem. Os varredores de rua 
ainda tentavam fazer desaparecer os vestgios deixados pelos frequentadores da noite. Os lojistas ensonados abriam as suas portas e franziam os olhos diante da luz 
matinal

A chuva abrandou, ficando reduzida a chuviscos, no entanto, o ar estava to quente e hmido que os passeios pareciam fumegar

Ests bem, me? perguntei. Sorriu-me e disse que sim com a cabea

Houve alturas em que pensei que nunca mais voltaria a pr os olhos nesta cidade observou Mas isso j passou. Apertou-me a mo. Vamos buscar o teu pai, para depois 
irmos ver o Pierre

Quando chegmos ao Garden District, a chuva parara por completo. Enveredei pelo nosso carreiro de acesso e subimos os degraus apressadamente. Aubrey, que sabia que 
amos a caminho, devia estar  nossa espera ao p de uma janela, pois a porta abriu-se ainda antes de chegarmos junto dela

Bem-vinda a casa, madame saudou rapidamente

O afecto que os olhos humedecidos de Aubrey deixavam transparecer era a demonstrao mxima de emoo a que ele jamais se permitira

A minha me surpreendeu-o com um pequeno abrao

Onde est Monsieur Andreas perguntou. Por instantes, Aubrey ficou embaraado

Monsieur Andreas oh, est l em cima. Ajudei-o a vestir Est a praticar com as muletas

Galgmos os degraus at ao piso de cima. Ao chegarmos  porta aberta do quarto dos meus pais, deixei-me ficar mais para trs. O meu pai estava de p, apoiado s 
suas muletas, com uma das pernas engessada. Parou e, por um momento, ficou a olhar para a minha me

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Ruby exclamou, titubeante.

A minha me precipitou-se para ele, que a abraou, deixando cair as muletas no cho. Ela segurou-o com firmeza e deixaram-se ficar nos braos um do outro durante 
um momento prolongado. O seu abrao fez com que lgrimas furtivas me descessem livremente pelo rosto. Algum tempo depois, peguei nas muletas e estendi-as ao meu 
pai.

Que roupas so essas que trazes vestidas? perguntou-me o meu pai com um sorriso trocista.

So do Jack, pai.

Porqu? insistiu, olhando para a minha me.

Fazem parte de uma histria de horror respondeu-lhe ela. Deixa-a ir tomar um duche e vestir outra coisa. Eu tambm preciso de um banho. Depois iremos ao hospital 
ver o Pierre, e a Pearl contar-te- tudo.

E tu onde tens estado, Ruby? Que andaste a fazer?

Depois tambm te conto tudo, Beau. Agora permite-me que recupere o flego.

Tens dores, pai? perguntei.

Agora j no  nada que no possa suportar respondeu ele, desviando o olhar, envergonhado.

Ele sabia que eu tinha conhecimento do que acontecera; no entanto, aquela no era nem a altura nem o lugar para culpar algum do que quer que fosse. De qualquer 
modo, j nada daquilo parecia importante.

Dei-lhe um beijo rpido na cara e corri a tomar um duche e a vestir-me, rezando para que a ajuda a Pierre j no chegasse demasiado tarde.

A minha me no estava preparada para a viso com que deparou na UCI. At eu, que vira Pierre j muito doente, fiquei assustada perante a palidez da sua pele e os 
cabelos embranquecidos. Os lbios no tinham pinta de cor, a pele das costas das mos estava engelhada e a pobre criana mostrava-se to imvel que lembrava um manequim. 
A enfermeira explicou que acabara de ser submetido a um tratamento de dilise.

A minha me estava de p, a poucos centmetros da cama. de olhos postos no filho. Era como se fosse impossvel transpor aqueles escassos centmetros depois da jornada 
emocional por que acabara de passar. O meu pai ficara ao seu lado, apoiado s muletas.

D a impresso de que encolheu observou a minha me com um gemido. No me lembro dele to pequeno

A cama  que  muito grande, me observei. V. fala com ele. Tenho a certeza de que te ouvir.

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Pierre, meu querido, meu menino, por favor pe-te bom. J aqui estou, para te ajudar disse. Precisamos de que te ponhas bom, Pierre. Por favor, faz um esforo.

As lgrimas corriam-lhe pelo rosto. Inclinou-se para beijar o filho nas faces, mas foi como se o fizesse a um cadver. As plpebras da criana no se mexeram, os 
lbios no se moveram. S nos chegou o som ritmado do monitor cardaco e dos muitos instrumentos hospitalares.

A minha me virou-se, desesperada, para o marido, que mordeu os lbios e sacudiu a cabea.

Onde est a mdica? perguntou-me a minha me,

Vou ver.

Dirigi-me ao balco das enfermeiras. A Dra. LeFevre s chegaria a meio da tarde; no entanto, o Dr. Lasky iria fazer a ronda pelos seus doentes dali a meia hora.

Podemos ir l abaixo  cafetaria comer qualquer coisa enquanto esperamos, me sugeri-lhe; porm, ela no desviava os olhos do filho.

No, vai tu, querida disse. Leva o pai. Eu agora devo ficar aqui.

Achei que a enfermeira no iria gostar, mas a que estava de servio naquela altura era mais tolerante e compreensiva. Limitou-se a anuir com a cabea. O meu pai 
e eu fomos para a cafetaria. Depois de trazer umas sanduches e umas bebidas para a mesa, comecei a relatar a minha tragdia quase consumada no Hayou e o que acontecera 
a Buster Trahaw.

O meu pai escutou-me de boca aberta.

Deixei-te desamparada declarou. Deixei todos desamparados por me embebedar, cair pelas escadas e partir a perna. E tu l, a fazeres coisas que me competiam e a correres 
perigo, enquanto eu ficava em casa mergulhado no maior estupor. No mereo nenhuma boa sorte ou felicidade.

Foi como se me tivessem injectado ferro nas veias e este chegasse ao meu corao. Endireitei-me imediatamente e respondi-lhe com grande dureza:

Pra j com isso, pai. No te quero ouvir nem mais uma palavra de autocomiserao. A me necessita desesperadamente que sejamos fortes e a fortaleamos, e o Pierre 
ir precisar
de ns mais do que nunca. No h tempo para ficar parado a remoer toda a tragdia.

Ele fitou-me, espantado com a rudeza do meu tom; contudo, eu no podia deixar de lhe falar daquele modo.

Quando me vi sozinha naquela canoa, a andar de um lado para o outro, perdida e exausta, s me ocorria um

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pensamento horrvel: que deixara ficar mal os meus pais e o Pierre. Se nos preocuparmos s connosco, tornamo-nos choramingas, e o mal que porventura nos perseguir 
levar a sua avante conclu severamente.

Tu, Pearl? exclamou o meu pai, esboando um sorriso. Logo tu, acreditares no poder dos espritos?

Sim, acredito no poder das almas. Acredito que possamos lutar contra o que parece ser o nosso destino. Se uma pessoa no tentar, ser levada pelos ventos da escurido. 
No acredito nos rituais vudu nem nos feitios e amuletos, mas ao menos quem tem f nessas coisas sabe que pode mudar o seu destino. Fica com mais coragem acrescentei, 
fazendo o meu pai rir.

Depois ficou srio e taciturno.

D a impresso de que amadureceste vrios anos nestes poucos dias, Pearl. Sinto uma maior maturidade em ti.  como se tivesses dado um salto no tempo. Recostou-se 
e fitou-me por um momento. Esse tal Jack Clovis deu-te uma grande ajuda, no foi?

 verdade respondi.

Afeioaste-te a ele?

Afeioei admiti. E de forma muito madura acrescentei.

O meu pai acenou pensativamente com a cabea. Depois entristeceu outra vez por instantes, suspirando.

No  fcil vermos a nossa menina tornar-se mulher Deus  testemunha de que ningum sabe, melhor do que ns agora, os perigos que pairam sobre os jovens. No entanto, 
uma menina tem sempre uma muralha de inocncia  sua volta. Os seus desgostos e desiluses nada so quando comparados com os que poder sofrer mais tarde: o namorado 
no a convida para ir ao baile, no tem o cabelo to sedoso ou com um corte to moderno como desejaria, ou apareceu-lhe uma borbulha no queixo.

"Aposto que te esqueceste do tempo em que andavas no terceiro ano e um rapaz te disse que tinhas a cabea maior que o corpo. Nesse dia voltaste para casa a chorar 
e a tua me estava fora, tinha ido a uma galeria onde uma das suas primeiras exposies estava a ser montada. Eu encontrava-me no gabinete e tu entraste, lavada 
em lgrimas. Fui obrigado a medir-te a cabea com um metro e depois tive um trabalho para te provar que no eras nenhuma anormal. Como era fcil, nesse tenpo afastar 
os demnios para longe de ti... E como agora  difcil. Porque tero os demnios de existir, pai?

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Creio que existiro sempre retorquiu o meu pai.
mas creio que, se encontrares o homem certo, ele ter armas para te proteger. Espero que o companheiro que te couber possa
fazer mais pela mulher amada do que eu fiz pela tua me. oh! Pra com isso, pai! ordenei.

Est bem, est bem anuiu ele, erguendo as mos. Serei o homem que tu pensas que sou. Endireitou-se. Tens razo. No h tempo para a autocomiserao. Deu uma dentada 
na sua sanduche. Fala-me mais desse Jack Clovis.
Fi-lo de boa vontade. Poderia falar de Jack durante horas. O meu pai foi ouvindo e acenando com a cabea, enquanto comamos. Brincou comigo em relao a ele, mas 
eu sentia-me
triste por me ter afastado de Jack que nem me importei com
as brincadeiras do meu pai.
Fomos encontrar a minha me sentada no mesmo stio onde
a deixramos, agarrada  mo de Pierre e a olhar para o seu rosto. Trouxera-lhe uma bebida fresca, que ela bebeu com a ajuda de uma palhinha, insistindo, no entanto, 
que no tinha
fome. Entretanto, o Dr. Lasky chegou e examinou Pierre. Depois,
foi ter connosco ao lado de fora da UCI. Fisicamente, est a degradar-se: os rins continuam bloqueados e a tenso arterial  demasiado baixa. Apesar da sua joventude, 
receio a ocorrncia de uma pneumonia. Lamento
muito, monsieur disse, dirigindo-se directamente ao meu
pai, pois a minha me mantivera-se de cabea baixa enquanto ele falava. Gostaria de poder dar-vos melhores notcias. O meu pai agradeceu-lhe e a seguir fomos todos 
para a sala-de-estar, onde a minha me pOUSOU a cabea no ombro do marido. Durante muito tempo, ningum falou. Todos pensvamos em Pierre e rezvamos por ele. Ao 
olhar pela janela, para noroeste, reparei que a camada densa de nuvens cinzentas comeara a abrir. Pensei para comigo que Jack devia estar a olhar para o cu naquele 
momento e perguntei a mim mesma quantas vezes pensara em mim desde que me viera embora com a minha me.

. Pouco tempo depois, a Dra. LeFevre chegou e o meu pai apresentou-a  minha me. Reparei que lhe falava em tom reprovador e zangado. Apesar da frieza e do formalismo 
com que a mdica se lhe dirigiu, a minha me no se mostrou aborrecida. Claro que teria sido muito melhor para o Pierre se a senhora tivesse chegado mais cedo, Madame 
Andreas salientou secamente, mas agora temos de tirar o mximo de vantagem da sua presena. Falei com o doutor Lasky, que  da

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mesma opinio. Mudaremos o Pierre para um quarto isolado onde a senhora poder passar perodos mais longos com ele sem interrupes. Claro que precisar de uma enfermeira 
permanentemente de servio acrescentou, dirigindo-se ao meu pai. Se quiserem, tomarei providncias nesse sentido. Agradecemos-lhe, doutora. Quais acha que so as 
hipteses que o meu filho tem? Perguntou o meu pai, pegando na mo da minha me.A Dra. LeFevre reflectiu um pouco, falando depois com cuidado.

Como j expliquei, sempre que o seu filho entra em coma, vai regredindo cada vez mais at ao fundo e demora mais e mais a vir  superfcie, e, em todas as ocasies 
em que recuperou a conscincia, foi por perodos progressivamente curtos. Ele vai-se afastando a pouco e pouco, como algum que est a afogar-se mas continua a vir 
 tona da gua de vez em quando. em busca de ar, voltando a afundar-se.

Para a minha me e para mim, no poderia ter escolhido comparao pior.
O rosto da minha me contorceu-se. Gemeu e depois os olhos rolaram-lhe para trs. Eu gritei, e o meu pai esforou-se por no a deixar cair, apesar de estar de muletas. 
A Dra. LeFevre ajudou-nos a lev-la para um sof. Corri a buscar um copo de gua, enquanto ela ia recuperando.

Desculpem disse a minha me, depois de engolir um pouco de gua.

No se preocupe, madame contraps a Dra. LeFevre. agora com mais compaixo. Eu sei que notcias como esta so como um soco no estmago.

A minha me fitou-a com uma expresso que dizia: "No. no sabe. No pode sequer imaginar."

Se j se sente melhor, irei tomar as providncias necessrias para mudar o Pierre anunciou a Dra. LeFevre.

Obrigado agradeceu o meu pai, antes de a mdica se afastar.

Ficmos os trs sentados, eu e o meu pai abraados  minha me.

 como se a cobra tivesse mordido os dois rapazes -" murmurou ela. Como se o veneno houvesse passado do Jean para o Pierre. Eles foram sempre assim, lembras-te, 
Beau Quando um adoecia, o outro ia logo a seguir.

O Pierre h-de melhorar, me insisti.

Voltou-se para mim com os olhos lacrimejantes, sorrindo'| -me como se eu fosse demasiado inocente e crdula.

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Ele no tem vontade de melhorar, Pearl. Agora o problema  esse declarou.

Nesse caso, temos de obrig-lo a querer insisti. Eu no permitirei que se afogue.

Levantei-me e sa da sala a correr, rebentando em lgrimas com o corao a bater violentamente. Fui pelo corredor fora
sem reparar por onde ia, passei por quartos, por pacientes em cadeiras de rodas, enfermeiras e mdicos. S quando reparei que entrara na rouparia  que me detive. 
A porta abriu-se e Sophie apareceu. Ao ver-me, abriu muito os olhos de contentamento.

Pearl! Como ests tu? Por onde  que tens andado? Como vai o teu irmo? perguntou.

Trazia os braos a transbordar de lenis e fronhas.

Sophie, oh, Sophie exclamei, comeando a chorar incontrolavelmente.

A jovem deixou cair a pilha de roupa e abraou-me.

Vem para aqui pediu, levando-me at ao quarto das roupas de cama. Senta-te ordenou, obrigando-me a instalar numa caixa de carto. Agora pra de chorar e fala-me 
do que aconteceu.

O Pierre est muito mal respondi, depois de respirar fundo. Os mdicos no do grandes esperanas.

Ora, os mdicos no so donos da verdade, Pearl. J vi velhos moribundos, no seu leito de morte, abrirem os olhos de repente e gritarem comigo por no lhes ter levado 
o sumo ou o ch a horas. Uma vez declararam o bito a um homem que depois se levantou e saiu do hospital, to furioso ficou.

No acredito declarei eu, sorrindo por entre as lgrimas.

Juro que  verdade afirmou Sophie, erguendo a mo. Depois desatou a rir. Senti a tua falta e muita coisa aconteceu por c depois que te foste embora.

O que me contas? perguntei, limpando as lgrimas com as costas da mo.

O doutor Weller foi convidado a sair informou a jovem em voz baixa. Fez algo que um mdico no deve fazer com uma jovem paciente. Foi um grande escndalo. No entanto, 
todos se esforaram para que no passasse l para fora. Depois soube que o tinham mandado embora.

O que foi que ele lhe fez? inquiri, sustendo a respirao.

Nada de especial, apenas a engravidou respondeu Sophie, abrindo depois muito os olhos. Tambm dizem que

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o hospital pode ser processado. Se calhar foi uma sorte no chegares a ser companheira de estudo dele, no?

Podes crer respondi. Mas no  bom para ningum.

A minha me est sempre a dizer-me que c se fazem c se pagam. J lhe garanti que eu s engravido depois de casar. Queres ir comigo buscar caf, ch ou sumo? convidou

No respondi, levantando-me. Acho melhor voltar. Os meus pais iro precisar de mim mais do que nunca. O Pierre vai para um quarto particular, com uma enfermeira 
privativa.

Eu tambm olharei por ele prometeu Sophie. Alm disso rezarei e darei donativos  igreja em sua inteno

Obrigada, Sophie.

Abramo-nos e eu voltei para a sala onde os meus pais continuavam  espera de que Pierre fosse mudado. Assistimos  sua instalao numa cama confortvel e a seguir 
eles falaram com a enfermeira particular que iria fazer o primeiro turno. A minha me fez questo em permanecer  cabeceira do filho durante o resto da tarde e s 
concordou em ir para casa depois de o meu pai lhe dizer que estava com demasiadas dores para continuar no hospital.

Todos ns estamos a precisar de descansar, Ruby disse-lhe o marido. Caso contrrio, no conseguiremos estar junto do Pierre durante o tempo que gostaramos.

Relutante, concordou e fomos para casa. A minha me foi logo deitar-se, no antes de os dois tomarem uma refeio leve no quarto. Estava eu a comer quando Aubrey 
veio dizer-me que tinha um telefonema de um tal Monsieur Jack Clovis. Levantei-me de imediato.

Jack!

No quis telefonar demasiado cedo. Como vo as coisas?

Muito tremidas, Jack. O Pierre voltou a mergulhar num coma profundo e os mdicos esto muito pessimistas. No falam abertamente mas creio que para ele recuperar 
seria preciso um milagre.

Lamento. Gostaria de ir a Nova Orlees, mas no quero aparecer na altura errada.

Poders vir sempre em qualquer altura, Jack.

Est bem concordou ele. Depois de amanh estarei a. Conheces algum hotel que no seja demasiado caro

Ficars aqui em casa, Jack.

No posso fazer isso.

Claro que podes e no se fala mais no assunto. Temos"
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espao de sobra. Se eu no estiver em casa  porque fui ao hospital disse-lhe

Jack fez uma pequena pausa antes de voltar a falar.

Talvez no seja a altura mais apropriada para te dizer isto, mas o certo  que tenho saudades tuas declarou Jack

Eu tambm sinto a tua falta

Senti remorsos por estar feliz enquanto os meus pais sofriam tanto, mas o certo era que no conseguia deixar de sentir uma vaga de excitao ao pensar na vinda de 
Jack a Nova Orlees. Quando voltei para a mesa a fim de acabar de jantar, ia com mais apetite. Depois ainda pensei em ficar a ver um pouco de televiso, mas achei 
prefervel subir para o meu quarto e ler um bocado antes de dormir.

As luzes do quarto dos meus pais estavam apagadas, por isso, no os incomodei. Todavia, menos de uma hora depois, ouvi a minha me gritar. Levantei-me e atravessei 
o corredor a correr. As luzes estavam acesas e encontrei ambos sentados na cama, o meu pai abraado  minha me

O que foi? perguntei, com o corao aos pulos. No ouvira o telefone tocar, o que no queria dizer que tal no tivesse acontecido. Seria alguma notcia m do hospital?

A tua me teve um pesadelo. Est tudo bem tranquilizou-me o meu pai

No gritou ela, afastando-se do marido. No est tudo bem?

Ruby!

Vi-a sacudir a cabea veementemente e levantar-se da cama

Onde vais, me? perguntei, enquanto ela pegava nas suas roupas

Tenho de ir ao tmulo do Jean respondeu

Agora? exclamou o meu pai, estupefacto. Mas  quase meia-noite, e..

Tenho de l estar  meia-noite declarou ela. O meu sonho disse-mo

No podes ir ao cemitrio a esta hora da noite, Ruby insistiu o meu pai. S razovel.

No te preocupes, pai intervim, eu acompanho-a.

Mas, Ruby,  tardissimo e tu sabes que andam por a larpios a saquear os cemitrios.

A minha me continuou a vestir-se. O meu pai fez uma careta de dor ao esforar-se por passar a perna por cima da beira da cama, de maneira a chegar s suas muletas.

O que fazes, pai?

Se ela insiste em ir, eu vou com ela declarou.

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Fui a correr vestir-me ao meu quarto.

Ao menos esperem por mim ouvi o meu pai gritar A minha me saiu intempestivamente do quarto e lanou-se

escadas abaixo. O seu rosto fazia lembrar uma mscara, apressando-se com uma expresso impassvel e glida.

Me, espera chamei.

Acompanha o teu pai replicou-me.

O meu pai apareceu apoiado s suas muletas, movendo-se o mais depressa que podia. Fui ajud-lo, mas quando chegmos ao piso de baixo j a minha me seguira no seu 
carro.

Ela voltou a enlouquecer declarou o meu pai. Entrmos ento no seu carro e fomos atrs dela, comigo a

conduzir. Quando estacionmos atrs do automvel da minha me, j esta entrara no cemitrio.

Que estar ela a fazer? resmungou o meu pai. Ajudei-o a apear-se. Tnhamos uma lanterna no porta-luvas;

no entanto, por sorte, estava quase lua cheia e as nuvens eram escassas. O luar fazia os tmulos e as lpides brilhar. A pedra polida tornara-se alva, destacando-se 
de entre a escurido Mantive-me ao lado do meu pai, enquanto este ia andando. com dificuldade, em direco ao tmulo do meu irmo. A minha me colocara uma pequena 
vela acesa ao lado da cripta funerria e ajoelhara-se ao lado, apoiando a testa na pedra. Os seus ombros estremeciam sob a fora dos soluos, o que me levou a deixar 
o meu pai e a correr para junto dela.

Me disse, abraando-a.

Eu implorei-lhe segredou-me ao ouvido. Ele sentia-se s sem o Pierre, mas eu implorei-lhe que deixasse o irmo voltar.

O meu pai inclinou-se o melhor que pde sobre as muletas e a minha me ergueu a cabea para ele.

Tinha de estar aqui  meia-noite, Beau.  a altura em que a porta entre os dois mundos se entreabre ao de leve e as minhas palavras podem entrar, levadas pelo fumo 
da vela.

O meu pai sacudiu a cabea.

Pes-nos doidos a todos, Ruby. Tens de parar com isso. Anda para casa, precisas de dormir.

No seria capaz. Foi por isso que vim aqui replicou ela. Agora entendes, no , querida? perguntou dirigindo-se a mim.

Sim, me.

Afagou amorosamente a pedra do tmulo de Jean e sorriu. Ele escutou-me, agora no deixar que o Pierre nos deixe. O Jean  um bom menino, um bom menino.

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Agora vem, mezinha. Por favor.
* Ajudei-a a pr-se de p. Depois de olhar para o tmulo de Jean mais uma vez, ns trs, amarfanhados pela tragdia que se jbatera sobre a nossa famlia, arrastmo-nos 
pelo carreiro fora, passando por outros tmulos e outras cenas de tristeza onde om iolo estava empapado de lgrimas semelhantes.

Olhei uma vez para trs e estremeci diante da viso horrvel de um segundo tmulo, igual ao de Jean.

Por favor, meu Deus murmurei, suficientemente baixo para os meus pais no escutarem. Por favor, ajuda-nos.


17

POR FAVOR, ACORDA

Depois de voltarmos todos para casa e de nos metermos na cama, eu, apesar de exausta, passei o resto da noite muito agitada, entrando e saindo de pesadelos. Quando 
acordei, a luz do Sol soube-me bem; no entanto, tinha a sensao de que acabara de correr uma maratona em pleno Vero. Tinha o lenol e o cobertor encharcados em 
transpirao e, quando me sentei na beira da cama, as costas e as pernas doam-me das voltas e revira-voltas que dera a dormir. Fui a primeira a levantar-me, lavar 
e vestir. Quando os meus pais entraram na sala de jantar e se sentaram  mesa para tomar o pequeno-almoo, tambm tinham aspecto de quem acabara de passar pelos 
mesmos horrores. A minha me j telefonara para o hospital e falara com a enfermeira de Pierre, que lhe dissera que no houvera qualquer alterao.

Pelo menos no piorou disse eu, esperando encontrar um raio de luz no meio de todo aquele desalento.

Sim, mas tambm no melhorou replicou a minha me num tom de voz completamente desprovido de energia e expresso.

Comeu mecanicamente, de olhos fixos no nada. O meu pai estendeu o brao e pegou-lhe na mo. A mulher sorriu-lhe debilmente e depois concentrou-se de novo na mastigao 
e nos seus pensamentos. O meu pai lanou-me um olhar triste e eu no tive dvidas de que se encontrava  beira de um colapso nervoso.

O Jack chega amanh anunciei, considerando que uma mudana de assunto constituiria o melhor remdio para a depresso que nos atormentava. Os olhos da minha me abriram-se 
ligeiramente, denunciando algum interesse, e o meu pai mostrou-se impressionado. Pode ser?

Ele vem para aqui? perguntou a minha me.

Vem. Convidei-o a ficar connosco.

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A minha me olhou para o meu pai, que encolheu os ombros. Tanto quanto sei, devemos muito a esse jovem observou ele. O mnimo que podemos fazer  oferecer-lhe hospitalidade

No creio que esteja em condies de fazer de anfitri _ observou a minha me

O Jack no est a contar com nenhum tratamento especial, me. Ele vem c para ficar ao meu lado e oferecer o seu conforto

Parece ser um jovem muito especial comentou o meu pai

A minha me suspirou profundamente. Eu sabia que naquela altura o seu corao s tinha espao para a tristeza, mas tambem no me restavam dvidas de que precisvamos 
de ter espperana e arranjar novas energias

, Enquanto a minha me se preparava para ir para o hospital, o meu pai retribua alguns telefonemas recebidos de amigos e parceiros comerciais a inquirirem sobre 
o estado de Pierre. A seguir samos os trs

Deixmo-nos ficar ao p de Pierre, de olhos postos nele e em silncio. A minha me conteve os soluos e sentou-se na beira da cama, agarrada  mo do filho e a falar-lhe 
suavemente S sau de junto dele para almoar qualquer coisa e isso depois de o meu pai e eu insistirmos muito

O meu pai tambm estava a ser vitima de uma tenso cada vez maior. A braos com problemas profissionais, tentava resolv-los pelo telefone, no entanto, havia questes 
que requeriam a sua presena Disse-lhe que no fazia sentido ficarmos os trs na cabeceira de Pierre, at que, por fim, concordou e mandou vir uma limusina com motorista 
para o levar a algumas reunies de negcios. Eu sentei-me ao lado da minha me e conversei com Virgine Lochet, a enfermeira de Pierre, uma simptica senhora  beira 
dos sessenta anos, de farto cabelo grisalho e olhos azulclaros. Algum tempo depois fui ter com Sophie  cafetaria, para tomarmos um caf. Contei-lhe que informara 
o hospital de que no poderia retomar o trabalho

Neste momento os meus pais precisam de mim em casa expliquei

A jovem ficou triste mas eu assegurei-lhe que seriamos sempre amigas

Pode ser que, quando fores mdica, talvez eu possa ir trabalhar contigo sugeriu-me

Para tratar os doentes, no gostaria de ter mais ningum ao meu lado seno tu

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Quando voltei para o quarto de Pierre, vi que a minha me adormecera no sof. Eu e a enfermeira entreolhmo-nos e fomos para fora do quarto falar, de modo a no 
a acordarmos

J viu algum doente como Pierre melhorar? perguntei-lhe.

Bem respondeu a enfermeira, hesitante, este  o primeiro caso que tenho em que o doente entrou em coma por razes psicolgicas. J tratei de pacientes comatosos 
que sofreram danos fsicos e melhoraram. Cheguei mesmo a ter um homem que levou um tiro e entrou em coma, mas mais tarde voltou a si. No se pode deixar de ter esperana 
acrescentou, embora eu no lhe vislumbrasse optimismo nos olhos, que desviou rapidamente dos meus.

A Dra. LeFevre apareceu para ver o pequeno doente, mas limitou-se a dizer: "Vamos ver", quando lhe pedi uma opinio.

O meu pai veio buscar-nos para jantar mas a minha me estava de tal maneira cansada que resolvemos ir todos para casa. Ficar sentada num sof a falar com Pierre 
o dia todo no requeria muita energia, mas era emocionalmente desgastante. A minha me estava com to mau ar que fiquei cheia de pena dela. Tinha os olhos mortios, 
os lbios trmulos, a pele cor de cera e caminhava com os ombros descaidos.

Quando chegmos a casa, a minha me resolveu deitar-se Eu levar-lhe-ia o jantar  cama; no entanto, insistiu para que eu e o meu pai utilizssemos a casa de jantar. 
Assim fizemos, embora no nos sentssemos muito conversadores. Era como se o funeral de Pierre j tivesse comeado.

A mdica informou-me de que o Pierre poder ficar assim meses a fio disse-me o meu pai a certa altura. No sei como a tua me ir aguentar. Estava convencida de 
que os seus rituais e apelos a vrios espritos ajudariam. Agora que todos os seus recursos msticos falharam, ficou de rastos como eu nunca a vi. Receio que em 
breve tambm tenhamos de a ir ver ao hospital.

Tentei parecer esperanada, encontrar as palavras que fizessem com que tanto ele como eu recuperssemos a f, mas a minha reserva de optimismo j se esgotara por 
completo. Limitei-me a sacudir a cabea e a dizer:

Ela acabar por recuperar. Tudo ir correr bem. O meu pai sorriu.

No podes permitir que tudo isto te desvie do teu caminho, Pearl. Sei que no s uma pessoa egosta por natureza, mas no te quero ouvir falar em adiares a tua ida 
para a universidade declarou com firmeza. J basta que tenhas sido obrigada a abandonar o teu trabalho no hospital.

294


Mas

Pearl, promete-me insistiu Ao ver que eu ficava calada, deu a impresso de estar prestes a rebentar em lgrimas, no entanto, ergueu o brao e acrescentou No podemos 
perder tudo, nem mesmo o sonho que acalentamos para ti

Est bem, pai, prometo aquiesci

O peito doia-me e sabia que, se no me levantasse imediatamente e fosse para cima, desataria a chorar ali mesmo, piorando ainda mais a situao. Forcei um sorriso, 
pedi licena e sai da mesa

Fui dar uma olhadela  minha me e vi que dormia. Ia para o meu quarto quando algo atraiu a minha ateno. no quarto dos gmeos

Abri a porta, que passara a ficar fechada depois da morte de Jean e da transferncia de Pierre para o hospital, e fiquei a olhar para os brinquedos deles. os espcimes 
de rs e de insectos de Jean em cima da prateleira, os seus modelos de carros e avies, a estante cheia de livros de aventuras, animais e soldados. Quantas vezes 
eu no fora dar uma espreitadela ali, dando uma arrumao a tudo antes que a nossa me visse a barafunda

Sorri ao lembrar-me do trejeito traquinas de Jean e da preocupao e seriedade de Pierre. Recordei-os a jogar xadrez, cada um a olhar para a cara idntica do outro 
em busca de alguma reaco. Normalmente era Pierre quem ganhava e, quando acontecia ser Jean eu ficava com a impresso de que fora o irmo que lho permitira

Ambos tinham a mania de guardar as coisas, recusando-se a deitar fora o que quer que fosse. A cmoda dos brinquedos estava a transbordar e at nos armrios havia 
caixas de carto com o que era mais antigo. Dava a impresso de que desejavam referenciar e guardar cada fase do seu desenvolvimento, cada momento de prazer, cada 
descoberta nova. A minha me passava a vida a pedir-lhes que fizessem uma escolha e separassem aquilo que nunca mais voltariam a usar, mas como  que se deita fora 
uma recordao?

Que destino seria dado a todos aqueles objectos, perguntei a mim mesma. O meu pai mandaria deit-los fora ou d-los-ia s crianas pobres, ou ento seriam enfiados 
nalgum sto, onde ficariam a ganhar p e teias de aranha. Fiquei  entrada do quarto at me aperceber de que as lgrimas me corriam pelo rosto com tanta abundncia 
e rapidez que pingavam do queixo. Depois fechei a porta suavemente e fui" para o meu quarto ler at me dar o sono

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Adormeci com um livro nas mos. No cheguei a ouvir o meu pai subir as escadas nem, muito mais tarde, a minha me a escapulir-se para fora de casa. Daquela vez no 
foi ao cemitrio nem visitou nenhuma praticante de vudu. Voltou para o hospital e para a cabeceira de Pierre. Mais tarde contar-me-ia que ouvira o filho a cham-la 
enquanto dormia.

Muito depois das trs da manh, quando tudo o que existia no mundo parecia dormir e at as estrelas piscavam os olhos de fadiga, acordei com o som do telefone a 
tocar insistentemente, at algum atender. Ao dar-me conta das horas que eram, senti um baque to violento no corao que fiquei sem flego. De qualquer modo sustive 
a respirao, escutando os sons que mais receava o som de choro ou de soluos, o som da morte.

Ouvi uma porta abrir e, a seguir, o bater das muletas do meu pai. A porta do meu quarto abriu-se. A luz com que estivera a ler ficara acesa e eu continuava vestida, 
com o livro deitado sobre mim. Sentei-me lentamente. O meu pai tinha um ar confuso, como quem acorda de um sono profundo.

O que foi, pai? perguntei em voz sumida.

A tua me levantou-se e saiu de casa sem eu saber disse. No dei por nada. No deve ter feito o menor barulho.

Para onde  que ela foi?

Para o hospital respondeu o meu pai. Acabou de ligar.

Levei o punho aos lbios.

Disse que o Pierre... que o Pierre acabou de falar com ela.

Assim que assimilei as palavras, levantei-me de um salto e corri para o meu pai. Abramo-nos a chorar to violentamente de felicidade que nenhum dos dois conseguia 
inalar ar suficiente para mandar o outro parar. Ele beijava-me o cabelo e eu apertava-o com tal fora que tive a impresso de lhe partir as costelas.

A certa altura, o meu pai comeou a rir por entre lgrimas, e eu sorri, limpando as minhas e serenando com a mesma rapidez com que comeara a chorar.

Vou vestir alguma coisa disse-me ele, para depois irmos imediatamente para l. O meu menino, o meu menino \a' voltar para casa exclamou no maior xtase.

Era quanto bastava para transformar o mais cptico num crente. Quando chegmos ao quarto de Pierre, encontrmo-lo sentado na cama a beber ch quente por uma palhinha. 
A minha me voltou-se para nos falar, com o rosto a brilhar que

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lanta at ali moribunda mas j ressuscitada, a florir de novo. Com aqueles belos olhos cheios de brilho e vida. At as faces resplandeciam, tendo j comeado a recuperar 
o vio anterior.

Ol, Pearl saudou Pierre. Falava com a voz enrouquecida de quem est mal da garganta; no entanto, era a sua voz e olhava para mim.

Ol, Pierre retribu, abraando-o. Como te sentes?

Estou cansado, mas cheio de fome Lanou um olhar zangado  sua enfermeira. Mas dizem que s me podem dar de comer depois de a mdica chegar. Quando  que ela vem?

Ainda vai demorar um bocado, Pierre. So quatro da manh disse-lhe, rindo.

Quatro da manh? Nunca fiquei a p at to tarde, pois no? perguntou, olhando para a me e depois para mim

No

Observou para alm de mim e viu o meu pai  porta, apoiado nas suas muletas. Esbugalhou muito os olhos.

O que foi que te aconteceu, pai?

Escorreguei nas escadas e ca respondeu o meu pai, com ar despreocupado. Coxeou at  cama

Di?

Agora nem por isso. Depois deixo-te assinar o teu nome no gesso.

Pierre sorriu. Logo a seguir ps-se de novo muito srio.

O Jean no pode assinar observou.

Ento assinas tu por ele repliquei eu rapidamente, antes que, algum se pusesse a chorar

 verdade concordou Pierre, reflectindo. De agora em diante, assinarei tudo. "Pierre e Jean" disse com entusiasmo

Bem, as pessoas podem no compreender esse gesto Quando assinares o teu nome, basta que saibas que o fazes pelos dois, est bem?

O menino pensou um pouco e depois concordou, relutante Eu senti, no entanto, que a partir dali tudo o que Pierre fizesse na vida tambm seria em nome do irmo. Esforar-se-ia 
por fazer duas vezes mais, duas vezes melhor. Tentaria viver duas vidas Levaria muito tempo a enterrar Jean. E, quando o fizesse, Jean voltaria a morrer por ele 
e seria uma segunda tragdia, talvez ainda mais dura

Pierre no era capaz de acreditar que estivera tanto tempo a dormir. Pusemo-lo ao corrente, o melhor possvel, do seu estado de sade. Era suficientemente esperto 
para compreender a maior parte. Eu prometi-lhe que, assim que pudesse levantar-se, lhe explicaria tudo mais em pormenor. Adorava aprender, e

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ocorreu-me que talvez ele possusse, tanto quanto eu, potencial para se tornar um bom mdico.

Ficmos junto dele at se cansar e voltar a fechar os olhos. A minha me tinha pavor de que resvalasse de novo para a inconscincia, mas a enfermeira e a Dra. LeFevre, 
que chegara horas antes do habitual, depois de ser avisada de que o menino acordara, asseguraram-nos que o pior j passara.

Mas ainda h muito para fazer apressou-se a acrescentar. Ele vai precisar de toneladas de carinho, assim como terapia. Levar o seu tempo. No esperem que calce 
j as sapatilhas e corra a brincar com as outras crianas da sua idade advertiu.

Faremos o que for preciso para que fique bem outra vez prometeu a minha me.

Embora ainda fosse muito cedo e nenhum de ns tivesse dormido o suficiente, sentamo-nos demasiado excitados para voltar para casa e irmos para a cama. O meu pai 
levou-nos a tomar o pequeno-almoo fora e descobrimos que estvamos esfomeados. Havia dias que andvamos a depenicar a comida.

Era bom ver os meus pais a falar animadamente sobre o que iriam fazer para preparar o regresso de Pierre a casa. A minha me, achava aconselhvel contratarem um 
tutor para ele o mais depressa possvel, e o meu pai sugeriu uns pequenos passeios tranquilos. Adverti-os de que deveriam proceder com calma e consultar a mdica 
antes de tomarem decises ou concretizarem projectos.

Olhem quem se tornou uma velha senhora sensata e precavida brincou o meu pai, pegando depois na mo da minha me. E olhem quem se tornou irreflectida como uma criana.

Ela sorriu-lhe e trocaram aquele olhar mgico que tantas e tantas vezes j lhes vira, um olhar que eu invejava e sonhava em partilhar com algum maravilhoso... algum 
como Jack.

"Jack!", pensei.

Pai, temos de voltar para casa depressa. O Jack est a chegar.

O Jack? admirou-se a minha me. Ah, j me tinha esquecido.

Como pudeste esquecer-te do Jack? brincou o meu pai.

Pra j com isso, pai advertiu-o.

Os dois comearam a rir e esse riso foi a msica mais doce que me fora dado ouvir fazia muito tempo.

Como eu receava, quando chegmos a casa, Jack j ali se encontrava.

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Mademoiselle, tem uma visita para si na sala de estar informou Aubrey.

Agradeci-lhe e atravessei apressadamente o corredor. Jack, sentado na banqueta de veludo da nossa sala de estar (principal, parecia perdido e inseguro. Estava de 
calas de ganga, botas e camisa de algodo aos quadrados; no entanto, tinha o cabelo escuro impecavelmente penteado.

Jack! exclamei, correndo para ele.

Quase no o deixei levantar antes de o abraar. Beijei-o e fiquei abraada a ele por momentos.

Viva! retribuiu ele.

Desculpa no estar aqui para te receber disse-lhe, rindo, mas acontece que esta manh tivemos notcias maravilhosas. O Pierre saiu do estado de coma! Fomos logo 
para o hospital, de onde s voltmos agora.

Isso  fantstico! exclamou Jack olhando para o meu pai, que acabara de entrar agarrado s suas muletas. Bom dia, monsieur cumprimentou.

Bom dia retribuiu o meu pai, entrando o mais rapidamente que pde e estendendo a mo. Quero agradecer-lhe formalmente tudo o que fez pela minha filha e pela minha 
mulher declarou. Fico em dvida para consigo.

Ah, no fica no, monsieur retorquiu Jack, olhando para mim. Eu  que lhe estou grato por ter uma filha to maravilhosa.

O meu pai comps um ar de surpresa e dirigiu-me um pequeno sorriso. Corando, voltei-me e vi a minha me  porta.

Bom dia, Madame Andreas cumprimentou Jack. Fiquei muito satisfeito ao saber da boa nova.

Obrigada agradeceu a minha me, aproximando-se para cumprimentar Jack. Peo-lhe que nos desculpe se no nos portarmos como anfitries perfeitos. Temos passado por 
grandes emoes e estamos exaustos.

Oh, por quem , madame. No se preocupe com a minha presena e, se eu estiver a incomodar, nem que seja s um pouco, partirei num abrir e fechar de olhos, est bem? 
disse, com o seu sotaque cajun.

A minha me pareceu deleitar-se ao ouvi-lo falar assim, e eu desconfiei que lhe vinham  lembrana recordaes da sua vida cajun.

Duvido que a minha filha o deixe ir embora assim to depressa ripostou ela com um brilhozinho nos olhos.

Foi a minha vez de corar, o mesmo acontecendo com Jack.

Est com fome, Jack? perguntou o meu pai. Vou mandar-lhe preparar alguma coisa.

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No, obrigado. Comi antes de vir para aqui, monsieur.

Bem disse o meu pai, nesse caso  melhor eu ir tratar dos meus negcios para algum aqui poder pagar as contas gracejou.

Irei mostrar Nova Orlees ao Jack sugeri.

Boa ideia concordou o meu pai. Que tal irmos com ele a um dos nossos melhores restaurantes esta noite? Farei a reserva.

Por favor, monsieur, no saiam da vossa rotina por minha causa pediu Jack.

O que diz? perguntou o meu pai. Estamos em Nova Orlees. Tudo o que fazemos por todos  sempre especial. Voltou-se para mim. Passa com ele pelo French Quarter, onde 
est a exposio da tua me sugeriu.

Ora, Beau, ela tem coisas muito mais interessantes para lhe mostrar insurgiu-se a minha me.

Gostaria muito de ver a sua exposio declarou Jack.

Muito diplomtico da sua parte, monsieur observou o meu pai, olhando depois para mim. Instala o Jack no nosso quarto de hspedes, est bem?

Com certeza, pai.

Bien, ento divirtam-se disse, saindo a seguir da sala com a minha me.

Depois de ajudar Jack a pr as suas coisas no quarto de hspedes, levei-o at ao meu. Ele aproximou-se da janela, de onde ficou a ver os jardins, a piscina e o campo 
de tnis, onde o pessoal apanhava as folhas cadas e cuidava da ponta das sebes e dos canteiros de flores.

Tens razo disse. Isto no tem nada a ver com o que eu pensava da vida na cidade. Tens uma bela casa, Pearl E o teu quarto, os teus armrios... so praticamente 
do tamanho do meu atrelado. Foste criada num lugar mgico, num castelo observou com uma entoao triste.

Eu sabia o que ele comeara a pensar e o que estava a suceder. Jack sentia-se tenso e desajustado diante da nossa riqueza e lamentava ter vindo.

Aproximei-me dele e rodeei-o com os braos, por trs, enquanto ele continuava a olhar para os jardins.

Nada disto tem significado se no houver a pessoa certa com quem o repartirmos, Jack. Conheo muita gente rica que trocaria a maior parte do que possui s para ter 
uma relao sentimental sincera.

Isso  o que tu dizes agora, princesinha, mas depois de ficares sem empregados, alimentos finos, carros e roupas  que eu queria ver.

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Senti o calor subir-me ao rosto e obriguei-o a voltar-se para mim com um gesto brusco.

Pois vais saber o que eu te diria, Jack Clovis. Diria que te amo e que nem todos os empregados, roupas bonitas e carros do mundo conseguiriam substituir esse amor. 
Diria que nada  mais belo do que um pr de Sol quando se est nos braos de quem se ama e que nada  mais delicioso do que acordar entre esses braos, quer se esteja 
a dormir num atrelado no Hayou ou numa manso em Nova Orlees.

"Ser rico no impossibilita uma pessoa de se apaixonar. No lamento que os meus pais tenham singrado na vida, mas apaixonar-me por algum que goste verdadeiramente 
de mim, isso  que considero ser rico de verdade, Jack. Talvez parea uma fantasia de adolescente e se calhar tens razo. A maioria das pessoas lamenta perder os 
seus prazeres e conforto, mas eu no sou assim.

"No te esqueas de que tambm sou meia cajun e que as minhas origens esto nesses pntanos que tu adoras.

O rosto de Jack abriu-se num sorriso.

Levas muito a srio a tua herana cajun observou. Lembro-me de ter dito que no gostaria de me arriscar a despertar a tua ira. Foi um conselho que dei a mim mesmo 
e que devia ter respeitado.

Abrandei.

S quero que me vejas pelo que eu sou e no pelo que a minha famlia tem implorei.

Est bem. Desculpa disse Jack. Nunca mais me ouvirs resmungar por causa deste casaro desmesurado.

Ri-me e abracei-me a ele.

Vamos. No h nada como servir de anfitrio na cidade natal disse-lhe, apressando-o a descer as escadas e a sair de casa.

Levei-o a todo o lado. Comecei por passar por Loyola e Tulane. Parmos no parque e no jardim zoolgico de Audubon e depois Jack disse-me que lhe apetecia andar de 
elctrico. Voltmos para casa e depois fomos a p at  paragem e apanhmos o elctrico para Canal Street. Seguimos at ao French Quarter e comemos umas sanduches 
num caf de rua ao p do rio, onde corria alguma brisa. Ficmos a ver, durante algum tempo, os barcos a vapor e as barcaas a passar de um lado para o outro do Mississipi 
e escutmos a msica de rua de um grupo de guitarristas e tocadores de trompa e gaita-de-beios.

Isto aqui  mais agradvel do que eu imaginava reconheceu Jack, embora ainda se notasse uma certa hesitao na sua voz.

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De que  que sentes mais falta, Jack? perguntei Estvamos os dois de mos dadas; porm, a certa altura

Jack pareceu ficar completamente alheado.

Da quietude, suponho. Da Natureza, dos animais, mesmo os perigosos. E do teu poo acrescentou. Isto aqui  completamente diferente. Encolheu os ombros. No fim de 
contas cada um j tem o seu destino traado... mas de facto isto  bonito finalizou.

Reflecti no que ele acabara de dizer e receei que o fosso existente entre ns dois fosse demasiado grande. Vivamos a escassas horas um do outro; porm, o modo como 
framos criados tornara-se parte integrante de ns e dera-nos uma perspectiva diferente do nascer e do pr do Sol. At que ponto o amor resistiria? Seria capaz de 
ultrapassar o fosso e ensinar-nos a conhecermo-nos um ao outro de verdade?

Passmos, apesar de tudo, um belo dia juntos. Mais ao fim da tarde, depois de visitarmos a nova exposio da minha me. fomos tomar caf e comer bolinhos ao Caf 
du Monde. Jack sorriu e disse que Bart estava certo quando afirmava que o padeiro que tinham na baa era do melhor que havia. A sua lealdade fez-me rir, embora tambm 
me entristecesse um pouco

Antes do jantar, fomos todos visitar Pierre mais uma vez Encontrmo-lo mais animado, e ele gostou de Jack, sobretudo quando este lhe prometeu mostrar-lhe como o 
petrleo era extrado das profundezas da terra.

Podemos ir l assim que eu sair do hospital, Pearl? perguntou-me, entusiasmadssimo.

No ser logo depois de sares daqui, antes disso tens de ficar bom e forte. Quando isso acontecer, iremos todos prometi, lanando um olhar rpido  minha me.

Prometo-te que iremos l garantiu a minha me, sorrindo-me e transmitindo-me a sensao de que j eliminara todos os demnios que a haviam impedido de rememorar 
o passado. Voltaramos a ele muitas vezes.

Jack mostrou-se preocupado por no ter roupas adequadas para ir ao restaurante que o meu pai escolhera. Transmitiu-me a sua ideia discretamente; no entanto, o meu 
pai ouviu-o e disse-lhe que no se preocupasse. Examinou-o de alto a baixo, acenou com a cabea e sugeriu que experimentasse um dos seus antigos casacos informais.

Comprei este h algum tempo, tinha eu uma figura mais aprumada explicou.

O casaco serviu impecavelmente a Jack, que se mostrou relutante em aceitar a pea de roupa, acabando por faz-lo perante a insistncia do meu pai.

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O nosso jantar foi espectacular. O meu pai esmerou-se ao mximo para impressionar Jack e para celebrar. Terminada a sobremesa saborosa e requintada, Jack inclinou-se 
para mim e segredou-me:

Aposto que este jantar custou o que eu ganho numa semana.

Depois riu-se, e eu senti mais uma vez o fosso existente entre ns.

Os meus pais beberam um pouco de mais. Estavam ambos animadssimos e agradavelmente fatigados quando chegmos a casa. Jack e eu samos para o ptio junto  piscina, 
e eles foram deitar-se e adormeceram nos braos um do outro.

Estava uma noite especialmente estrelada, sem Lua mas com uma mirade de luzinhas a brilhar no firmamento.

A maioria daquelas estrelas  maior do que o nosso prprio Sol, mas quando se est muito distante, tudo parece mais pequeno. Depois, quando nos aproximamos  que 
nos apercebemos da nossa pequenez observou Jack.

Compreendi do que falava.

Por muito longe que fique de ti, Jack, tu jamais me parecers pequeno.

Jack riu-se.

S fiz o liceu. O meu pai  que me ensinou tudo o que sei sobre a extraco de petrleo. A festa mais elegante a que j fui era um casamento, mas acho que toda a 
festa no foi mais cara do que o jantar desta noite no restaurante. E tu vais ser mdica.

No me faas arrepender dessa deciso repliquei imediatamente.

Porque o farias? Eu acho maravilhoso. Sabes o que s? afirmou Jack, voltando-se repentinamente para mim. Deram-te o nome de Pearl, mas na verdade s um diamante, 
um diamante em bruto. Eles se encarregaro de te polir e depois passars a brilhar como aquelas estrelas.

Antes que eu pudesse responder, tapou-me os lbios com a mo e depois inclinou-se para me beijar.

Agradeo-te o dia fantstico que me proporcionaste declarou.  melhor ir deitar-me, pois amanh de manh tenho de me levantar cedo para ir embora.

S estiveste c um dia! exclamei, vendo que anua. Mas... no podes ficar mais um?

Tens muito que fazer aqui, Pearl. Atua famlia precisa de ti. No podes gastar o teu tempo a fazer sala comigo, e alm disso eu preciso de voltar.

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Mas a tua visita  demasiado curta. No sei quando poderei voltar a Cypress Woods. O Pierre s regressar a casa daqui a uns dias e...

Tenho a certeza de que irs l quando puderes. Entretanto, telefonamos um ao outro.

Levantou-se. Relutante, imitei-o. Demos as mos e voltmos para casa. As luzes tinham sido desligadas. Sem trocarmos uma palavra, descemos as escadas e parmos  
porta do quarto de hspedes.

Precisas de alguma coisa? perguntei-lhe.

No, ficarei bem. Mais uma vez obrigado pelo dia magnfico agradeceu, beijando-me.

Depois entrou no quarto e fechou a porta. Olhei para a porta do quarto dos meus pais, que ficava mais ao fundo do corredor. Naquela altura j deviam ter adormecido 
nos braos um do outro. Suspirei e fui para o meu quarto. Depois de vestir a camisa de dormir, enfiei-me entre os lenis frios e fiquei a olhar para o tecto.

A minha me estaria certa? Teria o meu romance de amor sido estimulado pela vulnerabilidade e tenso emocional vividas durante a minha estada no Hayou? Senti os 
olhos encherem-se de lgrimas frias e virei-me, enterrando o rosto na almofada

Depois pensei na noite que eu e Jack havamos passado na manso cajun, na paixo e no amor com que nos entregramos um ao outro. Recordei a felicidade imensa que 
sentira quando ele me encontrara no pntano e no carinho e ternura com que me tratara depois.

No fui capaz de suportar a dor que sentia no corao. Dizendo a mim mesma que no aguentaria semelhante situao, resolvi levantar-me e ir ter com Jack. Atravessei 
silenciosamente o corredor at ao quarto dele e abri a porta. Estava deitado de costas, de rosto virado para o tecto. Reparei que tinha os olhos abertos.

Jack sussurrei.

Ei, aconteceu alguma coisa?

Corri para ele e abracei-o. Ficmos apertados um contra o outro por um longo momento.

No quero que nos percamos um do outro balbuciei por entre lgrimas.

Jack sorriu.

Talvez isso no acontea disse. Beijmo-nos.

No acontecer declarei com determinao.

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Eu tambm quero acreditar nisso, mas no sou suficientemente inteligente para prever o futuro, Pearl. Fiquemo-nos pelas promessas para no nos magoarmos um ao outro, 
est bem?

Eu jamais te magoarei, Jack

Fica prometido advertiu ele.

No tenho medo.

Pois eu tenho. No consigo evitar. Mesmo quando estamos a perfurar num campo j conhecido, s podemos ter a certeza quando acertamos no veio. Ainda no mergulhmos 
o suficiente na vida um do outro, Pearl proferiu, ponderadamente.

Abraa-me, Jack Abraa-me e pensa apenas nas coisas boas. Em breve a minha vida ficar suficientemente cheia de factos e estatsticas, montanhas de pormenores, dados 
e provas objectivas. Tambm quero alguns sonhos, algumas fantasias.

De boa vontade aquiesceu Jack.

Abraou-me e beijou-me e eu adormeci durante algum tempo. Antes de a manh raiar, voltei para o meu quarto mais calma e apaziguada.

Os meus pais ficaram admirados ao saber da partida de Jack Ao pequeno-almoo ele explicou que planeara afastar-se do trabalho apenas por um dia. O meu pai obrigou-o 
a prometer que em breve voltaria

Jack devolveu o casaco e a gravata ao meu pai e agradeceu-lhe, porm, este pediu-lhe que ficasse com as duas peas.

Duvido de que alguma vez volte a ter esse tamanho e  natural que o Jack tenha de ir tratar de questes mais formais no futuro.

Mas, monsieur.

Fao questo insistiu o meu pai. Comparado com o que fez por mim, isso no  nada.

Relutante, Jack pegou no casaco.

Antes de a minha me e eu voltarmos para o hospital para visitar Pierre, despedi-me de Jack em frente da casa.

Esqueci-me de te devolver as roupas que me emprestaste lembrei-lhe.

No se pode confiar em gente da cidade. Ri-me

Estava uma manh muito ensolarada, sem a neblina habitual Tudo parecia mais luminoso, mais limpo e o ar cheirava intensamente a flores e a bambu. Ouvamos a cidade 
a voltar  vida, os elctricos barulhentos a passar, os automveis a buzinar e algum a apregoar ao fundo da rua

Ainda te verei antes de ir para a faculdade, no?

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Sem a menor dvida respondeu. Alm disso, devers visitar o teu poo mais vezes, conhec-lo melhor. E leva o Pierre.

Com certeza. Beijmo-nos.

Boa viagem desejei, pousando um dedo nos seus lbios maravilhosos e mergulhando na doura dos seus olhos. Vou ter saudades tuas.

Eu tambm. Meteu-se na sua carrinha. Espero no me perder nas ruas desta cidade queixou-se.

Um homem que conhece os caminhos dos pntanos como as suas prprias mos, no deveria perder-se nas ruas desta urbe brinquei.

Jack riu. Depois voltou a ficar srio e fitou-me intensamente.

No sei se tenho o direito de te amar, mas no h dvida de que acho que sim declarou.

Tu tens mais do que o direito, Jack Clovis. Tens obrigao. Acho bem que me ames.

Lanou-me aquele seu sorriso magnfico, o sorriso com que teria de me contentar por algum tempo, e depois afastou-se.

Comecei a chorar, mas depois limpei as lgrimas e respirei fundo. Precisava de ser forte pelos meus pais, pois tnhamos pela frente uma longa estrada cheia de escolhos 
a ultrapassar.

Dois dias depois, tirmos Pierre do hospital e trouxemo-lo para casa. Vinha trmulo, mas queria caminhar. Segurei-lhe na mo e ajudei-o. Quis ir para o jardim, eu 
sabia porqu. Sentia vontade de olhar para a casa na rvore, a casa que ele, Jean e o pai haviam construdo muito tempo antes. Os mdicos achavam que ele devia apanhar 
o mximo de ar puro possvel, o que o cansaria muito, pelo menos no decorrer da primeira semana. Foi o que aconteceu. Depois do almoo, adormeceu na sua cadeira 
e eu levei-o ao colo para o quarto.

Todas as manhs, no entanto, saa de casa. Eu passava muito tempo com ele, a ler-lhe, a jogar xadrez e a responder-lhe s perguntas que fazia relativamente  sua 
doena. Ia  psicoterapeuta uma vez por semana e o Dr. Lasky ficou impressionado com a sua recuperao fsica.

A mente  muito mais poderosa do que imaginamos comunicou  minha me.

Ela era a nica pessoa no mundo a quem ele no precisava de o dizer.


EPLOGO

Quinze dias depois de Pierre voltar para casa, a minha me decidiu visitar a sepultura de Jean. Fui com ela. Colocou-lhe flores em cima e depois ficou a olhar para 
ela com um pequeno sorriso nos lbios, como se recordasse as suas travessuras e a maneira como a abraava impetuosamente quando se sentia assustado, doente ou, apenas, 
ansioso por mimos. Eu, no entanto, sabia por que razo ela quisera ali ir. No fora apenas para recordar, mas tambm para agradecer ao filho, pois acreditava firmemente 
que fora o esprito deste que levara Pierre a retroceder e a voltar para junto de ns.

Assim que Pierre ficou suficientemente fortalecido para viajar, fomos a Cypress Woods visitar Jack. Este passou muito tempo com o garoto, mostrando-lhe a maquinaria, 
explicando como tudo funcionava. Os meus pais deram uma volta pelos campos negligenciados e pela casa, e depois fomos todos almoar caranguejos recheados a Houma.

Semanas mais tarde, comecei as aulas na universidade. Em Setembro, Pierre sentia-se suficientemente forte para retomar a escola, apesar de continuar a fazer psicoterapia 
uma vez por semana. Estava com dificuldade em se ajustar  vida sem Jean a seu lado. Era frequente eu encontr-lo a deambular sozinho, e nessas ocasies eu sabia 
que falava com Jean. A certa altura, finalmente, a Dra. LeFevre achou que j era tempo de ele visitar a sepultura do irmo.

 princpio, resistiu. Conversmos muito sobre a questo at ele, a certa altura, concordar. Assim, fomos todos ao cemitrio. Pierre ficou a olhar para o tmulo 
e a ler. repetidas vezes, o nome de Jean. Passou o resto do dia calado; no entanto, reparei que, no decurso das semanas seguintes, se operava uma mudana nele. Ganhou 
maior iniciativa, mostrou-se disposto a receber a visita de amigos e a ir a casa deles. Ficou mais alto e magro, continuando a ser bom estudante.

Nesse ano, o Vero parecia nunca mais chegar ao fim. Esteve quente e hmido at  primeira semana de Dezembro. Jack

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foi ver-me  faculdade; porm, no se sentia  vontade naquele ambiente, ficando bem mais satisfeito dentro de casa ou a passear pelos arredores. Pierre gostava 
muito dele e era v-lo todo feliz quando Jack nos visitava ou amos ns v-lo ao Hayou No final daquela Primavera, pouco depois do Dia das Mentiras, a tia Jeanne 
telefonou a comunicar  minha me que Gladys Tate falecera. Acrescentou que a famlia andava a pensar em restaurar Cypress Woods.

O Paul teria apreciado essa atitude comentou a minha me. Tinha muito orgulho naquela casa.

Sei que de vez em quando vm c de visita disse a tia Jeanne, portanto, talvez pudessem aparecer por aqui um dia e ficar algum tempo. Gostaria que me dessem sugestes 
para restaurar a casa.

A minha me respondeu-lhe que iria pensar. Contou-nos a conversa ao jantar.

O meu pai escutou e depois disse que no era m ideia

Eles no percebem nada de propriedades imveis observou.

Sabia o quanto a minha me adoraria participar na restaurao; por isso, no lhe levantou objeces. Eu fiquei contente porque tal significava que eu teria mais 
oportunidades para estar com Jack.

 medida que eu ia fazendo visitas cada vez mais frequentes ao Hayou, algo de subtil comeou a passar-se comigo. No incio, achei que a experincia horrvel vivida 
com Buster Trahau e o tempo assustador que passara no pntano me haviam levado a detestar de tal maneira aquele stio que jamais veria algo de bonito ou agradvel 
nele. Mas, quando eu estava com Jack e ns os dois passevamos pelos campos ou percorramos as ruas secundrias de carro, era diferente.

Assim como eu estava ansiosa por lhe mostrar o mundo citadino, ele mal continha a impacincia para me dar a conhecer a Natureza, salientando-me os diferentes tipos 
de animais e flores. Possua o olho de guia dos Cajuns e era capaz de detectar a presena de aligatores bebs adormecidos, pelicanos castanhos, falces-dos-pntanos 
e picanos. Eu precisava de olhar e voltar a olhar e, por vezes, ser levada pela mo quase at perto deles para os ver. Depois quase explodia de admirao.

Visitei o Hayou durante todas as estaes, encontrei muita gente local e aprendi a conhec-los e a apreci-los. Sentia que tambm eles gostavam de mim, especialmente 
por aparecer na companhia de Jack. Adorava as suas histrias, as suas expresses e o humor terra-a-terra. Era sempre uma mudana

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refrescante em relao a confuso inerente a vida urbana e as complexidades da faculdade

Em finais do Outono do ano seguinte, Jack surpreendeu-me, e a minha me, mostrando-nos o que fizera durante o seu tempo livre. restaurara a velha cabana que agora 
se parecia, de facto, com as casas cajuns sobre paus finos que povoavam a minha fantasia. O telhado de zinco novo brilhava  luz do Sol. Substitura e pintara os 
corrimos da varanda e das escadas, retirara as tbuas danificadas do cho, substitura as janelas e limpara e aparara a vegetao dos terrenos circundantes. Chegara 
mesmo a restaurar as bancadas onde a minha me e a bisav Catherime costumavam vender as suas manufacturas e gumbo aos turistas

A minha me estava radiante. Bateu as mos de alegria e admirao e passeou pela cabana, no escondendo o seu espanto e admirao. Jack tambm reparara a velha cadeira 
de balouo. A minha me disse que no lhe custava nada imaginar a grandmere de novo ali sentada Enquanto ficava a deliciar-se na varanda, s voltas com as suas recordaes, 
Jack e eu caminhmos at  beira da gua de mos dadas

Ests a ver aquela corrente alem? apontou Observa Daqui a pouco vers uma r gigante. L est ela. V-la?

Vejo, sim, Jack

Respirei fundo e olhei para o canal onde as guas comeavam a ficar mais fundas. Jack reparou

Indo por ali pode-se chegar a Cypress Woods de piroga disse. Para a prxima levo-te a dar um passeio

O meu tio Paul costumava levar a minha me por ali. Foi ela que me contou. Achas que h algum poder que nos faa querer retomar os mesmos passos que os nossos pais?

Poder? No sei. Talvez. No me preocupo com isso. Fao o que me parece certo e sabe bem. Para ti no  assim to simples?

No retorqui, rindo. Continuas a achar-me demasiado cerebral, no ? Bem ests a melhorar provocou E a ficar mais bonita a cada dia que passa

Fitei-o por um momento e a seguir beijmo-nos Na varanda, a minha me sentara-se na cadeira de balouo restaurada da sua grandmere Catherime, recuando no tempo e 
revivendo a sua juventude. Eu tinha a certeza de que ouvia e via de novo as pessoas que amara

Apercebi-me ento de quo importante era no perder nenhum dos momentos preciosos que nos surgiam na vida

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Jack Clovis, por momentos fizeste-me ter dvidas sobre o meu lugar

Oh, E ento, qual  o teu lugar? perguntou-me, com os seus olhos escuros a procurar os meus

Nos teus braos

At mesmo aqui?

Especialmente aqui respondi

Abraou-me. Um bando de pssaros devoradores de arroz levantou voo do pntano e passou por ns, voando to perto que pudemos sentir a aragem provocada pelo adejar 
das suas asas. Tal como sempre acontecera no meu velho pesadelo

A diferena era que, naquela altura, j os demnios tinham sido esconjurados.

E eu sentia-me em perfeita segurana
